Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

Quando o tempo vier

por Ismael Sousa, em 27.10.18

A tarde emergiu de uma neblina que durante toda a manhã cobriu a cidade. As folhas amarelas e vermelhas esvoaçam pelos ares, bailando ao ritmo que o vento vai brincando com elas.

 

A cidade vive o seu frenesim de um sábado à tarde. Misturo-me por entre a multidão que se passeia pela cidade. Os rostos vão pesados e meios tapados por causa do frio que se faz sentir. Não sei se existe um sorriso em seus rostos ou os lábios descaídos de tristezas. Sentei-me no café onde habito. Sim, onde habito, pois passo aqui tanto tempo que é quase como um compartimento de minha casa. Sento-me na mesa do costume, gasta pelo tempo, onde a cor castanha começa a ganhar terreno em relação à preta. O habitual café não tarda em chegar à mesa como um hábito. Fumo o meu cigarro de olhar posto no frio que se faz sentir lá fora, na rua de outono, numa tarde de outono.

 

É curioso como o inicio das estações tende a inspirar os escritores e pintores, de uma forma desconhecida, levando-os a escrever, ou pintar longos textos ou belo quadros. É uma inspiração da natureza que nos cresce, deixando-nos sem forma de a contornarmos.

 

Um caderno preto diante de mim, o café que queima na chávena de porcelana branca, o cigarro que ainda esfumaça no cinzeiro de vidro. Retiro dos ombros o sobretudo com padrões cinzentos e brancos, colocando-o sobre as costas da cadeira, de uma forma trapalhona. Deixo-me estar com o cachecol com os mesmos tons ao pescoço, um casaco verde tropa e uma camisola de gola alta. Abro o caderno, tirando-lhe a virgindade com algumas palavras escritas em folhas soltas. Um caderno onde quero perpetuar a minha memória, onde quero ser de alma e coração. Não interessam as opiniões exteriores a mim, não interessam os pensamentos de outros. Um caderno onde eu sou aquilo que sempre sou, de forma pura e verdadeira, sem máscaras nem sentimentos oprimidos. Comprometi-me a escrever estas palavras de uma forma tão minha, sem os tabus onde tendo em me prender.

 

Mas a vida que ambiciono, que desejo que seja minha não me deixa deixar de pensar nos esforços que sempre faço em ser a cada dia que passa, mais eu, de uma forma que possa viver tão livre quanto o voo de uma gaivota. Uma lágrima escorreu-me pelo rosto, um olhar vazio e triste para uma sala tão cheia de gentes, tão vazia de atenções.

 

Observo tudo em meu redor. Sinto os cheiros, tendo adivinhar que infusões estão a tomar os que residem em meu redor. Há uma mulher solitária e de olhar ferido a duas mesas de mim, um homem que se aquece na chávena do café, enquanto espera por alguém. Existem crianças a correr, outras sentadas, famílias e amizades em cima das mesas. E eu, no canto, onde acaba a parede de pedra e começa a vidraça, onde bate o sol já meio frio de um outono que se começa a sentir rigoroso.

 

Espalhei as folhas sobre a mesa. Algo começava a não fazer sentido neste passado que existia em mim, neste pedaços de escrita que teimo em guardar mas que já não fazem sentido absolutamente nenhum.

 

Rasgo a primeira folha. Fecho os olhos e tento esquecer o que me rodeia, aquilo que está em meu redor. Tento encontrar o caminho para o meu coração.Há um lugar vazio e abandonado, onde pedaços já desmoronaram, onde as paredes perderam cor, onde só existe o nada e o abandono. Cruzo a porta que me fecha o coração, rebentada como que num assalto, deixando ver o interior para quem quer que dele se abeire. E a vida e os sonhos, os sentimentos e as pessoas abandonaram aquele espaço feio.

 

Vivi, em demasia, da superficialidade, no sentimento falso e sem reciprocidade. Questiono-me, tantas vezes, o motivo pelo qual, certos aspetos na minha vida não resultam da forma como eu tanto luto por eles. Sinto que por vezes a vontade de baixar os braços é maior que a de lutar de uma forma brava, de lutar por aquilo que ambiciono, por aquilo que desejo, por aquilo que eu acho que mereço. Ou talvez seja este pensamento errado, o achar que mereço algo que, na verdade, eu não mereço.

IMG_3001.jpg

O sol foi coberto pelas nuvens negras, cheias de chuva que o forte vento trouxe. Anoiteceu, de forma repentina, trazendo o frio psicológico ao espaço onde antes estava um calor outonal, um calor de corações e de gentes. Acabaram-me os cigarros. Levantei-me e fui comprar mais. Pedi uma infusão e sentei-me, de novo, a olhar pela vidraça. As primeiras pingas de chuva caíram na vidraça, ofuscando a visão clara que se tinha da rua. Lá fora as pessoas correm de um lado para o outro. Todos fogem, só eu fico.

