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Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

Tarde outonal

por Ismael Sousa, em 21.10.18

Pensamos a poesia enquanto absorvemos aquilo que nos rodeia, deambulando pelas ruas tão cheias de gentes e tão despidas de sentimentos. Sentimos a poesia em cada olhar que trocamos, em cada pensamento que desejamos ter. A poesia é muito mais que palavras: é vida, é emoção, sentimentos e tantas coisas mais. A vida, tantas vezes a vida.

Um final tarde de outono, num domingo um pouco solarengo. As chuvas caíram tímidas e rápidas, abandonando rapidamente o espaço que lhes pertence. Dois bancos de jardim, individuais e colocados lado a lado. Um jardim no centro da cidade, praticamente abandonado e utilizado, somente, por meia dúzia de indivíduos. Alguns levantam-se do sofá para se sentarem num banco do jardim, banco comum de dois ou três. Um pouco de conversa, matar o tempo que é de mais trazido pela reforma e pelo abandono da família.

Abandonei o trabalho que me aborrecia e caminhei por espaços que conheço tão bem, com tantas estórias para contar. Vim sentar-me numa outra esplanada, livre de tudo o que me possa aborrecer. Estou só. Eu e os meus pensamentos. O pequeno lago, o arvoredo ainda verde diante de mim e o sol que ilumina o convento caiado de branco. Um café, pensamentos e muitos cigarros. São os cigarros que fumo, os cafés que tomo, a vida que tenho que me fazem penetrar neste abandono sozinho, numa espécie de introspecção e avaliação do “eu” de hoje. O passado é um premissa importante a ter em conta. O futuro a conclusão de vários pensamentos.

Existe, em mim, a necessidade de desvendar algumas suspeitas, de me desligar de passados e pessoas que nada me ajudam. Vivo isolado no meu mundo, escondido por sorrisos que não são os meus! Deparo-me, comigo mesmo, tantas vezes excluído dos espaços onde me encontro. As conversas são paralelas e não me incluem no seu leque. Amigos, colegas, namorados, nas conversas que lhes interessam, concentrados nas suas vidas. E eu, ali, na exclusão. Não que o façam propositadamente, mas por não haver o que falar. Sou, como lia num destes dias em O Paraíso Segundo Lars D., uma ilha difícil de alcançar, onde o espaço de água que a separa do pedaço de terra mais perto tende a aumentar. O fechar-me em mim por não encontrar quem se corresponda comigo, pelas ausências e pelos silêncios, pelas atitudes e desinteresses.

Falo, de forma indireta, diversas vezes, sobre os sentimentos que invadem, tantas vezes o meu coração. Falo talvez da pior forma e sinto que de alguma maneira exagero na forma sentimental como falo. Canso as pessoas com sentimentos tristes e duros, sempre com o mesmo sentimento. A mim basta-me errar uma vez mesmo que perdoe mil. Um simples erro meu faz crescer um enorme transtorno em meu redor, um afastamento e silêncios que eu tento oprimir com demasiadas coisas em meu redor. Mas chega uma altura em que o silêncio é o abandono perduram mais que eu desejo.

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Compreendo e aceito a negatividade e aborrecimento da minha pessoa, no fardo difícil que por vezes posso ser para as pessoas que vivem comigo. Sou uma alma infeliz, um corpo triste, um ser sem vida. Os sentimentos corroboram-me mais que aquilo que por vezes eu desejava. Tento ser diferente, tornar-me diferente, mas os segredos e sentimentos que oculto em mim tornam-me impotente e sem capacidades pra mudar.

Falta-me amor, falta-me vida, falta-me ser. Sou palavras tristes, sou o poema da dor, o texto do sofrimento, a encarnação da angustia. Sou o desinteresse, a vida fútil e necessária somente na necessidade de outrem. Oprimo-me, deixo de viver, deixo de ser, deixo-me.

O café esfriou, o sol já não aquece, os cigarros acabaram. Os dois bancos de jardim, diante de mim, individuais e colocados lado a lado, continuam vazios, sem enamorados que ali pousem, sem almas solitárias como eu. O mundo, a distância, a vida. O vento já sopra frevo, as lágrimas já deixaram de escorrer. Moedas em cima da mesa, isqueiro no bolso e os passos de retorno a uma realidade constante da minha vida. Novamente os espaços, as memórias e a falta das palavras. Novamente no meu espaço, no meu mundo onde não reside ninguém. A ilha que sou cada vez mais distante do mundo que a rodeia, impossível de alcançar alguém, inalcançável por ninguém. Melhor assim: a dor e a angústia que sinto guardo-as para mim. O sorriso de palhaço no rosto novamente e a vida que não para nem me permite ficar preso num espaço e tempo.

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