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Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

Renascer de um útero de mar

por Ismael Sousa, em 11.03.19

Chegou com o coração carregado e a arder de mágoa. Chegou, arrastando todas as correntes que trazia agarrado a si. O peito arfava de cansaço e dor.

 

O mar estava calmo, o areal sem ninguém. Brilhavam as estrelas no céu, a lua em quarto minguante. Mas ali, junto ao mar, somente a luz do velho farol, rodando sobre si mesmo com as suas largas riscas brancas e vermelhas, alumiava os céus. Tudo em seu redor era escuridão. As ondas rebentavam diante de si. Nem um único pensamento na sua cabeça. Somente o vento que lhe batia fortemente no rosto, o frio que lhe arrefecia o corpo.

 

Sentou-se, ali onde nada mais existia. As lágrimas escorriam-lhe para dentro, tentando apaziguar a dor e apagar o fogo que dentro de si existia. Tentava encontrar explicações, perceber as razões que o levavam a tanto sofrimento. Mas só compreendia o silêncio. Rezava ao mar para que o inundasse e destruísse tudo o que havia em si. Rezava-lhe para que levasse o que de mau existia e que algo de bom trouxesse. Como se de um pequeno contrato tivesse estabelecido há muito tempo com o velho mar.

 

Mas na sua cabeça só existia o later de alguns nomes, de amores que magoaram, de pessoas que foram mais ausência que presença. A dor das promessas que ficaram por cumprir, das palavras que soaram a falso, das atitudes de que nada valeram. Tudo ao acaso. Um acaso que não existe mas liderado pela dor imensa de passados que nunca existiram.

 

Tirou os sapatos e as meias e caminhou em direcção ao mar. As calças largas e compridas esvoaçavam com o vento. A camisa branca já desfraldada, ia dançando ao mesmo ritmo. Mergulhou os pés na água gélida. Todo o seu corpo tremeu e arrefeceu de forma instantânea. Avançou pelo mar dentro, como se de alguma maneira se decidisse entregar a algo maior e que haveria visto mais dor que os seus olhos alguma vez poderão ver. Avançava como de regresso a um útero que o tivesse expelido cá para fora sem que ele o desejasse. Avançava num regresso às entranhas de um mundo, onde tudo é belo e diferente, onde tudo é passageiro. Entregava-se à morte naquele mar calmo e reconfortante, que tudo leva e tudo trás. Que tantos amores tinha levado e que nenhum havia trazido.

 

As calças molhadas até ao joelho agarravam-se agora às suas pernas, pesando-lhe no caminhar, pesando-lhe na entrega ao destino fatal, àquele que não era mais seu. Entregava-se sem resistir, sem correntes que agora o prendessem a um mundo que não era mais parte de si, do qual deixou de existir há tanto tempo, sem que se tivesse dado conta, sem que o mundo notasse.

 

E ali estava, entregue à morte, na escuridão de um mundo qualquer, na escuridão de uma praia qualquer, despovoada de gentes ou animais selvagens. Somente a morte, o mar e a luz do farol de círculos brancos e vermelhos pintados. O farol... O farol era agora a sua única âncora ao mundo que desejava deixar para trás. Era, naquele momento, como um canto da sereia, que o levava de regresso a um mundo que achava que não era seu, a um mundo que nenhuma esperança parecia dar-lhe. Mas aquele canto da sereia formulado por uma luz giratória chamava-o para uma nova existência, chamava-o para uma nova vida, uma nova forma de viver.

 

Olhou o mar novamente, sentiu o frio que o inundava. Deixou o mar e sentou-se no areal. De novo o seu olhar fitava para lá desse mar imenso. Fitava o pensamento, o seu passado e a necessidade de se desligar do que o rodeava. Levantou-se, molhou novamente os pés. Pela primeira vez a lágrima escorreu-lhe pelo rosto. Recuou.

 

Com o dedo indicador escreveu na areia molhada os nomes que latejavam na sua cabeça, ali onde as ondas acabavam por morrer, naquele limiar em que o mar leva, aquele limite onde o mar deixa. Escreveu-os um a um, primeiro e último nome, com todas as letras, com aquela caligrafia de escola primária. Por baixo traçou um traço profundo. Olhou os nomes, um a um. Amores que teve e que o destruíram. Amores que recordava em todos os dias da sua vida, desde que terminaram. Amores que consumiram a sua vida até ao tutano. Olhou os nomes um a um e tentou recordar o que havia de bom. Mas só havia dor dentro de si.

 

"Despedimo-nos aqui!", sussurrou. E pouco a pouco foi-se afastando sem tirar os olhos dos nomes que tinha escrito, do lugar onde a partir daquele dia iriam jazer. Olhou-os enquanto recuava até que o mar os apagou. E aí virou as costas, seguiu o seu caminho, com os olhos colocados na luz do farol, gigante, de riscas vermelhas e brancas, com a luz a girar sobre si.

