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Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

O que é o amor?

por Ismael Sousa, em 16.07.18

Acho que nunca percebi bem o que é o amor. Aprendi sobre ele, em tantos e variados momentos da minha vida, mas acho que nunca o compreendi muito bem, ou melhor, nunca o entendi.

Sempre que falo em amor, na minha visão do que ele é, compreendo sempre, nas minhas palavras, que o amor deve ser a dádiva a outra pessoa. Que deve fazer-se renascer a cada momento que passa, a cada dia, cada mês, cada ano.

Sempre compreendi que no amor temos que ceder e marcar posição. Que não deve ser só uma parte a ceder, mas ambas. Sempre percebi e entendi que no amor se sofre: não uma dor física ou uma dor provocada pelo outro. Mas sim aceitar e viver a dor que a outra parte sente, mesmo que pareça ridícula.

Houve alguém que disse uma vez: “se eu tivesse amnésia, apaixonar-me-ia por ele todos os dias.” E para mim, nesta minha sabedoria parva e tentativa de compreender algo que acho não conseguir ter esclarecido na totalidade, isto é o verdadeiro amor: fazer cada dia como se fosse a primeira vez.

Sou um lobo solitário sem ninguém com quem partilhar os meus dias, e por essa razão vou sendo, em muito, diário de outros. Tenho visto muitas coisas e não consigo perceber como é que alguém que está numa relação não consegue fazer mais por ela, aproveitar cada segundo com a pessoa que se ama, lutar para não a perder.

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Continuo a achar que o ser humano está cada vez mais centrado em si próprio, querendo que o mundo gire em seu redor do que em redor de outrem. Eu continuo a ser contrário a esta regra que me salta à vista e continuo a desejar que a minha vida gire em torno de alguém.

Amar é das coisas mais belas. Chego a esta conclusão por diversos fatores, mas também como síntese de muitas das minhas leituras. O homem procura amor mas não é capaz de se entregar ao amor. O homem procura ser amado, mas não quer amar. A ideia do geocentrismo perdeu-se há vários séculos. Mas há vários séculos que se criou o egocentrismo. O eu está a cima de tudo, independentemente da forma como se conquista essa posição. As pessoas dão mas não se dão.

Há a dor de não se ser amado, a mágoa de algum amor. E porque se passou por isso uma vez, tende-se a fechar-se o coração e a pensar somente com a razão. E a razão é instinto animal e como os animais deixamos de fazer amor passando a fazer-se sexo. Já não há amor mas relações , mas o uso de alguém para satisfação de si.

Sempre existiram pessoas Alfa. Hoje todos querem ser alfa rejeitando a ideia de se ser uma outra letra do alfabeto grego. Queremos mas não damos, esperando sempre só receber. Talvez se tenha esquecido o verdadeiro significado da palavra dar, substituindo-a por descargo de consciência.

É das coisas mais difíceis o sair-se de si em busca do outro. É uma espécie de subjugação ou humilhação perante o outro. Mas sair-se de si em prol de outrem é uma das características do amor. Hoje amam-de objetos e locais mas não se amam pessoas. Hoje ama-se de mais aquilo que não pode retribuir amor.

Compreendo e aceito na sua perfeição que o amor não é fácil. Mas amar nos primeiros dias também nunca foi difícil. Parece-me que se ama até determinado momento, mas depois vive-se, acomodado, ao lado de alguém. E achar-se que esse alguém é nosso por direito é matar o amor; tratar essa pessoa de forma má só porque achamos que ela nunca nos vai abandonar, é matar o amor. E o amor deve ser algo que se rega todos os dias e não que se arranca para não impedir que o ego cresça.

“Amar dói: se não doer não é amor”! Escrevi estas palavras um dia percebendo, à posteriori, que poucos foram aqueles que compreenderam a verdadeira essência desta frase. Amar dói porque sofremos com alguém, obriga-nos a sairmos da nossa praia, a lutar em cada novo dia.

Se amar é a coisa mais bela, porque desperdiça o homem esse dom? Se amar é a coisa mais bela, porque matamos este sentimento? 

Poesia Sempre, Sempre Pura Poesia

por Ismael Sousa, em 22.03.18

Quanta poesia escrevemos com as linhas da vida? Quantas palavras poéticas proferimos em nossos dias? Ah!, e o que é a poesia se não o fogo que arde em nós, que palpita em amor e dor? Nem todo o escritor é poeta e nem todo o poeta é escritor. Mas por esta ou aquela forma de poesia, todo o homem a sente em si.

