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Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

"há sempre uma noite escura!"

por Ismael Sousa, em 03.04.18

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Sentado, num balcão sozinho, a beber uma cerveja. Paira o ar pesado do abandono e da saudade. Percorro caminhos que não são os meus, vivo histórias que não são as minhas.


Estou de fato, como muitas das vezes. Hoje é cinzento, bota preta e camisa branca. Estou só eu e os meus pensamentos.


Não sei bem o que paira na minha mente, aquilo que estou a sentir ou o que me faz estar aqui. Lá fora chove, miudinho, o frio faz-se sentir em demasia. Sorrio por simpatia a quem passa e cumprimenta por cortesia. Fumo um cigarro e abandono-me em todo o meu eu. Sou pequeno, realmente, perante tanta grandeza em meu redor.


Chove. Eu acabo a minha cerveja e saio para a rua. O frio gela-me por inteiro. Não me apetece ir para casa, fechar-me no meu canto, enfrentar a realidade. Quero fugir, desaparecer para longe. Quero novas realidades em meu redor, novas pessoas com quem me cruzar.


Dou por mim perdido por entre os caminhos da cidade. Há o frio e a chuva, o abandono e o esquecimento. Há o rio que passa lá em baixo e eu perdido, aqui em cima, abeirando-me do precipício.


Quis arrancar o coração do peito. Tirei as roupas, mergulhei nas gélidas águas. Cravei as mãos no peito e apertei o coração. Mas ele desfez-se nos meus dedos, desfez-se de saudades.


Não sei bem o que pensar, desejo não sentir. Tenho perdido amores que são o nome de cada lágrima que cai, em cada noite, do poço dos meus olhos vagos. Solidão, abandono, falta. O meu coração que se desfez de saudades era negro como a noite. Na minha cabeça pairam palavras cruas, frias, dolorosas.

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Há um tempo, um espaço de tempo demasiado grande. Há o meu afundar diário, o negro cada vez mais intenso. Já não consigo sentir algo bom. Choro todas as noites a tua ausência, a falta que me fazes. Já não me lembro do tempo em que sorri, em que gargalhei com tanta sinceridade.


Conto todos os dias, todos os dias que passaram sem te ver. Na minha mente paira aquelas últimas palavras. Aquela última despedida, aquela última palavra. Agora só sobram as cinzas de um coração desfeito.


Existem questões na minha cabeça para as quais eu não tenho uma resposta. Por vezes desejo-as, outras vezes só não as queria ter.


Era um abraço tão reconfortante, algo que foi cura, que foi bálsamo. E eu estava tão frágil, tão despedaçado. E, mergulhado naquele abraço, eu voltei a acreditar naquilo que achava ser mentira, naquilo que havia deixado de acreditar.


Ah, quantas noites me teria perdido nos teus braços, quantas vezes me teria entregue a ti.


Voltei. Voltei àquele lugar que te é tão querido. Voltei a violar o silêncio das ruas, a ler as paredes que um dia decifrámos em conjunto. Voltei a ver o teu rosto que em cada novo dia me está tão desaparecido da mente e que só recordo com a memória cravada no meu peito.

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Queria ver-te uma última vez. Queria conseguir dizer-te toda a verdade, sem te causar um peso nos ombros. Sou tão cobarde que até tenho vergonha de mim. E sem te querer causar pena, sem ser um fardo para ti, escrevo. Escrevo tanto. “A ti”!


Onde residirá o amor? Por vezes numa simples pedra de calçada. Por vezes nos pequenos gestos, nas poucas palavras. Nos silêncios.

 
Não tenho um rumo, não tenho uma vida. E eis-me aqui, mergulhado nas gélidas Águas de um rio, rodeado da ausência. Eis-me aqui, sem coração, moribundo, desfeito em memórias. Somente as palavras aliviam a dor que sinto.


Parto agora, sem coração, sem emoções, sem ninguém. Parto sem morada nas memórias que desapareceram. Uma última lágrima, um último adeus, uma última lembrança: o teu rosto.

Somente quem sente, quem saberá?

por Ismael Sousa, em 24.03.18

Não há fogo que não queime o coração daquele que amou.

O cigarro aceso que se consome, o fumo que se espalha no ar, misturando-se com o oxigénio.

O bem e o mal, numa mistura tão difícil de diferenciar.

A saudade que aperta no peito, o abandono que sufoca a alma.