 

 

Fecho os olhos de novo, sinto a chávena e o bule a pousarem em cima da mesa. Concentro-me ainda mais, tentando abafar o ruído dos meus pensamentos. Uma grande cidade surge na minha mente. Vejo os seus edifícios, vejo as pessoas que circulam, com rostos indecifráveis. Alguém caminha na minha direção. Cara séria, sem sorriso nem tristeza. Caminha em minha direção, como se eu não estivesse ali. E num breve momento atravessa-me. E nesses milésimos de segundo, a minha alma fica fria. Reconheço todos os seus sentimentos, reconheço os seus pensamentos. Sinto, que em si, existe uma tristeza grande que contrasta com tanta felicidade em outros campos. Sinto que deseja abandonar algo que procura e pelo qual já sofreu tanto. Que deseja baixar os braços, tentando seguir em frente, abandonando tudo aquilo que tanto desejava, talvez por falta de forças, talvez pela forma como não foram com ele. Sinto o desejo do abraço que lhe falta, a forma como se dá por inteiro aos outros. Sinto a dor e a falta de tanto que deveria ter recebido.

 

A chuva parou e as nuvens cinzentas começam a dissipar-se. Acabei a infusão e sinto a necessidade de me recolher no meu canto, onde nada mais para além do silêncio existe. Quero refugiar-me pela falta que tive, por aquele pensamento que me perturbou. Sinto, que algures neste mundo, uma alma existe assim, longe dos meus braços para abraçar. Sinto, ainda, a tristeza de quem não consegue sorrir mas que possui uma alma tão pura, uns olhos tão brilhantes, vida onde menos espera. 

Metamorfoses de trovões!

por Ismael Sousa, em 04.09.18

A trovoada possui os céus lá fora, enchendo de luz toda a escuridão da noite. Não cai uma gota de chuva, somente a secura de uma trovoada de verão inundando de luz onde o sol há muito deixou de brilhar. Pela janela do meu quarto entram esses clarões de essência, dando existência a tudo o que está em meu redor durante breves instantes.

 

Estou deitado na cama, mergulhado no silêncio possível, submerso em pensamentos. De olhos fechados recordo cada traço do teu rosto que parece estar mesmo a meu lado. Sinto o teu cheiro que me tolda o pensamento. Os meus lábios sentem os teus lábios carnudos e dóceis, suaves e doces. Sinto o teu corpo junto ao meu, mesmo não estando. O teu respirar cai sobre mim e os teus lábios ainda percorrem o meu pescoço. O calor da tua pele, o sabor dos teus braços em torno de mim. Apertados, como se nos quiséssemos tornar um só. Esse calor apertado, esse abraço que não deixa de existir.

 

Cada palavra que escrevo se parece tão insuficiente para descrever aquilo que sinto. Mais um clarão, a breve existência em redor de mim. Tudo ganha vida tão brevemente e a minha realidade inferniza-me sabendo que não estás aqui.

 

Possuis-me mesmo não estando. Sinto-te presente na ausência que vivemos. E os teus lábios suaves nos meus, os meus dedos em tua face, eu e tu, nós e nada mais.

 

Sinto-me enfeitiçado, na estranheza e incerteza daquilo que vivo ou sinto. E estes breves instantes de uma existência real ou imaginária tornam-me vulnerável e inseguro. O meu coração fala-me mais que a razão. Sempre falou. Um dia irei arrancá-lo se me voltar a fazer sofrer. Irei atirá-lo para as profundezas do mundo para que ninguém o coloque em seu peito. E se um dia eu voltar a chorar por coisas que o coração me faça sofrer, regarei as flores do meu canteiro, para que nasçam e gritem ao mundo que o coração só faz sofrer.

 

E em amanhãs que me perca de esperanças infundadas, que no fim finde a minha vida junto ao mar das saudades que tanto sinto, morto por um clarão qualquer que me rodeie e tire de mim a vida que me sustenta, homem sem lágrimas e sem coração.

 

Novamente um clarão, vida por um instante, coração palpitante, lágrimas secas, razão censurada. Pensamentos e vida, eu e tu, nós se existir um nós. E o bater do teu coração, peça indispensável de vida, junto ao meu peito, o ar que te insufla os pulmões e me aquece o pescoço. E eu e a minha saudade. E eu e a minha existência.

 

E de novo os teus lábios carnudos, o teu corpo contra o meu. E o medo que me assola de ser mais um momento. É um último clarão, fraco, inundando fracamente tudo em meu redor. O último, o final, o derradeiro. E eu que me deixei levar pelo sono sem mais saber que existências terei no amanhã que surgirá tão certo como as estrelas brilharem mesmo por detrás das nuvens carregadas de raiva e energia. E nesse amanhã não saberei se eu estou. Talvez este último, derradeiro, final clarão me retire a vida, deixando o corpo frio, sem movimento, sem bater de coração.