 

[Lígia Mendes]

"Ah, mas se ela adivinhasse,

Se pudesse ouvir o olhar,

E se um olhar lhe bastasse

P ́ra saber que a estão a amar!"

(O amor quando se revela, in Poema Inéditos, Fernando Pessoa)

 

E os gestos de amor, as palavras proferidas? Os olhos que encadeiam, o poeta que se exalta. É o amor que faz escrever, a musa que inspira. Quantos amores trocados, quantas palavras entrelaçadas, quantas páginas escritas em poesias desnudadas de preconceitos e hierarquias!

 

[Amaro Figueiredo]

"Quem?

Não sei quem és. Já não te vejo bem...

E ouço-me dizer (ai, tanta vez!...)

Sonho que um outro sonho me desfez?

Fantasma de que amor? Sombra de quem?"

(A Mensageira das Violetas", Florbela Espanca)

 

E o sonho, a ilusão, a ausência de alguém. É poesia, é amor, é entranhas e ardor. Falamos normalmente e recitamos lindos sonetos de amor ou saudade. E quanta dor em palavras oculta, corações sofredores, lágrimas derramadas. Seres incógnitos, seres ausentes, escritores de sentimentos.

 

[Francisco Gonçalves]

"Se me vieres buscar,

Se me devolveres a brisa,

Se me amares apenas um pouco,

Se me fizeres sorrir,

Se me tocares assim...

Voltarei a ser eu"

(Francisco Gonçalves)

 

Há esperança na poesia, há entendimento e confusão. Há a magia e a realidade, a verdade ou pura ilusão. Contam-se as palavras, formam-se as rimas. Ah!, como eu admiro todo e qualquer escritor. E o poeta ainda mais, que falseia as palavras, que as conhece e as troca, rimando-as e encruzilhando-as em quadras e sentimentos, em sorrisos de sonho ou ilusão.

 

[Carlos Almeida]

"Ser poeta é ser mais alto, é ser maior

do que os homens! Morder como quem beija!

É ser mendigo e dar como quem seja

Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!"

(Florbela Espanca)

 

Não se pode fingir ser-se aquilo que no sangue não se é. Quantos poetas se escondem nas vielas e outros tentam alcançar uma fama que nunca lhes será verdadeira. E os poetas que escrevem em paredes, a poesia que salta das pedras da calçada. As quadras que são estórias e a história que são quadras. É preciso sentir-se antes de se ser, é preciso ser antes de sentir.

 

[José Pereira]

"Nega-me o pão, o ar,

a luz, a primavera,

mas nunca o teu riso,

porque então morreria."

(Pablo Neruda)

 

O que cabe na poesia, o que cabe num poema? Cabe tanto como no mundo, a desgraça e o amor, o ódio e o rancor. E todas as palavras, brincadas por aquele que escreve, criam encadeamentos floreados de sonhos alcançados, vitórias impensáveis, sonhos indecifráveis. Quanta poesia em nossos lábios, quantas palavras de poesia.

 

[Paulo Rodrigues]

"A minha glória é esta:

Criar desumanidade!

Não acompanhar ninguém.

- Que eu vivo com o mesmo sem vontade

Com que rasguei o ventre à minha mãe."

(Cântico Negro, José Régio)

 

Poesia não são só palavras, não são só sentimentos. Poesia são diários, poesia são palavras escritas com o sangue da vida, o alinhamento do espírito. Poesias são tumbas de almas desgarradas e amadas, de almas sofridas e sentidas. Grande é o poeta e grande é a poesia, incapaz de se conter, incapaz de se controlar. E a mim que alinho somente frases, que não sei poetizar.

 

[Pedro Miguel Teixeira]

"A São Tiago não irei

como turista. Irei

- se puder – como peregrino

Tocarei a pedra e rezarei

Os padre-nossos da conta como

um campesino."

(Sophia de Mello Breyner Andresen)

 

Poesia é o voo da alma, é ir-se até onde a mente alcança. É transpor fronteiras entre o real e o imaginário. Poesia não é só o que aparenta ser. São fontes de sabedoria, revelações e tantas palavras não ditas e escritas no invisível aos olhos insensíveis. Poesia é sempre sangue que corre em nossos corpo, coração que bate em nosso peito.

 

[Joana Simões]

"Não há limite no azul, nem no rosa perdição

Há apenas uma imensidão!

Nada é vida, nada é morte,

Tudo é esperança!"

(Joana Simões)

 

Poesia é o cigarro do tempo, que nunca se apaga e que com o seu fumo inebria as almas sensíveis. Poesia, sempre poesia. A poesia não morre, não tem tempo. A poesia vive hoje e ontem, amanha e para sempre. Viva a poesia, vivam os sonhos, os sentimentos, as emoções e o sonhos. Viva a poesia, vivam os corações de quem a escreve. Poesia sempre, poesia sempre...

