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Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

Sem ti... (Parte II)

por Ismael Sousa, em 26.01.18

Desapareceste. Deixaste de me falar. Deixaste de procurar as minhas palavras. Simplesmente desapareceste. E agora? E agora o que eu faço com as coisas que senti, as coisas que escrevi? E agora o que somos, se alguma vez fomos? Desapareceste. Deixei de saber de ti, se estas bem ou mal, se andas feliz ou triste.
Destróis-me a cada dia que passa. Dou tantas vezes comigo a pensar em ti. E depois vem o vazio. Depois vem a tristeza. Sempre soube que nunca me pertencerias, que nunca passaria de um sonho. Mas sempre desejei a tua amizade, sempre desejei poder falar-te livremente, poder partilhar o prazer de um cafe na tua companhia. Somente desejava que, de alguma maneira, sentisses a minha falta.
Afogo-me em lágrimas constantes, mergulho num mar de tristeza. Não consigo sorrir, esquecer, avançar. Só porque desejava, tanto, que as coisas não acabassem assim. Destróis-me. Vacilam todos os meus alicerces porque esperei de mais. Esperei aquilo que nunca ia vir. E eu sabia-o. Mas simplesmente fui acreditando que estava enganado, que as coisas iam ser diferentes daquilo que eu já adivinhava ser. E tudo se concretizou: não como eu quiz mas como eu previra.
Tenho tanta vontade de te dizer coisas, mas acobardo-me e troco-as por palavras esquecidas e nunca lidas. Sofro num silencio enorme, sem deixar que ninguém se aperceba. Porque se tiver que justificar o meu sofrimento, só o poderia ser de uma maneira: apaixonei-me por quem lhe sou indiferente. Desculpa. Desculpa se estas palavras te magoam, mas são a mera verdade, aquilo que verdadeiramente sinto. E sabes o que sinto? Um coração despedaçado, ferido, um rio de sangue de dor. Sim. Chega de rodeios e dizer por entre as linhas aquilo que sinto. Chega. Agora, neste meu momento momentâneo de coragem, só a verdade. Se já te perdi, nada mais interessa. Ao menos saberás como me deixaste, aquilo que verdadeiramente eu sinto.
Lá fora nem a lua brilha no céu nem as estrelas se deixam ver. A noite está escura, o nevoeiro cobre a cidade e a vista a poucos metros de distância. E tão curiosamente é como eu estou: escuro, sem luz, sem vida. Honestamente? Ambos sabemos a verdade. Mas ela é tão dura que me faz voltar a chorar. A verdade é que o único culpado sou eu. Eu, por ter sonhado de mais, por ter acreditado de mais, por ser tudo a mais. Eu, por achar que era merecedor de ti. Poderia culpar-te a ti e talvez isso suavizasse a minha dor. Mas não sou capaz de o fazer. Por isso vou-me habituando a esta verdade, fechando o meu coração mais uma vez. Mas penso que desta vez será para sempre.
Não sou nada. Cada vez mais me apercebo da pessoa má que sou, da pessoa parva e sem interesse. Talvez erre muito. Talvez a felicidade não seja o meu caminho. Talvez não seja digno desse estado em que vejo tanta gente. Talvez tenha direito só à solidão, a esse estado que não desejo a ninguém. E a cada noite que passa, cada dia que renasce, me sinto mais afastado de ti, mais esquecido por ti. Tenho saudades tuas. Saudades de te ver, das tuas palavras, de ti...
Se conhecesses verdadeiramente a quantidade de palavras que escrevo sobre ti, a quantidade de vezes que te trago à cabeça... Derrotaste-me no primeiro momento. Ainda que não o saibas, nunca foste mais um, mas o um que eu tanto desejava. Não és mais um contacto, um conhecido, uma coisa qualquer. És aquilo que és. És-me tão especial.
Poder-te-ia ter ignorado no dia em que te conheci, no dia em que me desejaste, no dia em que me procuraste. Mas não ignorei, mesmo após tanto tempo de silêncio. Nunca te ignorei. Não te ignorarei...
Já são reticências a mais nestas palavras que te escrevo. São-o porque estou num estado alcoólico. Porque preciso de esquecer a merda de vida que tenho. Não faço falta. Não tenho um propósito na minha vida. Tudo desapareceu. Simplesmente vagueio pelas ruas do mundo, como alma penada, sem destino ou hora de chegada. Simplesmente pairo pela vida das pessoas. Não sou raíz nem tronco, muito menos ramo. Sou uma folha que exerce a sua função. E quando estou a mais caio, simplesmente, abanado pelo vento.

