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Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

E se este país fosse estrangeiro?

por Ismael Sousa, em 19.03.18

E se Portugal fosse um país estrangeiro, onde estivessemos de férias? Seria igualmente tão triste?

 

Dou comigo, muitas vezes, a pensar nos locais fantásticos que neste pequeno jardim à beira-mar plantado existem.

 

A realidade de Portugal não é assim tão diferente dos outros países e não somos, em circunstância alguma, menor que os outros. Aliás somos ainda maiores que alguns países.

 

Contudo, a nossa vivência por cá, vai-nos fazendo desacreditar este país. É a política, a situação económica, é as catástrofes que nos vão acontecendo e a incapacidade de dar a volta por cima.

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Somos, humanamente, mais focados na negatividade do que nas coisas boas e, por essa razão, achamos que Portugal é um país de terceiro mundo (e em algumas coisas é) e que necessíta sempre mais. Contudo, não perdemos tempo em pensar nas coisas tão boas que por cá existem.

 

Mesmo na nossa vida precisamos de contos de fada, de tornar certos momentos mais mágicos que aquilo que são. E porque não fazê-lo com este nosso país, tentar vender um país que tanto tem de bom a dar, para de alguma forma conseguirmos fazer com que ele cresça?

 

Tenho a sorte, e tenho-me pautado por isso também, de conhecer, ainda que vagamente, metade do meu país (e digo metade porque o Além Tejo ainda me é desconhecido). Tenho conhecido locais belíssimos e cheios de histórias e estórias. Um país rico em cultura, em arquitetura, em música e tradições. Mas muito disto torna-se, para nós, mais que banal. Não damos ao que temos o devido valor.

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Questiono-me se estamos a dar o devido valor, a oportunidade que Portugal precisa. Criticamos a cultura, criticamos a política e o atraso de Portugal (eu também o faço, atenção!) mas não contamos as estórias que por cá existem nem a história deste grande país. Esquecemos as personagens que por cá viveram, que por cá morreram.

Portugal, para mim, não é só um país, ou melhor, não é um país triste. Portugal é uma país belíssimo.

 

Quanta beleza existe nas tradições de Viana? Quanta tradição existe com os Caretos? Ou a nossa segunda língua, o Mirandês? Quantas belas vinhas existem ao longo de rios d'ouro? Quantas tradições ligadas à pesca, nos quilómetros e quilómetros de praias que nós possuímos? Quantas histórias de amor e valentia gravadas nas paredes dos castelos deste país, quantas derrotas e vitórias eternizadas em belos monumentos? E as metrópeles cheias de estórias, os grandes nomes que este país possuiu? Que seria do hábito dos ingleses se não fosse Catarina de Bragança? E os poetas que escreveram tanto sobre este país e as suas virtudes? Onde está Camões e Pessoa, Sá Carneiro e outros? Onde estão os grandes escritores deste país, os grandes músicos? Quanto amor eterniza a Pena com as suas cores, fantasia de livros de crianças? E Mafra na sua enormidade? Quantas histórias de amor e desamor num Buçaco esquecido ou num São Cristóvão de Lafões, tão antigo quanto a fundação do país? E as marcas do avanço de Afonso Henriques, ou o testemunho de António Vieira, ou o Santo português reclamado pelos italianos? Quanta cultura existe neste país onde o folclore é mais reconhecido no exterior e mais desprezado por nós? E as obras primas que possuímos, a cultura, a história que brota das pedras das calçadas com tanto para dar?

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Há tanto para conhecer, tanto para aprender e tanto para escrever e cantar sobre este país. Não somos só o parente pobre de uma Europa que nos despresa. E se o somos, somos porque não nos impomos. Há tanto para descobrir neste pais, com dois arquipélagos cheios de magia natural, com planícies para decobrir. Temos praias e rios, lagoas naturais, serras com neve, judiarias e mosteiros. Temos os passos daqueles que fizeram história, temos histórias em cada rua que cruzamos.

