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Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

...

por Ismael Sousa, em 24.07.18

Perco-me na infinítude do teu olhar. Anseio conhecer cada traço do teu rosto, cada local teu, cada sentimento e pensamento. Quero-te, junto a mim, em dias incontáveis de eternidade, onde sonhos e mundos habitam em nós e somos tudo aquilo que desejamos.

 

As horas passam infinítamente em anseios de te ter junto a mim, em meus braços e em meu sentir. Sentir o teu cheiro, conhecer a tua respiração, o sabor dos teus beijos e o calor do teu abraço.

 

O sonho e a vontade perpetuam a vontade de ser parte de ti, num complemento e conformidade que só nós dois conhecemos. O tempo que é indiferente, o tempo que não sente ou que não quer sentir, o tempo que acentua e magoa, o tempo e o tempo.

 

Sonho-te em cada momento que o meu pensamento se desliga do trabalho. Sinto o corpo a movimentar-se e o meu pensamento a procurar-te. Viver cada segundo inseguro de ti, com o receio de te perder, o medo de não bastar.

 

Tantos os silêncios que nem o mar me traz conforto. Olho-o na sua imensidão, para além das vidas que me circundam, em momentos de ilusão e abandono. Quebro as regras que me impuseram: o sonho e a vidraça, o café e o horizonte sem fim. E em fins inesperados me espero encontrar contigo.

 

Falham-me as palavras que te quero dizer; falham-me as forças e a confiança. O café está frio, o sol não me aquece a alma. Sinto-me a vaguear sem rumo, na ausência que não compreendo. A vida passa-me diante dos olhos e a melancolia abate-se de novo sobre a minha alma negra e esfarrapada.

 

Saio, para a rua, em ausências inexplicáveis. A vida, que simplesmente corre, não se inebria por mim. Há um triste fado nesta forma de viver, nesta dor de sentir, nesta fome insaciável. Há um fado melancólico em palavras bucólicas e desajeitadas, tentando dizer tudo aquilo que sinto em mim.

 

Falham-me as formas gramaticais, as palavras e os verbos. Repito o que digo sentindo inexplicavelmente algo maior, que não consigo compreender, que não consigo ver. E o depois que é sempre tão constante, impedindo a forma de viver bem o presente que desejamos. O medo de um futuro esvaziando aquilo que dentro de nós existe. Pelas palavras que dizemos, comprometemos as nossas vidas, unindo-as num forte laço inquebrável por quem quer que passe.

 

Sonhos, ilusões, certezas ou angústias. Perdas irreparáveis, medos e receios.

 

Uma estrada ou meio, uma forma de chegar. Vai-se ficando, vai-se vivendo. Um estado de inexplicável sentimento, que nenhuma palavra no meu conhecimento consegue traduzir aquilo que dentro do meu estranho ser se faz sentir. Talvez um fado, talvez uma saudade, quiçá um fado-saudade.

Há ou existe!

por Ismael Sousa, em 18.07.18

Poderia haver uma história de amor. Ou quem sabe uma história de transformação. Poderia ter sido as duas coisas. Mas poderia não ter sido nada.

 

Há sempre uma janela com vista para um horizonte incansável, um cigarro entre os dedos. Há sempre tanta coisa num pensamento distante e vago. Havia eu, ali, em solidões exaustivas, em olhares perdidos e horas queimadas em cigarros acesos.

 

O mundo muda na sua universalidade. Existe tanta coisa esquecida e abandonada. Existe tanto para onde fugir, tanto para onde partir. Há quem deseje ficar, outros desejam partir. Há mundos pequenos, existem mundos grandes. Há quem vá e existe quem fique.

 

Senti a falta num coração apertado. Houve uma insuflação de ar, de um novo ar. A esperança de um novo recomeço. Há gente que sonha, existem quem concretize. Eu fico-me pelos intermédios.

 

Voltei no tempo a um espaço onde me sinto confortável. Um lugar onde eu um dia fui feliz. Regresso a um passado solitário, um passado que tão poucos conhecem, que tantos desejaram ignorar, que fizeram por não estar. Regresso a um presente diferente de tudo aquilo que um dia sonhei. Vou e volto entre passado e presente. Viajo por um espaço tão meu, tão exclusivo. Voo pelos meus sonhos de uma forma indiferente.

 

Não existem cartas de amor, não existe a impressão de se ser amado ou desejado. O mundo corre sempre indiferente a corações que palpitam por coisas mais importantes que a superficialidade de um mundo que ambiciona o momento, esquecendo o futuro.

 

Atravessei a cidade em passo lento, atravessei o mundo em pensamentos. Aqui, ali, acolá ou além. Importa existir, importa ser-se, importa amar.