EA3A4AA1-D022-47BA-91F8-D4DB632FB528.jpeg

 

Espero por ti...

por Ismael Sousa, em 10.08.18

Deambulo pelas ruas em busca de ti. Eu sei que tu não estás, mas todo o meu ser deseja encontrar-te. Vejo-te, agora, só na minha mente. Recordo com imensa intensidade o teu cheiro, o teu sorriso, a tua voz. Falta-me o calor do teu corpo junto ao meu.

 

Na minha memória guardo, com todas a minhas forças, cada momento passado junto a ti: as conversas que tivemos, os locais que visitámos, os beijos que roubámos.

 

Estou só: vive um corpo perdido sem ti. Na minha mente ecoam as perguntas de como estarás, se sentirás a minha falta e o quanto eu gosto de ti.

 

Abate-se, de uma forma intensa, sobre mim a saudade que tu me deixas.

 

Tão pouco tempo e um sentimento tão grande que transborda de uma forma que eu não consigo explicar. Falta-me as palavras, falta-me a vontade, abundam as lágrimas.

 

A distância é algo que nos atormenta, algo que se nos impõe sem que o desejemos. Um teste, talvez.

IMG_9310.jpg

 

Já não moram sorrisos neste rostos, já não resido aqui. Estou perdido e sem rumo e tu faltas para me orientar.

 

Há a esperança que ainda arde por te voltar a ter em meus braços, por sentir o sabor dos teus lábios. O meu coração palpita, as lágrimas não me abandonam. E eu... aqui, perdido em pensamentos, deambulando como morto pelas ruas, sem vontade de aqui estar.

 

Morro a cada minuto que passa, a cada quilometro que aumenta. Só eu sei Que morro por não te ter, por não saber quando voltarei a teus braços...

 

Espero por ti, nem que a chuva caia abundantemente.

 

Espero por ti, nem que as lágrimas consumam todo o meu ser.

 

Espero por ti até ao fim...

Encruzilhada

por Ismael Sousa, em 02.08.18

Seria um fim de tarde perfeitamente normal, aos olhos dos que percorriam as ruas da cidade.

 

O rio corria na sua calma que lhe é tão característica, dividindo-se por entre os pilares da histórica ponte. O sol caiava de laranja todo o espaço que percorria, espelhando no rio as árvores e arquiteturas mais próximas. Voavam andorinhas no ar, livres e ao sabor da pequena brisa que se fazia sentir. Uma tarde perfeitamente normal, um fim de tarde como tantos outros, num dia comum.

 

Junto ao varandim, de ferro gasto pelo tempo, expectador de tantas histórias de amor, de tantas lágrimas e desesperos, encostava-se alguém, com o coração apertado e o olhar perdido na imensidão do infinito. O mundo corria, sempre, indiferente. Sentava-se, voltava a levantar-se. E de novo se sentava, os óculos de sol a girar sobre os dedos, a cabeça pousada na palma da mão. Fervilhava cada milímetro do sistema nervoso. Percorriam-lhe os pensamentos pela cabeça, como seria, como não haveria de ser. O coração palpitava no peito, quase que saltando-lhe pela boca. Reviravam-se-lhe todas as entranhas, o medo e a ansiedade tomavam conta dele.

 

O tempo passava de forma lenta e acelerada ao mesmo tempo. Um miscelânea incapaz de ser compreendida, uma tempestade de sentimentos. O rio continuava calmo, o sol tornava-se cada vez mais vermelho. Circulavam gentes, voavam andorinhas. Uma voz, atrás um salto no coração. Levantou-se, corou, os nervos aumentaram.

 

Vieram as primeiras palavras ditas ao acaso, num cumprimento cordial e sem qualquer sentimento aparente. Só ele sabia o quanto estavam carregadas de sentimentos aquelas primeiras palavras. Depois, calmamente, veio o abraço apertado, o abraço que acalma, que não deveria ter fim, somente princípio e entretantos.

 

Passaram o rio ainda com tão poucas palavras ditas e com tanto ainda por dizer. Um café, uma esplanada, um coração que era agora paz.

 

É incompreensível a razão que faz o coração palpitar assim, de uma maneira estranhamente estranha. Há borboletas no estômago que só conhece quem sente.

 

O sol brilhava de uma forma especialmente especial. Viviam-se vontades e sentimentos, coisas que quase ninguém conseguia perceber.

 

Cada traço, cada olhar, cada pequeno gesto era agora percetível. A verdade estava ali, na sua forma mais pura. Houve a ânsia, o nervosismo, mas naquele momentos só a calma. A tempestade transformara-se em bonança, a calma o reflexo do nervosismo. O rio corria calmo, o sol quase que se pusera e já não notava se havia andorinhas pelo ar.

 

Num olhar comum, tudo seria normal. No coração tudo era diferente e especial. A estranheza acabara, a verdade revelara-se. As horas já eram galopantes, saltando de dez em dez minutos, fazendo passar o tempo na metade daquilo que se pensava na realidade.

