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Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

Quando o tempo vier

por Ismael Sousa, em 27.10.18

A tarde emergiu de uma neblina que durante toda a manhã cobriu a cidade. As folhas amarelas e vermelhas esvoaçam pelos ares, bailando ao ritmo que o vento vai brincando com elas.

 

A cidade vive o seu frenesim de um sábado à tarde. Misturo-me por entre a multidão que se passeia pela cidade. Os rostos vão pesados e meios tapados por causa do frio que se faz sentir. Não sei se existe um sorriso em seus rostos ou os lábios descaídos de tristezas. Sentei-me no café onde habito. Sim, onde habito, pois passo aqui tanto tempo que é quase como um compartimento de minha casa. Sento-me na mesa do costume, gasta pelo tempo, onde a cor castanha começa a ganhar terreno em relação à preta. O habitual café não tarda em chegar à mesa como um hábito. Fumo o meu cigarro de olhar posto no frio que se faz sentir lá fora, na rua de outono, numa tarde de outono.

 

É curioso como o inicio das estações tende a inspirar os escritores e pintores, de uma forma desconhecida, levando-os a escrever, ou pintar longos textos ou belo quadros. É uma inspiração da natureza que nos cresce, deixando-nos sem forma de a contornarmos.

 

Um caderno preto diante de mim, o café que queima na chávena de porcelana branca, o cigarro que ainda esfumaça no cinzeiro de vidro. Retiro dos ombros o sobretudo com padrões cinzentos e brancos, colocando-o sobre as costas da cadeira, de uma forma trapalhona. Deixo-me estar com o cachecol com os mesmos tons ao pescoço, um casaco verde tropa e uma camisola de gola alta. Abro o caderno, tirando-lhe a virgindade com algumas palavras escritas em folhas soltas. Um caderno onde quero perpetuar a minha memória, onde quero ser de alma e coração. Não interessam as opiniões exteriores a mim, não interessam os pensamentos de outros. Um caderno onde eu sou aquilo que sempre sou, de forma pura e verdadeira, sem máscaras nem sentimentos oprimidos. Comprometi-me a escrever estas palavras de uma forma tão minha, sem os tabus onde tendo em me prender.

 

Mas a vida que ambiciono, que desejo que seja minha não me deixa deixar de pensar nos esforços que sempre faço em ser a cada dia que passa, mais eu, de uma forma que possa viver tão livre quanto o voo de uma gaivota. Uma lágrima escorreu-me pelo rosto, um olhar vazio e triste para uma sala tão cheia de gentes, tão vazia de atenções.

 

Observo tudo em meu redor. Sinto os cheiros, tendo adivinhar que infusões estão a tomar os que residem em meu redor. Há uma mulher solitária e de olhar ferido a duas mesas de mim, um homem que se aquece na chávena do café, enquanto espera por alguém. Existem crianças a correr, outras sentadas, famílias e amizades em cima das mesas. E eu, no canto, onde acaba a parede de pedra e começa a vidraça, onde bate o sol já meio frio de um outono que se começa a sentir rigoroso.

 

Espalhei as folhas sobre a mesa. Algo começava a não fazer sentido neste passado que existia em mim, neste pedaços de escrita que teimo em guardar mas que já não fazem sentido absolutamente nenhum.

 

Rasgo a primeira folha. Fecho os olhos e tento esquecer o que me rodeia, aquilo que está em meu redor. Tento encontrar o caminho para o meu coração.Há um lugar vazio e abandonado, onde pedaços já desmoronaram, onde as paredes perderam cor, onde só existe o nada e o abandono. Cruzo a porta que me fecha o coração, rebentada como que num assalto, deixando ver o interior para quem quer que dele se abeire. E a vida e os sonhos, os sentimentos e as pessoas abandonaram aquele espaço feio.

 

Vivi, em demasia, da superficialidade, no sentimento falso e sem reciprocidade. Questiono-me, tantas vezes, o motivo pelo qual, certos aspetos na minha vida não resultam da forma como eu tanto luto por eles. Sinto que por vezes a vontade de baixar os braços é maior que a de lutar de uma forma brava, de lutar por aquilo que ambiciono, por aquilo que desejo, por aquilo que eu acho que mereço. Ou talvez seja este pensamento errado, o achar que mereço algo que, na verdade, eu não mereço.

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O sol foi coberto pelas nuvens negras, cheias de chuva que o forte vento trouxe. Anoiteceu, de forma repentina, trazendo o frio psicológico ao espaço onde antes estava um calor outonal, um calor de corações e de gentes. Acabaram-me os cigarros. Levantei-me e fui comprar mais. Pedi uma infusão e sentei-me, de novo, a olhar pela vidraça. As primeiras pingas de chuva caíram na vidraça, ofuscando a visão clara que se tinha da rua. Lá fora as pessoas correm de um lado para o outro. Todos fogem, só eu fico.

