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Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

Negruras

por Ismael Sousa, em 15.09.18

O caos. Tantas vezes o caos. A mente que percorre mil e um locais, memórias, pensamentos. O caos, responsável por nos fazer pensar.

Uma tarde de sol, o calor nas ruas. Eu, no meu local, refugiado de todos e mergulhado, como sempre, nos meus pensamentos.

Por vezes maldigo a hora em que o meu pensamento começou a funcionar, as horas de sofrimento da minha mãe para me parir. Tomara que não fosse concebido num momento de prazer entre dois seres humanos, gerando uma criança. Haveria de ter falhado algo, haveria de ter passado somente de uma simples ejaculação sem frutos. Mas não. Os espermatozoides decidiram nadar em direção a um maldito óvulo, criando a minha existência.

Sem sorte desde esse momento, fui crescendo ao longo de nove meses, absorvendo aquilo que a minha mãe é, aquilo que ela sentia e que tão bem me transmitiu. Maldita hora em que o cordão umbilical não torceu e eu ficasse somente com aquilo que era essência. Mas não torceu e eu continuei a absorver tudo aquilo que se vivia no exterior, a forma como a minha progenitora sente as coisas e a dedicação que põe nelas.

Devo ter sido feito numa noite de lua nova e nascido numa mesma lua nova, nove meses depois. Saí das entranhas da minha mãe e a minha sorte escorreu juntamente com o líquido amniótico. Limpo das sortes que o mundo tinha para mim, chorei a primeira vez talhando assim um futuro com mais choros que sorrisos.

Cresci, de forma diferente de todos os outros, sempre no meu mundo, sempre na minha forma de pensar, usado e abusado por tantos. A minha sorte não começaria ali. Toldei a minha vida pelo bem ao próximo em preterição ao meu próprio bem. Fui escorraçado e deitado aos leões. Depois veio a saúde que me fez ter que ter forças, mais do que as que eu pensava ter. Perdi demasiado, ganhei mais, talvez. Depois soube que me fiz de pobre coitado, centrando todas as atenções em mim. Maldita hora em que de alguma forma tentei ser diferente.

A noite já se abateu sobre mim, entre cigarros fumados com lágrimas, a longos cigarros pensativos. Tenho saudades, em mim, muitas mais que alguém possa algum dia imaginar. Sou diferente, não sou como todos os outros. Sinto de forma diferente e especial, sinto de forma triste e amargurada. Sou melancólico e triste, negro de alma e de pensamento. Deixei de esperar, deixei de acreditar. O mundo não é para mim, eu não fui feito para o mundo.

Embebedo-me nos meus pensamentos que as ausências me provocam, que os amores que senti nunca foram correspondidos. Um dia achei ser amado, mas fui somente mais um entre tantos. Tive demasiadas partidas e tão poucos regressos. Mergulhei em mim, fechando-me no escuro do meu ser sem luz que o ilumine.

Acabou o maço de cigarros, o bar vai fechar e eu vou deambular pela noite escura e fria. Vou voltar a lembrar de ti, lembrar que um dia estiveste a meu lado. Vou esperar encontrar-te numa rua escura ou iluminada pela rua. Vou esperar-te até que apareças, sentir-te até que sejamos novamente. Vou morrer na espera, desaparecer do pensamento, deixar de ser memória.

À espera que regresses. Fico à tua espera.

por Ismael Sousa, em 14.09.18

Por mais que nos seja doloroso, haverá sempre uma altura em que nos despedimos de alguém. As pessoas partem, seguem as suas vidas, de livre vontade ou forçosamente. Há outras que partem para não mais voltar, outras em que a partida é definitiva.

Custa sempre dizer “adeus”, “até um dia”.

Chorei todo o caminho que fiz, desde o momento em que te deixei até estacionar o carro em casa. Há muito que nos havíamos separado, há muito que deixávamos de estar lado a lado e que tão raramente trocávamos uma mensagem. Mas permanecias no lugar especial que um dia ocupaste. Permanecias ali. E eu, tantas vezes, tentava odiar-te, tentava esquecer-te.

