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Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

Renascer de um útero de mar

por Ismael Sousa, em 11.03.19

Chegou com o coração carregado e a arder de mágoa. Chegou, arrastando todas as correntes que trazia agarrado a si. O peito arfava de cansaço e dor.

 

O mar estava calmo, o areal sem ninguém. Brilhavam as estrelas no céu, a lua em quarto minguante. Mas ali, junto ao mar, somente a luz do velho farol, rodando sobre si mesmo com as suas largas riscas brancas e vermelhas, alumiava os céus. Tudo em seu redor era escuridão. As ondas rebentavam diante de si. Nem um único pensamento na sua cabeça. Somente o vento que lhe batia fortemente no rosto, o frio que lhe arrefecia o corpo.

 

Sentou-se, ali onde nada mais existia. As lágrimas escorriam-lhe para dentro, tentando apaziguar a dor e apagar o fogo que dentro de si existia. Tentava encontrar explicações, perceber as razões que o levavam a tanto sofrimento. Mas só compreendia o silêncio. Rezava ao mar para que o inundasse e destruísse tudo o que havia em si. Rezava-lhe para que levasse o que de mau existia e que algo de bom trouxesse. Como se de um pequeno contrato tivesse estabelecido há muito tempo com o velho mar.

 

Mas na sua cabeça só existia o later de alguns nomes, de amores que magoaram, de pessoas que foram mais ausência que presença. A dor das promessas que ficaram por cumprir, das palavras que soaram a falso, das atitudes de que nada valeram. Tudo ao acaso. Um acaso que não existe mas liderado pela dor imensa de passados que nunca existiram.

 

Tirou os sapatos e as meias e caminhou em direcção ao mar. As calças largas e compridas esvoaçavam com o vento. A camisa branca já desfraldada, ia dançando ao mesmo ritmo. Mergulhou os pés na água gélida. Todo o seu corpo tremeu e arrefeceu de forma instantânea. Avançou pelo mar dentro, como se de alguma maneira se decidisse entregar a algo maior e que haveria visto mais dor que os seus olhos alguma vez poderão ver. Avançava como de regresso a um útero que o tivesse expelido cá para fora sem que ele o desejasse. Avançava num regresso às entranhas de um mundo, onde tudo é belo e diferente, onde tudo é passageiro. Entregava-se à morte naquele mar calmo e reconfortante, que tudo leva e tudo trás. Que tantos amores tinha levado e que nenhum havia trazido.

 

As calças molhadas até ao joelho agarravam-se agora às suas pernas, pesando-lhe no caminhar, pesando-lhe na entrega ao destino fatal, àquele que não era mais seu. Entregava-se sem resistir, sem correntes que agora o prendessem a um mundo que não era mais parte de si, do qual deixou de existir há tanto tempo, sem que se tivesse dado conta, sem que o mundo notasse.

 

E ali estava, entregue à morte, na escuridão de um mundo qualquer, na escuridão de uma praia qualquer, despovoada de gentes ou animais selvagens. Somente a morte, o mar e a luz do farol de círculos brancos e vermelhos pintados. O farol... O farol era agora a sua única âncora ao mundo que desejava deixar para trás. Era, naquele momento, como um canto da sereia, que o levava de regresso a um mundo que achava que não era seu, a um mundo que nenhuma esperança parecia dar-lhe. Mas aquele canto da sereia formulado por uma luz giratória chamava-o para uma nova existência, chamava-o para uma nova vida, uma nova forma de viver.

 

Olhou o mar novamente, sentiu o frio que o inundava. Deixou o mar e sentou-se no areal. De novo o seu olhar fitava para lá desse mar imenso. Fitava o pensamento, o seu passado e a necessidade de se desligar do que o rodeava. Levantou-se, molhou novamente os pés. Pela primeira vez a lágrima escorreu-lhe pelo rosto. Recuou.

 

Com o dedo indicador escreveu na areia molhada os nomes que latejavam na sua cabeça, ali onde as ondas acabavam por morrer, naquele limiar em que o mar leva, aquele limite onde o mar deixa. Escreveu-os um a um, primeiro e último nome, com todas as letras, com aquela caligrafia de escola primária. Por baixo traçou um traço profundo. Olhou os nomes, um a um. Amores que teve e que o destruíram. Amores que recordava em todos os dias da sua vida, desde que terminaram. Amores que consumiram a sua vida até ao tutano. Olhou os nomes um a um e tentou recordar o que havia de bom. Mas só havia dor dentro de si.