 

Encontrei poesia na esquina de uma viela escura, desprezada por todos, pela sua degradação. Há a dor e a frieza em mil olhares direcionados, onde a raiva e a dor permanecem de uma forma cruel.

 

Um piano abandonado numa rua deserta. A melodia que ecoa num coração de amor, o silêncio nas palavras. Ali, diante do olhar, as teclas sujas pelo tempo e abandono. As notas desafinadas de um ritmo brando. Soou a mais bela das canções, a mais bela das músicas. Ecoou um mundo que existe somente num pensamento e na vontade da concretização.

 

Há, existe.

 

O presente. Somente o presente nos tolda o pensamento. O que passou, passou; o que ficou, ficou. O futuro não existe, o futuro é uma ilusão. Seremos sempre folhas em branco, tábuas rasas, onde escreveremos o rumo que queremos tomar. Há sempre a oportunidade de um ponto final, existe sempre a oportunidade de terminar e recomeçar. O mundo em espelhos quebrados e amaldiçoados.

 

Sonhos de alguém que nunca sentiu.

O que é o amor?

por Ismael Sousa, em 16.07.18

Acho que nunca percebi bem o que é o amor. Aprendi sobre ele, em tantos e variados momentos da minha vida, mas acho que nunca o compreendi muito bem, ou melhor, nunca o entendi.

Sempre que falo em amor, na minha visão do que ele é, compreendo sempre, nas minhas palavras, que o amor deve ser a dádiva a outra pessoa. Que deve fazer-se renascer a cada momento que passa, a cada dia, cada mês, cada ano.

Sempre compreendi que no amor temos que ceder e marcar posição. Que não deve ser só uma parte a ceder, mas ambas. Sempre percebi e entendi que no amor se sofre: não uma dor física ou uma dor provocada pelo outro. Mas sim aceitar e viver a dor que a outra parte sente, mesmo que pareça ridícula.

Houve alguém que disse uma vez: “se eu tivesse amnésia, apaixonar-me-ia por ele todos os dias.” E para mim, nesta minha sabedoria parva e tentativa de compreender algo que acho não conseguir ter esclarecido na totalidade, isto é o verdadeiro amor: fazer cada dia como se fosse a primeira vez.

Sou um lobo solitário sem ninguém com quem partilhar os meus dias, e por essa razão vou sendo, em muito, diário de outros. Tenho visto muitas coisas e não consigo perceber como é que alguém que está numa relação não consegue fazer mais por ela, aproveitar cada segundo com a pessoa que se ama, lutar para não a perder.

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Continuo a achar que o ser humano está cada vez mais centrado em si próprio, querendo que o mundo gire em seu redor do que em redor de outrem. Eu continuo a ser contrário a esta regra que me salta à vista e continuo a desejar que a minha vida gire em torno de alguém.

Amar é das coisas mais belas. Chego a esta conclusão por diversos fatores, mas também como síntese de muitas das minhas leituras. O homem procura amor mas não é capaz de se entregar ao amor. O homem procura ser amado, mas não quer amar. A ideia do geocentrismo perdeu-se há vários séculos. Mas há vários séculos que se criou o egocentrismo. O eu está a cima de tudo, independentemente da forma como se conquista essa posição. As pessoas dão mas não se dão.

Há a dor de não se ser amado, a mágoa de algum amor. E porque se passou por isso uma vez, tende-se a fechar-se o coração e a pensar somente com a razão. E a razão é instinto animal e como os animais deixamos de fazer amor passando a fazer-se sexo. Já não há amor mas relações , mas o uso de alguém para satisfação de si.

Sempre existiram pessoas Alfa. Hoje todos querem ser alfa rejeitando a ideia de se ser uma outra letra do alfabeto grego. Queremos mas não damos, esperando sempre só receber. Talvez se tenha esquecido o verdadeiro significado da palavra dar, substituindo-a por descargo de consciência.

É das coisas mais difíceis o sair-se de si em busca do outro. É uma espécie de subjugação ou humilhação perante o outro. Mas sair-se de si em prol de outrem é uma das características do amor. Hoje amam-de objetos e locais mas não se amam pessoas. Hoje ama-se de mais aquilo que não pode retribuir amor.

Compreendo e aceito na sua perfeição que o amor não é fácil. Mas amar nos primeiros dias também nunca foi difícil. Parece-me que se ama até determinado momento, mas depois vive-se, acomodado, ao lado de alguém. E achar-se que esse alguém é nosso por direito é matar o amor; tratar essa pessoa de forma má só porque achamos que ela nunca nos vai abandonar, é matar o amor. E o amor deve ser algo que se rega todos os dias e não que se arranca para não impedir que o ego cresça.

