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Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

Tempo

por Ismael Sousa, em 13.12.17

Sentei-me à mesa do café. Liguei o computador e abri uma página para escrever. Pedi um chá, de frutos vermelhos. Tetley, preferencialmente. O cursor piscava na espera de começar a escrever qualquer palavra. Verti o chá na chávena, aqueci as mãos que estavam geladas. Lá fora a chuva caía miudinha. Estava um tempo estupidamente estúpido. O céu estava cinzento, o nevoeiro abundava em toda a cidade. O trânsito era o normal de uma tarde de dia laboral. O cursor continuava à espera de palavras que nunca mais surgiam. O nevoeiro fazia-me pensar, profundamente.

Beberiquei mais um pouco de chá, pousei a chávena e de seguida as mãos quentes sobre o teclado. As palavras não me surgiam. No meu pensamento só existias tu. Não queria voltar a escrever sobre o mesmo, aquilo que tenho escrito basicamente todos os dias. Mas tu eras quem me inspirava e só poderia descrever aquilo que sentia dentro de mim.

Escrevi uma frase, mas não gostei do que escrevi. Comecei novamente a reescrever, mas as palavras eram sempre as mesmas. Fechei a página, desliguei o computador e deixei-me ficar, simplesmente a contemplar o infinito.

Está frio na rua. Na minha mente a cena de uma sala, lareira acesa, um filme na televisão. No sofá, nós os dois, perdidos nos abraços eternos, assistindo a uma comédia francesa. E a saudade e a melancolia. E o sentimento de quanto mais tenho, mais quero ter.

Acabei o chá e saí do café. O vento que soprava era gelado. Puxei a gola do casaco e caminhei sem destino pelas ruas da cidade. Tudo me parecia cinzento, sem cor, sem alma. Cruzei uma esquina e na parede uma frase escrita. “Gosto de ler o que as paredes dizem”, disseste-me uma vez. E esta frase falava de saudade. Apertou-se-me o coração.

Caminhei sem destino e desprovido de qualquer pensamento até à baixa da cidade. O Mondego corria indiferente ao que se passava em seu redor. Abeirei-me do muro da ponte e deixei-me ficar, olhando o curso que o rio levava, indiferente a tudo em meu redor. No rio, a minha imagem refletida. Senti-te aproximar, encostares-te a mim e dizeres um “que contas?”. Mas era só imaginação minha porque o reflexo do rio continuava a mostrar somente uma silhueta. Um novo apertar no coração e a necessidade de sair dali. Fui até casa, abri a porta e perante mim o nada. Acendi a lareira, liguei a televisão e sentei-me no sofá. Um copo de vinho na mão, uma manta sobre as pernas. Pensei em ti.

Acordei com o telemóvel a tocar. A lareira estava praticamente apagada, a televisão desligada e o copo de vinho vazio no chão. Um número qualquer desconhecido. Não atendi e atirei com o telemóvel pelo sofá. Enrolado na manta, coloquei mais um cavaco na lareira e encostei-me à janela da varanda. O tempo cá fora continuava estranho e eu só queria estar abraçado a ti. Deitei-me novamente no sofá, bebi mais meio copo de vinho e deixei-me adormecer. Sentia demasiadas saudades tuas para fazer fosse o que fosse. Sentia-me perdido e vazio. E no visor do telemóvel uma mensagem tua: “Abraço-te”

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