Quem saberá amar se não somente aquele que verdadeiramente já amou? Quantas vezes se amará num vida, se de dor é o peito daquele que amou sem ser amado?

Como se reconstrói aquilo que já não há sinal de existência?

Quem volta a colocar a mão no fogo depois de se haver queimado?

A evolução do homem parece ser, tanta vez, somente a nível intelectual e tecnológico. Porque a nível sentimental parece não evoluir. Ama-se, desama-se; odeia-se, gosta-se; sofre-se, sobrevive-se, vive-se.

O cigarro continua a queimar, o tempo parece não passar. Mas passa e já lá vai tanto tempo.

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Como esquecer a última vez que te vi? Como esquecer o último abraço que te dei. Como esquecer-te?

É grande o esforço de tentar escrever sobre coisas positivas. É grande o esforço de tentar ser melhor. Mas estagnei, na vida e no tempo, estagnei no insucesso e no abandono.

Remeti-me ao silêncio, mas gostar de ti continua a ser o poema que não digo, a canção que teimo em não cantar.

Saberias tu algum dia que se me pedisses a lua eu iria roubá-la só para te dar? Saberias tu, algum dia, que te daria todo o mundo se o pedisses?

Acabou o cigarro, o fumo ainda existe no ar.

As paredes magoam, fazem sofrer. Cai a chuva na minha janela, as paredes brancas não dizem nada. Tantas recordações e somente passado, a ausência de um presente, a falta de perspetiva para o futuro.

Fecho os olhos e faltas-me tu. Em cada lágrima que derramo, o teu nome no silêncio. Não há sentido no que escrevo, falta tanta coisa.

Há mais linhas em branco que palavras escritas.

Somente a noite parece entender cada palavra que eu escrevo. Mas tu já não lês o que escrevo, já nada te diz o meu nome.

Está fria a cama, frio o corpo que a viola.

Foda-se para toda esta merda de vida e de estado de sentir.

Que se dane o cuidado com as palavras. São falsas e tão verdadeiras ao mesmo tempo.

Cansei.

Exasperei.

Fui preterido.

E nestas, em estas três simples palavras, toda uma enorme verdade contida.

Fui, simplesmente, por ser coitado. Agora só sou aquilo que outrora já era: nada.

Nada.

Mero nada.

Inexistente.

E por mais que eu tente alcançar, por mais que tente esquecer, nada me faz, nada me preenche, nada me faz sorrir e gargalhar como tu.

Adeus.

Adeus!

Adeus...

 

 

Desabafos...

por Ismael Sousa, em 22.03.18

Há imensos livros abertos e espalhados pela minha secretária. Uma pilha de cadernos amontoados na minha estante. As folhas rabiscadas espalham-se por todo o lado. Há leituras iniciadas, cadernos começados e textos sem sentido.

Estou na minha cama, sentado, olhando todo este caos que me rodeia. Fumo um cigarro enquanto medito no significado que toda esta confusão tem para mim. Aos olhos de um estranho abunda somente a desarrumação; a meus olhos, o turbilhão de ideias, de sentimentos, a desorganização e o caos dentro de mim.

Apago o cigarro no cinzeiro de vidro da minha cabeceira. Só eu entendo o seu significado. Explicar é dar demasiado de mim.

Enfio o isqueiro e os cigarros no bolso do robe. Desço as escadas do meu quarto para a rua. Está um frio enorme mas o céu está estrelado. Subo o caminho por entre a penumbra da noite. Gela-se-me o corpo. Ao cimo, no alto do pequeno monte, sento-me a contemplar o firmamento.

Não são só as estrelas que eu vejo: vejo momentos da minha vida. Nas estrelas residem memórias mais profundas que o fundo do mar. Só eu conheço a sua importância, só eu sei o porquê de as ter gravadas de forma tão profunda.

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Reconheço as constelações e vou-as nomeando enquanto que na minha cabeça vislumbro as memórias, como se de um filme se tratasse. O fumo do cigarro que acabei de acender, espalha-se pelo ar dissipando as imagens da minha cabeça. Em meu redor abunda o silêncio. Não há ninguém ali, a meu lado. Não existo na vida de ninguém. Sou somente um objeto, um degrau.

 

Regresso a casa, sento-me ao computador a escrever. Tenho escrito demasiado sobre este abandono em que me encontro, nesta falta de sucesso e de concretização que estou a atravessar. Há quem me comente que deveria guardar para mim aquilo que escrevo ou que aquilo que publico não tem interesse nenhum. É, sou sabedor dessas coisas. Mas o sucesso não é algo que abunde na minha vida.

