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Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

O homem discriminado!

por Ismael Sousa, em 29.08.17

Toda a gente fala do assunto. Todos imitem a sua opinião sobre o tema. Os livros da Porto Editora são o assunto mais falado nesta última semana.

 

Não conheço os livros, nunca tive com nenhum na mão. A única coisa que sei sobre eles é aquilo que leio na blogosfera e nas noticias que leio pela manhã.

 

O que tenho constatado é que o rosa já não é mais uma cor feminina e que o azul não é uma cor masculina.

 

Não sou perito em nada, não tenho nenhum curso que me possa dar as faculdades necessárias para avaliar seja o que for. A única coisa que tenho é experiência de vida (sim, apesar dos meus 27 aninhos, tenho vivido mais que aquilo que pensam)!

 

Um dos temas mais badalados desde o século passado é a igualdade de direitos entre homem e mulher. E eu, com todo o respeito que tenho por estes seres, não podia estar mais de acordo que as mulheres tenham os mesmos direitos que um homem. Se um homem pode ser camionista, uma mulher também pode. E se for eficiente, que tenha tanto direito a ser contratada como um homem. Se uma mulher pode ser dona de casa, um homem também o poderá ser. O tempo em que a mulher ficava em casa e o homem trazia o sustento, já lá vai. Hoje, mulheres e homens, são o sustento.

 

Nasci num tempo em que as coisas eram diferentes dos dias de hoje. Eu brincava na rua, via desenhos animados, via filmes. Fazia as lides domésticas, ia à escola e construía cabanas em cima de árvores. Vivíamos na rua e os pais ralhavam-nos por andarmos até tarde na rua com os amigos. No meu tempo líamos livros, jogávamos à macaca e ao lencinho. Saltávamos à corda e brincávamos ao elástico. No meu tempo, duas pedras eram os postes das balizas e a bola andava nos pés. Todos jogávamos independentemente de sermos bons ou não (e eu que sempre tive dois pés esquerdos). No meu tempo era diferente, mas saudosismos não nos levam a lado nenhum.

 

Os dias que correm são diferentes, pela evolução lógica da natureza. Se existe evolução normal é que as brincadeiras e formas de vermos o mundo também sejam diferentes. Ninguém quer voltar aos anos 90 (no meu caso) e um futuro melhor está sempre ao vislumbre da nossa imaginação.

 

Mas com a evolução dos tempos está inerente a evolução da mentalidade. Mas nisto, em questões de mentalidades, parece-me que estamos num processo de retroversão. Não avançamos mas regredimos.

 

Hoje qualquer palavra é ofensa, qualquer forma de ver é repugnante. Preocupamos-nos com questões que são mais irrelevantes que a queda de uma folha. Que importa se o rosa é a cor ou não das raparigas e o azul a cor dos rapazes? Que importa se há um livro azul que diz "exercícios para rapazes" e outro rosa que diz "exercícios para raparigas"? No meu tempo não pensávamos nisso, os pais não pensavam nisso.

 

"Uma questão de justiça" podem afirmar. Mas enquanto se preocupam com questões de igualdade, não se preocupam com questões de dignidade. Uma parte do meu trabalho é lidar com crianças. E quando elas entram por esta porta dentro, para brincarem, não pensam se esta ou aquela brincadeira é para meninos ou meninas. Brinca-se em conjunto. E eu, na minha formação e contínuo interesse pela área psicológica, vou fazendo as minhas avaliações particulares. Há crianças que carecem de atenção, crianças que não têm uma vida fácil. Há crianças que têm tudo e outras que pouco têm. Mas no mundo deles, onde fantasiam, isso é esquecido.

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A maior necessidade, para mim, é formar bem estes pais, filhos da libertinagem, que não se preocupam em dar uma boa educação aos filhos, mas "sustenta-los". Não se incutem valores, não se incute educação. As crianças nascem ao "deus dará" aprendendo aos encontrões com a vida. Não há "obrigados" nem "desculpas", somente o eu e eu. Filhos da libertinagem, libertinos serão. E o homem que cria o mundo, destrói-o também.