Talvez não me compreendas ou não compreendas as minhas palavras. Talvez aches que sou um desesperado que força as coisas para que aconteçam. Talvez aches mil e uma coisa sobre mim. Quem sabe se muitas não estarão certas ou que saibas o que sou e que eu o negue. Não sei. Não sei nem imagino o que pensas sobre mim. E talvez seja melhor assim. Ou não. Quem sabe não deseje saber o que pensas sobre mim para que de alguma maneira eu possa dizer que não ou justificar-me, fazendo-te, ou pelo menos tentando, perceber as minhas razões.
É tarde. As horas da noite vão avançando e eu estou aqui, escrevendo, pensando. Que mais te posso eu dizer sem te dar a conhecer a minha alma? E eu acho que já te disse tanto sobre ela sem o querer. Segredei-te as minhas vontades, escritas entre as linhas que te escrevo. Não sei se as consegues ler ou se as queres ler. Escrevo-te palavras mas também desejos, vontades, coisas que não tenho coragem para te dizer. Mascaro essas coisas com palavras imensas quando aquilo que te queria dizer era tão simples. Mas como eu, complicado, também as minhas palavras o são. Mascaro-me com tanta coisa porque não sou uma pessoa simples, de fácil compreensão. Mais complicado que aquilo que possas pensar. Não tenho tido uma vida fácil, nem fáceis são os meus dias. Não vivo, vou sobrevivendo. É por isso que eu tanto sonho. É por isso que me mascaro. Gostava de te poder dizer que sou uma pessoa que diz tudo o que deve dizer. Mas não sou. Gostava de te dizer que sou a melhor pessoa do mundo. Mas também te estaria a mentir. Sou frágil, fraco, inseguro, cobarde, amedrontado. Se queres que te diga, nem devia existir. Mas existo e vou-me esforçando para sobreviver. O meu sorriso é frágil. Quantas vezes falso. Tantas e tantas vezes ele cai, dando espaço a lágrimas e sentimentos de abandono. Mas isso de nada interessa. Nada disso alguma vez teve importância alguma. Somente para mim.
E aqui vou eu, percorrendo quilómetros deste país, pela noite escura e de nevoeiro. E nesta quase solidão, pergunto-me a quem faria falta, quem sentiria saudades. Paro. Reflito. Releio o que escrevo e vejo-me a cair numa melancolia tal que foge totalmente ao propósito que tenho de te escrever, ao propósito das palavras que te dirijo. Para quê falar de coisas tristes? Para nada. Peco-te que desculpes o meu desabafo, as tristes palavras que tiveste que ler. Peço-te que as esqueças e se o desejares risca-as, apaga-as da tua memória. São palavras vãs, palavras de uma alma triste. E talvez seja essa mancha que trago na alma que te afasta de mim. Quem sabe se não a verás em mim mais do que aquilo que desejo, mais do que aquilo que pretendo demonstrar. Os teus olhos não deveriam ver estas coisas. Perdoa-me.
Enquanto viajo penso em ti. Muito provavelmente estarás a dormir. A dormir calmamente, sonhando algo belo. Imagino o teu sorriso no teu rosto adormecido, reflexo daquilo que sonhas. Perdoa-me por abusar, mas imagino-te a dormir livremente, coberto por um suave lençol que desenha a silhueta do teu corpo. Pudera ser eu esse lençol que tão intimamente partilha a cama contigo. Ser a almofada onde repousas a cabeça que se enche de sonhos, onde te aconchegas. Talvez seja só a minha imaginação. Porque nada me diz que não estarás aconchegado a esse outro corpo que te pertence, que repousas a cabeça no peito desse outro que é bem fadado em te ter. Só Deus sabe como o invejo. Mas não me posso permitir a meter-me onde não pertenço. Não posso. Não devo.
Cheguei ao meu destino. Vou repousar. Vou sonhar e encontrar-te nos meus sonhos. E lá, nesse mundo dos sonhos, vou ser feliz, nem que seja por um instante que é mais fugaz que o tempo que uma folha demora a cair, desde que se desprende do ramo e toca no chão. Mais fugaz que a queda de uma estrela no firmamento.