 

"Despedimo-nos aqui!", sussurrou. E pouco a pouco foi-se afastando sem tirar os olhos dos nomes que tinha escrito, do lugar onde a partir daquele dia iriam jazer. Olhou-os enquanto recuava até que o mar os apagou. E aí virou as costas, seguiu o seu caminho, com os olhos colocados na luz do farol, gigante, de riscas vermelhas e brancas, com a luz a girar sobre si.

 

Dentro do seu peito já não ardia nada. Dentro de si existia somente a calma e o renascer para um novo dia. O mar lançara-o para este mundo como se tivesse renascido novamente. Há sempre um amanhã e nova esperança e um sol a brilhar.

...

por Ismael Sousa, em 07.10.18

Tudo o resto é passageiro. Tudo é fútil e nunca de nada serviu. A vida é feita desta maneira, a vida é feita assim.

Não guardo arrependimentos dentro de mim, não guardo ódios nem rancores. Guardo mágoas e saudades, guardo sentimentos que só eu conheço. Guardo o mundo inteiro e as memórias que tenho dele. Guardo os cheiros e as noites, os abraços que cruzámos e já não existem. Guardo as palavras que trocámos, guardo o mundo que vivemos. Eu serei sempre a vaga memória de um passado distante.

Tentei sorrir, voltar a acreditar. Pensei que desta vez fosse diferente e que a distância tivesse aproximado. Mas fui parvo em voltar a acreditar, fui parvo em voltar a recordar. Eu sabia que me ia magoar, eu sabia que nem deveria arriscar. Mas o amor que senti foi mais forte do que eu. O amor que sinto não me deixa avançar.

Caiu a noite sobre a cidade e eu estou abandonado nos meus pensamentos, solitário no meu sentir. Um dia teria de acabar. Um dia seria hora de seguir. Mas o amor não escolhe quando é o tempo para acabar, o amor não escolhe quando é o tempo de partir.

Amar-te será, durante tempo, o meu maior problema. Não se ama pelos dois, não se pode amar por quem não ama. Somente as lágrimas conseguem compreender o amor que as faz correr. Somente as lágrimas conseguem revelar o sentimento que há tanto está por desvendar.

Mundo ingrato e infértil. Mundo onde todos somos passageiros. Mundo de dor e saudades, de mágoas e verdades. Não interessa a sua dureza, são verdades que temos de acumular, são verdades que temos de desvendar e confraternizar.

Não vale a pena fingirmos ser aquilo que na verdade não somos. Não vale a pena andar-se com rodeios, se tudo aquilo que desejamos acabamos por não ter. A vida é mesmo assim, a vida continuará a ser assim. De nada nos vale fugir ou esconder. O mundo sempre incansável nos parecerá.

Metamorfoses de trovões!

por Ismael Sousa, em 04.09.18

A trovoada possui os céus lá fora, enchendo de luz toda a escuridão da noite. Não cai uma gota de chuva, somente a secura de uma trovoada de verão inundando de luz onde o sol há muito deixou de brilhar. Pela janela do meu quarto entram esses clarões de essência, dando existência a tudo o que está em meu redor durante breves instantes.

 

Estou deitado na cama, mergulhado no silêncio possível, submerso em pensamentos. De olhos fechados recordo cada traço do teu rosto que parece estar mesmo a meu lado. Sinto o teu cheiro que me tolda o pensamento. Os meus lábios sentem os teus lábios carnudos e dóceis, suaves e doces. Sinto o teu corpo junto ao meu, mesmo não estando. O teu respirar cai sobre mim e os teus lábios ainda percorrem o meu pescoço. O calor da tua pele, o sabor dos teus braços em torno de mim. Apertados, como se nos quiséssemos tornar um só. Esse calor apertado, esse abraço que não deixa de existir.

 

Cada palavra que escrevo se parece tão insuficiente para descrever aquilo que sinto. Mais um clarão, a breve existência em redor de mim. Tudo ganha vida tão brevemente e a minha realidade inferniza-me sabendo que não estás aqui.

 

Possuis-me mesmo não estando. Sinto-te presente na ausência que vivemos. E os teus lábios suaves nos meus, os meus dedos em tua face, eu e tu, nós e nada mais.

 

Sinto-me enfeitiçado, na estranheza e incerteza daquilo que vivo ou sinto. E estes breves instantes de uma existência real ou imaginária tornam-me vulnerável e inseguro. O meu coração fala-me mais que a razão. Sempre falou. Um dia irei arrancá-lo se me voltar a fazer sofrer. Irei atirá-lo para as profundezas do mundo para que ninguém o coloque em seu peito. E se um dia eu voltar a chorar por coisas que o coração me faça sofrer, regarei as flores do meu canteiro, para que nasçam e gritem ao mundo que o coração só faz sofrer.