 

[Ismael Sousa]

"Na verdade temos medo.

Nascemos escuro.

As existências são poucas:

Carteiro, ditador, soldado.

Nosso destino é incompleto.

 

E fomos educados para o medo.

Cheiramos flores de medo.

Vestimos panos de medo.

De medo, vermelhos rios

nadamos."

(Carlos Drummond de Andrade)

 

 

 

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Poesia regada com Chá!

por Ismael Sousa, em 24.10.17

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Das improbabilidades surgem, muitas vezes, coisas boas e momentos inacreditáveis.

 

De um simples convite, para algo que eu não imaginava como fosse, para dentro de uma loja de chás aromatizados com poesias e conversas.

 

Foi no centro da cidade de Viseu, mais propriamente ao cima da rua Nunes de Carvalho, que o orgasmo literário e cultural se deu. Agulha do Tempo é o nome da casa de chás, onde se pode encontrar muito mais do que chás. Ali o chá é um chamariz, porque aquela pequena loja, de bicicleta à porta, escorre cultura e arte em todas as suas paredes, em todas as suas peças de mobiliário. É arte, pura, violentada, amada e, talvez, indesejada. É arte no falar, no olhar, no beber.

 

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E, numa pequena sala daquela casa, onde residem "restos" de história, mataram-se e voltaram a ressuscitar-se almas. Em volta de pequenas mesas, de conversas de amigos, a rede social mais antiga, a escrita, voltou a tomar forma. Não só pelos textos que se declamaram, mas como no chá que se bebeu (e que ainda guardo o sabor daquele chá amarelo, do Tibete), nas conversas e linhas de vida cruzadas. A arte surgia aos nossos olhos com um fantástico poder, embelezados pelos desenhos da querida e tímida Inês, pelas peças que nos transportaram a outras épocas, pela voz de cada um, que à sua maneira iam dando voz à poesia.

 

Chá e poesia: que dupla inevitável. O chá saboreia-se, aquece o corpo. Descobrem-se sabores, sensações e emoções (e aquele bendito chá amarelo que me transportou para a minha infância, o cheiro a trabalho do campo, agreste como cada dia de trabalho). E, inevitavelmente, as palavras escritas por grandes nomes e as novas descobertas. Emoções, sensações, palavras saboreadas, ruminadas, interiorizadas, que acalentam o coração. Um final de tarde de sábado, o frio a querer fazer-se sentir. Um fim de tarde outonal.

 

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Duas horas depois, despedi-me daqueles que me encheram o coração com palavras doces, palavras amargas, palavras de amor. Cá fora fazia frio e eu só queria voltar àquele recanto. Face.The.Book é sem dúvida um projeto fantástico. E em cada nova oportunidade, o esforço para estar novamente presente. Agulha do Tempo, umas loja a revisitar, um conversa com o Zé e a esposa.

 

Naquela pequena sala, aquecidos pelo calor do chá e pela chama da escrita, os leitores deram voz às almas presas em páginas de livros, pela mão de algum amante.

 

Obrigado Face.The.Book, obrigado Agulha do Tempo.

 

Quem passar por Viseu que não deixe de lá dar um saltinho!

O homem discriminado!

por Ismael Sousa, em 29.08.17

Toda a gente fala do assunto. Todos imitem a sua opinião sobre o tema. Os livros da Porto Editora são o assunto mais falado nesta última semana.

 

Não conheço os livros, nunca tive com nenhum na mão. A única coisa que sei sobre eles é aquilo que leio na blogosfera e nas noticias que leio pela manhã.

 

O que tenho constatado é que o rosa já não é mais uma cor feminina e que o azul não é uma cor masculina.

 

Não sou perito em nada, não tenho nenhum curso que me possa dar as faculdades necessárias para avaliar seja o que for. A única coisa que tenho é experiência de vida (sim, apesar dos meus 27 aninhos, tenho vivido mais que aquilo que pensam)!

 

Um dos temas mais badalados desde o século passado é a igualdade de direitos entre homem e mulher. E eu, com todo o respeito que tenho por estes seres, não podia estar mais de acordo que as mulheres tenham os mesmos direitos que um homem. Se um homem pode ser camionista, uma mulher também pode. E se for eficiente, que tenha tanto direito a ser contratada como um homem. Se uma mulher pode ser dona de casa, um homem também o poderá ser. O tempo em que a mulher ficava em casa e o homem trazia o sustento, já lá vai. Hoje, mulheres e homens, são o sustento.

