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Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

"Cristina": a vergonha de uma capa!

por Ismael Sousa, em 07.07.17

“Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.”

 

Todos os dias somos bombardeados com coisas que nos escandalizam, com coisas que vão contra os nossos princípios, bem como aquilo que consideramos normal. Todos os dias o mundo está em constante mudança, em constante evolução, em inevitável mudança. Coisas novas se descobrem, novos assuntos são trazidos à ribalta. Este é o mundo onde nasci, o mundo onde vivemos. É a razão humana e a ininterrupta evolução de Darwin.

 

Crescemos com as nossas ideias, com aquilo que vamos apreendendo e formando na nossa mente, segundo costumes e tradições. E como seres humanos que somos, vamos classificando como bom e mau aquilo com que nos defrontamos. Há ideias e ideais que mantemos, outros que revíramos totalmente e ainda aqueles que vamos moldando. Somos inerentes à mudança. O que hoje estranhamos, amanhã entranhamos.

 

A bomba rebentou com uma partilha nas redes sociais e outros meios. Na véspera do lançamento mensal da afamada revista “Cristina”, a diretora da revista, a própria Cristina Ferreira, partilhou as duas capas possíveis de encontrar nas bancas, no dia seguinte. Sob o título “isto choca?” onde se via Cristina Ferreira a beijar um homem, apareciam mais duas capas, aquelas que sairiam para as bancas: duas mulheres a beijarem-se e dois homens a beijarem-se. O caos, a polémica, a controvérsia estavam instaladas. As reações foram inúmeras, tanto positivas como negativas. E, para mim, surge o escândalo.

 

Vivemos em pleno século XXI. Celebrámos, há poucos dias, a abolição da pena de morte em Portugal, fizemos história neste último ano. Acreditamos numa mentalidade aberta e em mudança. Pelo menos eu acredito, mas parece-me que me desiludi. Sempre acreditei nas pessoas e na sua capacidade de mudança, mas ontem senti vergonha. Vergonha e desilusão. As redes sociais facilitam-nos em ver tudo, principalmente quando as coisas não são boas, parecem um vírus que se espalha com uma enorme rapidez. A capa da revista “Cristina” estava a chocar o povo português que se sai com o seu pior lado. Os comentários que apareceram não são dignos de serem citados. Há linguagem e homofobia em exagero. O lado negro dos portugueses demonstra-se.Vivemos no século XXI mas com uma mentalidade do século XV.

 

A capa da revista é polémica, sem dúvida, porque é das poucas (se não a única) a mostrar algo deste tipo em Portugal. Como tudo há quem goste e quem não goste. Mas daí a mostrarem a sua ignorância, vai um grande passo. Não concebo, na minha ideia, que se digam tantas barbaridades como as que foram ditas. Fala-se em aceitar ou não aceitar. Para mim, ninguém tem que aceitar ou não aceitar. As pessoas gostam do que gostam e cada um tem a sua ideia. Temos que respeitar. Somos livres de ter a nossa opinião, livres da expressar. Mas quando isso interfere na dignidade do outro, não temos direito nenhum. A minha liberdade acaba onde começa a do outro.

 

O beijo entre dois homens tem sido o principal motivo de todo o escândalo. Sobre o beijo entre duas mulheres, poucos se manifestam de forma tão agressiva. Algumas pessoas falam no que está capa poderá fazer aos seus filhos. É muito estranho que isso aconteça, que dois homens aos beijos seja “traumático” para uma criança. E uma mulher/homem despidos nas capas de revistas nas bancas?! É uma criança morta numa praia?! E a guerra?! Isto não é traumático?!

 

Comecei este texto com o primeiro artigo de “Os Direitos do Homem”. “Iguais em dignidade e direitos”, mas parece que não. Parece que só alguns podem usufruir disto. Cada vez mais se assiste a uma desvalorização de valores. Na televisão existem programas totalmente sexuais, onde a traição e o “eros” é o principal. Valorizam-se corpos em vez de personalidades. Mas isso é correto. Agora aceitar que dois seres do mesmo sexo se amem, que vivam em valores e dignidade, não! Isso é contranatura.

 

A minha opinião/posição em relação a esse tema, guardo-a para mim. Se me escandaliza? Não! Em minha casa, ao contrário de muitas, a revista “Cristina” entrou, como todos os meses. Os artigos estão lidos. Contra tanta coisa, sinto-me feliz por aqueles dois casais serem felizes, por viverem com mais valor que muitos casais heterossexuais. É preciso ter coragem para lançar uma revista com uma capa destas. É preciso ir contra muita coisa. É preciso fazê-lo. Contra todos os riscos, contra todos os tabús. O tema está mais que presente na nossa sociedade, temos que viver com ele.

 

A diferença é sempre contraditória. Eu, por várias vezes, fui rotulado de “gay”, somente porque não namorava, porque não namoro. É uma opção minha, mas isso mexe com as pessoas. Todas as semanas ouço que tenho de arranjar uma namorada, uma pessoa para a minha vida. E quem disse que quero?! Porque não posso viver sozinho e mesmo assim ser feliz?! Porque temos de ser todos iguais?! Cada um sabe da sua vida e vivi-a da forma que se sente mais feliz! Sou diferente e isso incomoda muita gente. E como eu, muitos sentem a dor da diferença, a rejeição dessa ideia.

