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Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

O que é o amor?

por Ismael Sousa, em 16.07.18

Acho que nunca percebi bem o que é o amor. Aprendi sobre ele, em tantos e variados momentos da minha vida, mas acho que nunca o compreendi muito bem, ou melhor, nunca o entendi.

Sempre que falo em amor, na minha visão do que ele é, compreendo sempre, nas minhas palavras, que o amor deve ser a dádiva a outra pessoa. Que deve fazer-se renascer a cada momento que passa, a cada dia, cada mês, cada ano.

Sempre compreendi que no amor temos que ceder e marcar posição. Que não deve ser só uma parte a ceder, mas ambas. Sempre percebi e entendi que no amor se sofre: não uma dor física ou uma dor provocada pelo outro. Mas sim aceitar e viver a dor que a outra parte sente, mesmo que pareça ridícula.

Houve alguém que disse uma vez: “se eu tivesse amnésia, apaixonar-me-ia por ele todos os dias.” E para mim, nesta minha sabedoria parva e tentativa de compreender algo que acho não conseguir ter esclarecido na totalidade, isto é o verdadeiro amor: fazer cada dia como se fosse a primeira vez.

Sou um lobo solitário sem ninguém com quem partilhar os meus dias, e por essa razão vou sendo, em muito, diário de outros. Tenho visto muitas coisas e não consigo perceber como é que alguém que está numa relação não consegue fazer mais por ela, aproveitar cada segundo com a pessoa que se ama, lutar para não a perder.

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Continuo a achar que o ser humano está cada vez mais centrado em si próprio, querendo que o mundo gire em seu redor do que em redor de outrem. Eu continuo a ser contrário a esta regra que me salta à vista e continuo a desejar que a minha vida gire em torno de alguém.

Amar é das coisas mais belas. Chego a esta conclusão por diversos fatores, mas também como síntese de muitas das minhas leituras. O homem procura amor mas não é capaz de se entregar ao amor. O homem procura ser amado, mas não quer amar. A ideia do geocentrismo perdeu-se há vários séculos. Mas há vários séculos que se criou o egocentrismo. O eu está a cima de tudo, independentemente da forma como se conquista essa posição. As pessoas dão mas não se dão.

Há a dor de não se ser amado, a mágoa de algum amor. E porque se passou por isso uma vez, tende-se a fechar-se o coração e a pensar somente com a razão. E a razão é instinto animal e como os animais deixamos de fazer amor passando a fazer-se sexo. Já não há amor mas relações , mas o uso de alguém para satisfação de si.

Sempre existiram pessoas Alfa. Hoje todos querem ser alfa rejeitando a ideia de se ser uma outra letra do alfabeto grego. Queremos mas não damos, esperando sempre só receber. Talvez se tenha esquecido o verdadeiro significado da palavra dar, substituindo-a por descargo de consciência.

É das coisas mais difíceis o sair-se de si em busca do outro. É uma espécie de subjugação ou humilhação perante o outro. Mas sair-se de si em prol de outrem é uma das características do amor. Hoje amam-de objetos e locais mas não se amam pessoas. Hoje ama-se de mais aquilo que não pode retribuir amor.

Compreendo e aceito na sua perfeição que o amor não é fácil. Mas amar nos primeiros dias também nunca foi difícil. Parece-me que se ama até determinado momento, mas depois vive-se, acomodado, ao lado de alguém. E achar-se que esse alguém é nosso por direito é matar o amor; tratar essa pessoa de forma má só porque achamos que ela nunca nos vai abandonar, é matar o amor. E o amor deve ser algo que se rega todos os dias e não que se arranca para não impedir que o ego cresça.

“Amar dói: se não doer não é amor”! Escrevi estas palavras um dia percebendo, à posteriori, que poucos foram aqueles que compreenderam a verdadeira essência desta frase. Amar dói porque sofremos com alguém, obriga-nos a sairmos da nossa praia, a lutar em cada novo dia.

Se amar é a coisa mais bela, porque desperdiça o homem esse dom? Se amar é a coisa mais bela, porque matamos este sentimento? 

E se este país fosse estrangeiro?

por Ismael Sousa, em 19.03.18

E se Portugal fosse um país estrangeiro, onde estivessemos de férias? Seria igualmente tão triste?

 

Dou comigo, muitas vezes, a pensar nos locais fantásticos que neste pequeno jardim à beira-mar plantado existem.

 

A realidade de Portugal não é assim tão diferente dos outros países e não somos, em circunstância alguma, menor que os outros. Aliás somos ainda maiores que alguns países.

 

Contudo, a nossa vivência por cá, vai-nos fazendo desacreditar este país. É a política, a situação económica, é as catástrofes que nos vão acontecendo e a incapacidade de dar a volta por cima.

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Somos, humanamente, mais focados na negatividade do que nas coisas boas e, por essa razão, achamos que Portugal é um país de terceiro mundo (e em algumas coisas é) e que necessíta sempre mais. Contudo, não perdemos tempo em pensar nas coisas tão boas que por cá existem.

 

Mesmo na nossa vida precisamos de contos de fada, de tornar certos momentos mais mágicos que aquilo que são. E porque não fazê-lo com este nosso país, tentar vender um país que tanto tem de bom a dar, para de alguma forma conseguirmos fazer com que ele cresça?

 

Tenho a sorte, e tenho-me pautado por isso também, de conhecer, ainda que vagamente, metade do meu país (e digo metade porque o Além Tejo ainda me é desconhecido). Tenho conhecido locais belíssimos e cheios de histórias e estórias. Um país rico em cultura, em arquitetura, em música e tradições. Mas muito disto torna-se, para nós, mais que banal. Não damos ao que temos o devido valor.