“Amar dói: se não doer não é amor”! Escrevi estas palavras um dia percebendo, à posteriori, que poucos foram aqueles que compreenderam a verdadeira essência desta frase. Amar dói porque sofremos com alguém, obriga-nos a sairmos da nossa praia, a lutar em cada novo dia.

Se amar é a coisa mais bela, porque desperdiça o homem esse dom? Se amar é a coisa mais bela, porque matamos este sentimento? 

Palavras abafadas!

por Ismael Sousa, em 13.07.18

Existe, no meu peito apertado, um enorme sentimento de abandono.

Rasga-se-me o peito em inúmeras horas de sofrimento silencioso, onde o sorriso sempre presente se esbate no rosto. Não existem mais lágrimas por onde escoar os sentimentos que dentro de mim gritam.

Existe, sempre, a réstia de esperança, na crença de tempos de bonança, em que não sentirei dor, em que o desespero não residirá em mim.

Sou um ser complexo e estranho em tantas coisas. Os meus gostos diferem de tantos outros. Dou-me na total pessoa que sou. Continuo a acreditar nas pessoas e na sua bondade, mas sempre acabo por me dececionar. Quero acreditar sempre, num novo passo, mas aquilo que sinto é que serei sempre mais um instrumento nas mãos de outrem.

Eis-me aqui, sentado, diante de uma vista fabulosa, acompanhado pelo Gin, sozinho e abandonado. Não há quem partilhe comigo estes momentos belos, esta forma de viver estranha.

Estranheza contida nas entranhas, inegável naquilo que sou. Desabafo nas palavras, as minhas únicas e fieis companheiras. Uso-as e abuso delas na alegria e na tristeza. Elas sempre conheceram o meu ser, as minhas dores e júbilo. Elas que sempre estão, para recordar e perdoar, para fortalecer, dar energia e por vezes fazer fracassar.

Abandono-me, cada vez mais, a este estado de incompetência e de invisibilidade. Somente as palavras me dão alento, somente as palavras reconfortam e aceitam as minhas decisões.

Abandono-me nesta minha imperfeição, nesta enormidade de defeitos e falta de qualidades que eu tenho. Sou um ser pobre, sem interesse. Tentei tantas vezes ser diferente que a diferença se instalou em mim, arrebatando-me ao campo do abandono total.

Por vezes quero escrever mais e mais, mas a constante negrura da minha vida, a energia negra que de mim emana, impede-me a fazê-lo, no medo de me tornar tantas vezes repetitivo. Escrevo tantas vezes sobre este meu estado impuro de sobrevivência. Encho a minha vida com mil coisas, tentando esquecer a dor que dentro de mim surge.

Amar corpos tornou-se o comum e as almas já não interessam.

Silêncios...

por Ismael Sousa, em 05.07.18

Não são as palavras que definem a essência de uma pessoa. Não são as palavras que proferimos que nos tornam grandes e enormes no mundo.

 

O silêncio. Tantas vezes o silêncio que fazemos, a ausência das palavras torna-nos grandes na forma como nos expomos ao mundo.

 

Uma janela, um horizonte e uns quantos cigarros. A ausência total de uma única palavra e tanta expressão no olhar, nas expressões faciais e corporais. Um olhar preso no horizonte, um olhar cheio de tanta palavra por dizer e quem sabe sem ninguém para escutar.

 

O silêncio quase total. Somente o barulho que nos circunda. A reflexão interna e intensa de uma alma. Os sentimentos que ecoarão naquele coração, os pensamentos que correrão em sua mente. E a tristeza ou mágoa que parece inundar o seu ser. A incompreensão que paira no ar, a confusão que provoca a quem observa. O estranho mas tão natural. O preenchimento da vida em constantes palavras que se tornam vazias são contrastadas com o silêncio que se faz ouvir.

 

Lá longe o vento ou o mar.

 

Não há palavras para dizer, é preciso sentir-se na alma.

 

Fez-se silêncio. Fecharam-se os olhos, examinou-se a alma. Suspirou-se por um mundo melhor, onde existem tochas ainda acesas que dão luz num mundo de escuridão.

 

Olhei do lado de cá, para um espelho onde me encontrei. Olhei e vi o rosto de uma alma carregada e triste. Não era eu mas é como se fosse. Era um mundo e uma total inquietação.

 

As palavras baralham-se na forma e naquilo que quero dizer. Ou melhor, naquilo que quero escrever e ler no silêncio de um mundo cheio de barulho. As palavras faladas perdem todo o seu valor, escritas podem ser lidas e relidas, podem ser recordadas e queimadas. Podem ferir ou consolar, podem ser compreensão ou simplesmente revolução.