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Sem ti... (I Parte)

por Ismael Sousa, em 25.01.18

Quão fugaz é a vida? Que significado tem? Que caminho ruma? Somos seres tão frágeis e débeis, ignorantes na nossa estrada, ignorantes no nosso próprio conhecimento. Somos fugazes. Deparamo-nos com a morte e somos tão incapazes de a compreender, de lidar com ela. Remexe-nos as entranhas, faz-nos sentir tão ocos, tão cheios de nada, tão vazios. Amaldiçoamos o dia e a noite, a hora e o momento. O dia chega e não estamos preparados ou mentalizados. Meros nadas numa longa ou curta vida! A quem pertence o desígnio de dar ou retirar a vida? Quais os seus padrões? Tanto conhecimento e tanto desconhecimento ao mesmo tempo! Infelizes de nós, infortunados que somos que desconhecemos o que pensamos dizer!

Nada mais para fazer. Peguei nas chaves e na carteira e saí de casa. Na rua estão uns trinta graus. Só falta a lua a alumiar o caminho e as ruelas da cidade. Vou caminhando até a um cafe aberto. Vou-me cruzando com as pessoas. As ruas estão povoadas de gente. Com o calor saíram à rua. A maioria segue alheia a sua vida. Outras olham-me de lado. Que pensamentos sobre mim povoarāo as suas cabeças? Que pensarão quando cruzam o seu olhar com o meu?
Sigo o meu caminho despreocupado. Hoje sinto o meu astral em cima, sentindo que ninguém será capaz de destruir aquilo que sou.
Paro no primeiro café. Sento-me. Peço um café e olho em meu redor. Há festa na cidade. As pessoas divertem-se, cumprimentam-se. Riem. Chega o café. Bebo-o de uma golada. O empregado pergunta-me se espero mais alguém. Digo-lhe que não. Olha-me desconfiado. Deve estar a pensar quem é o tolo que vem tomar café sozinho numa noite como esta. Retira a cadeira e agradece-me com a cabeça. Pego no telemóvel. Viajo um pouco pelas redes sociais. Tudo mais do mesmo. Começo a fartar-me. O mundo está todo tão igual. Sinto-me excluído dele. Por isso vou aproveitando todos os momentos. Mesmo que tenham de ser na solidão. Não me importo. Antes uma vida solitária mas aproveitada que uma vida em companhia e desperdiçada.
Não compreendo o mundo. O mundo não me compreende. Se metade das pessoas soubessem os pensamentos que me vão na cabeça, se eles conseguissem compreender as minhas razões, talvez não fossem tão rápidas a julgar-me.
Acendo um cigarro. O fumo esvoaça pelos ares. Livre. Solitário. Porquê que achamos que tem de ser tudo tão igual? Porque não acolhemos a diversidade tão facilmente? Temos de ser assim tão iguais?
Por vezes acho que são todos uns fúteis, uns ignorantes, incapazes de explorar o mundo à sua volta. Burros. Incapazes. Limitados. Ou não serei eu a estar enganado? Achando que há algo mais do que isto que os meus olhos veem?
Mais um cigarro, um olhar distante. Sou eu. Sou o que sou. Não agrado a ninguém. Já não sou mais assim. Vivo para mim. Quando morrer vou só e sem nada. Por isso, de que vale andar a agradar alguém?
As ruas começam a esvaziar. Amanhã é mais um dia de trabalho. Para mim, mais um dia sem fazer nada. Repugna-me este meu estado. Levanto-me à hora que desejo, deito-me à hora que quero. E nas horas que distam o levantar do deitar, faço aquilo que surgir. Não aguento horas infindas em frente à televisão. Não aguento as paredes de casa. Saio, leio, passo horas em frente ao computador. Por vezes vem a inspiração e abro o caderno e escrevo. Outras vezes recorro às tecnologias para escrever. Como é o caso agora, porque abalei de casa para o incerto sem saber para onde ia. Sentei-me neste cafe, observei e comecei a escrever. Perdi a noção das horas. Mas que importa? Nada me espera, ninguém me espera. Por isso, para quê preocupar-me.

