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Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

Tantas vezes o eu!

por Ismael Sousa, em 21.11.18

(Colocar a reproduzir antes de começar a ler)

Estou deitado na minha cama. A chuva bate fortemente na claraboia do meu quarto. O meu pensamento... Ah!, o meu pensamento. Quem sabe por onde andará. Quem sabe? Sinto-me... perdido, triste. Sinto-me como se não tivesse um amanhã ou que o meu amanhã fosse tão fútil, sem sentido.

 

Perco-me diversas vezes nas minhas palavras. Perco-me na futilidade, naquilo que eu acho que pode ser importante mas que é somente o rosto amargo da minha ilusão.

 

A chuva, a esplanada, o café, a vidraça, o cigarro que fumo incessantemente. São tudo momentos de dor, melancolia. A saudade daquele tempo que já não existe. São pedaços de mim, são a falta de ti.

 

Eu! Tantas vezes o eu. Eu que penso, que paro, que me acho diferente de todos os outros. Eu, tantas vezes o eu. Ser da monotonia, do cansaço, da fragilidade. Eu, tantas vezes o eu. Tantas dores comuns a todos os outros e achar sempre que são dores maiores. Qual será, na verdade, o tamanho das dores? Qual será, na verdade, a verdadeira dor?

 

A chuva, na vidraça, é como a chuva no meu coração. Qual coração qual quê, se o coração é somente mais um órgão funcional em todo o corpo que me faz sobreviver. Corações não existem, não sentem. Os corações são órgãos vitais.

 

Eu, exagerado em toda a forma de sentir, onde me refugio nestas palavras ocas, sem sentido, onde as frases estão perdidas, onde as frases não são mais que meras e simples frases. Eu, quantas vezes o eu?

 

Sinto-me como se fosse, por vezes, um pobre desgraçado que só tem razões para chorar, quando, talvez na verdade, eu só tenha razões para sorrir. Mas falta-me... falta-me algo! Falta-me aquilo que eu não consigo explicar e que nem as palavras conseguem transparecer. Ah!, essas... essas que são as verdadeiras palavras. Aquelas que eu escrevo nesta noite, que pronuncio no meu pensamento. Essas palavras que são meros “eus”, espelhado numa escrita fútil, sem sentido, onde ninguém lê, onde abunda o exagero. Essas palavras onde eu me perco, são somente sentimentos que existem dentro de mim.

 

Não me interessa se existem no pensamento, se existem no cérebro, ou se existem no coração. Existem dentro de mim, neste ser que eu sou.

 

Amo. Amo tanto. Amo de uma forma que não tem medida. Sou assim! Sou assim como a chuva que cai, como a folha que voa ao vento: um simples acontecimento da natureza.

 

Ah!, esse coração que me enfurece! Não me interessa se é somente um órgão. É aquele coração dos sentimentos, aquele coração que existe dentro de mim, que palpita mais forte quando eu estou feliz, que palpita nas noites em que choro mesmo quando a lágrima não cai. Esse coração, órgão ou ficção, é parte de mim. E a chuva, o vento, o frio, o sol, o café, a esplanada, a vidraça, o cigarro, o olhar no firmamento ou no horizonte são partes de mim com as quais eu tenho que viver.

 

Não me digam que eu posso ser diferente, porque eu não posso ser diferente! Eu sou assim! Esta é a minha forma de ser.

 

Encharco-me demasiadas vezes em bebida para não pensar naquilo que me vai na mente nem... nem na forma como a minha vida está tão vazia, tão oca, tão sem sentido. Preencho cada minuto do meu dia para evitar pensar, para evitar sentir. Mas quando me abunda o tempo e eu não sei o que fazer, entristece-me a alma. Deito-me na cama, cubro-me com os cobertores, tento adormecer. Mas o pensamento é mais forte e não me deixa... não me deixa adormecer.

 

Ah!, que saudade, que fado o meu. Duas palavras tão simples mas que transmitem tanto de mim. Uma saudade sempre eterna, um fado que eu não conheço mas que ouso cantar. Um fado que eu gostaria de escrever ou uma saudade que eu gostaria de saciar.