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Questiono-me se estamos a dar o devido valor, a oportunidade que Portugal precisa. Criticamos a cultura, criticamos a política e o atraso de Portugal (eu também o faço, atenção!) mas não contamos as estórias que por cá existem nem a história deste grande país. Esquecemos as personagens que por cá viveram, que por cá morreram.

Portugal, para mim, não é só um país, ou melhor, não é um país triste. Portugal é uma país belíssimo.

 

Quanta beleza existe nas tradições de Viana? Quanta tradição existe com os Caretos? Ou a nossa segunda língua, o Mirandês? Quantas belas vinhas existem ao longo de rios d'ouro? Quantas tradições ligadas à pesca, nos quilómetros e quilómetros de praias que nós possuímos? Quantas histórias de amor e valentia gravadas nas paredes dos castelos deste país, quantas derrotas e vitórias eternizadas em belos monumentos? E as metrópeles cheias de estórias, os grandes nomes que este país possuiu? Que seria do hábito dos ingleses se não fosse Catarina de Bragança? E os poetas que escreveram tanto sobre este país e as suas virtudes? Onde está Camões e Pessoa, Sá Carneiro e outros? Onde estão os grandes escritores deste país, os grandes músicos? Quanto amor eterniza a Pena com as suas cores, fantasia de livros de crianças? E Mafra na sua enormidade? Quantas histórias de amor e desamor num Buçaco esquecido ou num São Cristóvão de Lafões, tão antigo quanto a fundação do país? E as marcas do avanço de Afonso Henriques, ou o testemunho de António Vieira, ou o Santo português reclamado pelos italianos? Quanta cultura existe neste país onde o folclore é mais reconhecido no exterior e mais desprezado por nós? E as obras primas que possuímos, a cultura, a história que brota das pedras das calçadas com tanto para dar?

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Há tanto para conhecer, tanto para aprender e tanto para escrever e cantar sobre este país. Não somos só o parente pobre de uma Europa que nos despresa. E se o somos, somos porque não nos impomos. Há tanto para descobrir neste pais, com dois arquipélagos cheios de magia natural, com planícies para decobrir. Temos praias e rios, lagoas naturais, serras com neve, judiarias e mosteiros. Temos os passos daqueles que fizeram história, temos histórias em cada rua que cruzamos.

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Que Portugal não morra nem seja vendido. Que portugal seja sempre leal as suas tradições, aos seus costumes. Que o fado nunca deixe de se ouvir nem os cantores de outras cantigas. Que a palavra escrita nunca morra, que os poetas não deixem de se enamorar. Que a língua sempre se fale, que as línguas se aprendam. Que a humildade nunca nos acabe e o peito nunca deixe de ficar inchado quando se declarar: "EU SOU PORTUGUÊS!"

 

O homem discriminado!

por Ismael Sousa, em 29.08.17

Toda a gente fala do assunto. Todos imitem a sua opinião sobre o tema. Os livros da Porto Editora são o assunto mais falado nesta última semana.

 

Não conheço os livros, nunca tive com nenhum na mão. A única coisa que sei sobre eles é aquilo que leio na blogosfera e nas noticias que leio pela manhã.

 

O que tenho constatado é que o rosa já não é mais uma cor feminina e que o azul não é uma cor masculina.

 

Não sou perito em nada, não tenho nenhum curso que me possa dar as faculdades necessárias para avaliar seja o que for. A única coisa que tenho é experiência de vida (sim, apesar dos meus 27 aninhos, tenho vivido mais que aquilo que pensam)!

 

Um dos temas mais badalados desde o século passado é a igualdade de direitos entre homem e mulher. E eu, com todo o respeito que tenho por estes seres, não podia estar mais de acordo que as mulheres tenham os mesmos direitos que um homem. Se um homem pode ser camionista, uma mulher também pode. E se for eficiente, que tenha tanto direito a ser contratada como um homem. Se uma mulher pode ser dona de casa, um homem também o poderá ser. O tempo em que a mulher ficava em casa e o homem trazia o sustento, já lá vai. Hoje, mulheres e homens, são o sustento.

 

Nasci num tempo em que as coisas eram diferentes dos dias de hoje. Eu brincava na rua, via desenhos animados, via filmes. Fazia as lides domésticas, ia à escola e construía cabanas em cima de árvores. Vivíamos na rua e os pais ralhavam-nos por andarmos até tarde na rua com os amigos. No meu tempo líamos livros, jogávamos à macaca e ao lencinho. Saltávamos à corda e brincávamos ao elástico. No meu tempo, duas pedras eram os postes das balizas e a bola andava nos pés. Todos jogávamos independentemente de sermos bons ou não (e eu que sempre tive dois pés esquerdos). No meu tempo era diferente, mas saudosismos não nos levam a lado nenhum.

 

Os dias que correm são diferentes, pela evolução lógica da natureza. Se existe evolução normal é que as brincadeiras e formas de vermos o mundo também sejam diferentes. Ninguém quer voltar aos anos 90 (no meu caso) e um futuro melhor está sempre ao vislumbre da nossa imaginação.

 

Mas com a evolução dos tempos está inerente a evolução da mentalidade. Mas nisto, em questões de mentalidades, parece-me que estamos num processo de retroversão. Não avançamos mas regredimos.

 

Hoje qualquer palavra é ofensa, qualquer forma de ver é repugnante. Preocupamos-nos com questões que são mais irrelevantes que a queda de uma folha. Que importa se o rosa é a cor ou não das raparigas e o azul a cor dos rapazes? Que importa se há um livro azul que diz "exercícios para rapazes" e outro rosa que diz "exercícios para raparigas"? No meu tempo não pensávamos nisso, os pais não pensavam nisso.