 

A magia que existia no ar, a magia que existia nos sentimentos. Um coração palpitante e ansioso, era tudo o que havia para dar. Por entre os abraços e os beijos, as mão unidas ou os braços apertados, viveu-se num mundo de magia, aparentemente normal.

 

Depois, depois cresceu a saudade numa forma muito maior. Cresceu o sentimento em tudo aquilo que a vida tem para dar. Teme-se o futuro mas existe a vontade de lutar. E num amanha ainda maior e mais persistente, a vida não deixa de ser vivida. O sentimento e a saudade, de mãos dadas, vão crescendo cada um na sua medida. Um cresce para nunca acabar, o outro para se ir diminuindo cada vez mais.

 

Um coração que no silêncio e no desconhecido palpita por alguém lá longe, por amores conhecidos.

 

Este sentimento que cresce e vive, este sentimento que não deixa de existir. De tantas leituras ainda não se conseguiu encontrar forma mais bela para se descrever aquilo que se sentiu. Os sentimentos escrevem-se mas não se explicam no papel nem em palavras. Somente sentindo e proferindo palavras verdadeiras que correspondam aquilo que se sente.

 

A noite, a maior amiga e a maior inimiga dos amantes, chega e destrói. Mas existe sempre algo que perdurará no tempo, haverá sempre algo guardado em memórias, essas que são e serão sempre maiores que as palavras que se escreve um dia.

 

E no silêncio da noite, na escuridão de um quarto, ainda se sente o seu cheiro.

 

 

O que é o amor?

por Ismael Sousa, em 16.07.18

Acho que nunca percebi bem o que é o amor. Aprendi sobre ele, em tantos e variados momentos da minha vida, mas acho que nunca o compreendi muito bem, ou melhor, nunca o entendi.

Sempre que falo em amor, na minha visão do que ele é, compreendo sempre, nas minhas palavras, que o amor deve ser a dádiva a outra pessoa. Que deve fazer-se renascer a cada momento que passa, a cada dia, cada mês, cada ano.

Sempre compreendi que no amor temos que ceder e marcar posição. Que não deve ser só uma parte a ceder, mas ambas. Sempre percebi e entendi que no amor se sofre: não uma dor física ou uma dor provocada pelo outro. Mas sim aceitar e viver a dor que a outra parte sente, mesmo que pareça ridícula.

Houve alguém que disse uma vez: “se eu tivesse amnésia, apaixonar-me-ia por ele todos os dias.” E para mim, nesta minha sabedoria parva e tentativa de compreender algo que acho não conseguir ter esclarecido na totalidade, isto é o verdadeiro amor: fazer cada dia como se fosse a primeira vez.

Sou um lobo solitário sem ninguém com quem partilhar os meus dias, e por essa razão vou sendo, em muito, diário de outros. Tenho visto muitas coisas e não consigo perceber como é que alguém que está numa relação não consegue fazer mais por ela, aproveitar cada segundo com a pessoa que se ama, lutar para não a perder.

507D81B7-7ADB-4199-B339-9B56A44BCB6B.jpeg

 

Continuo a achar que o ser humano está cada vez mais centrado em si próprio, querendo que o mundo gire em seu redor do que em redor de outrem. Eu continuo a ser contrário a esta regra que me salta à vista e continuo a desejar que a minha vida gire em torno de alguém.

Amar é das coisas mais belas. Chego a esta conclusão por diversos fatores, mas também como síntese de muitas das minhas leituras. O homem procura amor mas não é capaz de se entregar ao amor. O homem procura ser amado, mas não quer amar. A ideia do geocentrismo perdeu-se há vários séculos. Mas há vários séculos que se criou o egocentrismo. O eu está a cima de tudo, independentemente da forma como se conquista essa posição. As pessoas dão mas não se dão.

Há a dor de não se ser amado, a mágoa de algum amor. E porque se passou por isso uma vez, tende-se a fechar-se o coração e a pensar somente com a razão. E a razão é instinto animal e como os animais deixamos de fazer amor passando a fazer-se sexo. Já não há amor mas relações , mas o uso de alguém para satisfação de si.

Sempre existiram pessoas Alfa. Hoje todos querem ser alfa rejeitando a ideia de se ser uma outra letra do alfabeto grego. Queremos mas não damos, esperando sempre só receber. Talvez se tenha esquecido o verdadeiro significado da palavra dar, substituindo-a por descargo de consciência.

É das coisas mais difíceis o sair-se de si em busca do outro. É uma espécie de subjugação ou humilhação perante o outro. Mas sair-se de si em prol de outrem é uma das características do amor. Hoje amam-de objetos e locais mas não se amam pessoas. Hoje ama-se de mais aquilo que não pode retribuir amor.