 

E em amanhãs que me perca de esperanças infundadas, que no fim finde a minha vida junto ao mar das saudades que tanto sinto, morto por um clarão qualquer que me rodeie e tire de mim a vida que me sustenta, homem sem lágrimas e sem coração.

 

Novamente um clarão, vida por um instante, coração palpitante, lágrimas secas, razão censurada. Pensamentos e vida, eu e tu, nós se existir um nós. E o bater do teu coração, peça indispensável de vida, junto ao meu peito, o ar que te insufla os pulmões e me aquece o pescoço. E eu e a minha saudade. E eu e a minha existência.

 

E de novo os teus lábios carnudos, o teu corpo contra o meu. E o medo que me assola de ser mais um momento. É um último clarão, fraco, inundando fracamente tudo em meu redor. O último, o final, o derradeiro. E eu que me deixei levar pelo sono sem mais saber que existências terei no amanhã que surgirá tão certo como as estrelas brilharem mesmo por detrás das nuvens carregadas de raiva e energia. E nesse amanhã não saberei se eu estou. Talvez este último, derradeiro, final clarão me retire a vida, deixando o corpo frio, sem movimento, sem bater de coração.

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Espero por ti...

por Ismael Sousa, em 10.08.18

Deambulo pelas ruas em busca de ti. Eu sei que tu não estás, mas todo o meu ser deseja encontrar-te. Vejo-te, agora, só na minha mente. Recordo com imensa intensidade o teu cheiro, o teu sorriso, a tua voz. Falta-me o calor do teu corpo junto ao meu.

 

Na minha memória guardo, com todas a minhas forças, cada momento passado junto a ti: as conversas que tivemos, os locais que visitámos, os beijos que roubámos.

 

Estou só: vive um corpo perdido sem ti. Na minha mente ecoam as perguntas de como estarás, se sentirás a minha falta e o quanto eu gosto de ti.

 

Abate-se, de uma forma intensa, sobre mim a saudade que tu me deixas.

 

Tão pouco tempo e um sentimento tão grande que transborda de uma forma que eu não consigo explicar. Falta-me as palavras, falta-me a vontade, abundam as lágrimas.

 

A distância é algo que nos atormenta, algo que se nos impõe sem que o desejemos. Um teste, talvez.

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Já não moram sorrisos neste rostos, já não resido aqui. Estou perdido e sem rumo e tu faltas para me orientar.

 

Há a esperança que ainda arde por te voltar a ter em meus braços, por sentir o sabor dos teus lábios. O meu coração palpita, as lágrimas não me abandonam. E eu... aqui, perdido em pensamentos, deambulando como morto pelas ruas, sem vontade de aqui estar.

 

Morro a cada minuto que passa, a cada quilometro que aumenta. Só eu sei Que morro por não te ter, por não saber quando voltarei a teus braços...

 

Espero por ti, nem que a chuva caia abundantemente.

 

Espero por ti, nem que as lágrimas consumam todo o meu ser.

 

Espero por ti até ao fim...

Há ou existe!

por Ismael Sousa, em 18.07.18

Poderia haver uma história de amor. Ou quem sabe uma história de transformação. Poderia ter sido as duas coisas. Mas poderia não ter sido nada.

 

Há sempre uma janela com vista para um horizonte incansável, um cigarro entre os dedos. Há sempre tanta coisa num pensamento distante e vago. Havia eu, ali, em solidões exaustivas, em olhares perdidos e horas queimadas em cigarros acesos.

 

O mundo muda na sua universalidade. Existe tanta coisa esquecida e abandonada. Existe tanto para onde fugir, tanto para onde partir. Há quem deseje ficar, outros desejam partir. Há mundos pequenos, existem mundos grandes. Há quem vá e existe quem fique.

 

Senti a falta num coração apertado. Houve uma insuflação de ar, de um novo ar. A esperança de um novo recomeço. Há gente que sonha, existem quem concretize. Eu fico-me pelos intermédios.

 

Voltei no tempo a um espaço onde me sinto confortável. Um lugar onde eu um dia fui feliz. Regresso a um passado solitário, um passado que tão poucos conhecem, que tantos desejaram ignorar, que fizeram por não estar. Regresso a um presente diferente de tudo aquilo que um dia sonhei. Vou e volto entre passado e presente. Viajo por um espaço tão meu, tão exclusivo. Voo pelos meus sonhos de uma forma indiferente.