Depois vem a chuva, encharca-me com a tristeza e o abandono. Depois o sol que me faz apodrecer em melancolias até que com as novas chuvas eu desapareço. E como quem não é visto não é lembrado, quem não faz falta ao esquecimento é reduzido. E eis-me aqui, reduzido e abandonado, inebriado pelo álcool a escrever palavras. Palavras que me saem da alma.
Cada vez mais me convenço de que o álcool é a chave da alma. Tomado a mais, faz-nos dizer aquilo que não queremos, aquilo que só para nós queremos guardar. E isto porque num pobre coração como o meu, nada mais faz sentido. Quem me dera adormecer para nunca mais acordar. Seria menos um fardo que alguns têm de carregar. Seria menos um a estorvar no caminho, menos um em tantas vidas. Seria somente memória, recordada unicamente de passagem. Não sou pertença na vida de ninguém. Não sou nada. Nada sou. E neste nada desapareço. De mim só restaram memórias vagas e palavras escritas em papeis que voaram mais depressa para o fogo do que alguém perder tempo a ler. Nada mais faz sentido. Nada mais tem um propósito. Cansei de lutar. Cansei de me esforçar para ser um ramo verde na árvore da vida de alguém. E todo o meu esforço é para sempre ser uma folha que na primeira brisa de felicidade para a árvore, cai. Ao menos se a beleza me tivesse favorecido, se as linhas traçadas do destino me tivessem sido mais favoráveis e eu tivesse passado uma vida feliz, talvez aí eu tivesse sucesso.
Mas a minha vida é feita só de desgraças, de desencontros, de insucesso, de solidão, de afastamentos, de desprezo. E esta tem sido a minha vida. Isto e só isto. Talvez eu desapareça de vez e aí não exista mais aquela eterna melga, aquela incómoda presença, aquela triste figura.
Rendo-me, cada vez mais, às energias negativas que me rodeiam. A minha alma está negra. Pesam-me as tristezas no rosto, as mágoas nos olhos, a infelicidade na minha postura. Cada vez mais me torno num vulto ambulante, pairando nas ruas amargas deste mundo.
Sinto-me sem norte, sem rumo. Roubaste a bússola que havia em mim, no sentido que eu tinha para a vida. Onde andas? Porque desapareceste sem me dizer nada? Bastava-me um adeus e eu seguia em frente. Mas fiquei desamparado, sem perceber as razões que te levaram a esse enorme silencio. Ou talvez saiba. E sei.
Releio tantas vezes as mensagens que trocámos. Trazem-me tanto de ti. Um sorriso, um momento de serenidade. És-me tanto. Fizeste despertar em mim sentimentos que eu já não conhecia. Inspiravas-me, animavas os meus dias. E eu escrevi tanta coisa, inspirado por ti. E agora o nada. O absolutamente nada. Preocupo-me tanto em saber se estas bem. Nada mais te peço e não mais te perturbo a vida. Mas por favor, dá-me sinais de ti, diz-me só se estas bem, que nada mais entre nós existirá. Diz-me só algo a que me possa agarrar...

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Cabeça Falante

por Ismael Sousa, em 22.01.18

Aconteceu. Finalmente aconteceu. A 'Cabeça Falante' já anda por aí.

 

O convite surgiu há uns meses, por parte o meu grande amigo Amaro Rafael. Aconteceu, como sempre acontece. Desafia-me, faz-me reescrever-me. Pediu-me um texto, uma pequena participação para uma fanzine que iria publicar. Receei por longos dias. Que iria escrever, sobre o quê? Seria eu capaz de estar à altura daquele desafio, iria ele gostar, iriam as pessoas gostar?

 

Escrevi. Apaguei. Voltei a escrever. Li, reli e voltei a ler. Corrigi. Mandei a primeira versão, depois outra corrigida e mais um pequeno acrescento. Estava feito. Dentro de mim nascia, a cada dia, a ânsia de ter na minha mão aquele que seria o meu primeiro texto livre publicado. Depois voltaram novamente os temores. Ele ia-me dizendo nomes e eu sentia-me cada vez mais pequeno, receoso. Mas já estava.

 

Depois surgiu o segundo convite, o de fazer a receção aos convidados. Só poderia aceitar, seria impossível dizer-lhe que não. E os nervos aumentavam ainda mais.

 

Este domingo, dia 21 de janeiro do ano de 2018, foi o dia do lançamento. Sobre isso não irei falar, pois já podem ler uma pequena resenha sobre o dia no Des i.

 

Foi enorme a emoção que senti ao estar ali, com a fanzine na mão, o meu nome na capa. Tremia como varas verdes. O início de um sonho estava ali. Mas não era o único sonho que ali estava. A música é, também, um dos meus grandes amores. E ali estava eu, prestes a começar um mini concerto com a minha querida Lígia. Começámos com Rosa Sangue, fomos Loucos de Lisboa, cantamos No Teu Poema e acabámos com Solta-se o Beijo. Tremeu e falhou a voz, uma ou outra vez o tom. Mas diverti-me imenso, naquele mini concerto tão intimista, perante tanta gente desconhecida e tanta gente conhecida.