 

 

Fecho os olhos de novo, sinto a chávena e o bule a pousarem em cima da mesa. Concentro-me ainda mais, tentando abafar o ruído dos meus pensamentos. Uma grande cidade surge na minha mente. Vejo os seus edifícios, vejo as pessoas que circulam, com rostos indecifráveis. Alguém caminha na minha direção. Cara séria, sem sorriso nem tristeza. Caminha em minha direção, como se eu não estivesse ali. E num breve momento atravessa-me. E nesses milésimos de segundo, a minha alma fica fria. Reconheço todos os seus sentimentos, reconheço os seus pensamentos. Sinto, que em si, existe uma tristeza grande que contrasta com tanta felicidade em outros campos. Sinto que deseja abandonar algo que procura e pelo qual já sofreu tanto. Que deseja baixar os braços, tentando seguir em frente, abandonando tudo aquilo que tanto desejava, talvez por falta de forças, talvez pela forma como não foram com ele. Sinto o desejo do abraço que lhe falta, a forma como se dá por inteiro aos outros. Sinto a dor e a falta de tanto que deveria ter recebido.

 

A chuva parou e as nuvens cinzentas começam a dissipar-se. Acabei a infusão e sinto a necessidade de me recolher no meu canto, onde nada mais para além do silêncio existe. Quero refugiar-me pela falta que tive, por aquele pensamento que me perturbou. Sinto, que algures neste mundo, uma alma existe assim, longe dos meus braços para abraçar. Sinto, ainda, a tristeza de quem não consegue sorrir mas que possui uma alma tão pura, uns olhos tão brilhantes, vida onde menos espera. 

Tarde outonal

por Ismael Sousa, em 21.10.18

Pensamos a poesia enquanto absorvemos aquilo que nos rodeia, deambulando pelas ruas tão cheias de gentes e tão despidas de sentimentos. Sentimos a poesia em cada olhar que trocamos, em cada pensamento que desejamos ter. A poesia é muito mais que palavras: é vida, é emoção, sentimentos e tantas coisas mais. A vida, tantas vezes a vida.

Um final tarde de outono, num domingo um pouco solarengo. As chuvas caíram tímidas e rápidas, abandonando rapidamente o espaço que lhes pertence. Dois bancos de jardim, individuais e colocados lado a lado. Um jardim no centro da cidade, praticamente abandonado e utilizado, somente, por meia dúzia de indivíduos. Alguns levantam-se do sofá para se sentarem num banco do jardim, banco comum de dois ou três. Um pouco de conversa, matar o tempo que é de mais trazido pela reforma e pelo abandono da família.

Abandonei o trabalho que me aborrecia e caminhei por espaços que conheço tão bem, com tantas estórias para contar. Vim sentar-me numa outra esplanada, livre de tudo o que me possa aborrecer. Estou só. Eu e os meus pensamentos. O pequeno lago, o arvoredo ainda verde diante de mim e o sol que ilumina o convento caiado de branco. Um café, pensamentos e muitos cigarros. São os cigarros que fumo, os cafés que tomo, a vida que tenho que me fazem penetrar neste abandono sozinho, numa espécie de introspecção e avaliação do “eu” de hoje. O passado é um premissa importante a ter em conta. O futuro a conclusão de vários pensamentos.

Existe, em mim, a necessidade de desvendar algumas suspeitas, de me desligar de passados e pessoas que nada me ajudam. Vivo isolado no meu mundo, escondido por sorrisos que não são os meus! Deparo-me, comigo mesmo, tantas vezes excluído dos espaços onde me encontro. As conversas são paralelas e não me incluem no seu leque. Amigos, colegas, namorados, nas conversas que lhes interessam, concentrados nas suas vidas. E eu, ali, na exclusão. Não que o façam propositadamente, mas por não haver o que falar. Sou, como lia num destes dias em O Paraíso Segundo Lars D., uma ilha difícil de alcançar, onde o espaço de água que a separa do pedaço de terra mais perto tende a aumentar. O fechar-me em mim por não encontrar quem se corresponda comigo, pelas ausências e pelos silêncios, pelas atitudes e desinteresses.

Falo, de forma indireta, diversas vezes, sobre os sentimentos que invadem, tantas vezes o meu coração. Falo talvez da pior forma e sinto que de alguma maneira exagero na forma sentimental como falo. Canso as pessoas com sentimentos tristes e duros, sempre com o mesmo sentimento. A mim basta-me errar uma vez mesmo que perdoe mil. Um simples erro meu faz crescer um enorme transtorno em meu redor, um afastamento e silêncios que eu tento oprimir com demasiadas coisas em meu redor. Mas chega uma altura em que o silêncio é o abandono perduram mais que eu desejo.

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Compreendo e aceito a negatividade e aborrecimento da minha pessoa, no fardo difícil que por vezes posso ser para as pessoas que vivem comigo. Sou uma alma infeliz, um corpo triste, um ser sem vida. Os sentimentos corroboram-me mais que aquilo que por vezes eu desejava. Tento ser diferente, tornar-me diferente, mas os segredos e sentimentos que oculto em mim tornam-me impotente e sem capacidades pra mudar.

Falta-me amor, falta-me vida, falta-me ser. Sou palavras tristes, sou o poema da dor, o texto do sofrimento, a encarnação da angustia. Sou o desinteresse, a vida fútil e necessária somente na necessidade de outrem. Oprimo-me, deixo de viver, deixo de ser, deixo-me.