 

Falamos em igualdade, mas esquecemos-nos que não há igualdade. Os homens têm de continuar a ceder passagem a uma senhora, a serem "cavalheiros" (e aonde é que já vai esse código de honra), têm de continuar a mimar as mulheres. Mas nisso não se fala em igualdade. As mulheres têm muito mais aceitação e concretização no mundo do trabalho que o homem. Já não se pedem colaboradores (o termo certo com que a nossa língua sempre definiu os dois sexos em conjunto) mas colaboradorAs. Precisam-se de empregadAs de mesa, de balcão, de colaboradorA para isto e para aquilo. Qualificadas ou não, acabam sempre por ficar com o lugar, porque se não é descriminação, há processos e afins.

 

Vivemos do avesso e numa igualdade falseada. O homem passou a submisso. Talvez lhe seja bem feito pelos anos em que se armou em superior. Infeliz de mim que nasci homem e tenho de lutar por tudo.

 

P.S. - Às mulheres da minha vida, às minhas colegas, todo o respeito e admiração que tenho por vós!

Isto choca?

por Ismael Sousa, em 23.07.17

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Este sou eu! Ou este fui eu!

 

A vida dá voltas que nunca esperamos que dê. Acontecimentos surgem na nossa vida, fazendo-nos repensar tudo, cada coisa por sua vez. Cada minuto é precioso, cada hora importante.

 

Há três anos atrás, este era o estado em que eu estava. Não, não foram as comidas rápidas, nem o óssio que me fizeram ficar assim. Foram os medicamentos, as drogas que tomei. Não, não eram drogas ilícitas, mas "drogas fornecidas pelo estado" como costumávamos dizer.

 

Há três anos, lutava eu contra um cancro, contra uma doença que me apareceu. Há três anos, dava importância a muitas coisas que hoje me são indiferentes. Há três anos as pessoas olhavam-me de lado. É triste dizer-se isto, mas é a mais pura das verdades.

 

Pessoas com cancro não são pessoas normais. Isto tem de ser um ponto acente e quem discordar, que me apresente argumentos sólidos contra esta minha tese. Repito: pessoas com cancro não são pessoas normais. E eu passo a explicar porquê.

 

A pessoa com cancro não é normal porque é uma lutadora: todos os dias luta contra a doença, contra os efeitos secundários da medicação, contra o seu espelho, contra a sua imagem, contra a vontade de ficar todo tapado com os lençóis. Luta contra o calor, luta contra os afrontamentos, luta contra a vontade de chorar. Todos os dias, o doente oncológico é um lutador. Não é fácil levantar da cama e ter que ter um sorriso na cara, porque se não, começam as perguntas, os discursos morais e afins. Ter cancro é ter que ser alicerce quando se precisa de alicerces. É preciso lutar contra o cheiro dos hospitais, a comida que é sempre igual (se não é, parece). É lidar contra a repulsa de algumas coisas, com o desejo de outras. Lutar contra as infindas horas na sala de espera, contra o medo das agulhas, contra as horas intermináveis de tratamento e, acima de tudo, contra o aborrecimento. Onde está a facilidade em encontrar o que fazer quando não nos deixam fazer nada? A televisão já chateia, os olhos estão cansados de ler, os ouvidos fartos de música e a paciência no limite. E dormir é sempre um tormento: há uma máquina que apita, a vizinha do lado que não se cala, o sono que não existe. Ou até aquela bexiga chata que nos obriga a andar com um ou dois cãezinhos atrás. Quem sabe, enterder-me-á.

 

A pessoa com cancro não é normal porque é uma coitadinha. Este é o primeiro rótulo que nos colocam, o "coitadinho". Somos coitados porque adoecemos, porque vamos morrer, porque isto e por aquilo. Há duas sentenças que nos são logo ditadas e era isto que a médica nos devia dizer quando entramos no consultório: "O senhor tem cancro, passa a ser coitadinho e vai morrer." Era muito mais fácil do que andarmos iludidos. Porque até vamos conseguindo lidar com o cancro, mas não é fácil olhar para a cara de alguém e ver aqueles olhinhos de cachorrinho a olharem para nós. Sentimos logo pena dessa pessoa. Está tão enganada! Nenhum doente oncológico é coitadinho! É verdade que nem todos chegamos ao fim da meta, que há alguns que ficam pelo caminho (e poucos sabem a dor que isso nos provoca), mas isso não nos torna coitadinhos. Vou contar-vos um segredo: há doentes oncológicos a viverem de forma mais feliz que muita gente com a saúde a 100%.