 

Depois foi altura de subir a palco, de falar sobre o meu texto.

«'Amei-te eternamente' não é só mais um texto, mas é uma alma que fala pelas palavras, que inventa e reflete realidades. É um inicio de uma tentativa de derrubar tabus e falar aquilo que o coração sente e a mente oprime.

Escrever não é somente colocar palavras seguidas de palavras. Escrever é, na minha humilde opinião, transpor por palavras aquilo que tanto sentimos. É um esconder entre linhas sentimentos que são tão secretos.

Existem sonhos na alma, metas que desejamos atingir. Hoje inicia-se este sonho, é a rampa de lançamento.

Amei-te eternamente é um amor que fica para sempre. Amei-te eternamente é a força que não me deixa morrer. Amei-te eternamente...»

 

Neste momento sinto-me muito grato e vou usar as palavras, que me correm nas veias e fazem palpitar o coração, para agradecer.

 

Primeiro agradecer ao meu Amaro Rafael pelo convite, pela forma sempre honesta com que me critica os textos, pela força que me dá, por querer sempre que eu me lance do precipício em busca de novas aventuras. Agradecer pela sua grandeza, pela sua força e pelo ser enorme que é.

Agradecer aos meus pais pela presença, por sempre estarem lá, por me deixarem ser o louco que tanto sou. Obrigado por nunca desistirem de mim mesmo quando eu tanto desiludo.

Agradecer à Lígia pela enorme amizade, por se ter lançado no desafio de cantar comigo, quando a sua voz é tão grande, tão maior que a minha. Obrigado por tudo! Obrigado ao Jorge por ter aceite o meu convite e dar um enorme brilho ao momento.

Agradecer à Patrícia, ao Cristian, ao Pedro e ao Zé Carlos por estarem neste momento tão importante para mim. Sabem o quanto significam para mim.

Ao meu irmão por estar, mesmo quando somos tão diferentes, quando nos zangamos e temos opiniões tão diferentes. Mas também por todo o amor.

Aos abraços que me deram e às palavras que me dirigiram. Agradecer, também, a todos os que me leem, mesmo que invisíveis. Obrigado por lerem este louco.

Obrigado a todos que suportam a minha loucura, tantas vezes sem me entenderem. Obrigado do fundo do coração.

'Amei-te eternamente' é o início.

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A vida não é feita de se’s!

por Ismael Sousa, em 16.01.18

Somos, infinitamente, seres vulneráveis nesta vida. Damos de nós sem a certeza de virmos a receber. Tentamos dar a conhecer aquilo que somos, aquilo que sentimos e daquilo que gostamos. Somos frágeis ou fortes, dependendo de pessoa para pessoa. Somos de fácil leitura ou de um mistério enorme.

Sentado no café do costume, olho a vida e os momentos. Olho as circunstâncias e os sentimentos. Há vazios. Demasiados até. E na verdade, quem me conhecerá?

Se me conhecessem saberiam que sou um ser que se apega com demasiada facilidade. Que gosto de perder a cabeça de vez em quando, divertir-me como um louco. Que gosto de cafés acompanhados de boas conversas, de caminhadas improváveis. Que amo tanto a praia como o monte, que adoro história e estórias. Saberiam que amo sem limites e que odeio de forma igual. Que não gosto de conveniência e prefiro sempre a verdade.

Se me conhecessem, saberiam que gosto de um bom filme e que leio bem entre linhas. Saberiam que consigo ser uma autêntica besta mas também uma excelente pessoa. Saberiam, se me conhecessem, que faço tudo pelo bem estar dos outros prescindindo em demasia do meu. Que as palavras e as ações têm um grande peso em mim e que dificilmente esqueço.

Se, na verdade me conhecessem, saberiam que adoro surpresas, que adoro estar presente nos momentos bons dos amigos mas também gosto que eles estejam nos meus. Se me conhecessem, leriam a tristeza nos meus olhos e a felicidade no meu sorriso. Que adoro Gin e um bom vinho, que uma noite de petiscos é sempre bem vinda. Saberiam que sofro com as ausências e gosto muito da minha solidão. Que não faço fretes nem quero que os façam por mim.

Saberiam também que escrever é uma das minhas paixões, que as críticas favoráveis as aceito todas e que as negativas me ferem de mais. Saberiam que quando me sinto a mais me afasto e que a bodas e batizados não vou sem ser convidado. Que adoro música, que canto sempre no banho, que gosto imenso de me divertir. Saberiam que não digo sempre o que sinto para não ferir, que me rendo mais do que venço. Que dou muitas bofetadas sem mão e que partilhar o meu conhecimento é uma das minhas coisas favoritas. Saberiam que não falo sem conhecimento de causa e que quando estou nervoso falo em demasia. Digo muitas babujaríeis e digo verdades a brincar.