 

Eu! Eu. Perdido nas palavras, perdido na vida. E todo aquele sentimento, toda aquela vontade de querer ser diferente, de não ser um filho da melancolia ou da tristeza. Ser um filho da alegria e do sol que brilha no firmamento. Eu, tantas vezes o eu. O olhar em demasia para o meu umbigo, o perder-me em demasia nos meus pensamentos.

 

Mas eu também me perco nos outros, porque só perdendo-me nos outros a minha vida ganha sentido. Mas que interessa? Que interessa se eu me perco infinitamente nos outros se os outros não notam? Que interessa eu dar-me sem medida se tudo aquilo que eu recebo é medido e pesado?

 

Vida! A vida. Mas que vida é esta, que merda de vida é esta, que forma estúpida de viver? Onde está o sentido, onde está tudo aquilo que eu gostaria de ter? Chove, o sono não vem.

 

Ah, se eu pudesse... se eu pudesse libertar-me de todas estas amarras que me prendem. Se eu pudesse ao menos sentir que era a minha oportunidade de ser feliz, de ter aquilo que eu queria, que eu desejo, que eu sempre achei que a vida teria guardado para mim. Não é o teu tempo, uns dizem, não é agora. Mas quando será essa merda desse tempo, quando será esse momento que eu vou estar completo, que eu me vou sentir completo. São tantas as palavras, são tantas as dissertações que eu poderia fazer sobre este tema. Mas não há mais nada a dizer. Não há mais nada a dizer quando o homem se perde sempre nas mesmas coisas, quando eu me perco sempre neste sentimento de abandono.

 

Abandono. Das palavras mais difíceis de pronunciar. Dos sentimentos mais difíceis de vivenciar. Foda-se! Que todo este sentimento vá para o raio que o parta, para o diabo que o amassou!

 

Sinto-me a fraquejar. Sinto-me perdido, sem forças para encontrar o norte. Sinto-me como uma bússola sem agulha. Sinto-me... não sei como me sinto.

 

Chove, continuamente.

 

Eu deixo-me morrer.

Filosofia da Loucura

por Ismael Sousa, em 30.11.17

Temos sempre de partir. Inevitavelmente, por tantas coisas na vida, temos sempre que partir. Deixar para trás algo que nos faz bem, alguém que fica e alguém que parte. Temos sempre que partir, talvez porque há o mundo e as suas circunstâncias. Temos sempre que partir.

Gostaria de criar um mundo onde cada partida fosse uma nova chegada. Que todo o espaço de tempo fosse, simplesmente, um fugaz momento de ausência. Que cada momento bom durasse eternidades e não fugazes minutos. Um mundo onde o tempo parasse nos momentos em que o coração transborda, em que a alma brilha, em que a mente pára, que a produção de hormonas está no seu auge. Parar, simplesmente e perpetuar esses instantes. Um mundo, simplesmente, bom.

Custa sempre partir, porque significa que estamos bem, que aquele estado de satisfação nos proporciona tudo aquilo que achamos desejar. Custa sempre partir e em cada minuto do regresso é como uma adaga que perfura o corpo, que corta todas as cordas que seguram um coração fraco.

Saber que as ideias são tão díspares, mas que mesmo assim se teima em discutir. Um discussão onde não há vencidos nem vencedores, mas que enriquecem tanto, que criam dúvidas, que fazem repensar. Ter certezas de não ter certezas de nada.

E depois, quando a noite chega e ficamos na solidão do quarto, na cama fria, a saudade de tanta coisa e as palavras que restam. E eu que teimo em ter a mania que consigo brincar com as palavras, escrevo páginas infindas de sentimentos, de sonhos e de sentimentos. Páginas de palavras que guardo no meu silencio, no meu segredo.

E se houver quem goste de ler as palavras que escrevo? E se existir quem sinta o que eu sinto, se reconheça nas minhas palavras e sentimentos, nas minhas saudades e melancolias? E se houver quem goste de me ler? Não há certezas de nada, principalmente agora que ficou instaurada a dúvida.

Há refúgios, locais e pessoas que nos abraçam de forma tão especial, que nada mais consegue ocupar esse lugar na mente.

