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Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

#EuNãoMeCalo

por Ismael Sousa, em 17.07.18

"Todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e consciência, devem agir uns para os outros em espírito de fraternidade."

Eis o primeiro artigo da Declaração Universal dos Direitos do Homem.

 

Não é a primeira vez que falo sobre este tema ou que cito este primeiro artigo daquela que é a Declaração Universal dos Direitos do Homem. Não é a primeira vez que falo sobre este tema, incomodando muita gente e deixando sempre todos aqueles que me lêem um tanto ou quanto chocados. Não é a primeira vez que me revolto por causa disto, por causa de temas como este.

 

Nenhum de nós pediu para vir ao mundo. Nenhum de nós teve a livre decisão de viver nesta sociedade. Nenhum de nós desejou viver num mundo assim. Mas todos fomos obrigados a nascer, obrigados a fazer parte desta sociedade. Mas todos somos livres de expressarmos a nossa opinião, desde que a mesma respeite a pessoa que está ali ao lado. Há coisas que podem ser ditas, outras só podem ser pensadas. Na minha educação sempre houve o princípio de que a minha liberdade termina onde começa a do outro. Nenhum de nós escolhe a forma como nasce nem onde nasce. Mas todos escolhemos a forma como desejamos viver esta vida que nos foi dada.

 

Nos primórdios da criação, os homens comiam carne crua, andavam sobre os pés e as mãos. Nos primórdios da existência humana vivia-se em cavernas, andava-se nu e sujo. O homem, "dotado de razão" evoluiu: cozinhou a carne, vestiu roupas, lavou-se, construiu casas e formou sociedades. A "razão" evoluiu consoante as descobertas que o homem foi feito. E desde que o homem decidiu ser diferente dos outros animais que a evolução tem tido somente uma direção: sempre em frente. Diferentemente, o pensamento humano parece estar a regredir no tempo.

 

Cada pessoa é livre e decide fazer da sua vida aquilo que deseja. Uns preferem manter-se calados, outros decidem falar. E no que toca a uma violação de um direito que nos é dado logo quando nascemos, eu não me consigo calar.

 

A noticia tem sido falada, a noticia tem sido abafada. Uma vez mais o xenofobismo e a homofobia estão em cima da mesa para ser debatida e falada. Num lado temos uma etnia, por outro uma orientação sexual. Todos olham para estes rótulos mas ninguém olha para o que está por detrás desses rótulos: homens!

 

A violência sempre foi a espécie de cobardia mais bem camuflada de todos os tempos. Age-se por medo da opressão, por cobardia e falsos idolos. Agride-se por inveja, inveja a uma felicidade alheia, incapazes de conviver com isso. Há gente que não entende, existe gente que não suporta.

 

Há sempre um enorme conflito em torno das Marchas LGBTI que ocorrem em todo o mundo. As pessoas acham que esta marcha é uma afronta à sociedade, há outros que a entendem por uma demonstração de isto ou aquilo. Marcha-se por direitos, marcha-se por convicção, marcha-se por contrariedade à opressão. Todos marcham por esta ou aquela questão. As mulheres marcharam por ter um lugar melhor na sociedade, os homens marcharam por melhores condições de vida e trabalho. Os portugueses marcharam contra o regime salazarista, o mundo marchou pela Paz.

 

Mas aqui não se trata de ser uma marcha disto ou daquilo. Trata-se de uma violação grave dos direitos dos homens. É verdade, sim, que este é um tema que tem muito por onde se falar. Mas despindo-me de etnias e orientações sexuais, cinjo-me ao que está no pano de fundo: um grupo de homens agride outro grupo de homens por uma mifestação de amor. Eu não tenho outro nome a não ser ignorância ou necessidade de superioridade. Não existem desculpas para a agressão. Qual o propósito? Onde está a compreensão? Há sempre mil e uma questão.

 

A violência gera violência. E quanto mais uma sociedade é oprimida, mais essa sociedade se torna revoltada e provocadora. Existem sempre culpas parte a parte. Há abusos de um lado, abusos de outro. Mas independentemente das opiniões, independentemente das crenças, urge a necessidade de se respeitar o ser humano como ele é, naquilo que ele acredita. Vivemos numa sociedade avançada em tecnologia e retrogada em pensamento. Haverá sempre algo que não vamos gostar, algo que não vamos aceitar. Mas daí a cometer crimes, a agredir uma pessoa, ultrapassa-se todos os limites.

 

Há sempre muito a dizer, o meu tempo escasseia, eu nem sei como escrever sobre a revolta que existe dentro de mim. Não consigo escrever um texto tão bom quantos outros que tenho lido. Não consigo escrever um texto que toque os corações de quem os lê. Mas consigo não ficar calado e à minha maneira marcar a minha posição. Um dia o homem compreenderá os erros que cometeu e virá a público pedir desculpa. Homens serão sempre homens, aqui ou no infinito do Universo. Seria bom que como diz o artigo primeiro da Desclaração Universal dos Direitos Humanos, devemos "agir uns para os outros em espírito de fraternidade."

"Cristina": a vergonha de uma capa!

por Ismael Sousa, em 07.07.17

“Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.”

 

Todos os dias somos bombardeados com coisas que nos escandalizam, com coisas que vão contra os nossos princípios, bem como aquilo que consideramos normal. Todos os dias o mundo está em constante mudança, em constante evolução, em inevitável mudança. Coisas novas se descobrem, novos assuntos são trazidos à ribalta. Este é o mundo onde nasci, o mundo onde vivemos. É a razão humana e a ininterrupta evolução de Darwin.