 

"Uma questão de justiça" podem afirmar. Mas enquanto se preocupam com questões de igualdade, não se preocupam com questões de dignidade. Uma parte do meu trabalho é lidar com crianças. E quando elas entram por esta porta dentro, para brincarem, não pensam se esta ou aquela brincadeira é para meninos ou meninas. Brinca-se em conjunto. E eu, na minha formação e contínuo interesse pela área psicológica, vou fazendo as minhas avaliações particulares. Há crianças que carecem de atenção, crianças que não têm uma vida fácil. Há crianças que têm tudo e outras que pouco têm. Mas no mundo deles, onde fantasiam, isso é esquecido.

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A maior necessidade, para mim, é formar bem estes pais, filhos da libertinagem, que não se preocupam em dar uma boa educação aos filhos, mas "sustenta-los". Não se incutem valores, não se incute educação. As crianças nascem ao "deus dará" aprendendo aos encontrões com a vida. Não há "obrigados" nem "desculpas", somente o eu e eu. Filhos da libertinagem, libertinos serão. E o homem que cria o mundo, destrói-o também.

 

Falamos em igualdade, mas esquecemos-nos que não há igualdade. Os homens têm de continuar a ceder passagem a uma senhora, a serem "cavalheiros" (e aonde é que já vai esse código de honra), têm de continuar a mimar as mulheres. Mas nisso não se fala em igualdade. As mulheres têm muito mais aceitação e concretização no mundo do trabalho que o homem. Já não se pedem colaboradores (o termo certo com que a nossa língua sempre definiu os dois sexos em conjunto) mas colaboradorAs. Precisam-se de empregadAs de mesa, de balcão, de colaboradorA para isto e para aquilo. Qualificadas ou não, acabam sempre por ficar com o lugar, porque se não é descriminação, há processos e afins.

 

Vivemos do avesso e numa igualdade falseada. O homem passou a submisso. Talvez lhe seja bem feito pelos anos em que se armou em superior. Infeliz de mim que nasci homem e tenho de lutar por tudo.

 

P.S. - Às mulheres da minha vida, às minhas colegas, todo o respeito e admiração que tenho por vós!

Competitivos por natureza!

por Ismael Sousa, em 22.08.17

É terça-feira: mais um dia de agosto, mais um dia de trabalho. Três crianças no espaço lúdico, raparigas por sinal.

 

Acabei de publicar num dos blogues e dou comigo a observar as estatiscas dos mesmos. Ao mesmo tempo que eu me perco em estatísticas de blogues, as três meninas competem entre elas. Uma quer fazer assim, outra quer fazer assado. Uma não quer que a outra faça, a terceira faz tudo como quer. E berros e amuos constantes fazem parte do meu dia.

 

Com esta competição entre elas, comigo a ver estatísticas, recai sobre o meu pensamento a simples frase: estamos sempre em competição. Queremos alcançar o sucesso de várias formas, sermos aceites e notaveis na sociedade. É um pensamento comum e geral a todos e não me venham com cântigas, mas de uma ou de outra maneira, queremos ser "vistos" e notados pela sociedade.

 

Não escrevo nos blogues de forma a ter sucesso ou a ser conhecido. Somente de forma a demonstrar a minha opinião ou, como na grandíssima maioria dos casos, encher a internet com textos de minha autoria, permitindo a quem os quiser ler, uma forma de fácil acesso.

 

Todos desejamos sucesso em algo: uns no trabalho, outros na realização pessoal. O sucesso é-nos incutido por natureza. Enquanto crianças vivemos esta competição/sucesso com o "o meu é melhor que o teu" ou o famoso "eu é que sei". Na adolescência com o "tive melhor nota que tu". Na juventude e em fase adulta, deixam-se as palavras de lado e demonstra-se com atitudes e posses. Acho que, somente quando chegamos a velhos é que deixamos de competir. E só alguns, porque outros competem até ao último dia de vida (e não achemos que a sueca e o dominó ou as damas são competição!).

 

Há pessoas mais humildes que outras, que apesar de necessitarem de se sentirem realizadas, não se vangloriam pelas coisas que alcançam. Outros fazem sempre questão de esfregarem na cara dos que o rodeiam esse facto.

 

Vejamos: os políticos competem entre si sobre quem deixou melhor (ou pior) o país, municipio, associação; nas empresas é para ver quem é mais querido pelo patrão; no campo, quem teve mais tomates ou cebolas, melhor vinho ou melhor colheita. Os filhos que serão sempre melhores, o irmão que será sempre a estrela. Uns têm que lutar pelo sucesso, outros é-lhes nato esse sucesso.

 

No passado domingo assisti a um desfile. Qual o meu espanto quando uma certa pessoa estava em cima de palco. O meu pensamento? Logo de revolta. Senti que não era justo, bla bla bla. Agora, dois dias depois, tenho em mente uma das maiores verdades de sempre: a vida não é justa. Mas de nada me vale odiar e ficar irritado por essa razão. Cada pessoa tem direito ao seu sucesso e isso incomoda muito as outras pessoas. Mas todos procuramos o sucesso, procuramos aquilo que nos torna competitivos. Depois o que fazemos quando o alcançamos já faz parte da essência de cada um.

 

Conheço pessoas que alcançaram o sucesso, que foram competitivas a um nível saudável, e que quando lá chegaram, continuaram a ser as mesma pessoas que eram antes. Outras, sentiram-se superiores e deixaram aqueles que estiveram a seu lado esquecidos, calcaram muita gente.

 

A vida terá sempre duas faces: o bem e o mal. Tão inevitavel como o sol "nascer" todos os dias. Cabe a cada pessoa ser ou não, boa na sua essência. Cá eu, continuarei a perder-me por estatísticas, tentando alcançar algum sucesso. Continuarei nas minhas escritas, mesmo que aquilo que escrevo seja página perdida na internet. Continuarei a ser eterno amante, mesmo sem correspondência. Eterno sonhador, mesmo sem sonhos.