Os livros abertos, diante de mim, refletem que pouco me preenche, que as palavras já não me segredam. Os cadernos começados e nunca acabados, são pedaços da minha estória, pedaços de mim, do meu eu mais profundo. Estão inacabados porque não há forma de os acabar. E neles vou-me abandonando, vou-me marcando, vou envelhecendo. E os textos sem nexo, sem ligação entre eles, são o abandono a que fui forçado a viver.

Escrevo páginas e páginas tentando libertar-me de tudo o que me atormenta. As lágrimas caem-me sobre o teclado, as pontas dos cigarros ainda soltam fumo.

Abandono-me na noite, desapareço nela. Talvez lutar não valha mais a pena. Perdi, como sempre. Perdi sem saber porquê...

 

 

 

Poesia Sempre, Sempre Pura Poesia

por Ismael Sousa, em 22.03.18

Quanta poesia escrevemos com as linhas da vida? Quantas palavras poéticas proferimos em nossos dias? Ah!, e o que é a poesia se não o fogo que arde em nós, que palpita em amor e dor? Nem todo o escritor é poeta e nem todo o poeta é escritor. Mas por esta ou aquela forma de poesia, todo o homem a sente em si.

 

[Lígia Mendes]

"Ah, mas se ela adivinhasse,

Se pudesse ouvir o olhar,

E se um olhar lhe bastasse

P ́ra saber que a estão a amar!"

(O amor quando se revela, in Poema Inéditos, Fernando Pessoa)

 

E os gestos de amor, as palavras proferidas? Os olhos que encadeiam, o poeta que se exalta. É o amor que faz escrever, a musa que inspira. Quantos amores trocados, quantas palavras entrelaçadas, quantas páginas escritas em poesias desnudadas de preconceitos e hierarquias!

 

[Amaro Figueiredo]

"Quem?

Não sei quem és. Já não te vejo bem...

E ouço-me dizer (ai, tanta vez!...)

Sonho que um outro sonho me desfez?

Fantasma de que amor? Sombra de quem?"

(A Mensageira das Violetas", Florbela Espanca)

 

E o sonho, a ilusão, a ausência de alguém. É poesia, é amor, é entranhas e ardor. Falamos normalmente e recitamos lindos sonetos de amor ou saudade. E quanta dor em palavras oculta, corações sofredores, lágrimas derramadas. Seres incógnitos, seres ausentes, escritores de sentimentos.

 

[Francisco Gonçalves]

"Se me vieres buscar,

Se me devolveres a brisa,

Se me amares apenas um pouco,

Se me fizeres sorrir,

Se me tocares assim...

Voltarei a ser eu"

(Francisco Gonçalves)

 

Há esperança na poesia, há entendimento e confusão. Há a magia e a realidade, a verdade ou pura ilusão. Contam-se as palavras, formam-se as rimas. Ah!, como eu admiro todo e qualquer escritor. E o poeta ainda mais, que falseia as palavras, que as conhece e as troca, rimando-as e encruzilhando-as em quadras e sentimentos, em sorrisos de sonho ou ilusão.

 

[Carlos Almeida]

"Ser poeta é ser mais alto, é ser maior

do que os homens! Morder como quem beija!

É ser mendigo e dar como quem seja

Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!"

(Florbela Espanca)

 

Não se pode fingir ser-se aquilo que no sangue não se é. Quantos poetas se escondem nas vielas e outros tentam alcançar uma fama que nunca lhes será verdadeira. E os poetas que escrevem em paredes, a poesia que salta das pedras da calçada. As quadras que são estórias e a história que são quadras. É preciso sentir-se antes de se ser, é preciso ser antes de sentir.

 

[José Pereira]

"Nega-me o pão, o ar,

a luz, a primavera,

mas nunca o teu riso,

porque então morreria."

(Pablo Neruda)

 

O que cabe na poesia, o que cabe num poema? Cabe tanto como no mundo, a desgraça e o amor, o ódio e o rancor. E todas as palavras, brincadas por aquele que escreve, criam encadeamentos floreados de sonhos alcançados, vitórias impensáveis, sonhos indecifráveis. Quanta poesia em nossos lábios, quantas palavras de poesia.

 

[Paulo Rodrigues]

"A minha glória é esta:

Criar desumanidade!

Não acompanhar ninguém.

- Que eu vivo com o mesmo sem vontade

Com que rasguei o ventre à minha mãe."