 

Nasci num tempo em que as coisas eram diferentes dos dias de hoje. Eu brincava na rua, via desenhos animados, via filmes. Fazia as lides domésticas, ia à escola e construía cabanas em cima de árvores. Vivíamos na rua e os pais ralhavam-nos por andarmos até tarde na rua com os amigos. No meu tempo líamos livros, jogávamos à macaca e ao lencinho. Saltávamos à corda e brincávamos ao elástico. No meu tempo, duas pedras eram os postes das balizas e a bola andava nos pés. Todos jogávamos independentemente de sermos bons ou não (e eu que sempre tive dois pés esquerdos). No meu tempo era diferente, mas saudosismos não nos levam a lado nenhum.

 

Os dias que correm são diferentes, pela evolução lógica da natureza. Se existe evolução normal é que as brincadeiras e formas de vermos o mundo também sejam diferentes. Ninguém quer voltar aos anos 90 (no meu caso) e um futuro melhor está sempre ao vislumbre da nossa imaginação.

 

Mas com a evolução dos tempos está inerente a evolução da mentalidade. Mas nisto, em questões de mentalidades, parece-me que estamos num processo de retroversão. Não avançamos mas regredimos.

 

Hoje qualquer palavra é ofensa, qualquer forma de ver é repugnante. Preocupamos-nos com questões que são mais irrelevantes que a queda de uma folha. Que importa se o rosa é a cor ou não das raparigas e o azul a cor dos rapazes? Que importa se há um livro azul que diz "exercícios para rapazes" e outro rosa que diz "exercícios para raparigas"? No meu tempo não pensávamos nisso, os pais não pensavam nisso.

 

"Uma questão de justiça" podem afirmar. Mas enquanto se preocupam com questões de igualdade, não se preocupam com questões de dignidade. Uma parte do meu trabalho é lidar com crianças. E quando elas entram por esta porta dentro, para brincarem, não pensam se esta ou aquela brincadeira é para meninos ou meninas. Brinca-se em conjunto. E eu, na minha formação e contínuo interesse pela área psicológica, vou fazendo as minhas avaliações particulares. Há crianças que carecem de atenção, crianças que não têm uma vida fácil. Há crianças que têm tudo e outras que pouco têm. Mas no mundo deles, onde fantasiam, isso é esquecido.

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A maior necessidade, para mim, é formar bem estes pais, filhos da libertinagem, que não se preocupam em dar uma boa educação aos filhos, mas "sustenta-los". Não se incutem valores, não se incute educação. As crianças nascem ao "deus dará" aprendendo aos encontrões com a vida. Não há "obrigados" nem "desculpas", somente o eu e eu. Filhos da libertinagem, libertinos serão. E o homem que cria o mundo, destrói-o também.

 

Falamos em igualdade, mas esquecemos-nos que não há igualdade. Os homens têm de continuar a ceder passagem a uma senhora, a serem "cavalheiros" (e aonde é que já vai esse código de honra), têm de continuar a mimar as mulheres. Mas nisso não se fala em igualdade. As mulheres têm muito mais aceitação e concretização no mundo do trabalho que o homem. Já não se pedem colaboradores (o termo certo com que a nossa língua sempre definiu os dois sexos em conjunto) mas colaboradorAs. Precisam-se de empregadAs de mesa, de balcão, de colaboradorA para isto e para aquilo. Qualificadas ou não, acabam sempre por ficar com o lugar, porque se não é descriminação, há processos e afins.

 

Vivemos do avesso e numa igualdade falseada. O homem passou a submisso. Talvez lhe seja bem feito pelos anos em que se armou em superior. Infeliz de mim que nasci homem e tenho de lutar por tudo.

 

P.S. - Às mulheres da minha vida, às minhas colegas, todo o respeito e admiração que tenho por vós!

Diga não à autoestrada, conheça o nosso país!

por Ismael Sousa, em 21.08.17

As redes de autoestradas são um meio fácil e rápido de acesso entre vários pontos do país. Fácilmente entramos e saímos perto do local que desejamos, viajando a um velocidade mais confortavel, sem semáforos e limites de velocidade ridículos. Vamos de um ponto ao outro do país sempre sem parar. A paisagem é sempre a mesma, sem grandes diferenças: mato, mato e mato. Tirando as grandes metrópeles, esta é a vista que se tem durante uma viagem numa autoestrada. Mas para quem, neste fim de mês de agosto e final de verão, ainda for gozar umas férias, diga NÃO às autoestradas.