 

Dentro do seu peito já não ardia nada. Dentro de si existia somente a calma e o renascer para um novo dia. O mar lançara-o para este mundo como se tivesse renascido novamente. Há sempre um amanhã e nova esperança e um sol a brilhar.

Metamorfoses de trovões!

por Ismael Sousa, em 04.09.18

A trovoada possui os céus lá fora, enchendo de luz toda a escuridão da noite. Não cai uma gota de chuva, somente a secura de uma trovoada de verão inundando de luz onde o sol há muito deixou de brilhar. Pela janela do meu quarto entram esses clarões de essência, dando existência a tudo o que está em meu redor durante breves instantes.

 

Estou deitado na cama, mergulhado no silêncio possível, submerso em pensamentos. De olhos fechados recordo cada traço do teu rosto que parece estar mesmo a meu lado. Sinto o teu cheiro que me tolda o pensamento. Os meus lábios sentem os teus lábios carnudos e dóceis, suaves e doces. Sinto o teu corpo junto ao meu, mesmo não estando. O teu respirar cai sobre mim e os teus lábios ainda percorrem o meu pescoço. O calor da tua pele, o sabor dos teus braços em torno de mim. Apertados, como se nos quiséssemos tornar um só. Esse calor apertado, esse abraço que não deixa de existir.

 

Cada palavra que escrevo se parece tão insuficiente para descrever aquilo que sinto. Mais um clarão, a breve existência em redor de mim. Tudo ganha vida tão brevemente e a minha realidade inferniza-me sabendo que não estás aqui.

 

Possuis-me mesmo não estando. Sinto-te presente na ausência que vivemos. E os teus lábios suaves nos meus, os meus dedos em tua face, eu e tu, nós e nada mais.

 

Sinto-me enfeitiçado, na estranheza e incerteza daquilo que vivo ou sinto. E estes breves instantes de uma existência real ou imaginária tornam-me vulnerável e inseguro. O meu coração fala-me mais que a razão. Sempre falou. Um dia irei arrancá-lo se me voltar a fazer sofrer. Irei atirá-lo para as profundezas do mundo para que ninguém o coloque em seu peito. E se um dia eu voltar a chorar por coisas que o coração me faça sofrer, regarei as flores do meu canteiro, para que nasçam e gritem ao mundo que o coração só faz sofrer.

 

E em amanhãs que me perca de esperanças infundadas, que no fim finde a minha vida junto ao mar das saudades que tanto sinto, morto por um clarão qualquer que me rodeie e tire de mim a vida que me sustenta, homem sem lágrimas e sem coração.

 

Novamente um clarão, vida por um instante, coração palpitante, lágrimas secas, razão censurada. Pensamentos e vida, eu e tu, nós se existir um nós. E o bater do teu coração, peça indispensável de vida, junto ao meu peito, o ar que te insufla os pulmões e me aquece o pescoço. E eu e a minha saudade. E eu e a minha existência.

 

E de novo os teus lábios carnudos, o teu corpo contra o meu. E o medo que me assola de ser mais um momento. É um último clarão, fraco, inundando fracamente tudo em meu redor. O último, o final, o derradeiro. E eu que me deixei levar pelo sono sem mais saber que existências terei no amanhã que surgirá tão certo como as estrelas brilharem mesmo por detrás das nuvens carregadas de raiva e energia. E nesse amanhã não saberei se eu estou. Talvez este último, derradeiro, final clarão me retire a vida, deixando o corpo frio, sem movimento, sem bater de coração.

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O que é o amor?

por Ismael Sousa, em 16.07.18

Acho que nunca percebi bem o que é o amor. Aprendi sobre ele, em tantos e variados momentos da minha vida, mas acho que nunca o compreendi muito bem, ou melhor, nunca o entendi.

Sempre que falo em amor, na minha visão do que ele é, compreendo sempre, nas minhas palavras, que o amor deve ser a dádiva a outra pessoa. Que deve fazer-se renascer a cada momento que passa, a cada dia, cada mês, cada ano.

Sempre compreendi que no amor temos que ceder e marcar posição. Que não deve ser só uma parte a ceder, mas ambas. Sempre percebi e entendi que no amor se sofre: não uma dor física ou uma dor provocada pelo outro. Mas sim aceitar e viver a dor que a outra parte sente, mesmo que pareça ridícula.

Houve alguém que disse uma vez: “se eu tivesse amnésia, apaixonar-me-ia por ele todos os dias.” E para mim, nesta minha sabedoria parva e tentativa de compreender algo que acho não conseguir ter esclarecido na totalidade, isto é o verdadeiro amor: fazer cada dia como se fosse a primeira vez.