 

Crescemos com as nossas ideias, com aquilo que vamos apreendendo e formando na nossa mente, segundo costumes e tradições. E como seres humanos que somos, vamos classificando como bom e mau aquilo com que nos defrontamos. Há ideias e ideais que mantemos, outros que revíramos totalmente e ainda aqueles que vamos moldando. Somos inerentes à mudança. O que hoje estranhamos, amanhã entranhamos.

 

A bomba rebentou com uma partilha nas redes sociais e outros meios. Na véspera do lançamento mensal da afamada revista “Cristina”, a diretora da revista, a própria Cristina Ferreira, partilhou as duas capas possíveis de encontrar nas bancas, no dia seguinte. Sob o título “isto choca?” onde se via Cristina Ferreira a beijar um homem, apareciam mais duas capas, aquelas que sairiam para as bancas: duas mulheres a beijarem-se e dois homens a beijarem-se. O caos, a polémica, a controvérsia estavam instaladas. As reações foram inúmeras, tanto positivas como negativas. E, para mim, surge o escândalo.

 

Vivemos em pleno século XXI. Celebrámos, há poucos dias, a abolição da pena de morte em Portugal, fizemos história neste último ano. Acreditamos numa mentalidade aberta e em mudança. Pelo menos eu acredito, mas parece-me que me desiludi. Sempre acreditei nas pessoas e na sua capacidade de mudança, mas ontem senti vergonha. Vergonha e desilusão. As redes sociais facilitam-nos em ver tudo, principalmente quando as coisas não são boas, parecem um vírus que se espalha com uma enorme rapidez. A capa da revista “Cristina” estava a chocar o povo português que se sai com o seu pior lado. Os comentários que apareceram não são dignos de serem citados. Há linguagem e homofobia em exagero. O lado negro dos portugueses demonstra-se.Vivemos no século XXI mas com uma mentalidade do século XV.

 

A capa da revista é polémica, sem dúvida, porque é das poucas (se não a única) a mostrar algo deste tipo em Portugal. Como tudo há quem goste e quem não goste. Mas daí a mostrarem a sua ignorância, vai um grande passo. Não concebo, na minha ideia, que se digam tantas barbaridades como as que foram ditas. Fala-se em aceitar ou não aceitar. Para mim, ninguém tem que aceitar ou não aceitar. As pessoas gostam do que gostam e cada um tem a sua ideia. Temos que respeitar. Somos livres de ter a nossa opinião, livres da expressar. Mas quando isso interfere na dignidade do outro, não temos direito nenhum. A minha liberdade acaba onde começa a do outro.

 

O beijo entre dois homens tem sido o principal motivo de todo o escândalo. Sobre o beijo entre duas mulheres, poucos se manifestam de forma tão agressiva. Algumas pessoas falam no que está capa poderá fazer aos seus filhos. É muito estranho que isso aconteça, que dois homens aos beijos seja “traumático” para uma criança. E uma mulher/homem despidos nas capas de revistas nas bancas?! É uma criança morta numa praia?! E a guerra?! Isto não é traumático?!

 

Comecei este texto com o primeiro artigo de “Os Direitos do Homem”. “Iguais em dignidade e direitos”, mas parece que não. Parece que só alguns podem usufruir disto. Cada vez mais se assiste a uma desvalorização de valores. Na televisão existem programas totalmente sexuais, onde a traição e o “eros” é o principal. Valorizam-se corpos em vez de personalidades. Mas isso é correto. Agora aceitar que dois seres do mesmo sexo se amem, que vivam em valores e dignidade, não! Isso é contranatura.

 

A minha opinião/posição em relação a esse tema, guardo-a para mim. Se me escandaliza? Não! Em minha casa, ao contrário de muitas, a revista “Cristina” entrou, como todos os meses. Os artigos estão lidos. Contra tanta coisa, sinto-me feliz por aqueles dois casais serem felizes, por viverem com mais valor que muitos casais heterossexuais. É preciso ter coragem para lançar uma revista com uma capa destas. É preciso ir contra muita coisa. É preciso fazê-lo. Contra todos os riscos, contra todos os tabús. O tema está mais que presente na nossa sociedade, temos que viver com ele.

 

A diferença é sempre contraditória. Eu, por várias vezes, fui rotulado de “gay”, somente porque não namorava, porque não namoro. É uma opção minha, mas isso mexe com as pessoas. Todas as semanas ouço que tenho de arranjar uma namorada, uma pessoa para a minha vida. E quem disse que quero?! Porque não posso viver sozinho e mesmo assim ser feliz?! Porque temos de ser todos iguais?! Cada um sabe da sua vida e vivi-a da forma que se sente mais feliz! Sou diferente e isso incomoda muita gente. E como eu, muitos sentem a dor da diferença, a rejeição dessa ideia.

 

Parabéns Cristina Ferreira pela coragem de derrubares tabús, pela coragem de seres diferente, por falares no que muitos não falam. Obrigado Cristina Ferreira por, com esta capa, ajudares tanta gente, por criares incómodo, por trazeres a público aquilo que se fala por entre dentes. Espero, sinceramente, que com isto abras mentes, abras portas de armários. Ser gay, bi ou hetero, são todos seres humanos. Temos todos direitos, como temos todos deveres. Aceito e gosto da diferença. Obrigado aos casais que posaram para as capas. Obrigado por tomarem essa coragem mesmo sabendo as represálias que poderiam vir a sofrer.

 

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