 

A pessoa com cancro não é normal porque é desrespeitada. É olhada de lado, é comentada, é deixada desconfortável. Os cafés são casas de tortura. Entra um "carequinha" (como uma amiga nos trata) e levantam-se as moscas. Chegamos a ouvir comentários que não lembram nem ao diabo. Para as pessoas que não sabem, o doente oncológico não é surdo e ouve normalmente. Nos restaurantes e centros comerciais são exatamente a mesma coisa. Há gente que até atravessa a estrada (e isto aconteceu comigo!).

 

Há uma enormidade gigantesca de coisas que acontecem a uma pessoa com cancro, por isso esta não pode ser considerada normal. Ou melhor, é superior ao normal. Deviam haver super heróis carecas e inchados para naturalizar esta situação.

 

Bem, adiante que atrás vem gente!

 

Escrevi este texto por causa da foto. Quem me conheceu na altura, hoje não me reconhece. Quem me conhecia, não me reconheceu. O corpo sofre transformações horriveis, levando-nos a um ponto em que a nossa imagem se torna horrivel. Somos um pouco "indesejados", evitados. Falamos sobre um mundo onde "estas coisas não acontecem" mas existem. É altura de mudar mentalidades.

 

Este já não sou eu, mas continuarei sempre a sê-lo. Esta já não é a minha imagem, mas fará sempre parte de mim, da minha história.

"Cristina": a vergonha de uma capa!

por Ismael Sousa, em 07.07.17

“Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.”

 

Todos os dias somos bombardeados com coisas que nos escandalizam, com coisas que vão contra os nossos princípios, bem como aquilo que consideramos normal. Todos os dias o mundo está em constante mudança, em constante evolução, em inevitável mudança. Coisas novas se descobrem, novos assuntos são trazidos à ribalta. Este é o mundo onde nasci, o mundo onde vivemos. É a razão humana e a ininterrupta evolução de Darwin.

 

Crescemos com as nossas ideias, com aquilo que vamos apreendendo e formando na nossa mente, segundo costumes e tradições. E como seres humanos que somos, vamos classificando como bom e mau aquilo com que nos defrontamos. Há ideias e ideais que mantemos, outros que revíramos totalmente e ainda aqueles que vamos moldando. Somos inerentes à mudança. O que hoje estranhamos, amanhã entranhamos.

 

A bomba rebentou com uma partilha nas redes sociais e outros meios. Na véspera do lançamento mensal da afamada revista “Cristina”, a diretora da revista, a própria Cristina Ferreira, partilhou as duas capas possíveis de encontrar nas bancas, no dia seguinte. Sob o título “isto choca?” onde se via Cristina Ferreira a beijar um homem, apareciam mais duas capas, aquelas que sairiam para as bancas: duas mulheres a beijarem-se e dois homens a beijarem-se. O caos, a polémica, a controvérsia estavam instaladas. As reações foram inúmeras, tanto positivas como negativas. E, para mim, surge o escândalo.

 

Vivemos em pleno século XXI. Celebrámos, há poucos dias, a abolição da pena de morte em Portugal, fizemos história neste último ano. Acreditamos numa mentalidade aberta e em mudança. Pelo menos eu acredito, mas parece-me que me desiludi. Sempre acreditei nas pessoas e na sua capacidade de mudança, mas ontem senti vergonha. Vergonha e desilusão. As redes sociais facilitam-nos em ver tudo, principalmente quando as coisas não são boas, parecem um vírus que se espalha com uma enorme rapidez. A capa da revista “Cristina” estava a chocar o povo português que se sai com o seu pior lado. Os comentários que apareceram não são dignos de serem citados. Há linguagem e homofobia em exagero. O lado negro dos portugueses demonstra-se.Vivemos no século XXI mas com uma mentalidade do século XV.

 

A capa da revista é polémica, sem dúvida, porque é das poucas (se não a única) a mostrar algo deste tipo em Portugal. Como tudo há quem goste e quem não goste. Mas daí a mostrarem a sua ignorância, vai um grande passo. Não concebo, na minha ideia, que se digam tantas barbaridades como as que foram ditas. Fala-se em aceitar ou não aceitar. Para mim, ninguém tem que aceitar ou não aceitar. As pessoas gostam do que gostam e cada um tem a sua ideia. Temos que respeitar. Somos livres de ter a nossa opinião, livres da expressar. Mas quando isso interfere na dignidade do outro, não temos direito nenhum. A minha liberdade acaba onde começa a do outro.