O café esfriou, o sol já não aquece, os cigarros acabaram. Os dois bancos de jardim, diante de mim, individuais e colocados lado a lado, continuam vazios, sem enamorados que ali pousem, sem almas solitárias como eu. O mundo, a distância, a vida. O vento já sopra frevo, as lágrimas já deixaram de escorrer. Moedas em cima da mesa, isqueiro no bolso e os passos de retorno a uma realidade constante da minha vida. Novamente os espaços, as memórias e a falta das palavras. Novamente no meu espaço, no meu mundo onde não reside ninguém. A ilha que sou cada vez mais distante do mundo que a rodeia, impossível de alcançar alguém, inalcançável por ninguém. Melhor assim: a dor e a angústia que sinto guardo-as para mim. O sorriso de palhaço no rosto novamente e a vida que não para nem me permite ficar preso num espaço e tempo.

Metamorfoses de trovões!

por Ismael Sousa, em 04.09.18

A trovoada possui os céus lá fora, enchendo de luz toda a escuridão da noite. Não cai uma gota de chuva, somente a secura de uma trovoada de verão inundando de luz onde o sol há muito deixou de brilhar. Pela janela do meu quarto entram esses clarões de essência, dando existência a tudo o que está em meu redor durante breves instantes.

 

Estou deitado na cama, mergulhado no silêncio possível, submerso em pensamentos. De olhos fechados recordo cada traço do teu rosto que parece estar mesmo a meu lado. Sinto o teu cheiro que me tolda o pensamento. Os meus lábios sentem os teus lábios carnudos e dóceis, suaves e doces. Sinto o teu corpo junto ao meu, mesmo não estando. O teu respirar cai sobre mim e os teus lábios ainda percorrem o meu pescoço. O calor da tua pele, o sabor dos teus braços em torno de mim. Apertados, como se nos quiséssemos tornar um só. Esse calor apertado, esse abraço que não deixa de existir.

 

Cada palavra que escrevo se parece tão insuficiente para descrever aquilo que sinto. Mais um clarão, a breve existência em redor de mim. Tudo ganha vida tão brevemente e a minha realidade inferniza-me sabendo que não estás aqui.

 

Possuis-me mesmo não estando. Sinto-te presente na ausência que vivemos. E os teus lábios suaves nos meus, os meus dedos em tua face, eu e tu, nós e nada mais.

 

Sinto-me enfeitiçado, na estranheza e incerteza daquilo que vivo ou sinto. E estes breves instantes de uma existência real ou imaginária tornam-me vulnerável e inseguro. O meu coração fala-me mais que a razão. Sempre falou. Um dia irei arrancá-lo se me voltar a fazer sofrer. Irei atirá-lo para as profundezas do mundo para que ninguém o coloque em seu peito. E se um dia eu voltar a chorar por coisas que o coração me faça sofrer, regarei as flores do meu canteiro, para que nasçam e gritem ao mundo que o coração só faz sofrer.

 

E em amanhãs que me perca de esperanças infundadas, que no fim finde a minha vida junto ao mar das saudades que tanto sinto, morto por um clarão qualquer que me rodeie e tire de mim a vida que me sustenta, homem sem lágrimas e sem coração.

 

Novamente um clarão, vida por um instante, coração palpitante, lágrimas secas, razão censurada. Pensamentos e vida, eu e tu, nós se existir um nós. E o bater do teu coração, peça indispensável de vida, junto ao meu peito, o ar que te insufla os pulmões e me aquece o pescoço. E eu e a minha saudade. E eu e a minha existência.

 

E de novo os teus lábios carnudos, o teu corpo contra o meu. E o medo que me assola de ser mais um momento. É um último clarão, fraco, inundando fracamente tudo em meu redor. O último, o final, o derradeiro. E eu que me deixei levar pelo sono sem mais saber que existências terei no amanhã que surgirá tão certo como as estrelas brilharem mesmo por detrás das nuvens carregadas de raiva e energia. E nesse amanhã não saberei se eu estou. Talvez este último, derradeiro, final clarão me retire a vida, deixando o corpo frio, sem movimento, sem bater de coração.

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Tempo

por Ismael Sousa, em 13.12.17

Sentei-me à mesa do café. Liguei o computador e abri uma página para escrever. Pedi um chá, de frutos vermelhos. Tetley, preferencialmente. O cursor piscava na espera de começar a escrever qualquer palavra. Verti o chá na chávena, aqueci as mãos que estavam geladas. Lá fora a chuva caía miudinha. Estava um tempo estupidamente estúpido. O céu estava cinzento, o nevoeiro abundava em toda a cidade. O trânsito era o normal de uma tarde de dia laboral. O cursor continuava à espera de palavras que nunca mais surgiam. O nevoeiro fazia-me pensar, profundamente.

Beberiquei mais um pouco de chá, pousei a chávena e de seguida as mãos quentes sobre o teclado. As palavras não me surgiam. No meu pensamento só existias tu. Não queria voltar a escrever sobre o mesmo, aquilo que tenho escrito basicamente todos os dias. Mas tu eras quem me inspirava e só poderia descrever aquilo que sentia dentro de mim.

Escrevi uma frase, mas não gostei do que escrevi. Comecei novamente a reescrever, mas as palavras eram sempre as mesmas. Fechei a página, desliguei o computador e deixei-me ficar, simplesmente a contemplar o infinito.