“A ti…”

Não sei se tu te lembras de metade das coisas que vivemos e fizemos juntos em tão pouco espaço de tempo. Dos quilómetros que andámos juntos, das vielas e ruelas que percorremos. Dos cafés infindáveis, das histórias que partilhámos.

Não sei se tu te lembras daquele local onde me levaste por ser para ti o melhor, com a melhor vista sobre a cidade. Não sei se tu te lembras dos beijos que trocámos, dos abraços que fizemos, do sentimento que se criou.

O tempo, tantas vezes o tempo, estúpido e parvo, que traz mais reflexões que as que devia trazer. O tempo, aquele que passámos juntos, aquele que era mais nosso que do mundo. O tempo que despendemos um com o outro, as conversas e as estrelas no firmamento, os provérbios que completámos. A vida que foi tão pura durante esse tempo.

Agora despedes-te das coisas, partes para longe. Já partimos um do outro mas houve algo que sempre ficou, algo que nunca nos separou, pelo menos a mim.

E aquela noite fria, naquela sala cinzenta, onde ouvimos rádio e lemos poemas, onde escrevemos palavras que pensávamos não conhecer. A ti, quantas vezes a ti te escrevi textos, quantas vezes estivemos mais perto do que nunca, em filmes que vimos, em tanta coisa que partilhámos.

Não sei se vais, não sei se ficas. Sei o que és e o que significas e isso eu nunca vou poder esquecer.

Fica o meu abraço forte e sentido, aquele que muitas vezes trocámos e que tanto desejámos. Fico à tua espera. À espera que regresses. Fico à tua espera.

 

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Nevoeiro

por Ismael Sousa, em 11.09.18

O mar respirava diante dos seus olhos, rebentando calmamente na areia que brilhava com o sol imenso que se sentia, parecendo um areal de ouro. As gaivotas esvoaçavam pelos ares, banhando-se do imenso sol, pairando na suave brisa que se ia sentindo. Tudo, naquele quadro que se podia ver à distância, parecia bem. Uma alma que olhava o infinito de uma paisagem para além de bela.

 

Os seus olhos fixavam o firmamento, sem qualquer movimento do corpo. Simplesmente estava ali, no seu mundo, no seu momento. Escorriam-lhe as lágrimas pelo rosto, salgadas no seu palato. Chorava pelo que perdera, pelo que não tinha, pelo que desperdiçara. Ardia-lhe o coração de uma maneira que nem ele mesmo conseguia explicar. Possivelmente, a imagem mais próxima do sofrimento que sentia, seria um coração apertado pelos grilhões dos erros.

 

A memória, tanta vez a memória. Essa maldição que lhe trazia sempre tão maus momentos, porque esses, os maus momentos, os erros, as asneiras, eram o que mais saltavam à memória. Recordava com força aquilo que de bom tinha vivido, mas depois voltava a mágoa, aquilo que fez destruir tudo.

 

Chorava intensamente cada lágrima. Escorria-lhe pelo rosto, marcando todo o percurso que fazia. Chorava na solidão tentando suavizar a dor que sentia. Somente o abanar da cabeça em sinal de reprovação o diferenciava de uma miragem, de uma rocha, de um boneco. Reprovava-se a si próprio. Queria gritar, mas as suas forças não o permitiam. Somente as lágrimas exteriorizavam o seu sentimento. Somente as lágrimas sabiam tudo aquilo que se passava no seu interior, porque estas eram também o seu interior.

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O sol começava agora a mergulhar em direção ao mar, tornando castanha toda a areia, avermelhando o mar azul e calmo. O seu peito ardia incessantemente. As lágrimas secaram, o sabor a mar deixava agora de existir. Somente um olhar vago e triste, sem vida, baço.