Sou um lobo solitário sem ninguém com quem partilhar os meus dias, e por essa razão vou sendo, em muito, diário de outros. Tenho visto muitas coisas e não consigo perceber como é que alguém que está numa relação não consegue fazer mais por ela, aproveitar cada segundo com a pessoa que se ama, lutar para não a perder.

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Continuo a achar que o ser humano está cada vez mais centrado em si próprio, querendo que o mundo gire em seu redor do que em redor de outrem. Eu continuo a ser contrário a esta regra que me salta à vista e continuo a desejar que a minha vida gire em torno de alguém.

Amar é das coisas mais belas. Chego a esta conclusão por diversos fatores, mas também como síntese de muitas das minhas leituras. O homem procura amor mas não é capaz de se entregar ao amor. O homem procura ser amado, mas não quer amar. A ideia do geocentrismo perdeu-se há vários séculos. Mas há vários séculos que se criou o egocentrismo. O eu está a cima de tudo, independentemente da forma como se conquista essa posição. As pessoas dão mas não se dão.

Há a dor de não se ser amado, a mágoa de algum amor. E porque se passou por isso uma vez, tende-se a fechar-se o coração e a pensar somente com a razão. E a razão é instinto animal e como os animais deixamos de fazer amor passando a fazer-se sexo. Já não há amor mas relações , mas o uso de alguém para satisfação de si.

Sempre existiram pessoas Alfa. Hoje todos querem ser alfa rejeitando a ideia de se ser uma outra letra do alfabeto grego. Queremos mas não damos, esperando sempre só receber. Talvez se tenha esquecido o verdadeiro significado da palavra dar, substituindo-a por descargo de consciência.

É das coisas mais difíceis o sair-se de si em busca do outro. É uma espécie de subjugação ou humilhação perante o outro. Mas sair-se de si em prol de outrem é uma das características do amor. Hoje amam-de objetos e locais mas não se amam pessoas. Hoje ama-se de mais aquilo que não pode retribuir amor.

Compreendo e aceito na sua perfeição que o amor não é fácil. Mas amar nos primeiros dias também nunca foi difícil. Parece-me que se ama até determinado momento, mas depois vive-se, acomodado, ao lado de alguém. E achar-se que esse alguém é nosso por direito é matar o amor; tratar essa pessoa de forma má só porque achamos que ela nunca nos vai abandonar, é matar o amor. E o amor deve ser algo que se rega todos os dias e não que se arranca para não impedir que o ego cresça.

“Amar dói: se não doer não é amor”! Escrevi estas palavras um dia percebendo, à posteriori, que poucos foram aqueles que compreenderam a verdadeira essência desta frase. Amar dói porque sofremos com alguém, obriga-nos a sairmos da nossa praia, a lutar em cada novo dia.

Se amar é a coisa mais bela, porque desperdiça o homem esse dom? Se amar é a coisa mais bela, porque matamos este sentimento? 

Silêncios...

por Ismael Sousa, em 05.07.18

Não são as palavras que definem a essência de uma pessoa. Não são as palavras que proferimos que nos tornam grandes e enormes no mundo.

 

O silêncio. Tantas vezes o silêncio que fazemos, a ausência das palavras torna-nos grandes na forma como nos expomos ao mundo.

 

Uma janela, um horizonte e uns quantos cigarros. A ausência total de uma única palavra e tanta expressão no olhar, nas expressões faciais e corporais. Um olhar preso no horizonte, um olhar cheio de tanta palavra por dizer e quem sabe sem ninguém para escutar.

 

O silêncio quase total. Somente o barulho que nos circunda. A reflexão interna e intensa de uma alma. Os sentimentos que ecoarão naquele coração, os pensamentos que correrão em sua mente. E a tristeza ou mágoa que parece inundar o seu ser. A incompreensão que paira no ar, a confusão que provoca a quem observa. O estranho mas tão natural. O preenchimento da vida em constantes palavras que se tornam vazias são contrastadas com o silêncio que se faz ouvir.

 

Lá longe o vento ou o mar.

 

Não há palavras para dizer, é preciso sentir-se na alma.

 

Fez-se silêncio. Fecharam-se os olhos, examinou-se a alma. Suspirou-se por um mundo melhor, onde existem tochas ainda acesas que dão luz num mundo de escuridão.

 

Olhei do lado de cá, para um espelho onde me encontrei. Olhei e vi o rosto de uma alma carregada e triste. Não era eu mas é como se fosse. Era um mundo e uma total inquietação.

 

As palavras baralham-se na forma e naquilo que quero dizer. Ou melhor, naquilo que quero escrever e ler no silêncio de um mundo cheio de barulho. As palavras faladas perdem todo o seu valor, escritas podem ser lidas e relidas, podem ser recordadas e queimadas. Podem ferir ou consolar, podem ser compreensão ou simplesmente revolução.

 

Palavras, muitas ou poucas. Podem dizer e não falar. Palavras que ninguém diz e tantos sentem.

 

Silêncio, o que eu mais desejo.