Compreendo e aceito na sua perfeição que o amor não é fácil. Mas amar nos primeiros dias também nunca foi difícil. Parece-me que se ama até determinado momento, mas depois vive-se, acomodado, ao lado de alguém. E achar-se que esse alguém é nosso por direito é matar o amor; tratar essa pessoa de forma má só porque achamos que ela nunca nos vai abandonar, é matar o amor. E o amor deve ser algo que se rega todos os dias e não que se arranca para não impedir que o ego cresça.

“Amar dói: se não doer não é amor”! Escrevi estas palavras um dia percebendo, à posteriori, que poucos foram aqueles que compreenderam a verdadeira essência desta frase. Amar dói porque sofremos com alguém, obriga-nos a sairmos da nossa praia, a lutar em cada novo dia.

Se amar é a coisa mais bela, porque desperdiça o homem esse dom? Se amar é a coisa mais bela, porque matamos este sentimento? 

Poesia Sempre, Sempre Pura Poesia

por Ismael Sousa, em 22.03.18

Quanta poesia escrevemos com as linhas da vida? Quantas palavras poéticas proferimos em nossos dias? Ah!, e o que é a poesia se não o fogo que arde em nós, que palpita em amor e dor? Nem todo o escritor é poeta e nem todo o poeta é escritor. Mas por esta ou aquela forma de poesia, todo o homem a sente em si.

 

[Lígia Mendes]

"Ah, mas se ela adivinhasse,

Se pudesse ouvir o olhar,

E se um olhar lhe bastasse

P ́ra saber que a estão a amar!"

(O amor quando se revela, in Poema Inéditos, Fernando Pessoa)

 

E os gestos de amor, as palavras proferidas? Os olhos que encadeiam, o poeta que se exalta. É o amor que faz escrever, a musa que inspira. Quantos amores trocados, quantas palavras entrelaçadas, quantas páginas escritas em poesias desnudadas de preconceitos e hierarquias!

 

[Amaro Figueiredo]

"Quem?

Não sei quem és. Já não te vejo bem...

E ouço-me dizer (ai, tanta vez!...)

Sonho que um outro sonho me desfez?

Fantasma de que amor? Sombra de quem?"

(A Mensageira das Violetas", Florbela Espanca)

 

E o sonho, a ilusão, a ausência de alguém. É poesia, é amor, é entranhas e ardor. Falamos normalmente e recitamos lindos sonetos de amor ou saudade. E quanta dor em palavras oculta, corações sofredores, lágrimas derramadas. Seres incógnitos, seres ausentes, escritores de sentimentos.

 

[Francisco Gonçalves]

"Se me vieres buscar,

Se me devolveres a brisa,

Se me amares apenas um pouco,

Se me fizeres sorrir,

Se me tocares assim...

Voltarei a ser eu"

(Francisco Gonçalves)

 

Há esperança na poesia, há entendimento e confusão. Há a magia e a realidade, a verdade ou pura ilusão. Contam-se as palavras, formam-se as rimas. Ah!, como eu admiro todo e qualquer escritor. E o poeta ainda mais, que falseia as palavras, que as conhece e as troca, rimando-as e encruzilhando-as em quadras e sentimentos, em sorrisos de sonho ou ilusão.

 

[Carlos Almeida]

"Ser poeta é ser mais alto, é ser maior

do que os homens! Morder como quem beija!

É ser mendigo e dar como quem seja

Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!"

(Florbela Espanca)

 

Não se pode fingir ser-se aquilo que no sangue não se é. Quantos poetas se escondem nas vielas e outros tentam alcançar uma fama que nunca lhes será verdadeira. E os poetas que escrevem em paredes, a poesia que salta das pedras da calçada. As quadras que são estórias e a história que são quadras. É preciso sentir-se antes de se ser, é preciso ser antes de sentir.

 

[José Pereira]

"Nega-me o pão, o ar,

a luz, a primavera,

mas nunca o teu riso,

porque então morreria."

(Pablo Neruda)

 

O que cabe na poesia, o que cabe num poema? Cabe tanto como no mundo, a desgraça e o amor, o ódio e o rancor. E todas as palavras, brincadas por aquele que escreve, criam encadeamentos floreados de sonhos alcançados, vitórias impensáveis, sonhos indecifráveis. Quanta poesia em nossos lábios, quantas palavras de poesia.

 

[Paulo Rodrigues]

"A minha glória é esta:

Criar desumanidade!

Não acompanhar ninguém.

- Que eu vivo com o mesmo sem vontade

Com que rasguei o ventre à minha mãe."

(Cântico Negro, José Régio)

 

Poesia não são só palavras, não são só sentimentos. Poesia são diários, poesia são palavras escritas com o sangue da vida, o alinhamento do espírito. Poesias são tumbas de almas desgarradas e amadas, de almas sofridas e sentidas. Grande é o poeta e grande é a poesia, incapaz de se conter, incapaz de se controlar. E a mim que alinho somente frases, que não sei poetizar.