(Cântico Negro, José Régio)

 

Poesia não são só palavras, não são só sentimentos. Poesia são diários, poesia são palavras escritas com o sangue da vida, o alinhamento do espírito. Poesias são tumbas de almas desgarradas e amadas, de almas sofridas e sentidas. Grande é o poeta e grande é a poesia, incapaz de se conter, incapaz de se controlar. E a mim que alinho somente frases, que não sei poetizar.

 

[Pedro Miguel Teixeira]

"A São Tiago não irei

como turista. Irei

- se puder – como peregrino

Tocarei a pedra e rezarei

Os padre-nossos da conta como

um campesino."

(Sophia de Mello Breyner Andresen)

 

Poesia é o voo da alma, é ir-se até onde a mente alcança. É transpor fronteiras entre o real e o imaginário. Poesia não é só o que aparenta ser. São fontes de sabedoria, revelações e tantas palavras não ditas e escritas no invisível aos olhos insensíveis. Poesia é sempre sangue que corre em nossos corpo, coração que bate em nosso peito.

 

[Joana Simões]

"Não há limite no azul, nem no rosa perdição

Há apenas uma imensidão!

Nada é vida, nada é morte,

Tudo é esperança!"

(Joana Simões)

 

Poesia é o cigarro do tempo, que nunca se apaga e que com o seu fumo inebria as almas sensíveis. Poesia, sempre poesia. A poesia não morre, não tem tempo. A poesia vive hoje e ontem, amanha e para sempre. Viva a poesia, vivam os sonhos, os sentimentos, as emoções e o sonhos. Viva a poesia, vivam os corações de quem a escreve. Poesia sempre, poesia sempre...

 

[Ismael Sousa]

"Na verdade temos medo.

Nascemos escuro.

As existências são poucas:

Carteiro, ditador, soldado.

Nosso destino é incompleto.

 

E fomos educados para o medo.

Cheiramos flores de medo.

Vestimos panos de medo.

De medo, vermelhos rios

nadamos."

(Carlos Drummond de Andrade)

 

 

 

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E se este país fosse estrangeiro?

por Ismael Sousa, em 19.03.18

E se Portugal fosse um país estrangeiro, onde estivessemos de férias? Seria igualmente tão triste?

 

Dou comigo, muitas vezes, a pensar nos locais fantásticos que neste pequeno jardim à beira-mar plantado existem.

 

A realidade de Portugal não é assim tão diferente dos outros países e não somos, em circunstância alguma, menor que os outros. Aliás somos ainda maiores que alguns países.

 

Contudo, a nossa vivência por cá, vai-nos fazendo desacreditar este país. É a política, a situação económica, é as catástrofes que nos vão acontecendo e a incapacidade de dar a volta por cima.

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Somos, humanamente, mais focados na negatividade do que nas coisas boas e, por essa razão, achamos que Portugal é um país de terceiro mundo (e em algumas coisas é) e que necessíta sempre mais. Contudo, não perdemos tempo em pensar nas coisas tão boas que por cá existem.

 

Mesmo na nossa vida precisamos de contos de fada, de tornar certos momentos mais mágicos que aquilo que são. E porque não fazê-lo com este nosso país, tentar vender um país que tanto tem de bom a dar, para de alguma forma conseguirmos fazer com que ele cresça?

 

Tenho a sorte, e tenho-me pautado por isso também, de conhecer, ainda que vagamente, metade do meu país (e digo metade porque o Além Tejo ainda me é desconhecido). Tenho conhecido locais belíssimos e cheios de histórias e estórias. Um país rico em cultura, em arquitetura, em música e tradições. Mas muito disto torna-se, para nós, mais que banal. Não damos ao que temos o devido valor.

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Questiono-me se estamos a dar o devido valor, a oportunidade que Portugal precisa. Criticamos a cultura, criticamos a política e o atraso de Portugal (eu também o faço, atenção!) mas não contamos as estórias que por cá existem nem a história deste grande país. Esquecemos as personagens que por cá viveram, que por cá morreram.

Portugal, para mim, não é só um país, ou melhor, não é um país triste. Portugal é uma país belíssimo.

