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Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

Quando o tempo vier

por Ismael Sousa, em 27.10.18

A tarde emergiu de uma neblina que durante toda a manhã cobriu a cidade. As folhas amarelas e vermelhas esvoaçam pelos ares, bailando ao ritmo que o vento vai brincando com elas.

 

A cidade vive o seu frenesim de um sábado à tarde. Misturo-me por entre a multidão que se passeia pela cidade. Os rostos vão pesados e meios tapados por causa do frio que se faz sentir. Não sei se existe um sorriso em seus rostos ou os lábios descaídos de tristezas. Sentei-me no café onde habito. Sim, onde habito, pois passo aqui tanto tempo que é quase como um compartimento de minha casa. Sento-me na mesa do costume, gasta pelo tempo, onde a cor castanha começa a ganhar terreno em relação à preta. O habitual café não tarda em chegar à mesa como um hábito. Fumo o meu cigarro de olhar posto no frio que se faz sentir lá fora, na rua de outono, numa tarde de outono.

 

É curioso como o inicio das estações tende a inspirar os escritores e pintores, de uma forma desconhecida, levando-os a escrever, ou pintar longos textos ou belo quadros. É uma inspiração da natureza que nos cresce, deixando-nos sem forma de a contornarmos.

 

Um caderno preto diante de mim, o café que queima na chávena de porcelana branca, o cigarro que ainda esfumaça no cinzeiro de vidro. Retiro dos ombros o sobretudo com padrões cinzentos e brancos, colocando-o sobre as costas da cadeira, de uma forma trapalhona. Deixo-me estar com o cachecol com os mesmos tons ao pescoço, um casaco verde tropa e uma camisola de gola alta. Abro o caderno, tirando-lhe a virgindade com algumas palavras escritas em folhas soltas. Um caderno onde quero perpetuar a minha memória, onde quero ser de alma e coração. Não interessam as opiniões exteriores a mim, não interessam os pensamentos de outros. Um caderno onde eu sou aquilo que sempre sou, de forma pura e verdadeira, sem máscaras nem sentimentos oprimidos. Comprometi-me a escrever estas palavras de uma forma tão minha, sem os tabus onde tendo em me prender.

 

Mas a vida que ambiciono, que desejo que seja minha não me deixa deixar de pensar nos esforços que sempre faço em ser a cada dia que passa, mais eu, de uma forma que possa viver tão livre quanto o voo de uma gaivota. Uma lágrima escorreu-me pelo rosto, um olhar vazio e triste para uma sala tão cheia de gentes, tão vazia de atenções.

 

Observo tudo em meu redor. Sinto os cheiros, tendo adivinhar que infusões estão a tomar os que residem em meu redor. Há uma mulher solitária e de olhar ferido a duas mesas de mim, um homem que se aquece na chávena do café, enquanto espera por alguém. Existem crianças a correr, outras sentadas, famílias e amizades em cima das mesas. E eu, no canto, onde acaba a parede de pedra e começa a vidraça, onde bate o sol já meio frio de um outono que se começa a sentir rigoroso.

 

Espalhei as folhas sobre a mesa. Algo começava a não fazer sentido neste passado que existia em mim, neste pedaços de escrita que teimo em guardar mas que já não fazem sentido absolutamente nenhum.

 

Rasgo a primeira folha. Fecho os olhos e tento esquecer o que me rodeia, aquilo que está em meu redor. Tento encontrar o caminho para o meu coração.Há um lugar vazio e abandonado, onde pedaços já desmoronaram, onde as paredes perderam cor, onde só existe o nada e o abandono. Cruzo a porta que me fecha o coração, rebentada como que num assalto, deixando ver o interior para quem quer que dele se abeire. E a vida e os sonhos, os sentimentos e as pessoas abandonaram aquele espaço feio.

 

Vivi, em demasia, da superficialidade, no sentimento falso e sem reciprocidade. Questiono-me, tantas vezes, o motivo pelo qual, certos aspetos na minha vida não resultam da forma como eu tanto luto por eles. Sinto que por vezes a vontade de baixar os braços é maior que a de lutar de uma forma brava, de lutar por aquilo que ambiciono, por aquilo que desejo, por aquilo que eu acho que mereço. Ou talvez seja este pensamento errado, o achar que mereço algo que, na verdade, eu não mereço.

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O sol foi coberto pelas nuvens negras, cheias de chuva que o forte vento trouxe. Anoiteceu, de forma repentina, trazendo o frio psicológico ao espaço onde antes estava um calor outonal, um calor de corações e de gentes. Acabaram-me os cigarros. Levantei-me e fui comprar mais. Pedi uma infusão e sentei-me, de novo, a olhar pela vidraça. As primeiras pingas de chuva caíram na vidraça, ofuscando a visão clara que se tinha da rua. Lá fora as pessoas correm de um lado para o outro. Todos fogem, só eu fico.