 

Para hoje fica este pequeno pensamento que vale o que vale. Continuação de boa semana e votos de muito sucesso!

 

P.S.: No dia em que chegar ao topo eu depois digo-vos, ok?

Diga não à autoestrada, conheça o nosso país!

por Ismael Sousa, em 21.08.17

As redes de autoestradas são um meio fácil e rápido de acesso entre vários pontos do país. Fácilmente entramos e saímos perto do local que desejamos, viajando a um velocidade mais confortavel, sem semáforos e limites de velocidade ridículos. Vamos de um ponto ao outro do país sempre sem parar. A paisagem é sempre a mesma, sem grandes diferenças: mato, mato e mato. Tirando as grandes metrópeles, esta é a vista que se tem durante uma viagem numa autoestrada. Mas para quem, neste fim de mês de agosto e final de verão, ainda for gozar umas férias, diga NÃO às autoestradas.

 

Sempre gostei de andar de um lado para o outro, parar aqui e acolá. Irritam-me as viagens diretas, em que saímos de um ponto, fazemos uma carrada de quilómetros somente para ir sair num outro ponto. E o que está no meio? Ninguém sabe! Mas quando a pressa aperta, lá tenho que ceder a fazer rodagem em alcatrão de autoestrada.

 

E este fim-de-semana foi assim. O caminho para as Caldas da Raínha foi feito pelas várias autoestradas que se tem de percorrer para lá chegar. Foi uma viagem de descida (territorial) apressada e com algum nervosismo à mistura (mas quanto a isso, nada a fazer). Rodou o pimba durante toda a viagem, misturado com o latino e o cigano. Diga-se de passagem que a viagem foi horrível, cuja única paragem foi no McDonald's de Tomar para recarregar baterias e ter a força física (e mental) necessária para chegar ao destino.

 

A zona das Caldas da Rainha é, para mim, sempre um bom local de descanso. O Oeste tem coisas fantásticas, permitindo-nos recarregar baterias com muita facilidade. Apesar de este fim-de-semana não ter passeado por aquela zona, no ano passado tive o previlégio de ir conhecendo aquela zona. Ali há muito para ver e muita história para saborear. E não precisamos de passar muito tempo enfiadinhos (tipo salsicha enlatada) dentro del coche!

 

Começando pelas Caldas da Raínha, que até nem parece ter grande coisa para visitar, podemos perder-nos pelo parque Dom Carlos I, onde nos podemos perder por entre um verde abundante, um lago ladeado por uma velha instancia termal, mais o Museu José Malhoa e um café fantástico (tanto em decoração como em serviço). Tem praças e Bordalo Pinheiro por todos os lados, uma praça de touros e ruelas cheias de vida.

 

Deixando as Caldas da Rainha para trás, temos a poucos quilómetros o famoso Bacalhôa Buddha Éden, onde se podem perder várias horas a passear por entre budas, soldados e fabulosas peças de arte, rodeadas por uma enorme mancha verde e um lago que nos dá vontade de mergulhar.

 

Óbidos é também paragem obrigatória e fica ali bem pertinho. Mas antes ainda há uma velha e imponente igreja, no Senhor da Pedra, que deixa qualquer admirador de arquitetura maravilhado e apaixonados os amantes de arte sacra. Em Óbidos há uma imensidade de coisas para ver, desde livrarias em que as prateleiras são caixas de fruta ou uma outra dentro de uma antiga igreja. Há a muralha e a ginja. Nas costas de Óbidos há uma lagoa e a poucos quilómetros Peniche com tanto para oferecer.

 

Bem, mas comecei este texto falando das autoestradas porque, na volta das Caldas da Raínha, decidi nem percorrer um metro de autoestrada. Arriei (como se diz por estas bandas) caminho por estradas nacionais e, há semelhança de um ano atrás, visitei aqueles espaços em que até as pedras da calçada são históricos.

 

Passando ao lado de São Martinho do Porto (outro local que merece sempre uma visita), a minha primeira paragem foi em Alcobaça. O mosteiro estava fechado (e já o visitei), mas no grande adro em frente, uma feira de velharias. Contudo Alcobaça não se fica só pelo mosteiro, pois a zona que o rodeia também é digna de ser vista. Há casas com azuleijos, túneis afontanados. Ali respira-se história.

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 Alcobaça ficou para trás e o meu próximo destino foi Fátima. Contudo, no caminho de Alcobaça até Fátima, podemos visitar locais como o Mosteiro da Batalha, os campos de batalha de Aljubarrota, entre outros locais que as setas castanhas nos vão indicando.

Contornando o Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros, chega-se a Fátima. Mas para aqueles que Fátima é um local indiferente, existe sempre a possibilidade de se visitarem as grutas que são de uma beleza estonteante. E que tal aquela sensação de estar "dentro" da terra?

 

Rumando a norte, parei em Leiria para visitar aquela cidade uma vez mais e conhecer o Castelo lá no alto. Leiria tem em si parques e praças, ruas catitas e pintadas. Mas tem também uma Sé que deixa qualquer um mergulhado numa enorme paz. Tem um fantástico órgão de tubos e telas dignas de serem vistas. A Igreja da Misericórdia é também local de paragem obrigatória, não pela sua imponência mas pela beleza e simplicidade a ela aliada. Lá no alto, imponente, as muralhas do velho Castelo. 2,10€ de entrada para uma enormidade de ruínas que levam a nossa mente a imaginar e viajar pelo tempo. Há uma velha igreja, ou as paredes que dela restam, os vestígios de um palácio onde uma enorme sala nos recebe e nos deixa, da sua varanda, ter a melhor vista sobre a cidade de Leiria. E esta varanda deixa qualquer um maravilhado (e para os eternos romanticos, ali é um verdadeiro local de romantismo).