 

Ergueu-se. Caminhou até ao precipício. Nada fazia mais sentido. A sua vida não tinha propósito, a sua vida não lhe permitia mais. Amava de forma imensa e raras eram as vezes em que se sentia amado. Precisava morrer, desaparecer, deixar de existir. Em seu peito palpitavam segredos a mais, palpitavam ações escondidas. Tudo haveria de morrer, tudo haveria de desaparecer, deixar de existir. O precipício, a morte, ali, diante de um passo, tão fácil de dar, mas que uma vida inteira distanciava.

 

O mar, avermelhado, tornou-se ainda mais vermelho. O mar, ainda mais vermelho, zangou-se e batia agora de forma bruta contra os rochedos, ressaltando pelo ar, num enorme grito de socorro e fúria. A areia já não valia nada, nem ouro como antes haveria de ter sido tomada. O mar sangue, vermelho, furioso, tornava-se negro. O sol já não brilhava mais, havia mergulhado para as profundezas do oceano. Em redor tudo era sombra e penumbra, tudo era negro. O nevoeiro ganhou vida, tomando como seu todo aquela paisagem que antes parecia perfeita. Não haviam lágrimas, não existia ouro, não havia calma. Somente a tempestade, somente o negro, a morte que o clima indicava. Alguma coisa ou alguém morreria, haveria de morrer, pois o nevoeiro não se apodera sem levar alma consigo.

 

O silêncio. Já nem o mar bramia nem o vento soprava. Já não se ouviam os guinchos das gaivotas. Tudo era noite. Somente, por entre a neblina da noite, do nevoeiro que haveria de levar recompensa, a luz do farol que guia, que conduz, que avisa.

Metamorfoses de trovões!

por Ismael Sousa, em 04.09.18

A trovoada possui os céus lá fora, enchendo de luz toda a escuridão da noite. Não cai uma gota de chuva, somente a secura de uma trovoada de verão inundando de luz onde o sol há muito deixou de brilhar. Pela janela do meu quarto entram esses clarões de essência, dando existência a tudo o que está em meu redor durante breves instantes.

 

Estou deitado na cama, mergulhado no silêncio possível, submerso em pensamentos. De olhos fechados recordo cada traço do teu rosto que parece estar mesmo a meu lado. Sinto o teu cheiro que me tolda o pensamento. Os meus lábios sentem os teus lábios carnudos e dóceis, suaves e doces. Sinto o teu corpo junto ao meu, mesmo não estando. O teu respirar cai sobre mim e os teus lábios ainda percorrem o meu pescoço. O calor da tua pele, o sabor dos teus braços em torno de mim. Apertados, como se nos quiséssemos tornar um só. Esse calor apertado, esse abraço que não deixa de existir.

 

Cada palavra que escrevo se parece tão insuficiente para descrever aquilo que sinto. Mais um clarão, a breve existência em redor de mim. Tudo ganha vida tão brevemente e a minha realidade inferniza-me sabendo que não estás aqui.

 

Possuis-me mesmo não estando. Sinto-te presente na ausência que vivemos. E os teus lábios suaves nos meus, os meus dedos em tua face, eu e tu, nós e nada mais.

 

Sinto-me enfeitiçado, na estranheza e incerteza daquilo que vivo ou sinto. E estes breves instantes de uma existência real ou imaginária tornam-me vulnerável e inseguro. O meu coração fala-me mais que a razão. Sempre falou. Um dia irei arrancá-lo se me voltar a fazer sofrer. Irei atirá-lo para as profundezas do mundo para que ninguém o coloque em seu peito. E se um dia eu voltar a chorar por coisas que o coração me faça sofrer, regarei as flores do meu canteiro, para que nasçam e gritem ao mundo que o coração só faz sofrer.

 

E em amanhãs que me perca de esperanças infundadas, que no fim finde a minha vida junto ao mar das saudades que tanto sinto, morto por um clarão qualquer que me rodeie e tire de mim a vida que me sustenta, homem sem lágrimas e sem coração.