 

O beijo entre dois homens tem sido o principal motivo de todo o escândalo. Sobre o beijo entre duas mulheres, poucos se manifestam de forma tão agressiva. Algumas pessoas falam no que está capa poderá fazer aos seus filhos. É muito estranho que isso aconteça, que dois homens aos beijos seja “traumático” para uma criança. E uma mulher/homem despidos nas capas de revistas nas bancas?! É uma criança morta numa praia?! E a guerra?! Isto não é traumático?!

 

Comecei este texto com o primeiro artigo de “Os Direitos do Homem”. “Iguais em dignidade e direitos”, mas parece que não. Parece que só alguns podem usufruir disto. Cada vez mais se assiste a uma desvalorização de valores. Na televisão existem programas totalmente sexuais, onde a traição e o “eros” é o principal. Valorizam-se corpos em vez de personalidades. Mas isso é correto. Agora aceitar que dois seres do mesmo sexo se amem, que vivam em valores e dignidade, não! Isso é contranatura.

 

A minha opinião/posição em relação a esse tema, guardo-a para mim. Se me escandaliza? Não! Em minha casa, ao contrário de muitas, a revista “Cristina” entrou, como todos os meses. Os artigos estão lidos. Contra tanta coisa, sinto-me feliz por aqueles dois casais serem felizes, por viverem com mais valor que muitos casais heterossexuais. É preciso ter coragem para lançar uma revista com uma capa destas. É preciso ir contra muita coisa. É preciso fazê-lo. Contra todos os riscos, contra todos os tabús. O tema está mais que presente na nossa sociedade, temos que viver com ele.

 

A diferença é sempre contraditória. Eu, por várias vezes, fui rotulado de “gay”, somente porque não namorava, porque não namoro. É uma opção minha, mas isso mexe com as pessoas. Todas as semanas ouço que tenho de arranjar uma namorada, uma pessoa para a minha vida. E quem disse que quero?! Porque não posso viver sozinho e mesmo assim ser feliz?! Porque temos de ser todos iguais?! Cada um sabe da sua vida e vivi-a da forma que se sente mais feliz! Sou diferente e isso incomoda muita gente. E como eu, muitos sentem a dor da diferença, a rejeição dessa ideia.

 

Parabéns Cristina Ferreira pela coragem de derrubares tabús, pela coragem de seres diferente, por falares no que muitos não falam. Obrigado Cristina Ferreira por, com esta capa, ajudares tanta gente, por criares incómodo, por trazeres a público aquilo que se fala por entre dentes. Espero, sinceramente, que com isto abras mentes, abras portas de armários. Ser gay, bi ou hetero, são todos seres humanos. Temos todos direitos, como temos todos deveres. Aceito e gosto da diferença. Obrigado aos casais que posaram para as capas. Obrigado por tomarem essa coragem mesmo sabendo as represálias que poderiam vir a sofrer.

 

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Bullying & Cyberbullying

por Ismael Sousa, em 20.04.17

Tive hoje a oportunidade de participar numa conferência, no âmbito do Mês da Prevenção dos Maus-tratos na Infância, sobre bullying e cyberbullying, promovida dela Comissão de Proteção de Crianças e Jovens de Vouzela.

Apesar de todos já termos ouvido falar sobre este assunto, não nos podemos esquecer que, cada vez mais, é um assunto em cima da mesa, um assunto com que todos nos devemos preocupar. O bullying e o cyberbullying estão presentes nas nossas escolas, nas nossas comunidades, nas redes sociais.

Com a participação da Dra. Teresa Pessoa da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação de Coimbra e da Dra Teresa Teixeira do Instituto Português do Desporto e da Juventude de Viseu, falaram-se de assuntos como os dilemas e desafios do cyberbullying e do Movimento contra o discurso de ódio.

Numa breve explanação, a Dra Teresa Pessoa colocou em cima da mesa alguns dados sobre percentagens deste tema, bem como a forma como acontece mais frequentemente. É fácil percebermos quem são os agressores e quem são as vítimas de bullying. Mas quando falamos de cyberbullying, a coisa vira um pouco ao contrário. Muitas vezes o agressor é a vítima, e a vítima o agressor. É muito fácil estar atrás de um computador, deitadinho da cama, no sofá, e ser-se um autêntico agressor cybernauta. Perfis falsos em contas de redes sociais, palavras de ódio e rancor em textos. Mas não nos ficamos por aqui. A facilidade com que se fotografa e faz um filme nos dias de hoje, com que se partilham as coisas que circulam pela internet, é também uma forma de bulying: a imagem de uma pessoa fica denegrida com muita facilidade. Sobre este assunto, pergunto-me não sobre a forma como parar isto, mas que tipo de acompanhamento têm as vítimas? Que consequências têm os agressores? Uma mancha num cadastro será suficiente? Como se acompanham as vítimas, evitando males maiores?