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A torre de menagem permite-nos ir ao ponto mais alto da cidade, deixando um imenso horizonte na nossa frente, espreitando por entre ameias que nos recortam a vista. Enquanto subimos vamos conhecendo pedaços de história que muito bem ali foram colocados como patamares, deixando qualquer visitante um pouco mais culto. Descendo do castelo, um museu e uma igreja romanica são paragem obrigatória.

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Pelo meu excesso de cansaço, deixei Leiria em direção a Coimbra. Mas, neste percurso pela nacional, passando por Pombal e Condeixa, fiquei tentado em rumar um pouco mais a este, voltando a Tomar, terra de tabuleiros e templários. Também tem um castelo possuidor de belos jardins e da famosa janela manuelina. Também tem praças e igrejas várias para serem vistas.

 

Coimbra irá ser sempre uma enorme paixão. Regalo-me sempre com o percurso desde o Largo da Portagem até à Universidade. Ali há um ar diferente que se respira, um ar de história e conhecimento. Em Coimbra há dois reis que repousam na Igreja de Santa Cruz, uma sé velha e uma nova. Há uma universidade com conhecimentos inumeros e de belezas tamanhas. Há ruelas e calçadas, jardins de sereias e escadas monumentais. Há musica e serenatas e a casa onde viveu José Afonso. Há um penedo de saudades, conventos e igrejas. Um Portugal em tamanho pequeno, a reliquia da Rainha Santa e a quinta onde se derramaram lágrimas. Coimbra é, para mim, um todo onde sempre se vai beber e renascer.

 

No percurso de Coimbra até Viseu (no meu caso mais própriamente São Pedro do Sul) há também inúmeros locais escondidos para visitar. Mas sobre esses locais, deixo para uma próxima viagem, para uma próxima "eu, o Seat e muitos quilómetros a fazer".

 

P.S.: As fotografias não estão grande coisa. Brevemente um post só com as fotografias tiradas neste mini viagem!

Fé ou Tradição!

por Ismael Sousa, em 16.08.17

Há costumes, hábitos, tradições que, por mais que os tempos mudem, se vão perpetuando pelo tempo. Retomar ou simplesmente manter é, em algumas vezes, o propósito de vida de alguns. Outros tantos, por vezes, movem-se pela fé, por aquilo em que acreditam.

 

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Há uma aldeia fantasma, perdida nos vales da serra, onde o acesso é dificíl, tendo como única forma de chegar, as pernas. Os carros não chegam à aldeia, o caminho é cheio de pedras lisas e gastas pelas chuvas e pelos inúmeros pés que galgam aquela estrada. Nesta aldeia, da qual já aqui falei, não vive gente. Visitada pelos que ainda têm lá alguma coisa ou pelos escuteiros que vão dando vida aonde reina o vazio, a aldeia vai perdurando pelos tempos. Mas há um dia do ano em que a aldeia fantasma deixa de o ser e as suas ruelas de pedras de xisto são povoadas por inúmeras pessoas que ali se agregam para, junto da pequena capela da aldeia, assistirem à missa da padroeira, a Senhora da Assunção.

 

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Este ano, pela primeira vez, desci à aldeia (pela segunda vez na minha vida) para participar da Eucaristia e animá-la. Não sei se seriamos uma centena de pessoas, mas deveriamos ser quase. A pequena ladeira encheu-se de gente, sentada em muros e no chão. O órgão estava ligado a um pequeno gerador que os escuteiros lá têm. As pessoas, movidas por curiosidades ou apenas tradição, quiçá fé, seguiram como de costume atrás dos pequenos andores, ornados com as mais belas flores. Ladeira acima até ao cruzeiro, ladeira abaixo de novo para a capela. Um volta à capela e a tradição está mantida.

 

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Depois da missa foram-se estendendo mantas, abriram-se os farneis e por ali se almoçou. Ganhar forças para de novo subir a serra, voltar ao frenesim do dia-a-dia. Há um dia no ano em que todos, movidos pelos costumes e raízes, ainda que secos, voltam àquela terra de onde já todos desertaram. Quem saberá o que os move? Há algo que sempre faz voltar.

 

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"Cristina": a vergonha de uma capa!

por Ismael Sousa, em 07.07.17

“Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.”

 

Todos os dias somos bombardeados com coisas que nos escandalizam, com coisas que vão contra os nossos princípios, bem como aquilo que consideramos normal. Todos os dias o mundo está em constante mudança, em constante evolução, em inevitável mudança. Coisas novas se descobrem, novos assuntos são trazidos à ribalta. Este é o mundo onde nasci, o mundo onde vivemos. É a razão humana e a ininterrupta evolução de Darwin.

 

Crescemos com as nossas ideias, com aquilo que vamos apreendendo e formando na nossa mente, segundo costumes e tradições. E como seres humanos que somos, vamos classificando como bom e mau aquilo com que nos defrontamos. Há ideias e ideais que mantemos, outros que revíramos totalmente e ainda aqueles que vamos moldando. Somos inerentes à mudança. O que hoje estranhamos, amanhã entranhamos.

 

A bomba rebentou com uma partilha nas redes sociais e outros meios. Na véspera do lançamento mensal da afamada revista “Cristina”, a diretora da revista, a própria Cristina Ferreira, partilhou as duas capas possíveis de encontrar nas bancas, no dia seguinte. Sob o título “isto choca?” onde se via Cristina Ferreira a beijar um homem, apareciam mais duas capas, aquelas que sairiam para as bancas: duas mulheres a beijarem-se e dois homens a beijarem-se. O caos, a polémica, a controvérsia estavam instaladas. As reações foram inúmeras, tanto positivas como negativas. E, para mim, surge o escândalo.