E há a distância que tanto se faz sentir. Há a saudade e todas as coisas que ela comporta. E o cheiro, o perfume que trazemos, que nos retoma para lugares e pessoas tão especiais. E há palavras ditas e não ditas, segredos tão nossos que ninguém os conseguirá descobrir. Há tanta coisa, tanta mística de cosmos e imperfeições, tantas incertezas de certezas. E um vento que leva e traz, que apazigua e provoca. E há tanto e nada ao mesmo tempo.

E, eu, aqui, deitado sobre a cama, sentado à secretária, em frente ao computador ou com o caderno nas pernas, divago num mundo tão só meu, tão incompreensível. E a escrita que suaviza e se torna insuficiente tantas vezes. Há o tanto e o tão pouco. Há tanta coisa e tão pouca ao mesmo tempo. E as palavras, sempre as palavras, tão suaves ou agrestes, que libertam o ser que há dentro de mim, que libertam a felicidade ou a tristeza, o amor ou o ódio. E tudo aquilo que sinto, mascarado em tantas vezes na profundidade das palavras, algumas tão sem sentido. Mas há, existe! E a falta de lógica ou sentido daquilo que escrevo, das frases que não levam a lado nenhum, das entrelinhas tão pouco percetíveis. A loucura aliada à miscelânea de palavras. E frases inacabadas, sem sentido, provas irrefutáveis da minha loucura diária. E estas publico-as, outras talvez não. Cadernos e cadernos, folhas e mais folhas, manchadas com palavras, num segredo tão só meu que é tão difícil de compreender. Porquê partilhar aquilo que sinto? Porquê transpor em palavras os momentos que vivo? Para lhes dar vida, para lhes dar memória nas noites em que aperta o abandono, nas noites em que a lágrima cai. E essa, a lágrima, molécula que contêm em si todos os sentimentos que transbordam do coração, essa lágrima por vezes tão fatal e tão essencial, essa que liberta e ajuda a seguir em frente, já é tão rara.

Talvez eu já não sinta ou os meus sentimentos sejam tão frios que gelam ao saírem do coração. Pequenas gotas em oceanos tão grandes como a imensidão do universo. Onde estão as certezas, onde está tudo aquilo que não tenho? E que quererei eu? Será que não tenho já aquilo que procuro e não consigo ver? Onde estão os olhos essenciais do coração que veem aquilo que os olhos do rosto não veem? E onde estará o sentido de tudo aquilo que nesta manhã escrevi? Que sentido terá, que repercussão terá? E o tanto e o nada. E a falta de sentido. E relendo tudo o que escrevi, nada faz sentido ou, na loucura que se apodera de mim, um sentido que só eu sei explicar.

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A braços...

por Ismael Sousa, em 28.11.17

Dá-me um abraço.

Não um abraço qualquer, mas um abraço longo e demorado.

Dá-me um abraço quente.

Dá-me um abraço onde esqueça tudo o que me atormenta, onde eu me afogue em paz, conforto, carinho. Não quero um simples abraço, mas um abraço cheio de sentido.

Abraça-me de uma forma tão especial que fique marcado na memória, aonde eu queira voltar sempre, todos os dias. Abraça-me com força.

Abraça-me de tal maneira que não exista desejo de sair dele, independentemente do mundo e das suas circunstâncias.

Um abraço, a forma mais silenciosa de se dizer tanta coisa. E tanto eu quis dizer e tudo ficou dito num abraço. Um abraço quente, especial e demorado.

Quero um abraço que me inspire, que me faça desabrochar o sorriso mais sincero, que me faça esquecer tudo. Um abraço que faça esquecer toda a saudade.

Um simples e especial abraço, é tudo o que quero.

Há abraços de tanta coisa, mas só alguns são especiais. Só alguns transmitem tanta coisa que acabamos por deixar encher um coração tão partido e cheio de coisas menos boas. Um abraço que faz transbordar, que preenche. Um abraço tão especial como a pessoa que o dá. Aquele abraço que vem até nós, de forma tão inesperada. Aquele abraço que é muito mais que um abraço.