Se me conhecessem, saberiam, que detesto ser igual a outros tantos e que preservo bem a minha diferença. Que tenho necessidade de ser aceite, que preciso de me sentir incluído. Que sou palhaço na vida e sério nos momentos certos.

Mas a vida não é feita de se’s! A vida não perdoa. Ou é ou não é! Porque se fosse feita de se’s eu seria totalmente diferente, viveria de forma tão diferente.

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E depois da chuva...?

por Ismael Sousa, em 10.01.18

Refugiei-me num café, ou melhor, fugi para lá. Chove intensamente lá fora. O rio corre na sua calma, mais enriquecido em cada gota de água que cai dos céus. Precisei deste espaço para fugir aos barulhos da casa. Um café, um espaço onde posso fumar, escrever um pouco e acabar leituras pendentes.

Trago comigo Valter Hugo Mãe para acabar de o ler. A sua escrita, em algo parecida à de Saramago, na minha opinião, fascina-me de uma maneira tal que me prende à sua leitura.

Chove, chove intensamente. Bebi o meu café, fumei o meu cigarro. A vista sobre o rio, picotado pelo cair da chuva, prende a minha visão e o meu pensamento.

Quero ler, mas a vista é os pensamentos prendem-me e a necessidade enorme de escrever urge, nasce em mim.

Cansei-me de avaliar a minha vida, de traçar planos e projetos. A necessidade de viver de forma intensa cresce cada dia mais em mim. Sinto-me preso a esta vida, preso e amordaçado. E esta incapacidade de viver de forma intensa, a de gozar os prazeres da vida numa forma de me fazer aprender, prende-me ainda mais aos sentimentos que floresçam dentro de mim. Quem me dera dizer que são todas belas e lindas rosas. Mas ainda existem muitas ervas daninhas.

Um forte raio de sol irrompe das nuvens, iluminando a mesa onde estou, incidindo diretamente em mim. O breve momento de calor, de conforto, de ser acariciado. A comparação mais estúpida, mas bem mais sentida no meu pensamento.

Este raio de sol que me encandeia a vista dá-me as certezas que necessito. Não é o raio de sol em si, mas as conclusões que dentro de mim encontro. São as meditações profundas da alma, as questões que têm atormentado o meu dia. É este raio de sol que me diz que depois das nuvens se dissiparem, o sol voltará a brilhar. Que depois da tempestade e da chuva o sol virá para fazer rebentar a relva verde, as flores escondidas. É este raio de sol que me diz que é hora de seguir.

Há a necessidade de pontos finais na minha vida. Não suporto vírgulas nem pontos e vírgulas. Preciso de pontas amarradas, de situações resolvidas. É sempre eu a esperar que os venham colocar, aos pontos, que venham dar nós nas cordas e pontas soltas. Pois bem, é altura de mudar, de colocar mãos à obra e fazer o que tem de ser feito. É hora de seguir em frente.

A chuva voltou, eu acendi mais um cigarro. A ilusão de termos de ter uma vida perfeita turva-nos o olhar. Não lidamos bem com o fracasso, com o insucesso. E deixamos-nos abater, odiando tudo em nosso redor. Mas o que seria a vida se tudo fosse feito de sucessos? Que prazer nos trariam?

Tenho a mente limpa. Dentro de mim a certeza de amarrar as pontas soltas. Há um fim, a decisão de hoje ser o fim. E em mim surge a calma e o bem que há tempo demais desejo. Esta forma de estar, esta forma de esperar, acabou. A vida vai ter que ser talhada com o que acontecer.

E agora, agora somente coisas aleatórias e tão ligadas entre si existem no meu pensamento. Há as ruas e palavras escritas nas paredes. Há uma máquina de escrever, as luzes de uma cidade do outro lado de um rio. Há as gargalhadas, o sorriso parvo, as salas de cinema.

Chega de escrever. Tenho o Valter à minha espera e a necessidade de o acabar.

 

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Haver - do latim habeo, -ere

por Ismael Sousa, em 07.01.18

Talvez a memória falhe e não recordemos. Talvez não fixemos certos momentos tão comuns ou incomuns. Talvez não se dê importância, ou nem nos lembremos por casualidade ou normalidade de uma vida. Mas eu, teimoso em ter memória de elefante, ainda consigo recordar.