 

Palavras, muitas ou poucas. Podem dizer e não falar. Palavras que ninguém diz e tantos sentem.

 

Silêncio, o que eu mais desejo.

Ao longo da linha da água...

por Ismael Sousa, em 30.07.17

Perdi-te com todas as minhas tentativas de te conquistar. Pensei ser a melhor forma de lutar por ti, de te mostrar o quão gosto de ti e és importante para mim. E agora, no fim, vejo que tudo o que fiz foi errado. Agora percebo que nas minhas tentativas de te ter, acabei por te perder. Em todas as minhas formas de te aproximar de mim, simplesmente te afastei.

Termina mais um dia, aqui na praia, onde tu não estás ao meu lado. Passeio à beira mar pensando no teu cheiro, nos teus olhos e nos teus lábios. Esses lábios agridoces que sabem a cerejas e cigarros. Procuro a tua mão perdida ao lado da minha, mas aquilo que encontro é o vazio. E, de forma vazia, deambulo junto à linha onde rebenta a espuma das ondas. O dia está lindo, mas tu não estás a meu lado. Perdi-te há alguns metros atrás ou, quem sabe, há vários dias. Ainda agora, na onda que rebentou junto aos meus pés, poderia jurar que estavas comigo, mas não estás. Ficaste, algures, a olhar o mar ou a caminhar noutra direcção, separando-nos cada vez mais.

EIMG_3307.JPGscrevi o teu nome na areia, para que soubesses que eu ali tinha estado, a pensar em ti, a desejar-te, a matar as saudades que sinto de ti. Ainda resistiu à primeira onda. Mas na segunda, o mar apagou o teu nome, sem deixar vestígio algum. E como o teu nome na areia desapareceu, levado pelo mar, talvez também tu desapareças da minha mente, porque para ti, eu já desapareci. Eras (e és) mais do que aquilo que possas imaginar. Mas não se ama pelos dois. Como dizem lá na terrinha, o que um não quer, dois não fazem. Eu queria (e continuo a querer, por mais estúpido que possa parecer) mas tu não (ou pelo menos assim o deste a entender)! Eu continuei o caminho que jurámos percorrer juntos, naquela manhã de chuva, enrolados na cama, a comer cerejas e fumar cigarros. Sempre as cerejas e os cigarros, aquele sabor que os teus lábios sempre tiveram para mim. Eu continuei a percorrer, mesmo depois de teres virado costas e deixado de estar a meu lado.

Não te odeio. Aliás, acho que ainda te amo mais. Eu não sou perfeito, não tenho nada a que me possa agarrar. E tu? Tu mereces bem melhor. Ambos o sabemos. Aliás, nunca compreendi como ficaste a meu lado todo este tempo: sou tão imperfeito, sem nada para te dar. Nem o meu coração é bom, pois fraqueja muitas vezes. De tudo aquilo que nunca tive, sempre te dei o que de melhor poderia oferecer: amor, fidelidade, carinho e atenção. Sim, eu sei que há coisas que fiz e que nunca te disse (mas nada que comprometesse aquilo que sempre te dei, e o que só tinha para te dar). Mas se com o que te disse te afastei, mais longe estarias se soubesses toda a verdade.

Caminho ao longo do rebentar da espuma das ondas do mar. Para trás ficam um único par de pegadas, mas são dois que seguem em frente: eu e o meu coração destroçado. Sempre te disse que nem tudo seria amor, que nem tudo seria suave como as pétalas das rosas. Também haveriam espinhos e momentos rugosos como as folhas de um rosa. E nisto, nesta analogia tão parva como os sentimentos que me correm nas veias, estiveste sempre como uma rosa, dentro de uma redoma de vidro. Uma rosa que eu não queria que desaparecesse. E fomos sendo, calmamente, rosa e príncipe. Mas um dia eu perdi o estatuto de príncipe, fui destronado, caído do meu pequeno planeta. E vi-te florescer longe de mim, sem te puder alcançar. Caminho ao longo da linha que separa o mar da terra e tu não estás. Caminho com os olhos caídos, com lágrimas que sabem a sal. E naquele momento em que levanto os olhos para dizer adeus, ali estás tu à minha espera, com o teu sorriso maroto, os teus olhos reluzentes, os teus lábios que sabem a cigarros e cerejas e o teu cheiro a maresia. Sempre estiveste comigo, eu é que não te consegui ver.

Isto choca?

por Ismael Sousa, em 23.07.17

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Este sou eu! Ou este fui eu!

 

A vida dá voltas que nunca esperamos que dê. Acontecimentos surgem na nossa vida, fazendo-nos repensar tudo, cada coisa por sua vez. Cada minuto é precioso, cada hora importante.