 

Sempre gostei de andar de um lado para o outro, parar aqui e acolá. Irritam-me as viagens diretas, em que saímos de um ponto, fazemos uma carrada de quilómetros somente para ir sair num outro ponto. E o que está no meio? Ninguém sabe! Mas quando a pressa aperta, lá tenho que ceder a fazer rodagem em alcatrão de autoestrada.

 

E este fim-de-semana foi assim. O caminho para as Caldas da Raínha foi feito pelas várias autoestradas que se tem de percorrer para lá chegar. Foi uma viagem de descida (territorial) apressada e com algum nervosismo à mistura (mas quanto a isso, nada a fazer). Rodou o pimba durante toda a viagem, misturado com o latino e o cigano. Diga-se de passagem que a viagem foi horrível, cuja única paragem foi no McDonald's de Tomar para recarregar baterias e ter a força física (e mental) necessária para chegar ao destino.

 

A zona das Caldas da Rainha é, para mim, sempre um bom local de descanso. O Oeste tem coisas fantásticas, permitindo-nos recarregar baterias com muita facilidade. Apesar de este fim-de-semana não ter passeado por aquela zona, no ano passado tive o previlégio de ir conhecendo aquela zona. Ali há muito para ver e muita história para saborear. E não precisamos de passar muito tempo enfiadinhos (tipo salsicha enlatada) dentro del coche!

 

Começando pelas Caldas da Raínha, que até nem parece ter grande coisa para visitar, podemos perder-nos pelo parque Dom Carlos I, onde nos podemos perder por entre um verde abundante, um lago ladeado por uma velha instancia termal, mais o Museu José Malhoa e um café fantástico (tanto em decoração como em serviço). Tem praças e Bordalo Pinheiro por todos os lados, uma praça de touros e ruelas cheias de vida.

 

Deixando as Caldas da Rainha para trás, temos a poucos quilómetros o famoso Bacalhôa Buddha Éden, onde se podem perder várias horas a passear por entre budas, soldados e fabulosas peças de arte, rodeadas por uma enorme mancha verde e um lago que nos dá vontade de mergulhar.

 

Óbidos é também paragem obrigatória e fica ali bem pertinho. Mas antes ainda há uma velha e imponente igreja, no Senhor da Pedra, que deixa qualquer admirador de arquitetura maravilhado e apaixonados os amantes de arte sacra. Em Óbidos há uma imensidade de coisas para ver, desde livrarias em que as prateleiras são caixas de fruta ou uma outra dentro de uma antiga igreja. Há a muralha e a ginja. Nas costas de Óbidos há uma lagoa e a poucos quilómetros Peniche com tanto para oferecer.

 

Bem, mas comecei este texto falando das autoestradas porque, na volta das Caldas da Raínha, decidi nem percorrer um metro de autoestrada. Arriei (como se diz por estas bandas) caminho por estradas nacionais e, há semelhança de um ano atrás, visitei aqueles espaços em que até as pedras da calçada são históricos.

 

Passando ao lado de São Martinho do Porto (outro local que merece sempre uma visita), a minha primeira paragem foi em Alcobaça. O mosteiro estava fechado (e já o visitei), mas no grande adro em frente, uma feira de velharias. Contudo Alcobaça não se fica só pelo mosteiro, pois a zona que o rodeia também é digna de ser vista. Há casas com azuleijos, túneis afontanados. Ali respira-se história.

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 Alcobaça ficou para trás e o meu próximo destino foi Fátima. Contudo, no caminho de Alcobaça até Fátima, podemos visitar locais como o Mosteiro da Batalha, os campos de batalha de Aljubarrota, entre outros locais que as setas castanhas nos vão indicando.

Contornando o Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros, chega-se a Fátima. Mas para aqueles que Fátima é um local indiferente, existe sempre a possibilidade de se visitarem as grutas que são de uma beleza estonteante. E que tal aquela sensação de estar "dentro" da terra?

 

Rumando a norte, parei em Leiria para visitar aquela cidade uma vez mais e conhecer o Castelo lá no alto. Leiria tem em si parques e praças, ruas catitas e pintadas. Mas tem também uma Sé que deixa qualquer um mergulhado numa enorme paz. Tem um fantástico órgão de tubos e telas dignas de serem vistas. A Igreja da Misericórdia é também local de paragem obrigatória, não pela sua imponência mas pela beleza e simplicidade a ela aliada. Lá no alto, imponente, as muralhas do velho Castelo. 2,10€ de entrada para uma enormidade de ruínas que levam a nossa mente a imaginar e viajar pelo tempo. Há uma velha igreja, ou as paredes que dela restam, os vestígios de um palácio onde uma enorme sala nos recebe e nos deixa, da sua varanda, ter a melhor vista sobre a cidade de Leiria. E esta varanda deixa qualquer um maravilhado (e para os eternos romanticos, ali é um verdadeiro local de romantismo).