Está frio na rua. Na minha mente a cena de uma sala, lareira acesa, um filme na televisão. No sofá, nós os dois, perdidos nos abraços eternos, assistindo a uma comédia francesa. E a saudade e a melancolia. E o sentimento de quanto mais tenho, mais quero ter.

Acabei o chá e saí do café. O vento que soprava era gelado. Puxei a gola do casaco e caminhei sem destino pelas ruas da cidade. Tudo me parecia cinzento, sem cor, sem alma. Cruzei uma esquina e na parede uma frase escrita. “Gosto de ler o que as paredes dizem”, disseste-me uma vez. E esta frase falava de saudade. Apertou-se-me o coração.

Caminhei sem destino e desprovido de qualquer pensamento até à baixa da cidade. O Mondego corria indiferente ao que se passava em seu redor. Abeirei-me do muro da ponte e deixei-me ficar, olhando o curso que o rio levava, indiferente a tudo em meu redor. No rio, a minha imagem refletida. Senti-te aproximar, encostares-te a mim e dizeres um “que contas?”. Mas era só imaginação minha porque o reflexo do rio continuava a mostrar somente uma silhueta. Um novo apertar no coração e a necessidade de sair dali. Fui até casa, abri a porta e perante mim o nada. Acendi a lareira, liguei a televisão e sentei-me no sofá. Um copo de vinho na mão, uma manta sobre as pernas. Pensei em ti.

Acordei com o telemóvel a tocar. A lareira estava praticamente apagada, a televisão desligada e o copo de vinho vazio no chão. Um número qualquer desconhecido. Não atendi e atirei com o telemóvel pelo sofá. Enrolado na manta, coloquei mais um cavaco na lareira e encostei-me à janela da varanda. O tempo cá fora continuava estranho e eu só queria estar abraçado a ti. Deitei-me novamente no sofá, bebi mais meio copo de vinho e deixei-me adormecer. Sentia demasiadas saudades tuas para fazer fosse o que fosse. Sentia-me perdido e vazio. E no visor do telemóvel uma mensagem tua: “Abraço-te”

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Até ao fim do mundo!

por Ismael Sousa, em 12.12.17

Não sei como começar este texto. Simplesmente não sei. Queria começar de uma forma poética, amorosa, de um forma que cativasse logo na primeira frase. Queria uma forma original, diferente, algo não tão comum como as palavras que escrevo constantemente. Queria, simplesmente, começar de forma diferente. Mas a imaginação não deixa, as palavras parecem escassear. Escrevo e apago inúmeras vezes. Simplesmente não sei como começar.

 

E porque não sabia como começar, comecei simplesmente com palavras confusas e sem intenção declarada ao inicio. Comecei e vim por aí, sem grande sentido, somente numa enorme confusão.

 

Quero escrever, sinto essa necessidade. Mas não sei sobre o que escrever. Tudo parece tão banal, tão sem sentido. Não quero falar de tristezas mas também não quero falar de amor. E estes são sempre os dois temas inspiradores de qualquer escritor. Ou somente meus, não sei. Por vezes generalizo para não me sentir tão sozinho.

 

Preciso urgentemente de escrever. Não quero falar de tristezas porque me afundam. Não quero falar de amor porque me traz saudades. Então não sei sobre o que falar. Talvez do tempo e do frio que se faz sentir.

 

- Faz frio lá fora.

- Sim, está gelado!

- Como o meu coração.

- E não há fogo que o aqueça?

- Faz frio lá fora.

- Parece que vai chover...

- Não, sou eu que estou com saudades...

- E de quem tens saudades?

- Parece que vai nevar.

 

E o mundo gira, indiferente a mim e a outros. Gira na sua enormidade, na sua grandeza, na sua infinitude. E eu perco-me a debruçar-me sobre a forma como começar. E comecei, sem dar por isso. E escrevi, num tanto sem sentido, numa tentativa de manipular as palavras que uso no dia-a-dia, sem que elas sejam especiais ou belas, mas simplesmente banais, como eu.

 

- Começou a chover.

- (silêncio)

- Parece que veio para ficar...

- Somos seres tão comuns...

- Não trouxe guarda-chuva. Vou apanhar uma chuvada.

- E se o mundo um dia parasse para pensar.

- Vou-me embora antes que chova mais.

 

E porquê que tudo tem que ter um belo inicio? Porque teremos que desvendar todos os mistérios no princípio? E a mística do ir desvendando onde está? A vontade de querer tudo saber para depois não ter nada que conversar? Surge a dúvida constantemente na minha mente. Odeio a dúvida. Odeio-a porque talvez a ame de mais, porque ela me faça questionar tanta coisa que era tão certo antes. Não sei por onde começar, nem que palavras usar. Soa-me tudo tão estúpido.

 

- Vens?

- Não, fico mais um pouco.

- Olha que depois apanhas uma grande molha.

- Gosto da chuva.

- Mas está tanto vento...

- Gosto da chuva e do vento. Do som a bater na vidraça. De caminhar à chuva e de chegar a casa encharcado.

- Não sejas doido, anda-te embora.

- Não, eu fico mais um pouco.

- Teimoso! Até logo.

- Não vás, fica comigo...