 

Há três anos atrás, este era o estado em que eu estava. Não, não foram as comidas rápidas, nem o óssio que me fizeram ficar assim. Foram os medicamentos, as drogas que tomei. Não, não eram drogas ilícitas, mas "drogas fornecidas pelo estado" como costumávamos dizer.

 

Há três anos, lutava eu contra um cancro, contra uma doença que me apareceu. Há três anos, dava importância a muitas coisas que hoje me são indiferentes. Há três anos as pessoas olhavam-me de lado. É triste dizer-se isto, mas é a mais pura das verdades.

 

Pessoas com cancro não são pessoas normais. Isto tem de ser um ponto acente e quem discordar, que me apresente argumentos sólidos contra esta minha tese. Repito: pessoas com cancro não são pessoas normais. E eu passo a explicar porquê.

 

A pessoa com cancro não é normal porque é uma lutadora: todos os dias luta contra a doença, contra os efeitos secundários da medicação, contra o seu espelho, contra a sua imagem, contra a vontade de ficar todo tapado com os lençóis. Luta contra o calor, luta contra os afrontamentos, luta contra a vontade de chorar. Todos os dias, o doente oncológico é um lutador. Não é fácil levantar da cama e ter que ter um sorriso na cara, porque se não, começam as perguntas, os discursos morais e afins. Ter cancro é ter que ser alicerce quando se precisa de alicerces. É preciso lutar contra o cheiro dos hospitais, a comida que é sempre igual (se não é, parece). É lidar contra a repulsa de algumas coisas, com o desejo de outras. Lutar contra as infindas horas na sala de espera, contra o medo das agulhas, contra as horas intermináveis de tratamento e, acima de tudo, contra o aborrecimento. Onde está a facilidade em encontrar o que fazer quando não nos deixam fazer nada? A televisão já chateia, os olhos estão cansados de ler, os ouvidos fartos de música e a paciência no limite. E dormir é sempre um tormento: há uma máquina que apita, a vizinha do lado que não se cala, o sono que não existe. Ou até aquela bexiga chata que nos obriga a andar com um ou dois cãezinhos atrás. Quem sabe, enterder-me-á.

 

A pessoa com cancro não é normal porque é uma coitadinha. Este é o primeiro rótulo que nos colocam, o "coitadinho". Somos coitados porque adoecemos, porque vamos morrer, porque isto e por aquilo. Há duas sentenças que nos são logo ditadas e era isto que a médica nos devia dizer quando entramos no consultório: "O senhor tem cancro, passa a ser coitadinho e vai morrer." Era muito mais fácil do que andarmos iludidos. Porque até vamos conseguindo lidar com o cancro, mas não é fácil olhar para a cara de alguém e ver aqueles olhinhos de cachorrinho a olharem para nós. Sentimos logo pena dessa pessoa. Está tão enganada! Nenhum doente oncológico é coitadinho! É verdade que nem todos chegamos ao fim da meta, que há alguns que ficam pelo caminho (e poucos sabem a dor que isso nos provoca), mas isso não nos torna coitadinhos. Vou contar-vos um segredo: há doentes oncológicos a viverem de forma mais feliz que muita gente com a saúde a 100%.

 

A pessoa com cancro não é normal porque é desrespeitada. É olhada de lado, é comentada, é deixada desconfortável. Os cafés são casas de tortura. Entra um "carequinha" (como uma amiga nos trata) e levantam-se as moscas. Chegamos a ouvir comentários que não lembram nem ao diabo. Para as pessoas que não sabem, o doente oncológico não é surdo e ouve normalmente. Nos restaurantes e centros comerciais são exatamente a mesma coisa. Há gente que até atravessa a estrada (e isto aconteceu comigo!).

 

Há uma enormidade gigantesca de coisas que acontecem a uma pessoa com cancro, por isso esta não pode ser considerada normal. Ou melhor, é superior ao normal. Deviam haver super heróis carecas e inchados para naturalizar esta situação.

 

Bem, adiante que atrás vem gente!

 

Escrevi este texto por causa da foto. Quem me conheceu na altura, hoje não me reconhece. Quem me conhecia, não me reconheceu. O corpo sofre transformações horriveis, levando-nos a um ponto em que a nossa imagem se torna horrivel. Somos um pouco "indesejados", evitados. Falamos sobre um mundo onde "estas coisas não acontecem" mas existem. É altura de mudar mentalidades.

 

Este já não sou eu, mas continuarei sempre a sê-lo. Esta já não é a minha imagem, mas fará sempre parte de mim, da minha história.