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Que Portugal não morra nem seja vendido. Que portugal seja sempre leal as suas tradições, aos seus costumes. Que o fado nunca deixe de se ouvir nem os cantores de outras cantigas. Que a palavra escrita nunca morra, que os poetas não deixem de se enamorar. Que a língua sempre se fale, que as línguas se aprendam. Que a humildade nunca nos acabe e o peito nunca deixe de ficar inchado quando se declarar: "EU SOU PORTUGUÊS!"

 

Fé ou Tradição!

por Ismael Sousa, em 16.08.17

Há costumes, hábitos, tradições que, por mais que os tempos mudem, se vão perpetuando pelo tempo. Retomar ou simplesmente manter é, em algumas vezes, o propósito de vida de alguns. Outros tantos, por vezes, movem-se pela fé, por aquilo em que acreditam.

 

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Há uma aldeia fantasma, perdida nos vales da serra, onde o acesso é dificíl, tendo como única forma de chegar, as pernas. Os carros não chegam à aldeia, o caminho é cheio de pedras lisas e gastas pelas chuvas e pelos inúmeros pés que galgam aquela estrada. Nesta aldeia, da qual já aqui falei, não vive gente. Visitada pelos que ainda têm lá alguma coisa ou pelos escuteiros que vão dando vida aonde reina o vazio, a aldeia vai perdurando pelos tempos. Mas há um dia do ano em que a aldeia fantasma deixa de o ser e as suas ruelas de pedras de xisto são povoadas por inúmeras pessoas que ali se agregam para, junto da pequena capela da aldeia, assistirem à missa da padroeira, a Senhora da Assunção.

 

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Este ano, pela primeira vez, desci à aldeia (pela segunda vez na minha vida) para participar da Eucaristia e animá-la. Não sei se seriamos uma centena de pessoas, mas deveriamos ser quase. A pequena ladeira encheu-se de gente, sentada em muros e no chão. O órgão estava ligado a um pequeno gerador que os escuteiros lá têm. As pessoas, movidas por curiosidades ou apenas tradição, quiçá fé, seguiram como de costume atrás dos pequenos andores, ornados com as mais belas flores. Ladeira acima até ao cruzeiro, ladeira abaixo de novo para a capela. Um volta à capela e a tradição está mantida.

 

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Depois da missa foram-se estendendo mantas, abriram-se os farneis e por ali se almoçou. Ganhar forças para de novo subir a serra, voltar ao frenesim do dia-a-dia. Há um dia no ano em que todos, movidos pelos costumes e raízes, ainda que secos, voltam àquela terra de onde já todos desertaram. Quem saberá o que os move? Há algo que sempre faz voltar.

 