 

Parabéns Cristina Ferreira pela coragem de derrubares tabús, pela coragem de seres diferente, por falares no que muitos não falam. Obrigado Cristina Ferreira por, com esta capa, ajudares tanta gente, por criares incómodo, por trazeres a público aquilo que se fala por entre dentes. Espero, sinceramente, que com isto abras mentes, abras portas de armários. Ser gay, bi ou hetero, são todos seres humanos. Temos todos direitos, como temos todos deveres. Aceito e gosto da diferença. Obrigado aos casais que posaram para as capas. Obrigado por tomarem essa coragem mesmo sabendo as represálias que poderiam vir a sofrer.

 

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Nada de novo debaixo do sol

por Ismael Sousa, em 09.04.17

Todos os anos somos bombardeados com inúmeras noticias sobre este tema. Todos os anos se fala da mesma coisa. Não sei se é numa forma de prevenção se numa forma de manter a "tradição", mas nada que seja novidade.
Deixei o secundário em dois mil e nove (já lá vão oito anos) e no meu tempo e no tempo anterior a mim, já se ouviam relatos de acontecimentos idênticos. Lloret de Mar fechou portas. Os destinos mudaram, os costumes não.
A viagem de finalistas é sempre um ponto alto na vida de qualquer estudante. É um marco: o fim do secundário e a partida para uma nova jornada. É também a saída das asas dos pais para uma independência. Ou pelo menos assim deveria ser. Trabalha-se todo o ano para o gozo de uma semana. Uma semana longe dos pais, sem pensar na escola, com os amigos. Um país diferente, uma semana de autêntica liberdade e excessos. É-o por natureza. Bem sabemos qual o resultado quando nos vemos livres de tudo aquilo que nos aprisiona: o álcool é em excesso, há quem experimente drogas e, arriscaria dizer também, uma podridão sexual. É uma única semana onde tudo pode acontecer, onde tudo o que se passa fica lá, esquecido, escondido, nos segredos das amizades, que um dia mais tarde, em redor de uma mesa, serão motivo de recordação.
É também verdade, e esta talvez é que deveria ser um maior motivo de notícia, que existem coisas boas e que a pequena minoria que faz notícia não é reflexo do que acontecem nas viagens de finalistas. Existem estudantes que aproveitam para conhecer, descansar, divertirem-se com cabeça. Mas cada um é como cada qual e cada um se comporta segundo a maneira que foi educado. E quer queiram quer não, esta é a verdade.
Acho uma certa graça ao ouvir os pais dizerem que "o meu filho não fez nada disso", "foi culpado sem ter culpa de nada". Aos olhos dos pais somos todos uns santinhos, com a graça de Deus. Só nos falta uma auréola na cabeça e colocarem-nos no altar. Pena é que os altares são poucos e pequenos e temos os pés grandes ou corremos o risco de "mjar" as toalhas. Graças a Deus!
Questiono-me se os pais conhecem realmente os filhos. É claro que sim, são filhos. Mas e sobre o efeito do álcool? Sobre o efeito das drogas? Como é quando a adrenalina é maior que o normal? "O meu filho nunca tocou em drogas. Não bebe uma pinga de álcool". Já ouvi tantos pais dizerem isso e vi precisamente o contrário. Continuo a dizer que os nossos pais só conhecem de nós aquilo que nós queremos que conheçam. A nossa palavra é de ouro. Os meus pais sempre acharam que eu não fumava. Desde que chegasse a casa sem cheirar a tabaco da boca, que não fumasse com eles por perto, tudo continuava nesta crença absolutamente estúpida. Fumava há oito anos quando os meus pais descobriram. Nunca tinha chegado bêbedo a casa e para os meus pais eu não me embebedava. E eu apanhei com cada uma!
Que moral tenho eu para falar? Talvez nenhuma, é verdade. Mas a educação que os meus pais me deram nunca me fez atirar colchões de um quarto de hotel, partir aquilo que não era meu. Talvez por as coisas custarem a ganhar lá em casa e saber que se estragasse tinha de pagar. Já diz o velho ditado: "quem estraga velho, paga novo". A meu ver, a educação reflete-se em todo o lado, independentemente do estado em que estejamos. Conheço os meus limites, sei aquilo que devo fazer ou não fazer. Talvez por isso seja um renegado. É verdade que já fiz coisas para agradar aos outros, mas nunca nada que me fizesse envergonhar ou que envergonhasse os meus pais.
Reparo, muitas vezes, que os "Alpha" são cada vez mais e os restantes entram na moda para agradar, para se sentirem incluídos. A rejeição é horrível e por isso nada melhor que nos submetermos a um "Alpha". Sinceramente, não sei o que dizem os livros de psicologia sobre este assunto, mas para mim (descoberta que fiz quando me vi na aflição) todos temos um "Alpha" dentro de nós. Somo-lo ou não por natureza. Mas com algum trabalho esse "gene" virá ao de cima e cada um será capaz de se reger pelos seus próprios principios.

 


Bem, a verdade é que comecei por falar nas viagens de finalistas e acabei divagando um pouco mais. Quanto a estas viagens, não há muito a dizer. Que seja feita uma prevenção bem maior por parte dos educadores e também por parte das agências de viagens, que só veêm o seu nome manchado. Que haja videos e imagens a sensibilizar, senão coitada de Santa Bárbara que só é lembrada em dias de trovoada. Quanto aos jovens finalistas, porque não começar a pensar numa coisa diferente? Porque não um destino onde possam "aproveitar a vida" mas também conhecer um mundo/cultura diferente? Há tanto local onde ir! Com o mesmo dinheiro conseguem umas férias diferentes. Ah, e não se culpabilizem uns as outros. Não é bonito andarmos a atirar as culpas, acabamos sempre por ser todos iguais. Quanto aos pais? Olhem, uns culpabilizem-se, outros não. Para os pais dos futuros finalistas, uma conversinha séria antes da viagem faz sempre bem.