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A torre de menagem permite-nos ir ao ponto mais alto da cidade, deixando um imenso horizonte na nossa frente, espreitando por entre ameias que nos recortam a vista. Enquanto subimos vamos conhecendo pedaços de história que muito bem ali foram colocados como patamares, deixando qualquer visitante um pouco mais culto. Descendo do castelo, um museu e uma igreja romanica são paragem obrigatória.

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Pelo meu excesso de cansaço, deixei Leiria em direção a Coimbra. Mas, neste percurso pela nacional, passando por Pombal e Condeixa, fiquei tentado em rumar um pouco mais a este, voltando a Tomar, terra de tabuleiros e templários. Também tem um castelo possuidor de belos jardins e da famosa janela manuelina. Também tem praças e igrejas várias para serem vistas.

 

Coimbra irá ser sempre uma enorme paixão. Regalo-me sempre com o percurso desde o Largo da Portagem até à Universidade. Ali há um ar diferente que se respira, um ar de história e conhecimento. Em Coimbra há dois reis que repousam na Igreja de Santa Cruz, uma sé velha e uma nova. Há uma universidade com conhecimentos inumeros e de belezas tamanhas. Há ruelas e calçadas, jardins de sereias e escadas monumentais. Há musica e serenatas e a casa onde viveu José Afonso. Há um penedo de saudades, conventos e igrejas. Um Portugal em tamanho pequeno, a reliquia da Rainha Santa e a quinta onde se derramaram lágrimas. Coimbra é, para mim, um todo onde sempre se vai beber e renascer.

 

No percurso de Coimbra até Viseu (no meu caso mais própriamente São Pedro do Sul) há também inúmeros locais escondidos para visitar. Mas sobre esses locais, deixo para uma próxima viagem, para uma próxima "eu, o Seat e muitos quilómetros a fazer".

 

P.S.: As fotografias não estão grande coisa. Brevemente um post só com as fotografias tiradas neste mini viagem!

Bullying & Cyberbullying

por Ismael Sousa, em 20.04.17

Tive hoje a oportunidade de participar numa conferência, no âmbito do Mês da Prevenção dos Maus-tratos na Infância, sobre bullying e cyberbullying, promovida dela Comissão de Proteção de Crianças e Jovens de Vouzela.

Apesar de todos já termos ouvido falar sobre este assunto, não nos podemos esquecer que, cada vez mais, é um assunto em cima da mesa, um assunto com que todos nos devemos preocupar. O bullying e o cyberbullying estão presentes nas nossas escolas, nas nossas comunidades, nas redes sociais.

Com a participação da Dra. Teresa Pessoa da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação de Coimbra e da Dra Teresa Teixeira do Instituto Português do Desporto e da Juventude de Viseu, falaram-se de assuntos como os dilemas e desafios do cyberbullying e do Movimento contra o discurso de ódio.

Numa breve explanação, a Dra Teresa Pessoa colocou em cima da mesa alguns dados sobre percentagens deste tema, bem como a forma como acontece mais frequentemente. É fácil percebermos quem são os agressores e quem são as vítimas de bullying. Mas quando falamos de cyberbullying, a coisa vira um pouco ao contrário. Muitas vezes o agressor é a vítima, e a vítima o agressor. É muito fácil estar atrás de um computador, deitadinho da cama, no sofá, e ser-se um autêntico agressor cybernauta. Perfis falsos em contas de redes sociais, palavras de ódio e rancor em textos. Mas não nos ficamos por aqui. A facilidade com que se fotografa e faz um filme nos dias de hoje, com que se partilham as coisas que circulam pela internet, é também uma forma de bulying: a imagem de uma pessoa fica denegrida com muita facilidade. Sobre este assunto, pergunto-me não sobre a forma como parar isto, mas que tipo de acompanhamento têm as vítimas? Que consequências têm os agressores? Uma mancha num cadastro será suficiente? Como se acompanham as vítimas, evitando males maiores?