 

Vivemos em pleno século XXI. Celebrámos, há poucos dias, a abolição da pena de morte em Portugal, fizemos história neste último ano. Acreditamos numa mentalidade aberta e em mudança. Pelo menos eu acredito, mas parece-me que me desiludi. Sempre acreditei nas pessoas e na sua capacidade de mudança, mas ontem senti vergonha. Vergonha e desilusão. As redes sociais facilitam-nos em ver tudo, principalmente quando as coisas não são boas, parecem um vírus que se espalha com uma enorme rapidez. A capa da revista “Cristina” estava a chocar o povo português que se sai com o seu pior lado. Os comentários que apareceram não são dignos de serem citados. Há linguagem e homofobia em exagero. O lado negro dos portugueses demonstra-se.Vivemos no século XXI mas com uma mentalidade do século XV.

 

A capa da revista é polémica, sem dúvida, porque é das poucas (se não a única) a mostrar algo deste tipo em Portugal. Como tudo há quem goste e quem não goste. Mas daí a mostrarem a sua ignorância, vai um grande passo. Não concebo, na minha ideia, que se digam tantas barbaridades como as que foram ditas. Fala-se em aceitar ou não aceitar. Para mim, ninguém tem que aceitar ou não aceitar. As pessoas gostam do que gostam e cada um tem a sua ideia. Temos que respeitar. Somos livres de ter a nossa opinião, livres da expressar. Mas quando isso interfere na dignidade do outro, não temos direito nenhum. A minha liberdade acaba onde começa a do outro.

 

O beijo entre dois homens tem sido o principal motivo de todo o escândalo. Sobre o beijo entre duas mulheres, poucos se manifestam de forma tão agressiva. Algumas pessoas falam no que está capa poderá fazer aos seus filhos. É muito estranho que isso aconteça, que dois homens aos beijos seja “traumático” para uma criança. E uma mulher/homem despidos nas capas de revistas nas bancas?! É uma criança morta numa praia?! E a guerra?! Isto não é traumático?!

 

Comecei este texto com o primeiro artigo de “Os Direitos do Homem”. “Iguais em dignidade e direitos”, mas parece que não. Parece que só alguns podem usufruir disto. Cada vez mais se assiste a uma desvalorização de valores. Na televisão existem programas totalmente sexuais, onde a traição e o “eros” é o principal. Valorizam-se corpos em vez de personalidades. Mas isso é correto. Agora aceitar que dois seres do mesmo sexo se amem, que vivam em valores e dignidade, não! Isso é contranatura.

 

A minha opinião/posição em relação a esse tema, guardo-a para mim. Se me escandaliza? Não! Em minha casa, ao contrário de muitas, a revista “Cristina” entrou, como todos os meses. Os artigos estão lidos. Contra tanta coisa, sinto-me feliz por aqueles dois casais serem felizes, por viverem com mais valor que muitos casais heterossexuais. É preciso ter coragem para lançar uma revista com uma capa destas. É preciso ir contra muita coisa. É preciso fazê-lo. Contra todos os riscos, contra todos os tabús. O tema está mais que presente na nossa sociedade, temos que viver com ele.

 

A diferença é sempre contraditória. Eu, por várias vezes, fui rotulado de “gay”, somente porque não namorava, porque não namoro. É uma opção minha, mas isso mexe com as pessoas. Todas as semanas ouço que tenho de arranjar uma namorada, uma pessoa para a minha vida. E quem disse que quero?! Porque não posso viver sozinho e mesmo assim ser feliz?! Porque temos de ser todos iguais?! Cada um sabe da sua vida e vivi-a da forma que se sente mais feliz! Sou diferente e isso incomoda muita gente. E como eu, muitos sentem a dor da diferença, a rejeição dessa ideia.

 

Parabéns Cristina Ferreira pela coragem de derrubares tabús, pela coragem de seres diferente, por falares no que muitos não falam. Obrigado Cristina Ferreira por, com esta capa, ajudares tanta gente, por criares incómodo, por trazeres a público aquilo que se fala por entre dentes. Espero, sinceramente, que com isto abras mentes, abras portas de armários. Ser gay, bi ou hetero, são todos seres humanos. Temos todos direitos, como temos todos deveres. Aceito e gosto da diferença. Obrigado aos casais que posaram para as capas. Obrigado por tomarem essa coragem mesmo sabendo as represálias que poderiam vir a sofrer.

 

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Pedrógão Grande, de novo.

por Ismael Sousa, em 03.07.17

No passado sábado, a estrada que tomei fez-me passar por Pedrógão Grande. DesdeIMG_1030.JPG o momento em que entrei no IC 8, até à saída para Pedrógão Grande, a paisagem que eu via era cenário de destruição. Para quem não conhece a zona, ali só se pode imaginar. Mas para quem passa por aquela estrada durante muitos anos e várias vezes ao ano, só consegue sentir pena.
Na minha memória existem altas árvores, verdes. Eucaliptos, sim, juntamente com o seu cheiro tão característico e que, sinceramente, eu tanto gosto. Na minha memória existe a sombra que elas proporcionavam, bem como os sucalcos que iam construindo. Na minha memória existem árvores a nascer, rios que contornan o verde, transformando o seu azul em verde. Agora, nada. Somente existe a cinza, o cheiro a morte, a destruição.