 

Novamente um clarão, vida por um instante, coração palpitante, lágrimas secas, razão censurada. Pensamentos e vida, eu e tu, nós se existir um nós. E o bater do teu coração, peça indispensável de vida, junto ao meu peito, o ar que te insufla os pulmões e me aquece o pescoço. E eu e a minha saudade. E eu e a minha existência.

 

E de novo os teus lábios carnudos, o teu corpo contra o meu. E o medo que me assola de ser mais um momento. É um último clarão, fraco, inundando fracamente tudo em meu redor. O último, o final, o derradeiro. E eu que me deixei levar pelo sono sem mais saber que existências terei no amanhã que surgirá tão certo como as estrelas brilharem mesmo por detrás das nuvens carregadas de raiva e energia. E nesse amanhã não saberei se eu estou. Talvez este último, derradeiro, final clarão me retire a vida, deixando o corpo frio, sem movimento, sem bater de coração.

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Desafio - Um Pouco Sobre Mim!

por Ismael Sousa, em 04.09.17

Desafiado pelo Insensato (que tem tudo de sensatez), aqui fica um pouco de mim!

 

1 - Oferecem-te uma viagem no tempo que não podes recusar. Que época escolherias?

Finais do renascimento. Há música, há pintura, escultura... Um banho de cultura.



2 - Um filme que te arrependes de ter visto?

Entre o Estranho Caso de Benjamim Button e Perfume, não me consigo decidir... Duas horas e tal de fragâncias bizarras e um homem que nasce velho e morre novo. Ainda não atingi...



3 - Fotografar ou ser fotografado?

Como não desejar imortalizar um momento, captar a sua essência? Se for em 35mm ainda melhor, há outra mística naqueles pequenininhos cristais...



4 - Se tivesses obrigatoriamente de apagar o blog amanhã, qual seria o título do último post?

Onde Reside o Imortal? - A imortalidade que queremos eternizar, ficando tanto para dizer.



5 - Tens [ou já tiveste] alguma celebridade que consideres como o teu ídolo?

Como eu sou múltiplo, há uma multiplicidade: Zé Manel (Darko); Whoopi Goldberg (a eterna Freira); Maggie Smith (que mulher mais fria e encantadora); tantos outros e outras que me influenciaram (Jennifer Lopez e Christina Aguilera tive poster's delas colados no meu armário).



6 - Uma saída com amigos: discoteca até de madrugada ou jantar e ficam todos em casa a conversar?

Jantar e discoteca até de madrugada. Uma coisa não impossiblita a outra, sem menosprezar o convívio e confraternização (já ninguém vai para a disco antes das três da manhã)!



7 - Qual foi a frase que alguém alguma vez te disse e que nunca esqueceste [não precisa de ser profunda, há frases que simplesmente nos ficam na cabeça]?

Ti voglio molto bene!



8 - Quando estás no carro ouves rádio ou escolhes a música que queres ouvir?

O meu carro é um dos meus refúgios, logo escolho o que quero ouvir. Não gosto das rádios e grande maioria das músicas de hoje (e amo cantar, por isso ter sempre a minha música para parecer um tolinho aos berros dentro do carro).



9 - Se pudesses voltar atrás no tempo e dizer alguma coisa que ficou por dizer [porque só te lembraste depois, é o que acontece sempre], o que dirias?

Não costumo deixar nada por dizer, porque não me apego a isso. Apego-me a muita coisa, mas não ao que ficou por dizer. Mesmo assim, há sempre um "amo-te" que fica por dizer e um "magoaste-me" caído no coração!



10 - Se pudesses conhecer mais alguém da blogosfera, através deste método, quem desafiarias?

Bem, ainda que um pouco novo e sem grande tempo para explorar, desafio o Amaro que sempre me surpreende com as suas respostas, HD (há sempre uma grande curiosidade no seu blogue), Luís Altério (A filosofia no escrever), Nuno Guimarães (que tenho muita curiosidade).