Correm na internet várias noticias sobre um jogo intitulado de Blue Whale. Depois de alguma investigação (principalmente num blogue brasileiro que fala bem sobre o assunto [aqui]) percebi que este suposto jogo leva vários jovens ao suicídio, à mutilação. São ameaçados de que têm de cumprir todos os passos do jogo e caso não o façam as familias podem sofrer consequências. É uma entrada direta para a morte. E são adolescentes com problemas que entram neste jogo e outros que insentivam a que isto aconteça. Diz-se que é melhor deixar o assunto morrer, que no fim tudo se resolverá. Pois eu acho que não, que cada vez mais se deve falar destes assuntos para que as pessoas se apercebam destes sinais, para que possa estender uma mão a quem precisa mas não tem coragem para a pedir.

E este tema leva-me a introduzir o segundo tema debatido nesta conferência: o discurso de ódio. Como são várias as formas de bullying, as palavras proferidas e escritas também o são. Podemos dizer que o racismo, a homofobia, a violência doméstica, entre tantas áreas são também formas de bullying. De uma forma muito prática, a Dra Teresa Teixeira falou sobre este assunto à audiência, composta por formadores e formandos. Em muita coisa me revi nas palavras da Dra Teresa.

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A verdade é que, ao longo da vida, vamos sofrendo vários tipos de bullying. Eis um testemunho na primeira pessoa.

Quem me conhece, que conhece a minha vida, desconhece este facto sobre mim. Durante vários anos também fui vítima de bullying, a diversos niveis: físico, psicológico, cyberbullying. No meu tempo não se falava destas coisas, os termos não eram conhecidos. Sofri bullying porque não era igual à maioria, porque pensava de maneira diferente. Bullying porque os meus ideais eram diferentes, porque aquilo que eu gostava era diferente. Porque as coisas que eu escrevia incomodavam. Fui achincalhado publicamente, fui agredido, fui ameaçado. Fui humilhado, acusado, desprezado. Isso talhou a pessoa que hoje sou. É fácil falarmos as coisas da boca para fora sem pensar na pessoa que está ao lado, escrever comentários, ameaçar. É fácil ocultarmos isso ao mundo, escondermo-nos e fazer de conta que nada se passa.

Não é fácil pedirmos ajuda. A vergonha, a falta de forças, impede-nos. Nem todos somos fortes o suficiente e alguns chegam a colocar um ponto final nas suas vidas. Depois? Depois ninguém consegue perceber o porquê de uma atitude dessas, ninguém viu sinais de nada. Mas os sinais estavam lá, as razões conhecidas por todos. Hoje sou uma pessoa diferente, mas as marcas continuam cá. Não tenho um equilibrio sentimental como muitos outros, não aceito ajuda de terceiros, fecho-me demasiadas vezes sobre o meu casulo. Sou inseguro, incapaz de dar um passo arriscado, de tomar decisões que devem ser tomadas. Rejeito a ajuda, tenho-me como muito independente. Vesti carapaças que não quebram, criei um "eu" forte que só existe fora das paredes do meu quarto. Hoje sou uma pessoa diferente em tantos aspectos, mas ainda permaneço fragil em tantos outros. Sou sempre o primeiro a querer ajudar outros que precisem, a tentar evitar que passem por aquilo que eu passei. Queria ser mais ativo neste campo, mas nem sempre é fácil, as lembranças fazem recuar.

Hoje deixo aqui mais um alerta, como há em tantos outros locais: não permitam que isso aconteça à vossa volta. Não vistam a capa do "não é comigo". Somos todos pessoas, somos todos seres com direitos e deveres. Não devemos passar ao lado, mas agir quando tiver que se agir. Não partilhem com pena isto ou aquilo, ouçam os gritos que são dados no silêncio, leiam os pedidos de ajuda que aparecem constantemente. Uma simples palavra pode ajudar. Denunciem, façam o vosso papel como cidadãos. Somos todos responsáveis uns pelos outros. Não permitam que isto chegue a um fim triste. Tomem atitudes. Se eu fizer um bem a alguém e esse alguém retribuir com bem a um outro, criamos um mundo melhor. Não apoiem a violência.