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Muito se tem falado sobre este assunto, sobre as medidas que deviam ter sido tomadas, tanta coisa. Uma das coisas de que ouvi falar foi sobre o motivo de tamanho flagelo. Pois, quanto a isso não vou opinar, mas, a verdade, é que agora se podem ver cadáveres de árvores que formam um arco: do chão ao chão. Podem-se ver as copas das árvores dobradas para o lado onde um enorme vento passou. O que era hábito estar virado para sul, encontra-se agora virado para norte. Quando no regresso voltava por essa mesma estrada, o cheiro era de fumo, cheiro de uma terra que ainda arde. O cenário é desvastador e das poucas casas que desta estrada se vê, só se pode ficar de coração apertado.

No meu percurso estava incluída uma paragem em Pedrógão (e não pensem que andei a passear por vales de tristeza e ruína, mas porque o meu destino fica a poucos quilómetros do local). Aquilo que ali senti foi solidariedade. As tendas enormes onde estão depositadas as doações do povo português vivem num burburinho constante. Burburinho de voluntários que separam os donativos, os colocam em caixas. Não se pode objetar contra isto: em tempo de miséria o povo ajuda com aquilo que tem.

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Agora há que seguir em frente mesmo que isso custe. É necessário começar a trabalhar aquelas terras pretas, fazer um rigoroso trabalho para que os destroços não caiam no rio, não o poluam ainda mais, que não estraguem. É necessário recomeçar. E recomeçar de forma organizada e a impedir que tal catástrofe volte a acontecer.

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Movimento de Translação dos Políticos

por Ismael Sousa, em 27.06.17

O planeta Terra demora um ano sideral a dar uma volta completa ao sol. Esse ano sideral tem exatamente 365,256363 dias solares. Ora, devido a este movimento anual do planeta, de quatro em quatro anos temos direito a mais um dia, ou seja, 366,025452 dias solares.

 

Outro fenómeno que acontece de quatro em quatro anos é as Eleições Autárquicas. Mas estas, em vez de nos darem mais um dia, dão-nos mais dores de cabeça, pelo menos a mim.

 

É inevitavel. De quatro em quatro anos voltamos a ver as caras dos senhores candidatos escarrapachadas em todos os locais, as discuções comuns, a concretização de algumas promessas. E neste caso vou falar mais concretamente sobre a (nece)cidade onde vivo: São Pedro do Sul.

 

São Pedro do Sul, para quem não conhece, é uma pequena e jovem cidade, escondida no regaço das serras da Estrela, Caramulo e Maciço da Gralheira. Não, não é Viseu. É ligeiramente um pouco mais a norte, a cerca de 20 km da Cidade de Viseu. Sim, é aquela cidade que para se lá chegar demoramos uma eternidade porque são só curvas atrás de curvas.

 

Depois de muita curva e contracurva, eis São Pedro do Sul. Uma pequena cidade, muito pouco desenvolvida, cuja a atração central são as Termas. Sim, quando se fala em São Pedro do Sul é sobre as Termas ou alguma vaca maluca que decide assustar as populações. Bem, prosseguindo!

 

São Pedro do Sul também está em campanha eleitoral. Desde janeiro que o avanço se tem sentido nesta cidade. Há ecopistas prontas e inauguradas, o senhor Presidente já fala a toda a gente e é visto em todos os acontecimentos.

 

Estamos com as Festas da Cidade à porta e continuamos a esbanjar dinheiro, dando à população tudo de graça. As festas começam esta semana e São Pedro do Sul está um caos. Há obras por todo o lado, estradas cortadas. Finalmente começaram a ver-se obras. Pena que sejam só para apagar memórias.

 

A cada quatro anos que passam me mentalizo mais desta ideia: o povo tem memória curta. Basta dar-lhe umas obrinhas antes das eleições e já veem o Sr Presidente com muito bons olhos. Se falarmos sobre o assunto, conseguimos compreender isso. Perguntamos: "Que fez ele?" e logo nos respondem: "Então não vê as obras que ele fez? Está farto de fazer obras e bla, bla, bla..."! Enfim!

 

A verdade é que São Pedro do Sul é cidade há quase oito anos. Mas desde aí, a diferença que sentimos nestes últimos oito anos foram os impostos a aumentar. Porque continuamos longe de tudo, sem desenvolvimento e cada vez mais despovoados. Não temos ofertas atrativas a vários niveis, não temos uma zona industrial em condições. Temos estradas e mais estradas que trazem os eleitores da serra até à cidade, que depois fogem para outros lados.

 

A melhor oferta que se tem para quem vem conhecer São Pedro do Sul, é a voltinha tradicional às Termas que, até essas, já pararam no tempo. Nas serras há estradas melhores que no centro da cidade, mas o povinho não vê isso.

 

Há pequenas coisas que se podem melhorar e ninguém espera que em quatro anos se faça tudo. Mas fazer alguma coisa era bom. Talvez não os deixar tanto tempo no puleiro seria um bom começo. Quem sabe teriamos mais desenvolvimento.

 

Tenho perfeita noção de que o problema não deve ser só aqui, mas deve ser dos ventos que sopram sobre este país, certamente.

Casa roubada, trancas à porta!

por Ismael Sousa, em 21.06.17

É do conhecimento de todos o flagelo que temos vivido nos últimos dias. A catástrofe de Pedrógão Grande não deixa indiferente ninguém. Hectares de chamas, centenas de desalojados, centenas de feridos e mais de seis dezenas de pessoas mortas. Pedrógão tem sido motivo de destaque durante os últimos dias. A indiferença não se faz sentir. É horrivel aquilo a que assistimos, aquilo que nos vai chegando pela comunicação social. É enorme também a quantidade de comentários, textos, iniciativas de solidariedade que se têm assistido. Este é mais um texto opinativo, como tantos outros, com o meu ponto de vista.