 

[Pedro Miguel Teixeira]

"A São Tiago não irei

como turista. Irei

- se puder – como peregrino

Tocarei a pedra e rezarei

Os padre-nossos da conta como

um campesino."

(Sophia de Mello Breyner Andresen)

 

Poesia é o voo da alma, é ir-se até onde a mente alcança. É transpor fronteiras entre o real e o imaginário. Poesia não é só o que aparenta ser. São fontes de sabedoria, revelações e tantas palavras não ditas e escritas no invisível aos olhos insensíveis. Poesia é sempre sangue que corre em nossos corpo, coração que bate em nosso peito.

 

[Joana Simões]

"Não há limite no azul, nem no rosa perdição

Há apenas uma imensidão!

Nada é vida, nada é morte,

Tudo é esperança!"

(Joana Simões)

 

Poesia é o cigarro do tempo, que nunca se apaga e que com o seu fumo inebria as almas sensíveis. Poesia, sempre poesia. A poesia não morre, não tem tempo. A poesia vive hoje e ontem, amanha e para sempre. Viva a poesia, vivam os sonhos, os sentimentos, as emoções e o sonhos. Viva a poesia, vivam os corações de quem a escreve. Poesia sempre, poesia sempre...

 

[Ismael Sousa]

"Na verdade temos medo.

Nascemos escuro.

As existências são poucas:

Carteiro, ditador, soldado.

Nosso destino é incompleto.

 

E fomos educados para o medo.

Cheiramos flores de medo.

Vestimos panos de medo.

De medo, vermelhos rios

nadamos."

(Carlos Drummond de Andrade)

 

 

 

B57E0DC5-1087-41BF-B80A-A2C57AFC576B.jpeg

 

Cartas amarrotadas de amor!

por Ismael Sousa, em 15.03.18

823381D5-62F1-4448-B93A-78B3F1B45193.jpeg

"Esta chuva faz-me lembrar de ti. Porquê? Talvez saibas a resposta, ou talvez não. Na verdade, já nem sei se continuas a ler aquilo que escrevo. Deves ter perdido o interesse, o que é normal. Mas não faz mal. Eu vou continuar a escrever sobre ti e para ti.


Sabes, tenho escrito muito sobre a chuva. Talvez porque ela me deprima ou por outra razão qualquer. Mas tenho escrito. Escrevo aquilo que me vai na alma. Tem andado muito negra a minha alma. Os meus dias, em toda a sua diversidade, estão cada vez mais monótonos. Faço as mesmas coisas diariamente, as mesmas rotinas.


Deixei de ir ao cinema. Agora assustam-me as salas vazias ou a minha solidão. Não sei. E eu que era tão solitário na minha forma de escrever. Talvez seja do frio e da chuva.


Nunca quis a monotonia na minha vida. Gosto da diversidade. Mas a verdade é que ando cada vez mais monótono. Os meus dias são iguais todas as semanas. Já pouco saio. Os olhares das pessoas sobre um solitário andam a incomodar-me cada vez mais, dia para dia. Tenho-me fechado sobre mim mesmo, perdendo a vontade para fazer seja o que for. Agora são só dias, normais. Nasce o sol, desce o sol. Na maioria dos dias nem o vejo. Estou cada vez mais solitário e cada vez mais abandonado. E eu que tenho tanto medo do abandono.


Os meus dias são uma treta. Trabalho e trabalho. As horas custam a passar. Abandonei também um pouco a leitura. Já não leio com tanta frequência. Parece que os livros já não me satisfazem! E logo a mim que adoro ler. Também já não escrevo na máquina de escrever há algum tempo. Nela escrevia tanto sobre ti. Há tanta coisa que gostava de te ter dito.


Por vezes pergunto-me se sabes, realmente, porque falo tão pouco ou respondo de forma tão seca. Talvez não saibas. Eu também nunca te expliquei, acho eu. Em tudo o que te tenho escrito, acho que nunca te expliquei. Acho que nem deves dar importância, porque eu sou muito sentimentalista e estou sempre com o sentimento na boca. Todas aquelas vezes que te disse tantas coisas, quando estava bêbedo, levam-te, agora a desvalorizar o que eu digo, com certeza. Mas nada foi dito em mentira.


Continua a chover, por estes dias. Tenho-me sentado por debaixo da claraboia a ouvir a chuva. O quarto está escuro, somente uma pequena vela me dá à luz necessária a escrever-te esta carta. Mais uma entre tantas.


Não tenho muito mais a dizer-te hoje, por entre tantas coisas que te quereria dizer. Mas talvez me falte a coragem, me assole a ideia de te perder com palavras em demasia. Talvez já tenhas ido, sejas só memória para mim.


Nunca leves as minhas palavras muito a peito. Somente as de amor. As outras são só floreado para te dizer o quanto gosto de ti.