Nada de novo debaixo do sol

por Ismael Sousa, em 09.04.17

Todos os anos somos bombardeados com inúmeras noticias sobre este tema. Todos os anos se fala da mesma coisa. Não sei se é numa forma de prevenção se numa forma de manter a "tradição", mas nada que seja novidade.
Deixei o secundário em dois mil e nove (já lá vão oito anos) e no meu tempo e no tempo anterior a mim, já se ouviam relatos de acontecimentos idênticos. Lloret de Mar fechou portas. Os destinos mudaram, os costumes não.
A viagem de finalistas é sempre um ponto alto na vida de qualquer estudante. É um marco: o fim do secundário e a partida para uma nova jornada. É também a saída das asas dos pais para uma independência. Ou pelo menos assim deveria ser. Trabalha-se todo o ano para o gozo de uma semana. Uma semana longe dos pais, sem pensar na escola, com os amigos. Um país diferente, uma semana de autêntica liberdade e excessos. É-o por natureza. Bem sabemos qual o resultado quando nos vemos livres de tudo aquilo que nos aprisiona: o álcool é em excesso, há quem experimente drogas e, arriscaria dizer também, uma podridão sexual. É uma única semana onde tudo pode acontecer, onde tudo o que se passa fica lá, esquecido, escondido, nos segredos das amizades, que um dia mais tarde, em redor de uma mesa, serão motivo de recordação.
É também verdade, e esta talvez é que deveria ser um maior motivo de notícia, que existem coisas boas e que a pequena minoria que faz notícia não é reflexo do que acontecem nas viagens de finalistas. Existem estudantes que aproveitam para conhecer, descansar, divertirem-se com cabeça. Mas cada um é como cada qual e cada um se comporta segundo a maneira que foi educado. E quer queiram quer não, esta é a verdade.
Acho uma certa graça ao ouvir os pais dizerem que "o meu filho não fez nada disso", "foi culpado sem ter culpa de nada". Aos olhos dos pais somos todos uns santinhos, com a graça de Deus. Só nos falta uma auréola na cabeça e colocarem-nos no altar. Pena é que os altares são poucos e pequenos e temos os pés grandes ou corremos o risco de "mjar" as toalhas. Graças a Deus!
Questiono-me se os pais conhecem realmente os filhos. É claro que sim, são filhos. Mas e sobre o efeito do álcool? Sobre o efeito das drogas? Como é quando a adrenalina é maior que o normal? "O meu filho nunca tocou em drogas. Não bebe uma pinga de álcool". Já ouvi tantos pais dizerem isso e vi precisamente o contrário. Continuo a dizer que os nossos pais só conhecem de nós aquilo que nós queremos que conheçam. A nossa palavra é de ouro. Os meus pais sempre acharam que eu não fumava. Desde que chegasse a casa sem cheirar a tabaco da boca, que não fumasse com eles por perto, tudo continuava nesta crença absolutamente estúpida. Fumava há oito anos quando os meus pais descobriram. Nunca tinha chegado bêbedo a casa e para os meus pais eu não me embebedava. E eu apanhei com cada uma!
Que moral tenho eu para falar? Talvez nenhuma, é verdade. Mas a educação que os meus pais me deram nunca me fez atirar colchões de um quarto de hotel, partir aquilo que não era meu. Talvez por as coisas custarem a ganhar lá em casa e saber que se estragasse tinha de pagar. Já diz o velho ditado: "quem estraga velho, paga novo". A meu ver, a educação reflete-se em todo o lado, independentemente do estado em que estejamos. Conheço os meus limites, sei aquilo que devo fazer ou não fazer. Talvez por isso seja um renegado. É verdade que já fiz coisas para agradar aos outros, mas nunca nada que me fizesse envergonhar ou que envergonhasse os meus pais.
Reparo, muitas vezes, que os "Alpha" são cada vez mais e os restantes entram na moda para agradar, para se sentirem incluídos. A rejeição é horrível e por isso nada melhor que nos submetermos a um "Alpha". Sinceramente, não sei o que dizem os livros de psicologia sobre este assunto, mas para mim (descoberta que fiz quando me vi na aflição) todos temos um "Alpha" dentro de nós. Somo-lo ou não por natureza. Mas com algum trabalho esse "gene" virá ao de cima e cada um será capaz de se reger pelos seus próprios principios.

 


Bem, a verdade é que comecei por falar nas viagens de finalistas e acabei divagando um pouco mais. Quanto a estas viagens, não há muito a dizer. Que seja feita uma prevenção bem maior por parte dos educadores e também por parte das agências de viagens, que só veêm o seu nome manchado. Que haja videos e imagens a sensibilizar, senão coitada de Santa Bárbara que só é lembrada em dias de trovoada. Quanto aos jovens finalistas, porque não começar a pensar numa coisa diferente? Porque não um destino onde possam "aproveitar a vida" mas também conhecer um mundo/cultura diferente? Há tanto local onde ir! Com o mesmo dinheiro conseguem umas férias diferentes. Ah, e não se culpabilizem uns as outros. Não é bonito andarmos a atirar as culpas, acabamos sempre por ser todos iguais. Quanto aos pais? Olhem, uns culpabilizem-se, outros não. Para os pais dos futuros finalistas, uma conversinha séria antes da viagem faz sempre bem.