Correm na internet várias noticias sobre um jogo intitulado de Blue Whale. Depois de alguma investigação (principalmente num blogue brasileiro que fala bem sobre o assunto [aqui]) percebi que este suposto jogo leva vários jovens ao suicídio, à mutilação. São ameaçados de que têm de cumprir todos os passos do jogo e caso não o façam as familias podem sofrer consequências. É uma entrada direta para a morte. E são adolescentes com problemas que entram neste jogo e outros que insentivam a que isto aconteça. Diz-se que é melhor deixar o assunto morrer, que no fim tudo se resolverá. Pois eu acho que não, que cada vez mais se deve falar destes assuntos para que as pessoas se apercebam destes sinais, para que possa estender uma mão a quem precisa mas não tem coragem para a pedir.

E este tema leva-me a introduzir o segundo tema debatido nesta conferência: o discurso de ódio. Como são várias as formas de bullying, as palavras proferidas e escritas também o são. Podemos dizer que o racismo, a homofobia, a violência doméstica, entre tantas áreas são também formas de bullying. De uma forma muito prática, a Dra Teresa Teixeira falou sobre este assunto à audiência, composta por formadores e formandos. Em muita coisa me revi nas palavras da Dra Teresa.

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A verdade é que, ao longo da vida, vamos sofrendo vários tipos de bullying. Eis um testemunho na primeira pessoa.

Quem me conhece, que conhece a minha vida, desconhece este facto sobre mim. Durante vários anos também fui vítima de bullying, a diversos niveis: físico, psicológico, cyberbullying. No meu tempo não se falava destas coisas, os termos não eram conhecidos. Sofri bullying porque não era igual à maioria, porque pensava de maneira diferente. Bullying porque os meus ideais eram diferentes, porque aquilo que eu gostava era diferente. Porque as coisas que eu escrevia incomodavam. Fui achincalhado publicamente, fui agredido, fui ameaçado. Fui humilhado, acusado, desprezado. Isso talhou a pessoa que hoje sou. É fácil falarmos as coisas da boca para fora sem pensar na pessoa que está ao lado, escrever comentários, ameaçar. É fácil ocultarmos isso ao mundo, escondermo-nos e fazer de conta que nada se passa.

Não é fácil pedirmos ajuda. A vergonha, a falta de forças, impede-nos. Nem todos somos fortes o suficiente e alguns chegam a colocar um ponto final nas suas vidas. Depois? Depois ninguém consegue perceber o porquê de uma atitude dessas, ninguém viu sinais de nada. Mas os sinais estavam lá, as razões conhecidas por todos. Hoje sou uma pessoa diferente, mas as marcas continuam cá. Não tenho um equilibrio sentimental como muitos outros, não aceito ajuda de terceiros, fecho-me demasiadas vezes sobre o meu casulo. Sou inseguro, incapaz de dar um passo arriscado, de tomar decisões que devem ser tomadas. Rejeito a ajuda, tenho-me como muito independente. Vesti carapaças que não quebram, criei um "eu" forte que só existe fora das paredes do meu quarto. Hoje sou uma pessoa diferente em tantos aspectos, mas ainda permaneço fragil em tantos outros. Sou sempre o primeiro a querer ajudar outros que precisem, a tentar evitar que passem por aquilo que eu passei. Queria ser mais ativo neste campo, mas nem sempre é fácil, as lembranças fazem recuar.

Hoje deixo aqui mais um alerta, como há em tantos outros locais: não permitam que isso aconteça à vossa volta. Não vistam a capa do "não é comigo". Somos todos pessoas, somos todos seres com direitos e deveres. Não devemos passar ao lado, mas agir quando tiver que se agir. Não partilhem com pena isto ou aquilo, ouçam os gritos que são dados no silêncio, leiam os pedidos de ajuda que aparecem constantemente. Uma simples palavra pode ajudar. Denunciem, façam o vosso papel como cidadãos. Somos todos responsáveis uns pelos outros. Não permitam que isto chegue a um fim triste. Tomem atitudes. Se eu fizer um bem a alguém e esse alguém retribuir com bem a um outro, criamos um mundo melhor. Não apoiem a violência.