 

Não existem cartas de amor, não existe a impressão de se ser amado ou desejado. O mundo corre sempre indiferente a corações que palpitam por coisas mais importantes que a superficialidade de um mundo que ambiciona o momento, esquecendo o futuro.

 

Atravessei a cidade em passo lento, atravessei o mundo em pensamentos. Aqui, ali, acolá ou além. Importa existir, importa ser-se, importa amar.

 

Encontrei poesia na esquina de uma viela escura, desprezada por todos, pela sua degradação. Há a dor e a frieza em mil olhares direcionados, onde a raiva e a dor permanecem de uma forma cruel.

 

Um piano abandonado numa rua deserta. A melodia que ecoa num coração de amor, o silêncio nas palavras. Ali, diante do olhar, as teclas sujas pelo tempo e abandono. As notas desafinadas de um ritmo brando. Soou a mais bela das canções, a mais bela das músicas. Ecoou um mundo que existe somente num pensamento e na vontade da concretização.

 

Há, existe.

 

O presente. Somente o presente nos tolda o pensamento. O que passou, passou; o que ficou, ficou. O futuro não existe, o futuro é uma ilusão. Seremos sempre folhas em branco, tábuas rasas, onde escreveremos o rumo que queremos tomar. Há sempre a oportunidade de um ponto final, existe sempre a oportunidade de terminar e recomeçar. O mundo em espelhos quebrados e amaldiçoados.

 

Sonhos de alguém que nunca sentiu.

O que é o amor?

por Ismael Sousa, em 16.07.18

Acho que nunca percebi bem o que é o amor. Aprendi sobre ele, em tantos e variados momentos da minha vida, mas acho que nunca o compreendi muito bem, ou melhor, nunca o entendi.

Sempre que falo em amor, na minha visão do que ele é, compreendo sempre, nas minhas palavras, que o amor deve ser a dádiva a outra pessoa. Que deve fazer-se renascer a cada momento que passa, a cada dia, cada mês, cada ano.

Sempre compreendi que no amor temos que ceder e marcar posição. Que não deve ser só uma parte a ceder, mas ambas. Sempre percebi e entendi que no amor se sofre: não uma dor física ou uma dor provocada pelo outro. Mas sim aceitar e viver a dor que a outra parte sente, mesmo que pareça ridícula.

Houve alguém que disse uma vez: “se eu tivesse amnésia, apaixonar-me-ia por ele todos os dias.” E para mim, nesta minha sabedoria parva e tentativa de compreender algo que acho não conseguir ter esclarecido na totalidade, isto é o verdadeiro amor: fazer cada dia como se fosse a primeira vez.

Sou um lobo solitário sem ninguém com quem partilhar os meus dias, e por essa razão vou sendo, em muito, diário de outros. Tenho visto muitas coisas e não consigo perceber como é que alguém que está numa relação não consegue fazer mais por ela, aproveitar cada segundo com a pessoa que se ama, lutar para não a perder.

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Continuo a achar que o ser humano está cada vez mais centrado em si próprio, querendo que o mundo gire em seu redor do que em redor de outrem. Eu continuo a ser contrário a esta regra que me salta à vista e continuo a desejar que a minha vida gire em torno de alguém.

Amar é das coisas mais belas. Chego a esta conclusão por diversos fatores, mas também como síntese de muitas das minhas leituras. O homem procura amor mas não é capaz de se entregar ao amor. O homem procura ser amado, mas não quer amar. A ideia do geocentrismo perdeu-se há vários séculos. Mas há vários séculos que se criou o egocentrismo. O eu está a cima de tudo, independentemente da forma como se conquista essa posição. As pessoas dão mas não se dão.

Há a dor de não se ser amado, a mágoa de algum amor. E porque se passou por isso uma vez, tende-se a fechar-se o coração e a pensar somente com a razão. E a razão é instinto animal e como os animais deixamos de fazer amor passando a fazer-se sexo. Já não há amor mas relações , mas o uso de alguém para satisfação de si.

Sempre existiram pessoas Alfa. Hoje todos querem ser alfa rejeitando a ideia de se ser uma outra letra do alfabeto grego. Queremos mas não damos, esperando sempre só receber. Talvez se tenha esquecido o verdadeiro significado da palavra dar, substituindo-a por descargo de consciência.