Esperando...

por Ismael Sousa, em 18.07.17

Seduzes-me só com a tua presença. Evito-te em cada dia só para não me sentir seduzido por ti. Mas teimas em vir todos os dias à minha mente. O que te posso dizer? Nada. Simplesmente nada. Entraste de forma brusca no meu coração, rasgando todas as minhas entranhas. És a razão de me sentir vazio. Não estás, como é normal. Vives a tua vida e eu a minha, cruzando-nos nos entretantos. Não existes por existir. Simplesmente és. Há tanta coisa que tu não sabes. Tanta coisa que receio dizer-te só com medo que possas partir sem nunca mais voltar. E, se neste momento te sinto tão distante, nem quero imaginar no momento em que te dissesse. Viras-te a minha vida de pernas para o ar e nem sequer notaste. Passaste a ser inspiração sem o saberes. Viraste-me do avesso sem te dares conta. E naquela noite vieste conhecer uma pessoa e deixaste outra. Como foi possível? Como fizeste isso sem o saberes, sem te dares conta? Não é justo. E eu, na verdade, nem sei o que sou para ti. E tu és-me tanto. Pudera eu dizer-te tudo sem receio de te perder. Dou voltas e voltas na cama, esperando-te. Sei que não vens. Mas pelo menos uma mensagem virá. Há muito que te quero na minha cama. Quero-te para estar junto a ti, encher-te de carinho, de beijos. Sentir-te junto a mim, toda a noite. Ver-te dormir, acordar contigo, com um beijo teu. Sim, porque em todas as vezes foste tu que me acordaste com um beijo. É nessas vezes desejava puder acordar assim todos os dias. Ah, és mais do que imaginas. Se ao menos tivesses uma ideia, talvez eu perdesse todos os medos, toda a cobardia que em mim existe.

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Fumo mais um cigarro, olho mil vezes o telemóvel na esperança de tu chegares, da tua mensagem chegar. Sinto-te tão longe. Não é a distância que nos separa. Mas sinto que não estás bem, que há algo que não está bem. Quem sabe seja só mania minha. Vens, na maioria das vezes, depois das duas. Ou melhor, a tua mensagem. E eu vou ocupando o tempo até que chegues. Passeio pelos programas estúpidos da TV, nas redes sociais, em todo o lado. Por vezes até fecho os olhos, mas sempre sem me deixar adormecer. E aí vem a tua mensagem. É breve. Depressa te deixas adormecer. O cansaço faz-te adormecer rapidamente. E há noites em que te odeio, noites em que queria um pouco mais. Mas percebo e nada te exijo. E quando eu adormeço, tu vens povoar os meus sonhos. Sei que vens. Que mais poderia eu sonhar se és tudo aquilo que quero? Escrevo no segredo. Ninguém lê as palavras que escrevo. São minhas. Ainda quando as partilho, chegam a um círculo muito pequeno de pessoas. E a ti? A ti não chegam. Nunca ninguém disse que ia ser fácil. Também se fosse fácil não valeria a pena. As coisas da vida custam. É preciso suar, talvez sofrer um pouco para se conseguir algo. E quando se consegue o prazer é em dobro. Talvez ainda tenha de lutar mais. Muito mais. Mesmo que pareça não valer a pena, mesmo que a vontade de desistir seja muito maior, vou continuar a lutar por ti, a desejar ver-te sorrir, a desejar receber todas as noites uma mensagem tua, mesmo que curta. Vou continuar, aqui, para ti, fiel como sempre fui. Nem foi preciso pedires, essa decisão tomei-a eu, no dia em que rebentaste com as entranhas do meu coração, ocupando todo o seu espaço. Não, não vou dormir já. Vou esperar a tua mensagem como em todos os dias. E se por algum motivo ela não vier, vou mandar-te eu uma mensagem a desejar bons sonhos, a dizer-te que gosto de ti. E se algum dia tudo for em vão, acreditarei sempre que valeu a pena pelos sorrisos que vi, pela atenção que me dispensaste. Boa noite, vou sonhar contigo!

"Cristina": a vergonha de uma capa!

por Ismael Sousa, em 07.07.17

“Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.”

 

Todos os dias somos bombardeados com coisas que nos escandalizam, com coisas que vão contra os nossos princípios, bem como aquilo que consideramos normal. Todos os dias o mundo está em constante mudança, em constante evolução, em inevitável mudança. Coisas novas se descobrem, novos assuntos são trazidos à ribalta. Este é o mundo onde nasci, o mundo onde vivemos. É a razão humana e a ininterrupta evolução de Darwin.