E ali ficava eu, enrolado naquele abraço numa eternidade tão longa quanto o infinito número de estrelas no céu. Infinitamente num abraço que apazigua todo o turbilhão de ideias e sentimentos mais obscuros. Ficar, simplesmente ficar, mergulhado no infindo calor de um especial abraço.

E as palavras que são tão poucas e pobres para descrever abraços tão especiais. Palavras que serão sempre poucas, insuficientes, ocas, meras palavras, vulgares. Somente o sentimento que transborda depois de um abraço tão quente.

Dá-me um abraço maior que o infinito do universo, maior que o pensamento, maior que todas as palavras que se possam proferir. Um simples e eterno abraço.

Dá-me o abraço!

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Embebedar-me!

por Ismael Sousa, em 27.11.17

Apetece-me um copo de vinho. Um bom vinho tinto, maduro, com o amargo das castas. Apetece-me um copo de vinho, um bom livro ou uma boa conversa. Apetece-me um copo de vinho, escrever um pouco, deixar a mente fluir.

Sinto em mim o peso de um passado que me impede de avançar. São amarras, são grilhões que me impedem de sair deste estado de melancolia. A enorme vontade de seguir, mas algo me ancora a este estado presente, a este estado de devassidão total. Sinto-me um nada, tão sem sentido.

Recordo as noites de frio e chuva. Os espaços e as ruas que percorremos. E parece-me tudo tão distante, num tempo longínquo que já lá vai. Há a noite, o café, aquele banco do bar. Tantas pequenas coisas que me saltam na memória, evocando um tempo de sorrisos francos e conversas intensas.

Falta-me a discussão, a presença, a mística que me faz sentir vivo novamente. E, novamente, tudo parece tão distante, acabado, passado. Uma força que desejo sentir em mim, que desejo ver viva novamente em todo o meu ser, em todas as minhas entranhas.

E, de novo, o bater intenso do coração, atado com cordas para segurar o pouco que ainda resta dele. É um coração remendado, atado com cordas velhas e amarras remendadas. É um coração frágil que com muita facilidade deixa de bombear energia para o corpo desfeito que o possui. É amargura, frieza, tristeza. É um misto de ideias, de melancolias e dores. É um cofre, um pequeno cofre, que guarda todas as palavras, todos os gestos, todas as emoções. Talvez pequeno de mais para guardar tanta coisa, pequeno de mais que transborda com imensa facilidade.

E a falta, a saudade. Essas são as moléculas que percorrem o meu sistema circulatório, que vão dando alimento às células negras do meu ser. E uma alma, que cheira a podre, que emana odores desagradáveis. E o pensamento e a falta de palavras que descrevam o que sinto.

Apetece-me desaparecer, sair, ir para longe. Conhecer novos mundos, novas pessoas, novas culturas, novas experiências. E depois? Não há ideia de depois, porque esse foi sempre uma desilusão. E há o cosmos, e a existência do ser. Há tanta coisa que este corpo guarda dentro de si. Uma caixa de pandora, prestes a rebentar e deixar sair de dentro de si tudo aquilo que de mau se possa imaginar.

E ao mesmo tempo todo o sentimento de liberdade, todo o sentimento de necessitar de uma solidão retemperadora. De voltar a encontrar, por entre tanta coisa, a estabilidade que já senti, a não necessidade de outras coisas para ser eu.

Abandonado, esquecido, ignorado, deixado. Tem de haver um fim, tem de existir um ponto de viragem. Um copo de vinho, maduro, agreste, quente. Uma lareira e milhões de pensamentos. Há um todo e um nada, uma filosofia sem lógica nenhuma.

E as palavras que podem ser tão falsas. E de nada valem se as ações são contrárias. Contudo são as que mais magoam, as palavras falsas. Amar sem amar, adorar, sem adorar, gostar sem verdadeiramente gostar. As pessoas não são objetos que se possam abandonar sem se dar uma justificação. Não é justo! Continuar a pensar sabendo que nada mais existe. Não é correto, não é justo, não se faz. E no fim, agora, sempre, o que permanece não é o ódio mas sim o amor aliado ao sentimento de saudade.

Nada faz sentido. Tragam-me antes uma garrafa de vinho, tragam-me um copo e deixai-me enche-lo as vezes que desejar, deixar-me embebedar por algo real e não por ilusões. Deixai-me aqui, longe mas sem sentimentos.