Não era uma noite fria como as que agora vivemos. Talvez um pouco, mas o normal para quem saía de um verão longo que entrava já no outono sem chuva. A seca extrema era uma das notícias mais badaladas da altura, juntamente com o flagelo dos fogos que se tinham vivido pouco tempo antes, ainda nem um mês havia feito.

Eu andava perdido, deambulando em todas as noites pelas ruas, na esperança de um retorno que nunca existiu. Esperava uma palavra, qualquer coisa do género. Mas isso não existia. E eu, esperava, todas as noites. E como esperava, deambulava. Saía de casa, ao fim de jantar, percorria as ruas da cidade numa solidão triste e vazia.

Tinha conhecido Al Berto há pouco tempo e devorava tudo o que apanhava à frente, escrito por ele. Li a sua biografia, dois dos seus livros. Li textos e poemas soltos. Sentia em mim a sede de me deixar inebriar por ele, pela sua forma de escrever. Era uma terça-feira à noite. Sentei-me no bar do costume, mas não na mesa do costume. Debrucei-me sobre o meu caderno, teimosamente de capa preta, escrevi várias palavras. Era tudo sem sentido, tudo fusco e sem uma linha que interligasse o meu pensamento. Era um palavreado barato. Nunca tive jeito para o palavreado caro. Não sei escrever com ele. Sou um pobre, culturalmente, e isso nunca me deixará ir mais além.

Devo ter escrito umas dez páginas nessa noite. E tudo vazio como o que abundava dentro de mim: o vazio. Não sei quantas pessoas estariam no bar, pois eu estava mais concentrado na minha escrita que no ambiente que me rodeava.

Penetro-me, assim, muitas vezes. O mundo em meu redor é uma ilusão, existo somente eu e as palavras, num mundo tão só meu que é raro que alguém o consiga perceber. São as palavras o reflexo dos meus olhos e os meus olhos o reflexo da minha alma negra. E ali estava eu, com períodos em que os espelhos da alma se embaciavam, cobrindo-se com uma humidade comum: as lágrimas.

Já não choro, não sei chorar. Embaciam-se-me os olhos, enchem-se de lágrimas, falha-me a voz e há um pequeno apertar na garganta. Mas as lágrimas não correm, o sopro de ar fulminante não existe e tudo acaba por morrer. E ali estava eu, perdido e encontrado, nas palavras que sempre escrevo e que jazem eternamente nas páginas dos cadernos que um dia serão fogo e deixarão de existir. Ali estava eu, a beber o meu Gin, preparado de forma especial para mim, com aquele gosto que eu sempre desejo.

Não sou de fugir muito às minhas rotinas. Procuro encontrar-me sempre entre os meus gostos, entre as coisas que gosto. Fora disso sou como um peixe fora de água. Não sou de aventuras, de experimentar coisas novas. Somente em tempos de loucura, mas tirando isso, procuro sempre o meu conforto e em manter-me nesse espaço, onde os olhos não me olham de forma diferente, onde o sentimento de excesso não o sinto.

A conversa surgiu de forma inesperada, sem que o pudesse contar. Al Berto foi a causa. Alguém tão profundo, tão existencialista, português e tão desconhecido. A probabilidade do cruzamento de alguém por causa deste tema/pessoa, parece uma enorme utopia, sonhava pelas almas mais profundas. Mas começou por aí e toda a existência de Beno e de Outsider se cruzou.

Há um início, um passado, um dia que ficou para trás na história. A improbabilidade e o conhecimento, numa miscelânea até então desconhecida.

Há um agora, um presente, a impossibilidade de se prever mas somente de viver e de se sentir.

Há um depois, um futuro, construído pela vontade, pelo conhecimento e circunstâncias.

Há um passado, que era tão presente, uma esperança de futuro, que ficou presa no tempo, pela falta de tanta coisa, pelos esforços e desconsiderações. Há esse passado que ainda tem um espinho no futuro, mas que apodrecerá num presente futuro.

Há as palavras que tanto transmitem. E toda a falta delas, toda a serenidade e todo o bem. Há aquilo que em tanto tempo não houve. E uma razão, desconhecida. Há abraços que são mais que tudo aquilo que se possa desejar. Há e somente o desejo de continuar a existir.