 

E em tantas reticências para começar, comecei e acabei, sem escrever nada em condições. Devaneios, loucuras. Nada mais. Comecei e terminei porque necessito sempre de terminar. Não gosto de pontas soltas e já há tanta ponta na minha vida a que eu não consigo dar um nó. Comecei e acabei sem dizer nada. Somente palavras encadeadas, loucuras mais que expressas. E todo o âmago, toda a amargura, indiferença e insensibilidade. A chuva bate fortemente na vidraça, o vento leva consigo as folhas que ainda se prendem nos ramos das árvores.

 

- Vou-me embora!

- Não vás, fica!

- Vens?

- Onde?

- Vens?

- Até ao fim do mundo.

 

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Enquanto a chuva cai!

por Ismael Sousa, em 11.12.17

Chovia intensamente. O vento soprava de forma tão furiosa que as copas das árvores entrelaçavam-se umas nas outras, quase tocando o chão. Estava uma noite de tempestade.

Adormecera no teu abraço, no teu colo. Não sei quanto tempo dormi, mas quando acordei com o rugir do vento e a chuva a bater na vidraça, tu dormias suavemente. Deixei-te na cama e fui sentar-me à secretária que estava de frente para a cama, a janela à direita e a porta à esquerda. Acendi a pequena luz do candeeiro, peguei a caneta de tinta permanente e abri o caderno de capa preta. Inspirei-me em ti, sobre a cama, o lençol a delinear as linhas do teu corpo. A caneta deslizou freneticamente sobre as folhas do caderno. Escrevi páginas e mais páginas, numa escrita que seria guardada só para mim. Nem tu, que repousas na cama as irias ler.

A chuva batia com muita intensidade na vidraça. Fechei o caderno, arrumei-o na gaveta e fitei a noite tempestuosa. Um forte trovão fez-te acordar. Fitas-te-me e eu voltei para a cama para junto de ti. Repousei a cabeça sobre o teu peito. Envolveste-me num abraço caloroso. O meu pensamento parou. Sentia-me bem no teu abraço e deixei-me ficar. Não existiam palavras entre nós, somente o silêncio. E a chuva e o vento forte que batiam na vidraça da janela. Voltámos a adormecer.

Acordei e a tempestade ainda não tinha passado. Olhei o teu rosto sereno que fitava o infinito. Passei-te a mão pelo cabelo, algo que tanto detestas mas a que eu não consigo resistir. Fechei os olhos e os teus lábios tocaram o meu rosto. Pequenos toques, suaves. Sentia o teu respirar, pesado, mas envolvido numa imensa ternura. E eu perdido em tantas emoções que era incapaz de as expressar. Optei por me deixar estar.

O teu rosto junto ao meu, num imenso mar de tranquilidade que eu aproveitava em cada segundo, marcando-o na minha memória. Os teus suaves lábios beijavam o meu rosto milhões de vezes e em cada vez era diferente, suave, carinhoso. Descobria os teus movimentos pelo ar quente da tua respiração. E sentia esse respirar tão perto da minha boca que só queria beijar-te os lábios. Deixei-me ficar, sem querer apressar nada. Entre nós nunca tinha existido nenhum contacto físico, somente em abraços bem apertados. Eu desejava beijar-te todas as vezes que te tinha comigo, mas resistia sempre a essa tentação, com medo de apressar algo que estava a ter um caminho tão belo. Deixei-me estar, calmo exteriormente, nervoso interiormente. De vez em quando abria os meus olhos e via-te perdido com o olhar no infinito. Tentei ler-te, mas como sempre tornavas-te impossível de ler. Os teus olhos brilhavam e tinhas pensamentos que eu não consegui decifrar. E uma e outra vez fechei os olhos, mergulhando em milhares de emoções.

Sim, eu sou muito emocional e todos os momentos vivo-os cheio de sentimentos, incapaz de os deixar de lado. Brilhavas intensamente na minha mente e em todos os momentos em que não estou contigo, não me sais do pensamento. A importância que fostes tomando não a consigo descrever, somente sentir. E ia sentindo todos os teus movimentos, o abraço apertado. Procurei-te o rosto, beijei-te suavemente. A tua pele é suave, cuidada, contrastando com a minha tão gasta pelo tempo, tão envelhecida. O sabor do teu rosto, gravado a fogo na minha memória para não esquecer, tornava-se cada vez mais claro.

Não sei quanto tempo passou e nem queria saber. Sentia-me confortável, seguro, e em mim só existia a enorme vontade de não querer que aquele momento terminasse. O teu abraço seguro, quente e que afastava todos os meus medos. De novo me foste beijando o rosto e eu estava tão bem, tão calmo. Mas dentro de mim crescia a tão grande vontade de te beijar, de sentir os teus lábios nos meus, desvendar finalmente o sabor de ti.

E enquanto a chuva caía indiferente ao mundo, o vento soprava, causando destruição e mostrando um pouco do seu poder e as pessoas corriam para os seus trabalhos, atarefadas, o trânsito que não avançava, nesse momento em que fora das paredes daquele quarto parecia só existir caos, os teus lábios tocaram tão suavemente os meus que eu pensei ser somente imaginação minha. Mas não. Os teus suaves e doces lábios tocaram os meus e, naquele momento, o mundo parou para mim. Milésimos de segundo, num suave beijo, foram como uma eternidade. E olhei-te nos olhos e tu não desviaste o teu olhar.