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Nada de novo debaixo do sol

por Ismael Sousa, em 09.04.17

Todos os anos somos bombardeados com inúmeras noticias sobre este tema. Todos os anos se fala da mesma coisa. Não sei se é numa forma de prevenção se numa forma de manter a "tradição", mas nada que seja novidade.
Deixei o secundário em dois mil e nove (já lá vão oito anos) e no meu tempo e no tempo anterior a mim, já se ouviam relatos de acontecimentos idênticos. Lloret de Mar fechou portas. Os destinos mudaram, os costumes não.
A viagem de finalistas é sempre um ponto alto na vida de qualquer estudante. É um marco: o fim do secundário e a partida para uma nova jornada. É também a saída das asas dos pais para uma independência. Ou pelo menos assim deveria ser. Trabalha-se todo o ano para o gozo de uma semana. Uma semana longe dos pais, sem pensar na escola, com os amigos. Um país diferente, uma semana de autêntica liberdade e excessos. É-o por natureza. Bem sabemos qual o resultado quando nos vemos livres de tudo aquilo que nos aprisiona: o álcool é em excesso, há quem experimente drogas e, arriscaria dizer também, uma podridão sexual. É uma única semana onde tudo pode acontecer, onde tudo o que se passa fica lá, esquecido, escondido, nos segredos das amizades, que um dia mais tarde, em redor de uma mesa, serão motivo de recordação.
É também verdade, e esta talvez é que deveria ser um maior motivo de notícia, que existem coisas boas e que a pequena minoria que faz notícia não é reflexo do que acontecem nas viagens de finalistas. Existem estudantes que aproveitam para conhecer, descansar, divertirem-se com cabeça. Mas cada um é como cada qual e cada um se comporta segundo a maneira que foi educado. E quer queiram quer não, esta é a verdade.
Acho uma certa graça ao ouvir os pais dizerem que "o meu filho não fez nada disso", "foi culpado sem ter culpa de nada". Aos olhos dos pais somos todos uns santinhos, com a graça de Deus. Só nos falta uma auréola na cabeça e colocarem-nos no altar. Pena é que os altares são poucos e pequenos e temos os pés grandes ou corremos o risco de "mjar" as toalhas. Graças a Deus!
Questiono-me se os pais conhecem realmente os filhos. É claro que sim, são filhos. Mas e sobre o efeito do álcool? Sobre o efeito das drogas? Como é quando a adrenalina é maior que o normal? "O meu filho nunca tocou em drogas. Não bebe uma pinga de álcool". Já ouvi tantos pais dizerem isso e vi precisamente o contrário. Continuo a dizer que os nossos pais só conhecem de nós aquilo que nós queremos que conheçam. A nossa palavra é de ouro. Os meus pais sempre acharam que eu não fumava. Desde que chegasse a casa sem cheirar a tabaco da boca, que não fumasse com eles por perto, tudo continuava nesta crença absolutamente estúpida. Fumava há oito anos quando os meus pais descobriram. Nunca tinha chegado bêbedo a casa e para os meus pais eu não me embebedava. E eu apanhei com cada uma!
Que moral tenho eu para falar? Talvez nenhuma, é verdade. Mas a educação que os meus pais me deram nunca me fez atirar colchões de um quarto de hotel, partir aquilo que não era meu. Talvez por as coisas custarem a ganhar lá em casa e saber que se estragasse tinha de pagar. Já diz o velho ditado: "quem estraga velho, paga novo". A meu ver, a educação reflete-se em todo o lado, independentemente do estado em que estejamos. Conheço os meus limites, sei aquilo que devo fazer ou não fazer. Talvez por isso seja um renegado. É verdade que já fiz coisas para agradar aos outros, mas nunca nada que me fizesse envergonhar ou que envergonhasse os meus pais.
Reparo, muitas vezes, que os "Alpha" são cada vez mais e os restantes entram na moda para agradar, para se sentirem incluídos. A rejeição é horrível e por isso nada melhor que nos submetermos a um "Alpha". Sinceramente, não sei o que dizem os livros de psicologia sobre este assunto, mas para mim (descoberta que fiz quando me vi na aflição) todos temos um "Alpha" dentro de nós. Somo-lo ou não por natureza. Mas com algum trabalho esse "gene" virá ao de cima e cada um será capaz de se reger pelos seus próprios principios.

 


Bem, a verdade é que comecei por falar nas viagens de finalistas e acabei divagando um pouco mais. Quanto a estas viagens, não há muito a dizer. Que seja feita uma prevenção bem maior por parte dos educadores e também por parte das agências de viagens, que só veêm o seu nome manchado. Que haja videos e imagens a sensibilizar, senão coitada de Santa Bárbara que só é lembrada em dias de trovoada. Quanto aos jovens finalistas, porque não começar a pensar numa coisa diferente? Porque não um destino onde possam "aproveitar a vida" mas também conhecer um mundo/cultura diferente? Há tanto local onde ir! Com o mesmo dinheiro conseguem umas férias diferentes. Ah, e não se culpabilizem uns as outros. Não é bonito andarmos a atirar as culpas, acabamos sempre por ser todos iguais. Quanto aos pais? Olhem, uns culpabilizem-se, outros não. Para os pais dos futuros finalistas, uma conversinha séria antes da viagem faz sempre bem.