Vou dormir. Talvez não acorde novamente ou passe a noite a ouvir a chuva a cair, o vento a soprar. Talvez ouça o teu nome no limbo entre o adormecer e sonhar. Também já não sonho. E queria tanto ver-te nos meus sonhos e não só a vaga imagem tua na minha memória."

 

 

[Amarrotou a carta, atirou-a para o canto, para junto de tantas outras. Adormeceu ali, no chão frio, debaixo da chuva que caía, no abandono da noite, no frio do vento. Adormeceu ali, envolto em amor.]

Perco-me...

por Ismael Sousa, em 13.03.18

1.JPG

 

Poder-me-ia perder na imensidão de sentimentos que invadem a minha mente. Poder-me-ia perder na profundidade do teu olhar. Perco-me em demasiadas vezes.

 

Sinto-me preso. Há cadeias invisíveis que me prendem a este mar de insegurança que em mim existe. Olho a minha vida, as dificuldades porque passei e continuo a passar. Todos me dizem que sou melhor que aquilo que me acho, mas eu teimo na desvalorização dessas palavras. Acho-me sempre menos que aquilo que suponho ser.

2.JPG

 

 

Não encontro forças necessárias em mim para a mudança que almejo na minha vida. O amargo fel da insegurança, âncora que me segura neste porto turbulento, torna-se cada vez mais acentuado em cada dia que vou vivendo. A instabilidade de humores e vontades, as necessidades insatisfeitas.

 

Comparo-me, muitas vezes, à imagem que Charles Dickens descreve das almas penadas, no seu livro “Um conto de Natal”, cheias de correntes, feitas dos pecados cometidos nesta vida. Também eu vivo acorrentado, cheio de grilhões e de âncoras, incapaz de partir para o além, para a vida que tanto ambiciono.

 

“Abraço...”

3.JPG

 

 

 

As noites são ainda frias, cheias de pesadelos. Aninho-me na minha cama, aos cantos. Um cama enorme, vazia, comigo num canto, passando despercebido. Muitas vezes sonho com aquele espaço frio, desprovido de grande mobiliario. Uns sofás velhos, uma mesa feita de caixas, alguns livros espalhados. A escuridão da sala, a luz ténue, a poesia. Um rádio antigo sintonizado numa estação qualquer. A máquina de escrever, francesa, velha, no seu canto. Uma marca de tantas palavras escritas. As folhas dobram-se com o peso da humidade, a fita ainda tem tinta. Dou comigo muitas vezes a acordar com o barulho da máquina que escreve, o tilintar do pequeno sino que avisa o fim do carril. Escreveram-se cartas de amor, dedicaram-se palavras. Sempre aquele barulho doce do bater de cada caractere. Letra a letra, sentimento a sentimento. Fugaz, triste, âncioso, saudoso. O frio que gela os dedos e a mente, a censura que bloqueia a mente. Tenho medo de dizer de mais, medo da fuga. E foram demasiadas as palavras, embrenhadas em sentimentos.

4.JPG

 

 

Bastam-me poucas palavras para de alguma maneira dizer aquilo que sinto. Outras vezes as palavras não me chegam. Sou um ser que várias vezes mergulha num estado-depressivo-emocional-deprimente. É assim a forma de viver daqueles que constantemente sentem. É a forma de quem vive com intensidade, dá atenção aos mais detalhados pormenores, que rumina cada palavra dita, escrita, lida. É a minha justificação para as coisas, para os estados de espírito que possuo.

 

Uma ave ferida, têm sempre algum receio em voltar a voar. Mas é da sua natureza voar e não o pode contrariar. Uma pessoa ferida em amor, receia voltar a amar, mas é-lhe inato e mais cedo ou mais tarde volta a amar. Amar sem ser amado dói; não amar quem nos ama, um fardo difícil de suportar. Dois corações feridos que se amam, tendem em evitar amar. Mas o amor não é arma que fere. O amor sara, o amor ajuda a cicatrizar. Amor é tudo aquilo que de melhor há no mundo. Porque quem ama cuida, ajuda, perdoa, fala. E o abuso excessivo das palavras sem lhes conhecer o intimo, sem lhes conhecer o verdadeiro significado, desvaloriza-as, torna-as falsas. E as palavras que são tão mais verdadeiras que o sentido que lhes damos. E o gestos aos quais aliamos as palavras, dizem tanto de cada um de nós...

 

 

 

“Gostar de ti é um poema que não digo...”

 

Nunca pedi mais do que aquilo que me quiseram dar; sempre me dei por inteiro...

Exacerbação da palavra

por Ismael Sousa, em 12.03.18

4B3B3474-CEC3-4F49-AAB1-9AD9A637FB49.jpeg

Somos feitos de palavras. São elas que nos definem e sem elas a nossa existência parece reduzida a nada. Sou feito de palavras, tantas vezes sem sentido. Como-as ao pequeno-almoço, bebo-as enquanto como, vomito-as sempre que não estou bem. Palavras, vagas tantas vezes, sem sentido outras tantas. Palavras que são mais doces que o açúcar e mais agrestes que o vinagra. Palavras que matam e que constroem.