E o vento e a chuva que continuaram a cair. E nós, eu, tão indiferente a tudo em meu redor. Só existias tu, nada mais faria sentido. E um outro beijo e eu aninhei-me no calor de ti, no conforto do teu abraço, na paz do teu colo.

Sou ambicioso e quero sempre muitas coisas. Quero mais e mais. Mas ali, naquele momento, eu não quis mais nada, somente ficar eternamente ali. E o teu sorriso, o teu olhar, o doce sabor dos teus lábios. E eu e tu, ali, somente os dois, sem mais ninguém, sem palavras embaraçosas, sem pressas nem vergonhas. Eu e tu; os dois; ambos; nós. E os pensamentos que deixavam de existir, e os sentimentos que fluíam no ar. E eu, que imagino tanto, que sinta, talvez, pelos dois. E as palavras secretas que escrevo nas noites sombrias, nas noites claras e dolorosas. E os cadernos pretos que dizem mais de mim que eu possa imaginar, que me põem a nu, que me desvendam a alma, que me desmoronam. E tu, que me desconstróis em cada palavra simples, em cada gesto e abraço, em cada beijo suave.

Adormeci, contrariado, com medo de ser tudo um sonho. Adormeci numa tranquilidade que poucas vezes acho que senti. Adormeci esperando que quando acordasse tu ainda ali estivesses.

Preciso de um abraço teu...

por Ismael Sousa, em 09.12.17

Perco-me todos os dias nas memórias dos tempos que passámos juntos. Sinto o amargo nas palavras que me surgem na cabeça. A saudade é fel que me faz vomitar. Odeio este sentimento tão horrível que aprisiona o sorriso que tenho vontade em demonstrar.

 

E tantas, tantas as palavras que eu gostaria de dizer, ou somente escrever. Mas algo aprisiona o meu pensamento, a minha mão atrofia, impedindo-me de escrever aquilo que sente o coração. Falta-me o sangue, emoções a mais correm nos meus vasos sanguíneos.

 

Sinto-me perdido em labirintos sem saídas, aprisionado, em que nem os gritos de pranto são ouvidos por quem está em meu redor. Sou um ser baralhado, confuso, onde o caos se instalou dentro de mim, apoderando-se de todo o meu coração. A mente já não ordena, o coração comanda todas as minhas atitudes.

 

Acobardo-me, na noite da minha existência, deixando escapar as oportunidades que diante de mim tomam forma.

 

Faltam-me pequenas coisas, tão simples, mas que me destroem em cada minuto de distância. E a imprevisibilidade, a falta de conhecimento de quando te voltarei a ver. E tudo o que queria era deleitar-me novamente em teus braços, sentir os teus lábios suaves no meu rosto. Sentir o calor do teu corpo, o silêncio de palavras e os gestos tão cuidados e assertivos.

E nesse teu abraço apertado, no calor que emanas, do carinho com que me tocas, o caos vira tranquilidade e só me assola o medo de ter de os deixar. O teu abraço, sempre tão carinhoso. Falta-me.

 

Há o sonho. Aquele que lembro ou que acho que nunca tive.

 

Há a vontade de ter algo, desejar algo. Depois o triste contraste com a realidade que te faz perceber que tantas coisas um dia não se irão realizar.

 

Há as pessoas, aquelas que desejamos ter a nosso lado, que desejamos ter eternamente na nossa vida.

 

Há tantas coisas nesta vida que deixaram de fazer sentido, ou que continuam a ter, não sei. Há mais incógnita a pairar no ar que respiro que as certezas que possa ter. Somente a certeza de não ter certeza de nada.

 

Fecho-me. Fecho-me para um mundo que não sabe amar, para as pessoas que só sabem usar. Cansei, fartei, desisti. Não quero ser marioneta em mãos alheias, não quero ser uma vez mais descartável. Também eu sinto, também eu rio e choro. Também bate dentro de mim um coração, ainda que revestido de caos. Mas não deixa de bater, eu não deixo de sentir.

 

E eu que sou mais emotivo que alguém possa pensar, sou mais frágil que aquilo que possa aparentar. E chove. Na rua mas também dentro de mim. Só que ninguém sabe, porque as janelas da alma estão embaciadas, as portadas fechadas. E eu inundo-me constantemente, deixando de possuir qualquer vontade em mim. Somente a enorme necessidade de transbordar, de abrir as portadas e as janelas que encobrem toda a minha mente. E falta-me tanta coisa e um misto de nada ao mesmo tempo. E a alma abandona-me, correndo por um mundo ainda por descobrir, deixando-me sem orientação.

 

Um calafrio. O calor do teu abraço momentâneo, as imagens de ti a percorrerem-me a mente. Preciso de ti, de uma forma que nunca compreenderás. Qual timoneiro de uma barca que navega pelos mares dos sentimentos, dando orientação a quem nela embarca, atracando em porto seguro. E eu, e eu, e eu. E tantas vezes o 'eu' que surge dentro de mim, questionando toda a minha forma de sentir e de ser. E o medo de perder. E tantos outros medos e, novamente, o erro de perder. E a minha vontade tão contrária aos meus medos. Querer arriscar e ter medo. Querer dizer e ter medo. Querer ter e ter medo. E eu e os medos, os meus medos, que são gigantes dentro de mim, que são monstros que me destroem.

 

Preciso de um abraço teu.