 

 

Fecho os olhos de novo, sinto a chávena e o bule a pousarem em cima da mesa. Concentro-me ainda mais, tentando abafar o ruído dos meus pensamentos. Uma grande cidade surge na minha mente. Vejo os seus edifícios, vejo as pessoas que circulam, com rostos indecifráveis. Alguém caminha na minha direção. Cara séria, sem sorriso nem tristeza. Caminha em minha direção, como se eu não estivesse ali. E num breve momento atravessa-me. E nesses milésimos de segundo, a minha alma fica fria. Reconheço todos os seus sentimentos, reconheço os seus pensamentos. Sinto, que em si, existe uma tristeza grande que contrasta com tanta felicidade em outros campos. Sinto que deseja abandonar algo que procura e pelo qual já sofreu tanto. Que deseja baixar os braços, tentando seguir em frente, abandonando tudo aquilo que tanto desejava, talvez por falta de forças, talvez pela forma como não foram com ele. Sinto o desejo do abraço que lhe falta, a forma como se dá por inteiro aos outros. Sinto a dor e a falta de tanto que deveria ter recebido.

 

A chuva parou e as nuvens cinzentas começam a dissipar-se. Acabei a infusão e sinto a necessidade de me recolher no meu canto, onde nada mais para além do silêncio existe. Quero refugiar-me pela falta que tive, por aquele pensamento que me perturbou. Sinto, que algures neste mundo, uma alma existe assim, longe dos meus braços para abraçar. Sinto, ainda, a tristeza de quem não consegue sorrir mas que possui uma alma tão pura, uns olhos tão brilhantes, vida onde menos espera. 

A chuva voltou...

por Ismael Sousa, em 11.10.18

Acordei com a chuva que batia fortemente na vidraça. O vento soprava-a, salpicando as grandes janelas do meu quarto. Uma neblina pairava sobre as copas das árvores, entranhando-se por entre a floresta que que se prolongava pelo monte.

 

Da minha cama conseguia contemplar todo aquele imenso cenário, de uma vista privilegiada, como um espetador na primeira fila de uma ópera, onde consegue ver os músicos que executam as partituras, os bailarinos nas suas melhores performances, as divas nos seus pontos altos. Privilegiado era assim que me sentia por acordar todas as manhãs com aquela vista. Durante o dia as cortinas estavam corridas, mas todas as noites as corria para conseguir contemplar o céu estrelado, a lua que se despedia por detrás das árvores.

 

Fiquei ali mais de dez minutos a contemplar aquele espetáculo da natureza. Fiquei até que o despertador tocou, dando sinal de alvorada numa manhã tão cheia de outono.

 

Mergulhava nestas manhãs tão cheias de estações do ano com uma enorme raridade. Os dias são passados a correr, de trabalho em trabalho, daqui para ali. Os dias são passados e as noites são o único momento de mim para mim. Mas a noite não tem estações do ano. As noites são todas iguais, algumas com nuvens, outras com estrelas. Umas com lua outras com chuva. Mas as noites acabam todas por serem iguais, frias no alto do monte, solitárias, escuras.

 

Por isso, cada vez que acordava antes do relógio tocar a hora de levantar, mergulhava em manhãs de pensamentos, sempre diferentes no seu acordar. A vidraça, virada para poente, haveria um dia de me permitir ver o sol esconder-se por detrás da montanha, na calma de uma vida que desejo ter.

 

O mundo parou por instantes em torno de mim. A neblina que por entre os troncos das árvores se dissipava, penetrava no meu pensamento de uma forma estranha, cobrindo o meu coração de uma felicidade simples. Como um suave lençol que com que se cobre um corpo nu sobre uma cama ou um véu com que se tapa a cara dos mortos. A felicidade é amarga, como um pico, um momento fugaz. A felicidade anda sempre de mãos dadas com a desgraça. Temo-a mais que a morte porque causa mais dor. E aquele suave sentimento de felicidade perturbou a minha mente, fazendo-me temer o futuro.

 

A chuva havia parado há algum tempo. O despertador voltou a tocar como de aviso se à primeira não o tivesse escutado. Olhei de novo aquela paisagem por detrás dos vidros salpicados pela chuva. Olhava de forma a perpetuar aquele quadro na minha memória, na procura de força para mais um dia. Fechei os olhos e vi na minha mente aquela imagem. Aquele pequeno pico de felicidade haveria de ficar marcada por aquela imagem. E mesmo que a dor venha a ser enorme aquele pequeno quadro, gravado com força na memória, haverá de me dar algum conforto.