 

Quanta beleza existe nas tradições de Viana? Quanta tradição existe com os Caretos? Ou a nossa segunda língua, o Mirandês? Quantas belas vinhas existem ao longo de rios d'ouro? Quantas tradições ligadas à pesca, nos quilómetros e quilómetros de praias que nós possuímos? Quantas histórias de amor e valentia gravadas nas paredes dos castelos deste país, quantas derrotas e vitórias eternizadas em belos monumentos? E as metrópeles cheias de estórias, os grandes nomes que este país possuiu? Que seria do hábito dos ingleses se não fosse Catarina de Bragança? E os poetas que escreveram tanto sobre este país e as suas virtudes? Onde está Camões e Pessoa, Sá Carneiro e outros? Onde estão os grandes escritores deste país, os grandes músicos? Quanto amor eterniza a Pena com as suas cores, fantasia de livros de crianças? E Mafra na sua enormidade? Quantas histórias de amor e desamor num Buçaco esquecido ou num São Cristóvão de Lafões, tão antigo quanto a fundação do país? E as marcas do avanço de Afonso Henriques, ou o testemunho de António Vieira, ou o Santo português reclamado pelos italianos? Quanta cultura existe neste país onde o folclore é mais reconhecido no exterior e mais desprezado por nós? E as obras primas que possuímos, a cultura, a história que brota das pedras das calçadas com tanto para dar?

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Há tanto para conhecer, tanto para aprender e tanto para escrever e cantar sobre este país. Não somos só o parente pobre de uma Europa que nos despresa. E se o somos, somos porque não nos impomos. Há tanto para descobrir neste pais, com dois arquipélagos cheios de magia natural, com planícies para decobrir. Temos praias e rios, lagoas naturais, serras com neve, judiarias e mosteiros. Temos os passos daqueles que fizeram história, temos histórias em cada rua que cruzamos.

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Que Portugal não morra nem seja vendido. Que portugal seja sempre leal as suas tradições, aos seus costumes. Que o fado nunca deixe de se ouvir nem os cantores de outras cantigas. Que a palavra escrita nunca morra, que os poetas não deixem de se enamorar. Que a língua sempre se fale, que as línguas se aprendam. Que a humildade nunca nos acabe e o peito nunca deixe de ficar inchado quando se declarar: "EU SOU PORTUGUÊS!"

 

Enquanto amar...

por Ismael Sousa, em 18.03.18

Não consigo deixar de te amar.


Vou tentando procurar outras coisas, algo que me faça esquecer-te e deixar-te partir. Mas tu não sais do meu coração, não me abandonas a mente.


Passam horas, dias, semanas. Dói tanto não te sentir junto a mim, não ter uma palavra tua. Uma palavra querida.


Choro sempre que reclino a cabeça na almofada, no silêncio do meu quarto, no abandono do mundo. Não sei, não consigo compreender, é mais forte do que eu.
Vou deixando migalhas de mim, vou-me desintegrando, deixando de existir. Já não habito o meu corpo, a minha alma esvoaça por entre a penumbra da noite. Sou a mágoa encarnada. É tão difícil não ser amado, tão difícil deixar quem se ama.
A incompreensão tem-me matado. Morro na infinidade dos meus pensamentos.


As paredes brancas, cobertas de recordações e de pessoas que já não estão na minha vida, torna-se cada vez mais esbatida, sem cor. Memórias do passado.


E tudo é passado, nada é presente. Mesmo estas palavras que acabo de escrever já são passado e podem até já não ser aquilo que sinto. Mas são. São pretérito imperfeito na minha vida, prolongam-se pelos tempos, sendo sempre presente. São pela lágrima salgada, pela lágrima que escorre do meu rosto.


Sou fugaz. E nem todos o somos. Alguns vivem na eternidade, outros são só árvores no tempo pelas quais se passam, deixando-as para trás.


Há a estrada sem destino, aquilo que nos leva até ao fim da nossa vida. A minha cai no precipício sem perspetivas de horizontes.


Sinto que falhei, que em algum momento, que cometi erros em demasiada. Talvez seja altivo e orgulhoso de mais para os reconhecer, para saber onde errei.


Amar-te não foi um erro, em nenhuma vez. Amar-te foi belo, foi vida, foi força! Amar-te foi e é.

Amar-te será sempre.

 

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Cartas amarrotadas de amor!

por Ismael Sousa, em 15.03.18

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"Esta chuva faz-me lembrar de ti. Porquê? Talvez saibas a resposta, ou talvez não. Na verdade, já nem sei se continuas a ler aquilo que escrevo. Deves ter perdido o interesse, o que é normal. Mas não faz mal. Eu vou continuar a escrever sobre ti e para ti.