 

Crescemos com as nossas ideias, com aquilo que vamos apreendendo e formando na nossa mente, segundo costumes e tradições. E como seres humanos que somos, vamos classificando como bom e mau aquilo com que nos defrontamos. Há ideias e ideais que mantemos, outros que revíramos totalmente e ainda aqueles que vamos moldando. Somos inerentes à mudança. O que hoje estranhamos, amanhã entranhamos.

 

A bomba rebentou com uma partilha nas redes sociais e outros meios. Na véspera do lançamento mensal da afamada revista “Cristina”, a diretora da revista, a própria Cristina Ferreira, partilhou as duas capas possíveis de encontrar nas bancas, no dia seguinte. Sob o título “isto choca?” onde se via Cristina Ferreira a beijar um homem, apareciam mais duas capas, aquelas que sairiam para as bancas: duas mulheres a beijarem-se e dois homens a beijarem-se. O caos, a polémica, a controvérsia estavam instaladas. As reações foram inúmeras, tanto positivas como negativas. E, para mim, surge o escândalo.

 

Vivemos em pleno século XXI. Celebrámos, há poucos dias, a abolição da pena de morte em Portugal, fizemos história neste último ano. Acreditamos numa mentalidade aberta e em mudança. Pelo menos eu acredito, mas parece-me que me desiludi. Sempre acreditei nas pessoas e na sua capacidade de mudança, mas ontem senti vergonha. Vergonha e desilusão. As redes sociais facilitam-nos em ver tudo, principalmente quando as coisas não são boas, parecem um vírus que se espalha com uma enorme rapidez. A capa da revista “Cristina” estava a chocar o povo português que se sai com o seu pior lado. Os comentários que apareceram não são dignos de serem citados. Há linguagem e homofobia em exagero. O lado negro dos portugueses demonstra-se.Vivemos no século XXI mas com uma mentalidade do século XV.

 

A capa da revista é polémica, sem dúvida, porque é das poucas (se não a única) a mostrar algo deste tipo em Portugal. Como tudo há quem goste e quem não goste. Mas daí a mostrarem a sua ignorância, vai um grande passo. Não concebo, na minha ideia, que se digam tantas barbaridades como as que foram ditas. Fala-se em aceitar ou não aceitar. Para mim, ninguém tem que aceitar ou não aceitar. As pessoas gostam do que gostam e cada um tem a sua ideia. Temos que respeitar. Somos livres de ter a nossa opinião, livres da expressar. Mas quando isso interfere na dignidade do outro, não temos direito nenhum. A minha liberdade acaba onde começa a do outro.

 

O beijo entre dois homens tem sido o principal motivo de todo o escândalo. Sobre o beijo entre duas mulheres, poucos se manifestam de forma tão agressiva. Algumas pessoas falam no que está capa poderá fazer aos seus filhos. É muito estranho que isso aconteça, que dois homens aos beijos seja “traumático” para uma criança. E uma mulher/homem despidos nas capas de revistas nas bancas?! É uma criança morta numa praia?! E a guerra?! Isto não é traumático?!

 

Comecei este texto com o primeiro artigo de “Os Direitos do Homem”. “Iguais em dignidade e direitos”, mas parece que não. Parece que só alguns podem usufruir disto. Cada vez mais se assiste a uma desvalorização de valores. Na televisão existem programas totalmente sexuais, onde a traição e o “eros” é o principal. Valorizam-se corpos em vez de personalidades. Mas isso é correto. Agora aceitar que dois seres do mesmo sexo se amem, que vivam em valores e dignidade, não! Isso é contranatura.

 

A minha opinião/posição em relação a esse tema, guardo-a para mim. Se me escandaliza? Não! Em minha casa, ao contrário de muitas, a revista “Cristina” entrou, como todos os meses. Os artigos estão lidos. Contra tanta coisa, sinto-me feliz por aqueles dois casais serem felizes, por viverem com mais valor que muitos casais heterossexuais. É preciso ter coragem para lançar uma revista com uma capa destas. É preciso ir contra muita coisa. É preciso fazê-lo. Contra todos os riscos, contra todos os tabús. O tema está mais que presente na nossa sociedade, temos que viver com ele.

 

A diferença é sempre contraditória. Eu, por várias vezes, fui rotulado de “gay”, somente porque não namorava, porque não namoro. É uma opção minha, mas isso mexe com as pessoas. Todas as semanas ouço que tenho de arranjar uma namorada, uma pessoa para a minha vida. E quem disse que quero?! Porque não posso viver sozinho e mesmo assim ser feliz?! Porque temos de ser todos iguais?! Cada um sabe da sua vida e vivi-a da forma que se sente mais feliz! Sou diferente e isso incomoda muita gente. E como eu, muitos sentem a dor da diferença, a rejeição dessa ideia.