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Talvez o medo!

por Ismael Sousa, em 02.01.18

Medo. Tenho medo, muito medo. Perdido entre as ruas desta vila, sem norte e desorientado. Triste como o dia de chuva, a tristeza de te não ter, a melancolia de ver partir. Medo, muito medo, das palavras que não consigo escrever, dos sentimentos que reprimo e receio vir a ter. Há uma noite, uma imensa e escura noite dentro de mim, em toda esta distância que nos separa, em toda esta falta de palavras. A mediocridade do meu ser, aliada à enorme sensibilidade que sinto ter, do maldito coração sempre na garganta, capaz de dizer sempre aquilo que sinto e sufocando as palavras que deviam ser ditas.

Quantas lágrimas serão necessárias para atingir a felicidade e a luz dos dias? Este estado de incompreensão que existe em mim, a necessidade de me sentir completo. Aborrece-me a monotonia dos dias, começarem e acabarem sem te puder ter por perto. O calor do abraço, o sabor do beijo. A inquestionável falta de interesse, de ter algo para dizer.

A podridão da pessoa que nasceu sem o dom de cativar, deixando-se unicamente prender por sentimentos que nem ela própria sabe serem ou não verdadeiros. Uma rua escura, com pessoas que caminham indiferentes, as lágrimas no rosto branco e barbudo. Um passado entranhado em cada célula do corpo, o receio de se perder novamente em sentimentos que tanto fizeram sofrer.

Um nada. Uma filosofia niilista, onde a percepção da sua existência é sempre colocada na dúvida, a possibilidade de sentimentos florirem por essa pessoa ser sempre colocada em dúvida. Um niilismo absoluto, para além de toda a sua verdadeira filosofia ou sentido. Uma psicologia barata e sem fundamentos, a falta de argumentos que fundamentem. O medo, o absoluto e excessivo medo.

E a ignorância, a falta de cultura e de afirmação. Ser-se aquilo que querem que se seja, sem espaço a se viver verdadeiramente. E os medos e os receios, novamente. A excessiva necessidade da aceitação, de se sentir incluído, de se sentir amado. A extrema necessidade e aprendizagem na vivência de uma solidão separada do sentido de abandono. O ser objecto em vez de pessoa, a mágoa que tanto existe, que dura todos os dias. E não ser capaz de esquecer, deixar ir.

Sofro. Sofro em cada dia, em cada manhã, em cada novo acordar e sempre tardio deitar. Dias pautados pela dor de se ser abandonado, esquecido e ignorado. A falta extrema de interesse, de questionar, de desejar saber-se. É unicamente importante que se esteja, mascarado de sorriso extridente. A ofuscação sempre do outro, a minimização de si, dos seus interesses, das suas vontades. E as eternas máscaras que coloco, que dão a imagem daquilo que não sinto, daquilo que as lágrimas denunciam.

Odeio os dias de chuva, amando-os excessivamente. Uma bipolaridade incompreensível. Tudo advém do estado de espírito, da forma como as pessoas me fazem sentir. Há mais dias cinzentos que cheios de cor. Queria um mundo a preto e branco, que me impossibilitásse de sentir. Queria justificações em vez de eternos abandonos. Queria interesse em troca da falta de.

A luta, as batalhas travadas diáriamente. As derrotas consecutivas, o rosto pelo chão demasiadas vezes. Quantas lágrimas serão precisas para conseguir erguer o rosto todos os dias, saber que sou esperado e amado, que o meu bem estar interessa realmente. Quantas cicatrizes serão necessárias, quantas horas de dor e de pranto? Quantos fados escritos e sentidos, quantas palavras segredadas e silenciadas. O fatídigo infortúnio de quem nasceu com coração ou com falta dele. Talvez minímo e com a necessidade continua do seu preenchimento. Um balão de ar que esmurece quando não tem sentimentos que o insuflem.

E toda a confusão e falta de sentido, um estado de espírito indescritível, que leva à escrita de tantas palavras, frases sem sentido. Não há uma compreensão, quando nem nós conseguimos entender-nos. Justificações existirão inúmeras, mas qual delas reflectirá a verdade, a essência do sentimento. E tanta coisa poderia eu dizer, escrever ou sentir.

Gostar de ti é um texto que não consigo escrever, uma palavra que não consigo pronunciar. É a fraqueza e a força, o sorriso e a lágrima. É escuridão e luz, morte e vida.

Rodeado de tanta literatura, de milhões e milhões de palavras eu não consigo encontrar nenhuma que me preencha, que dê sentido ao meu sentir. Em tantas, inúmeras e imensas palavras, nenhuma me diz tanto como o teu abraço.

 

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