Sabes, tenho escrito muito sobre a chuva. Talvez porque ela me deprima ou por outra razão qualquer. Mas tenho escrito. Escrevo aquilo que me vai na alma. Tem andado muito negra a minha alma. Os meus dias, em toda a sua diversidade, estão cada vez mais monótonos. Faço as mesmas coisas diariamente, as mesmas rotinas.


Deixei de ir ao cinema. Agora assustam-me as salas vazias ou a minha solidão. Não sei. E eu que era tão solitário na minha forma de escrever. Talvez seja do frio e da chuva.


Nunca quis a monotonia na minha vida. Gosto da diversidade. Mas a verdade é que ando cada vez mais monótono. Os meus dias são iguais todas as semanas. Já pouco saio. Os olhares das pessoas sobre um solitário andam a incomodar-me cada vez mais, dia para dia. Tenho-me fechado sobre mim mesmo, perdendo a vontade para fazer seja o que for. Agora são só dias, normais. Nasce o sol, desce o sol. Na maioria dos dias nem o vejo. Estou cada vez mais solitário e cada vez mais abandonado. E eu que tenho tanto medo do abandono.


Os meus dias são uma treta. Trabalho e trabalho. As horas custam a passar. Abandonei também um pouco a leitura. Já não leio com tanta frequência. Parece que os livros já não me satisfazem! E logo a mim que adoro ler. Também já não escrevo na máquina de escrever há algum tempo. Nela escrevia tanto sobre ti. Há tanta coisa que gostava de te ter dito.


Por vezes pergunto-me se sabes, realmente, porque falo tão pouco ou respondo de forma tão seca. Talvez não saibas. Eu também nunca te expliquei, acho eu. Em tudo o que te tenho escrito, acho que nunca te expliquei. Acho que nem deves dar importância, porque eu sou muito sentimentalista e estou sempre com o sentimento na boca. Todas aquelas vezes que te disse tantas coisas, quando estava bêbedo, levam-te, agora a desvalorizar o que eu digo, com certeza. Mas nada foi dito em mentira.


Continua a chover, por estes dias. Tenho-me sentado por debaixo da claraboia a ouvir a chuva. O quarto está escuro, somente uma pequena vela me dá à luz necessária a escrever-te esta carta. Mais uma entre tantas.


Não tenho muito mais a dizer-te hoje, por entre tantas coisas que te quereria dizer. Mas talvez me falte a coragem, me assole a ideia de te perder com palavras em demasia. Talvez já tenhas ido, sejas só memória para mim.


Nunca leves as minhas palavras muito a peito. Somente as de amor. As outras são só floreado para te dizer o quanto gosto de ti.


Vou dormir. Talvez não acorde novamente ou passe a noite a ouvir a chuva a cair, o vento a soprar. Talvez ouça o teu nome no limbo entre o adormecer e sonhar. Também já não sonho. E queria tanto ver-te nos meus sonhos e não só a vaga imagem tua na minha memória."

 

 

[Amarrotou a carta, atirou-a para o canto, para junto de tantas outras. Adormeceu ali, no chão frio, debaixo da chuva que caía, no abandono da noite, no frio do vento. Adormeceu ali, envolto em amor.]

Perco-me...

por Ismael Sousa, em 13.03.18

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Poder-me-ia perder na imensidão de sentimentos que invadem a minha mente. Poder-me-ia perder na profundidade do teu olhar. Perco-me em demasiadas vezes.

 

Sinto-me preso. Há cadeias invisíveis que me prendem a este mar de insegurança que em mim existe. Olho a minha vida, as dificuldades porque passei e continuo a passar. Todos me dizem que sou melhor que aquilo que me acho, mas eu teimo na desvalorização dessas palavras. Acho-me sempre menos que aquilo que suponho ser.

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Não encontro forças necessárias em mim para a mudança que almejo na minha vida. O amargo fel da insegurança, âncora que me segura neste porto turbulento, torna-se cada vez mais acentuado em cada dia que vou vivendo. A instabilidade de humores e vontades, as necessidades insatisfeitas.

 

Comparo-me, muitas vezes, à imagem que Charles Dickens descreve das almas penadas, no seu livro “Um conto de Natal”, cheias de correntes, feitas dos pecados cometidos nesta vida. Também eu vivo acorrentado, cheio de grilhões e de âncoras, incapaz de partir para o além, para a vida que tanto ambiciono.

 

“Abraço...”