 

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Filosofia da Loucura

por Ismael Sousa, em 30.11.17

Temos sempre de partir. Inevitavelmente, por tantas coisas na vida, temos sempre que partir. Deixar para trás algo que nos faz bem, alguém que fica e alguém que parte. Temos sempre que partir, talvez porque há o mundo e as suas circunstâncias. Temos sempre que partir.

Gostaria de criar um mundo onde cada partida fosse uma nova chegada. Que todo o espaço de tempo fosse, simplesmente, um fugaz momento de ausência. Que cada momento bom durasse eternidades e não fugazes minutos. Um mundo onde o tempo parasse nos momentos em que o coração transborda, em que a alma brilha, em que a mente pára, que a produção de hormonas está no seu auge. Parar, simplesmente e perpetuar esses instantes. Um mundo, simplesmente, bom.

Custa sempre partir, porque significa que estamos bem, que aquele estado de satisfação nos proporciona tudo aquilo que achamos desejar. Custa sempre partir e em cada minuto do regresso é como uma adaga que perfura o corpo, que corta todas as cordas que seguram um coração fraco.

Saber que as ideias são tão díspares, mas que mesmo assim se teima em discutir. Um discussão onde não há vencidos nem vencedores, mas que enriquecem tanto, que criam dúvidas, que fazem repensar. Ter certezas de não ter certezas de nada.

E depois, quando a noite chega e ficamos na solidão do quarto, na cama fria, a saudade de tanta coisa e as palavras que restam. E eu que teimo em ter a mania que consigo brincar com as palavras, escrevo páginas infindas de sentimentos, de sonhos e de sentimentos. Páginas de palavras que guardo no meu silencio, no meu segredo.

E se houver quem goste de ler as palavras que escrevo? E se existir quem sinta o que eu sinto, se reconheça nas minhas palavras e sentimentos, nas minhas saudades e melancolias? E se houver quem goste de me ler? Não há certezas de nada, principalmente agora que ficou instaurada a dúvida.

Há refúgios, locais e pessoas que nos abraçam de forma tão especial, que nada mais consegue ocupar esse lugar na mente.

E há a distância que tanto se faz sentir. Há a saudade e todas as coisas que ela comporta. E o cheiro, o perfume que trazemos, que nos retoma para lugares e pessoas tão especiais. E há palavras ditas e não ditas, segredos tão nossos que ninguém os conseguirá descobrir. Há tanta coisa, tanta mística de cosmos e imperfeições, tantas incertezas de certezas. E um vento que leva e traz, que apazigua e provoca. E há tanto e nada ao mesmo tempo.

E, eu, aqui, deitado sobre a cama, sentado à secretária, em frente ao computador ou com o caderno nas pernas, divago num mundo tão só meu, tão incompreensível. E a escrita que suaviza e se torna insuficiente tantas vezes. Há o tanto e o tão pouco. Há tanta coisa e tão pouca ao mesmo tempo. E as palavras, sempre as palavras, tão suaves ou agrestes, que libertam o ser que há dentro de mim, que libertam a felicidade ou a tristeza, o amor ou o ódio. E tudo aquilo que sinto, mascarado em tantas vezes na profundidade das palavras, algumas tão sem sentido. Mas há, existe! E a falta de lógica ou sentido daquilo que escrevo, das frases que não levam a lado nenhum, das entrelinhas tão pouco percetíveis. A loucura aliada à miscelânea de palavras. E frases inacabadas, sem sentido, provas irrefutáveis da minha loucura diária. E estas publico-as, outras talvez não. Cadernos e cadernos, folhas e mais folhas, manchadas com palavras, num segredo tão só meu que é tão difícil de compreender. Porquê partilhar aquilo que sinto? Porquê transpor em palavras os momentos que vivo? Para lhes dar vida, para lhes dar memória nas noites em que aperta o abandono, nas noites em que a lágrima cai. E essa, a lágrima, molécula que contêm em si todos os sentimentos que transbordam do coração, essa lágrima por vezes tão fatal e tão essencial, essa que liberta e ajuda a seguir em frente, já é tão rara.

Talvez eu já não sinta ou os meus sentimentos sejam tão frios que gelam ao saírem do coração. Pequenas gotas em oceanos tão grandes como a imensidão do universo. Onde estão as certezas, onde está tudo aquilo que não tenho? E que quererei eu? Será que não tenho já aquilo que procuro e não consigo ver? Onde estão os olhos essenciais do coração que veem aquilo que os olhos do rosto não veem? E onde estará o sentido de tudo aquilo que nesta manhã escrevi? Que sentido terá, que repercussão terá? E o tanto e o nada. E a falta de sentido. E relendo tudo o que escrevi, nada faz sentido ou, na loucura que se apodera de mim, um sentido que só eu sei explicar.

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A braços...

por Ismael Sousa, em 28.11.17

Dá-me um abraço.

Não um abraço qualquer, mas um abraço longo e demorado.

Dá-me um abraço quente.

Dá-me um abraço onde esqueça tudo o que me atormenta, onde eu me afogue em paz, conforto, carinho. Não quero um simples abraço, mas um abraço cheio de sentido.

Abraça-me de uma forma tão especial que fique marcado na memória, aonde eu queira voltar sempre, todos os dias. Abraça-me com força.