Pedrógão Grande é uma terra que faz parte das minhas memórias há tantos anos quanto me consigo lembrar. Os meus avós maternos vivem a poucos quilómetros de lá. Há coisa de 13 anos, enquanto aproveitava férias na terra dos meus avós, um enorme fogo veio também daquela zona, levando tudo aquilo que existia à frente. Só quem vive uma situação destas consegue compreender perfeitamente certas coisas. A aflição de ver tudo a arder à volta é enorme, as inúmeras frentes e a grande dificuldade de acessos, juntamente com a falta de luz (para retirar águas de furos) somando a velocidade a que o fogo avança, resulta numa enorme equação impossível de resolver. As horas em frente ao calor são enormes, as forças falham, os corpos desidratam. Se os bombeiros tinham o meu respeito, de há treze anos para cá aumentou. Respeito o trabalho deles, compreendo que não consigam estar em todo o lado. Decisões precipitadas levam a desastres, como aconteceu bem recentemente, aqui na zona onde vivo. Quem têm por gosto culpar os homens que vão e deixam as suas famílias sem saber se voltam, que faça um melhor trabalho: que vá para uma corporação, que conheça realmente as pessoas que arriscam as suas vidas pelos outros e pelas coisas dos outros. Hoje os desconhecidos, amanhã nós. image_content_791674_20170618231842.jpg

A comunicação social tem estado em peso. A quantidade de reportagens, entrevistas e afins que se têm feito, chegam a sufocar-nos, levando à manifestações de opiniões diversas. Verdade que cada pessoa tem direito à sua opinião e que não deve ser censurada. Por isso, eis a minha em relação à comunicação social. Sei perfeitamente que o trabalho deles é estar em cima do acontecimento, garantindo, assim, as "notícias de última hora" e de "primeira mão". Reconheço que esse é o trabalho deles e que as grandes empresas para que trabalham sobrevivem com as audiências e afins. Reconheço ainda que, um jornalista ao cobrir um acontecimento, vai tentar de tudo para garantir o seu lugar, ganhar um pouco mais, ser reconhecido pelos seus superiores. Contudo não me é possível compreender a falta de sensibilidade, de valores que em alguns momentos certos jornalistas manifestam. A TVI tem sido bombardiada com maus comentários (e atenção que não estou a defender esta cadeia televisiva) por causa das reportagens que foram feitas. Antes de passar àquilo que o leitor deve estar à espera, quero enaltecer também a atitude de um jornalista pouco falado, que estando a fazer a reportagem ajudou uma idosa a sair de casa. Como este, muitos terão agido também, mas como em tanta coisa neste mundo, o mal sobressai mais que o bom. Seria uma falha grave, ou não, ocultar a famosa reportagem que a Judite de Sousa fez. Este caso deveria ser esquecido, levado ao esquecimento. Mas ser-me-ia impossivel fazê-lo porque, como se diz em bom português, "deu-me a volta aos intestinos". Quanta frieza poderá existir no coração de uma pessoa para que, num estado de calamidade como o que vivemos, conseguir fazer uma reportagem a poucos metros de um cadáver, dos restos de uma pessoa que morreu de uma forma tão bárbara, tão agonizante. Não aceito a desculpa de que ela foi "obrigada", nem que isto nem que aquilo. O mau jornalismo da Judite de Sousa têm-se vindo a manifestar ao longo dos tempos, desde a má sorte que teve da perda do seu filho. Judite de Sousa já não têm uma imagem, não têm expressão. Ela é (ou era) uma jornalista de renome, uma pivot exíma, de quem só se poderiam tirar bons exemplos. Mas depois desta reportagem, a sua imagem está na lama, ninguém lhe dá credibilidade. Como ela, outros possivelmente também o fizeram, mas ela poder-se-ia ter negado. O seu posto de trabalho não corre perigo. E se acham que jornalismo é isto, peço desculpa por viver num mundo diferente.

Outro assunto que não poderia deixar sem referência, são os grandes actos de solidariedade. E não, não me refiro às grandes doações de dinheiro para as vítimas, mas sim de outras que não são publicitadas. Perdoai-me a religiosidade, mas Cristo disse um dia: "não saiba a tua mão direita aquilo que faz a esquerda". Ou seja, que não é necessário anunciar a todo o mundo o bem que estou a fazer. Contudo não pode ser deixado fora da equação os templos globais e das redes sociais em que vivemos. Com muita facilidade e, diria até, naturalidade, partilhamos o que fazemos, principalmente os sociodependentes. É um ato normal nos dias de hoje e quem sabe, até uma forma de encorajar outros a tomarem a mesma atitude. A solidariedade tem-se manifestado no povo português, nem que seja só de intenção. Outros assuntos podem ser falados sobre este mesmo tema. Há ainda referências ao Presidente da República, Primeiro Ministro, outros ministros, associações e direções. Mas isso de nada interessa agora. Penso que o que é necessário neste preciso momento é apagar as chamas que ainda lavram, acompanhar as familias, ajudar a sarar corações.

 

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Mas como referia no título deste post, é preciso tomar atitudes a outros niveis. Temos vivido fogos todos os anos, alguns com várias mortes. Todos os anos o filme se repete, todos os anos as desculpas são as mesmas. Está na altura de sair para a rua, de fazer planeamentos, limpezas nas matas. Senhores autarcas e concorrentes a autarquias: se querem prometer e cumprir, que as matas e florestas sejam o vosso moto de candidatura. Olhem por aquilo que é nosso porque ninguem olhará por nós. Senhores proprietários, talvez os fogos sejam motivo de ganhar algum, para fazerem uma limpeza boa nas vossas matas. Ou até comprar terrenos a baixo custo, madeiras a preço baixo. Pensem mesmo no que querem deste país, porque por este andar, não teremos país.