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As noites são ainda frias, cheias de pesadelos. Aninho-me na minha cama, aos cantos. Um cama enorme, vazia, comigo num canto, passando despercebido. Muitas vezes sonho com aquele espaço frio, desprovido de grande mobiliario. Uns sofás velhos, uma mesa feita de caixas, alguns livros espalhados. A escuridão da sala, a luz ténue, a poesia. Um rádio antigo sintonizado numa estação qualquer. A máquina de escrever, francesa, velha, no seu canto. Uma marca de tantas palavras escritas. As folhas dobram-se com o peso da humidade, a fita ainda tem tinta. Dou comigo muitas vezes a acordar com o barulho da máquina que escreve, o tilintar do pequeno sino que avisa o fim do carril. Escreveram-se cartas de amor, dedicaram-se palavras. Sempre aquele barulho doce do bater de cada caractere. Letra a letra, sentimento a sentimento. Fugaz, triste, âncioso, saudoso. O frio que gela os dedos e a mente, a censura que bloqueia a mente. Tenho medo de dizer de mais, medo da fuga. E foram demasiadas as palavras, embrenhadas em sentimentos.

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Bastam-me poucas palavras para de alguma maneira dizer aquilo que sinto. Outras vezes as palavras não me chegam. Sou um ser que várias vezes mergulha num estado-depressivo-emocional-deprimente. É assim a forma de viver daqueles que constantemente sentem. É a forma de quem vive com intensidade, dá atenção aos mais detalhados pormenores, que rumina cada palavra dita, escrita, lida. É a minha justificação para as coisas, para os estados de espírito que possuo.

 

Uma ave ferida, têm sempre algum receio em voltar a voar. Mas é da sua natureza voar e não o pode contrariar. Uma pessoa ferida em amor, receia voltar a amar, mas é-lhe inato e mais cedo ou mais tarde volta a amar. Amar sem ser amado dói; não amar quem nos ama, um fardo difícil de suportar. Dois corações feridos que se amam, tendem em evitar amar. Mas o amor não é arma que fere. O amor sara, o amor ajuda a cicatrizar. Amor é tudo aquilo que de melhor há no mundo. Porque quem ama cuida, ajuda, perdoa, fala. E o abuso excessivo das palavras sem lhes conhecer o intimo, sem lhes conhecer o verdadeiro significado, desvaloriza-as, torna-as falsas. E as palavras que são tão mais verdadeiras que o sentido que lhes damos. E o gestos aos quais aliamos as palavras, dizem tanto de cada um de nós...

 

 

 

“Gostar de ti é um poema que não digo...”

 

Nunca pedi mais do que aquilo que me quiseram dar; sempre me dei por inteiro...

Exacerbação da palavra

por Ismael Sousa, em 12.03.18

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Somos feitos de palavras. São elas que nos definem e sem elas a nossa existência parece reduzida a nada. Sou feito de palavras, tantas vezes sem sentido. Como-as ao pequeno-almoço, bebo-as enquanto como, vomito-as sempre que não estou bem. Palavras, vagas tantas vezes, sem sentido outras tantas. Palavras que são mais doces que o açúcar e mais agrestes que o vinagra. Palavras que matam e que constroem.

 

Odeio palavras.

 

Fumo mais um cigarro enquanto espero. Pela vidraça, ainda salpicada pelas gotas da chuva trazidas pelo vento, passam os raios de sol que agora despontam depois da tempestade. Lá ao fundo, a cidade. É a memória e património ali, ao cimo. É as gentes que por ali passaram e as outras tantas que ainda por lá estão. É a vida que cresce das pedras da calçada, as palavras perdidas entre as paredes.

 

Novamente as palavras.

 

Sinto o cheiro a mar na minha memória. O sol transporta-me para a beira mar onde me sentei a fitar o horizonte. A melancolia, a falta e a necessidade de algo mais. Podemos ter tanto, viver com tanta intensidade que mais não seja possível, mas há a falta de algo, quando recostamos a cabeça na almofada ao final de um dia. Falta aquilo que nos preenche, aquilo que fomos, aquilo que tanto desejamos ser. Fracos. Fraquezas, medos, terramotos e tempestades em nossas certezas. A confusão.

 

Fulmino palavras.

 

Como transpor aquilo que sentimos, aquilo de que necessitamos? Como fazer compreender? As palavras traem os sentimentos, são fonte de zanga e de mal-entendidos. Mas são verdade, pura e dura, são realmente aquilo que sentimos. Nada somos sem as palavras, por mais que elas nos custem. São as palavras que escrevemos, que nos dão vida. São a concretização do que sentimos.