 

Odeio palavras.

 

Fumo mais um cigarro enquanto espero. Pela vidraça, ainda salpicada pelas gotas da chuva trazidas pelo vento, passam os raios de sol que agora despontam depois da tempestade. Lá ao fundo, a cidade. É a memória e património ali, ao cimo. É as gentes que por ali passaram e as outras tantas que ainda por lá estão. É a vida que cresce das pedras da calçada, as palavras perdidas entre as paredes.

 

Novamente as palavras.

 

Sinto o cheiro a mar na minha memória. O sol transporta-me para a beira mar onde me sentei a fitar o horizonte. A melancolia, a falta e a necessidade de algo mais. Podemos ter tanto, viver com tanta intensidade que mais não seja possível, mas há a falta de algo, quando recostamos a cabeça na almofada ao final de um dia. Falta aquilo que nos preenche, aquilo que fomos, aquilo que tanto desejamos ser. Fracos. Fraquezas, medos, terramotos e tempestades em nossas certezas. A confusão.

 

Fulmino palavras.

 

Como transpor aquilo que sentimos, aquilo de que necessitamos? Como fazer compreender? As palavras traem os sentimentos, são fonte de zanga e de mal-entendidos. Mas são verdade, pura e dura, são realmente aquilo que sentimos. Nada somos sem as palavras, por mais que elas nos custem. São as palavras que escrevemos, que nos dão vida. São a concretização do que sentimos.

 

Sou feito de palavras.

 

Nada faz sentido. E a vida é, muitas vezes, isso mesmo: não fazer sentido. Escrevo em demasia e nesse abuso que faço das palavras concluo que nenhumas fazem sentido. Tomo-as como minhas, mas nunca o são, nunca o foram, nunca serão. Usamo-las, brincamos com elas ou simplesmente desperdiçamo-las. E eu, na conclusão de todos os meus pensamentos, sinto que sou um desperdiçador de palavras! Uso-as como se fossem inesgotáveis. Mas esgotam-se e por vezes nem sabemos o que dizer. Talvez porque não haja nada para dizer, talvez nada tenha de ser dito. Outras vezes não se deveria dizer e nada, e eu abuso delas. Sou indelicado, sou inconveniente. Sou o que sou.

 

Odeio-me e fulmino-me!

 

Nem muito, nem tanto, mas talvez...

por Ismael Sousa, em 05.03.18

Quantas lágrimas serão precisas, quantas horas de choro são necessárias, para acalmar todo o ardor que sinto? Quantas bebedeiras necessito para te dizer o quanto te amo, a falta que me fazes, o quão especial és para mim? De que necessito para sarar este meu coração que derrama lágrimas de sangue? Ainda te lembras dos nossos cafés, as noites que passámos a falar? Tens memória de mim em algum momento da tua vida?

Longe, estamos cada vez mais longe.

 

Fui ao café, sentei-me onde nos sentávamos. Sou assim, feito de memórias, recordações, sonhos, ilusões. Estou sentado, espero-te e ao café. Ainda acredito que vais cruzar aquela porta, que te vais sentar na minha mesa e que vamos conversar com toda a normalidade. Vamos acabar o café, vamos caminhar e tu vais fazer-me sorrir. Vamos sentar-nos, vou escrever, fugindo ao silêncio, inspirar-me em ti.

Vou deixar-te com um abraço demorado.

 

O sol começa a romper por entre as nuvens cinzentas. As gotas da chuva que cessou, escorrem das folhas e dos ramos que começaram agora a dar sinais de vida novamente. Dentro de mim continua a escuridão. Os olhos são dois lagos baços, escuros, sem vida.

O frio continua, eu estou gelado.

 

As horas do meu dia são um tormento.

Dois meses sem te ver.

És importante.

 

6B563EAE-EEA3-4E64-91E4-73DEBE33E512.jpeg

 

 

Vagueio pela rua dos meus pensamentos, buscando por entre a noite algo que me aqueça o coração. Somente a fogueira dos momentos que passámos me faz aquecer o coração. Ardem como sarça ardente, como fogo que arde sem se consumir, sem desaparecerem. E é aí, a esse lume que arde de memórias, que recorro todas as noites para conseguir aquecer a alma e descansar.

Hoje vou ter insónias.

 

A cama onde me deito está fria. Os lençóis parecem ter sido tirados da rua e colocados diretamente na cama. Eu estou ainda mais gelado, no coração. Existe um coração que palpita dentro de um cubo de gelo. O sangue não é vermelho mas azul água. É gelo. Estou deitado, todo eu sou gelo. Os olhos fitam o infinito, baços e sem vida. O corpo está inerte, rijo. Todo o sangue congelou, parou. Dentro do peito não há nada que bata. Um último suspiro, a alma abandona o corpo.

De novo começou a chover.