 

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A noite

por Ismael Sousa, em 26.11.17

O frio. A noite. A lareira acesa. Infinitos pensamentos, infinitas memórias. Magoado. Novamente magoado. Mas que interessa? Um simples meio para atingir um fim. Esse tem sido o meu papel na vida de algumas pessoas. Que importam os sentimentos e emoções? Nada, rigorosamente nada.

O sonho de uma vida, os projetos, a própria vida. Tudo deitado por água abaixo na imensidão de sentimentos que bateram fortemente num coração frágil e remendado.

O vento frio da noite sopra na sua intensidade de uma noite de inverno. O fogo consome a lenha com que vou alimentando a lareira. Dentro de mim o gelo. E tanto, tanto que eu senti e guardei para mim. Exteriorizar? Para quê? Mais um argumento para partirem, para se afastarem, para ignorarem. Dói, dói intensamente.

A vida, perdida em mil ilusões, vai continuando, independentemente da forma como estás. Importa sorrir e fingir que tudo está bem. Palhaço de sorriso em palco, de lágrima no camarim.

As horas intermináveis da noite passam lentamente. Ouço bater cada uma dessas horas e perco-me a escrevinhar imensas palavras sem sentido naquele caderno de capa preta que tanto me acompanha. Escrevo indiferente a todo o mundo que me rodeia, em qualquer lugar. A escrita, tantas vezes a escrita. Refúgio de sentimentos e de estados de alma. Desenhei com palavras, tantas vezes, o mundo ilusório onde vivi. Eu e a minha solidão. Eu e o abandono em que me deixaram.

Na verdade, a solidão não me incomoda, mas aquilo que tanto me faz sofrer, chorar intensamente, é o abandono onde me deixaram. Um poço fundo, sem escapatória possível. E, de vez em quando, alguém espreita, tentando dar a mão, esquecendo a escada que ali está tão próxima. Deixar estar, deixar morrer. Que importa tudo o resto?

A noite está escura. As nuvens cobrem todo o firmamento, impedindo que se veja a luz das estrelas. E elas que deram esperança, agora nada dizem. E eu, aqui, tentando encontrar um sentido para a vida miserável que tenho.

Olho pela vidraça da janela, perdendo-me em olhares vagos, sem pontos de focagem. Perco-me no vazio de tantas memórias. Que sentido, que mar imenso de nada? Falta o brilho, falta tanta coisa e tão pouca me faria feliz.

Tudo em meu redor é desprovido de alma, de qualquer relação com o ambiente que desejei um dia para mim. E amanhã, como será? E o resto da vida que me resta, o que será dela?

Deambulo, vagarosamente, pelas ruas da memória. Tantas boas mas que agora nada mais são que uma faca que rompe as amarras que seguram os pedaços partidos do meu coração. E de novo as lágrimas pelo rosto, salgadas e quentes. A mágoa, a dor, tanta coisa reduzida a simples lágrimas quentes e salgadas. Há sonhos, tantos, destruídos. Em mim, os escombros desses sonhos de que já nada valem. E depois varridos para uma canto da minha mente sempre que surge a ideia de voltar a ser feliz. Mas depois paira o vazio, o nada, aquele lugar fantasma.

Iludo-me, com muita facilidade. Iludo-me pensando que um dia voltarão. E espero, continuamente, em todos os dias da minha vida. Iludo-me, pensando que posso voltar a ser amado, a ser desejado. Porquê eu? Eu amo sempre com tanta facilidade, nesta minha maneira desleixada de amar.

Começou a chover. Quero sair daqui, deixar-me molhar pela água da chuva. Encharcar o corpo com desejos e esperanças. Deixar-me inebriar por esperanças vãs, na expetativa de me voltarem a fazer sorrir, verdadeiramente, por escassos momentos.

A chuva, o sonho e as esperanças perdidas. E eu, fechado aqui, diante da lareira que já não arde, diante dos sonhos partidos e memórias dolorosas. E eu aqui, fechado e abandonado. E por onde andará a vã vida feliz? Só a distância e o excesso de sonhos.

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