Abraça-me de tal maneira que não exista desejo de sair dele, independentemente do mundo e das suas circunstâncias.

Um abraço, a forma mais silenciosa de se dizer tanta coisa. E tanto eu quis dizer e tudo ficou dito num abraço. Um abraço quente, especial e demorado.

Quero um abraço que me inspire, que me faça desabrochar o sorriso mais sincero, que me faça esquecer tudo. Um abraço que faça esquecer toda a saudade.

Um simples e especial abraço, é tudo o que quero.

Há abraços de tanta coisa, mas só alguns são especiais. Só alguns transmitem tanta coisa que acabamos por deixar encher um coração tão partido e cheio de coisas menos boas. Um abraço que faz transbordar, que preenche. Um abraço tão especial como a pessoa que o dá. Aquele abraço que vem até nós, de forma tão inesperada. Aquele abraço que é muito mais que um abraço.

E ali ficava eu, enrolado naquele abraço numa eternidade tão longa quanto o infinito número de estrelas no céu. Infinitamente num abraço que apazigua todo o turbilhão de ideias e sentimentos mais obscuros. Ficar, simplesmente ficar, mergulhado no infindo calor de um especial abraço.

E as palavras que são tão poucas e pobres para descrever abraços tão especiais. Palavras que serão sempre poucas, insuficientes, ocas, meras palavras, vulgares. Somente o sentimento que transborda depois de um abraço tão quente.

Dá-me um abraço maior que o infinito do universo, maior que o pensamento, maior que todas as palavras que se possam proferir. Um simples e eterno abraço.

Dá-me o abraço!

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Embebedar-me!

por Ismael Sousa, em 27.11.17

Apetece-me um copo de vinho. Um bom vinho tinto, maduro, com o amargo das castas. Apetece-me um copo de vinho, um bom livro ou uma boa conversa. Apetece-me um copo de vinho, escrever um pouco, deixar a mente fluir.

Sinto em mim o peso de um passado que me impede de avançar. São amarras, são grilhões que me impedem de sair deste estado de melancolia. A enorme vontade de seguir, mas algo me ancora a este estado presente, a este estado de devassidão total. Sinto-me um nada, tão sem sentido.

Recordo as noites de frio e chuva. Os espaços e as ruas que percorremos. E parece-me tudo tão distante, num tempo longínquo que já lá vai. Há a noite, o café, aquele banco do bar. Tantas pequenas coisas que me saltam na memória, evocando um tempo de sorrisos francos e conversas intensas.

Falta-me a discussão, a presença, a mística que me faz sentir vivo novamente. E, novamente, tudo parece tão distante, acabado, passado. Uma força que desejo sentir em mim, que desejo ver viva novamente em todo o meu ser, em todas as minhas entranhas.

E, de novo, o bater intenso do coração, atado com cordas para segurar o pouco que ainda resta dele. É um coração remendado, atado com cordas velhas e amarras remendadas. É um coração frágil que com muita facilidade deixa de bombear energia para o corpo desfeito que o possui. É amargura, frieza, tristeza. É um misto de ideias, de melancolias e dores. É um cofre, um pequeno cofre, que guarda todas as palavras, todos os gestos, todas as emoções. Talvez pequeno de mais para guardar tanta coisa, pequeno de mais que transborda com imensa facilidade.

E a falta, a saudade. Essas são as moléculas que percorrem o meu sistema circulatório, que vão dando alimento às células negras do meu ser. E uma alma, que cheira a podre, que emana odores desagradáveis. E o pensamento e a falta de palavras que descrevam o que sinto.

Apetece-me desaparecer, sair, ir para longe. Conhecer novos mundos, novas pessoas, novas culturas, novas experiências. E depois? Não há ideia de depois, porque esse foi sempre uma desilusão. E há o cosmos, e a existência do ser. Há tanta coisa que este corpo guarda dentro de si. Uma caixa de pandora, prestes a rebentar e deixar sair de dentro de si tudo aquilo que de mau se possa imaginar.

E ao mesmo tempo todo o sentimento de liberdade, todo o sentimento de necessitar de uma solidão retemperadora. De voltar a encontrar, por entre tanta coisa, a estabilidade que já senti, a não necessidade de outras coisas para ser eu.

Abandonado, esquecido, ignorado, deixado. Tem de haver um fim, tem de existir um ponto de viragem. Um copo de vinho, maduro, agreste, quente. Uma lareira e milhões de pensamentos. Há um todo e um nada, uma filosofia sem lógica nenhuma.

E as palavras que podem ser tão falsas. E de nada valem se as ações são contrárias. Contudo são as que mais magoam, as palavras falsas. Amar sem amar, adorar, sem adorar, gostar sem verdadeiramente gostar. As pessoas não são objetos que se possam abandonar sem se dar uma justificação. Não é justo! Continuar a pensar sabendo que nada mais existe. Não é correto, não é justo, não se faz. E no fim, agora, sempre, o que permanece não é o ódio mas sim o amor aliado ao sentimento de saudade.

Nada faz sentido. Tragam-me antes uma garrafa de vinho, tragam-me um copo e deixai-me enche-lo as vezes que desejar, deixar-me embebedar por algo real e não por ilusões. Deixai-me aqui, longe mas sem sentimentos.

 

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