 

Sou feito de palavras.

 

Nada faz sentido. E a vida é, muitas vezes, isso mesmo: não fazer sentido. Escrevo em demasia e nesse abuso que faço das palavras concluo que nenhumas fazem sentido. Tomo-as como minhas, mas nunca o são, nunca o foram, nunca serão. Usamo-las, brincamos com elas ou simplesmente desperdiçamo-las. E eu, na conclusão de todos os meus pensamentos, sinto que sou um desperdiçador de palavras! Uso-as como se fossem inesgotáveis. Mas esgotam-se e por vezes nem sabemos o que dizer. Talvez porque não haja nada para dizer, talvez nada tenha de ser dito. Outras vezes não se deveria dizer e nada, e eu abuso delas. Sou indelicado, sou inconveniente. Sou o que sou.

 

Odeio-me e fulmino-me!

 

E se não houvesse chuva, o que seria?

por Ismael Sousa, em 03.03.18

Chove imensamente. Desde que acordei, e hoje foi cedo, que me deixei na cama mergulhado no barulho tranquilo da chuva que cai e nos pensamentos que na minha cabeça permanecem. Já passa do meio dia e eu ainda aqui permaneço, no silêncio do meu quarto. O meu rosto reflete sorrisos e lágrimas. Há a memória de momentos tão bons que ficam unicamente na memória vaga do meu pensamento.IMG_2713.JPG

Nada fiz, durante toda esta manhã. O mundo lá fora vive indiferente da minha existência. Há o grito que nasce em mim. Assolam-me as noites. Os fantasmas do passado matam o meu interior, perpetuando-me as noites sem dormir, envolto em barulhos em que me tento abstrair. Sou o medo e o medo sou eu.

Saí de casa, com banho tomado, vestido a rigor sem destino. Na minha mente a mera existência de um tempo perdido em pensamentos e preguiças. Ocupo os meus dias com excessos de trabalhos para não me perder. Sinto-me, a cada dia, mais vazio e sem uma motivação. A negatividade que sinto em mim, parece acentuar-se, ainda mais, com as expetativas que me colocam sobre os ombros.

Lá fora continua a chover e eu fugi para dentro do bar. Bebo um Gin enquanto escrevo estas palavras que me cosem a alma aberta de feridas. O rio corre, cheio, indiferente ao que encontra pela frente. O seu caudal vai-se alargando, lenta e pacientemente. O dia está cinzento, a minha alma está negra.

Fumo um cigarro e perco a vista pela vidraça embaçada pela diferença de temperatura que se sente: cá dentro o calor, lá fora o frio; cá dentro a tristeza, lá fora a vida.

A cada dia que passa sinto, com tristeza, o abismo que existe entre mim e as pessoas. Fujo, afasto-me. É a minha forma de proteção, a minha forma de evitar de os magoar, de lhes tocar com a minha aura negra. Sou a morte e a destruição que existe na vida das pessoas. Mato os momentos que vivo, sou passagem e não estação. Há um abismo, profundo, intransponível.

Há um cão que vagueia debaixo da chuva, os carros que passam indiferentes e fugitivos. Morre-se a cada dia que se vive. O mundo parece não querer nada mais que viver o seu dia, indiferentes ao passado, inconsequentes em relação ao futuro. Morre-se a cada dia que não se ama, que não se cuida, que não se preocupa. Vive-se indiferente com o mundo comum ao seu lado. Todos estão bem, apesar de todos os sinais que se dão. Depois, como sempre há um depois, toma-se a consciência de ter sido tarde de mais, o arrependimento de nada se ter feito. Mas o depois é sempre tarde e as questões apenas descargos de consciência.

Acabou o Gin e a vontade de fazer seja o que for. Perco-me na música a única coisa que me acalenta a vida. Sinto-me perdido e não existe bússola que me oriente. Urge a necessidade de me reencontrar. Mas sei que para isso acontecer necessito de cortar com tantas coisas na minha vida. Preciso da fuga e da solidão, do recomeçar do zero, do perder tudo e necessitar de voltar a construir tudo de novo. Preciso da novidade, da verdade! A verdade: a crueldade. São sinónimos, partes integrantes um do outro. E o que interessa? Porque se a verdade é cruel, também é maleável. Cada um se diz detentor da sua própria verdade, por isso a verdade não será verdade.

Li de uma assentada "Salsugem". No fim vieste-me à mente. Eu chorei.