 

Parabéns Cristina Ferreira pela coragem de derrubares tabús, pela coragem de seres diferente, por falares no que muitos não falam. Obrigado Cristina Ferreira por, com esta capa, ajudares tanta gente, por criares incómodo, por trazeres a público aquilo que se fala por entre dentes. Espero, sinceramente, que com isto abras mentes, abras portas de armários. Ser gay, bi ou hetero, são todos seres humanos. Temos todos direitos, como temos todos deveres. Aceito e gosto da diferença. Obrigado aos casais que posaram para as capas. Obrigado por tomarem essa coragem mesmo sabendo as represálias que poderiam vir a sofrer.

 

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Desapareceram as palavras!

por Ismael Sousa, em 05.07.17

O dicionário está aberto em cima da secretária. A seu lado o cinzeiro com um cigarro mal apagado que ainda deixa poluído o ar com o seu fumo. Em frente à secretaria as portas altas da varanda estão abertas. O calor aperta. Uma suave brisa toca os cortinados. Do lado de fora um corpo nu, apenas de roupa interior. Segura um copo de pé alto. No seu interior balança o purpuro vinho. São dez da manhã. Passam das dez, mas não importa precisar as horas. Olho a cidade que vai vivendo no seu frenesim diário. São dez da manhã, um pouco mais, mas não importa precisar a hora: são dez da manhã e eu já tenho quase um maço de tabaco fumado, meia garrafa de vinho bebida. Bloqueei nas palavras. Nem mais uma consigo escrever. O cursor ainda pisca no meio de uma frase inacabada, num livro inacabado. O tão normal em mim que deixo tanta coisa a meio. Abri o dicionário, procurei palavras, mas o dicionário pareceu-me em branco, sem sinónimos nem descrições de palavras. Branco, como se as palavras se tivessem fartado de lá estar e decidissem envergar uma campanha de não aparecer, julgando-se esquecidas pelos homens. Nem mais uma palavra. Sou um escritor de quarto de hotel.

Fumo e bebo numa campanha de encontrar inspiração. Fumo e bebo, saio em grandes noitadas procurando extrair de mim o máximo de adrenalina numa tentativa de ser possuído por uma avalanche de ideias. Procuro atingir o clímax e em tantas vezes que me deito agarrado a um corpo que não existe, procuro um orgasmo de palavras que não surge. As palavras abandonaram os dicionários e os livros. São todas falseadas, imagem do que já foram e já não são. São espelhos partidos, fachadas de casas abandonadas, totalmente vazias. As palavras abandonaram o mundo. Ou o mundo as tenha abandonado, vulgarizado, tornando-as comuns. Talvez seja isso. Ou talvez não, seja mesmo. São onze horas, ou ainda não. Ou talvez já passem. Paira a incerteza. Não importa precisar, são onze horas. O ritmo da cidade continua indiferente à fuga das palavras, à sua greve, à sua demanda por se tornarem outra vez essenciais, especiais. Resta o não e o sim. E até esses jogam ao “faz de conta” sendo o não sim e o sim não. Falta-lhes a coerência. Ou talvez nos falte a nós saber distinguir qual é um e qual é o outro. Falta-nos conhecer. O copo de vinho está vazio e eu sem uma palavra para escrever. Falta o essencial.

Abandono o frenesim. Encho a banheira do quarto de hotel, num desperdício de água absoluto. Mergulho nas águas. Fecho os olhos e procuro o silêncio dentro de água. É essencial, o silêncio. É nele que nos encontramos, nele que proferimos as maiores verdades, as maiores declarações de amor, as grandes guerras. É no silêncio que proferimos as palavras mais sentidas, sem abrirmos a boca. É no silêncio, que também desapareceu com as palavras, que damos valor ao essencial. Porque fugiram todos, porque partiram em debandada? Já não valorizamos a palavra nem o silêncio. Se um é rei, o outro é rainha.

Mais um cigarro, o corpo mergulhado na abundância de água. Sinto falta de mergulhar em palavras. Desvalorizámos. Tornámos comum. Substituímos umas pelas outras tirando-lhes a essência. Algumas até as evitamos. Adorar já não é a mesma coisa, amar já é comum. Sofrer é subvalorizado, chorar inútil. Amizade confundida com conhecimento e matámos os companheiros. Filtrámos as palavras, deixámos de as usar. Já nem o correto o é, nem o errado o que não está bem. Desvalorizámos, tornámos comum.

É meio dia. Agora em ponto. Envolvo o corpo numa toalha. A cidade está igual. Encho o copo com vinho, acendo um cigarro e mergulho no vazio procurando preenchê-lo.