É das coisas mais difíceis o sair-se de si em busca do outro. É uma espécie de subjugação ou humilhação perante o outro. Mas sair-se de si em prol de outrem é uma das características do amor. Hoje amam-de objetos e locais mas não se amam pessoas. Hoje ama-se de mais aquilo que não pode retribuir amor.

Compreendo e aceito na sua perfeição que o amor não é fácil. Mas amar nos primeiros dias também nunca foi difícil. Parece-me que se ama até determinado momento, mas depois vive-se, acomodado, ao lado de alguém. E achar-se que esse alguém é nosso por direito é matar o amor; tratar essa pessoa de forma má só porque achamos que ela nunca nos vai abandonar, é matar o amor. E o amor deve ser algo que se rega todos os dias e não que se arranca para não impedir que o ego cresça.

“Amar dói: se não doer não é amor”! Escrevi estas palavras um dia percebendo, à posteriori, que poucos foram aqueles que compreenderam a verdadeira essência desta frase. Amar dói porque sofremos com alguém, obriga-nos a sairmos da nossa praia, a lutar em cada novo dia.

Se amar é a coisa mais bela, porque desperdiça o homem esse dom? Se amar é a coisa mais bela, porque matamos este sentimento? 

Em sua memória!

por Ismael Sousa, em 29.06.18

Não existe dor maior que aquela que o ser possui no seu coração por não corresponder aos padrões que a sociedade impõe em cada momento. A diferença fazia parte de si desde muito novo, desde a infância e em toda a vida. Não gostava do que a maioria gostava, não se comportava como todos os outros. Fechava-se, reprimia em si a sua verdadeira essência, tantas vezes apontado e descriminado perante um sociedade que desejava a uniformidade. Em rebanho de ovelhas brancas, sentia-se sempre a ovelha negra. Os olhos e as palavras matavam demasiadas vezes. Procurava a solidão na sua maioria das vezes. Sentia-se incompreendido, ou tantas vezes compreendido mas ignorado por causa de estúpidas aparências, por estúpidas regras que lhe eram impostas.

 

A solidão é, sempre, um pau de dois bicos que tanto ajuda como fere. O abandono é a maior dor de uma alma e de um corpo que se vê colocado de lado perante todos os que o rodeiam. Mesmo os maiores esforços se tornavam, tantas vezes, em pequenas migalhas dadas a alguém faminto e em tamanhos monstros à vista de todos. Um simples pormenor, algo simplesmente diferente: uma faca de dois gumes que fere quando entra e quando sai.

 

A estupidez nas atitudes e palavras. A morte de tantos por causa de paradigmas e mentiras. A morte e desaparecimento de tantos que no silêncio e no abandono foram morrendo, pouco a pouco, e entregando-se à morte. E os rios de lágrimas, as palavras ditas e não ditas, as ações praticadas e as que ficaram por concretizar, as promessas não cumpridas: o arrependimento. A morte que trás a culpa, o remorso, a tristeza e o afastamento corporal. E a imagem que depois deixa de aparecer, o sorriso que não se recorda nas memórias, o olhar triste que predomina. Um único culpado, milhares de aliados.

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O tempo, o tempo que tudo mata, o tempo que é escasso e sempre em demasia; o tempo que damos e nunca recuperamos, o tempo que esbanjamos e nunca reconquistamos. E ele foi-se perdendo, abandonando tudo aquilo que sempre amou. Ele foi-se apagando, apagando à vida e à luz.

 

A diferença, tantas vezes a diferença e os paradoxos que ainda existem, os preconceitos e mentiras, a falta de amor em tantos corações que tudo têm. E pediu tão pouco e nada lhe foi dado: compreensão, aceitação, amor.

 

Amou sempre de mais. Não conseguia ser diferente. Amava quem o odiava, amava quem o usava. Nunca soube o que era ser amado, o que era receber aquilo que tanto dava. Apagou-se para a vida, deu espaço à morte.

 

Partiu. Despediu-se com poucas palavras. Matou-se. E haveriam ainda de o chorar, mas agora não era tempo. Tudo permanecia igual, tudo parecia como dantes. Mas depois começou a faltar a presença, começou a faltar aquilo que sempre havia. Ele já não estava lá.

 

Um dia matou-se. Matou o ser que era e obrigou-se a nascer o que agora é. A diferença não tem que ser compreendida mas respeitada. A vida não tem de ser fácil, mas ajudada. O amor não pode existir onde não houver reciprocidade.

 

Matou-se. Matou em si tudo aquilo que algum dia o impediu de ser feliz. A diferença é aos olhos dos outros, a solidão é mais reconfortante que o mar de multidões sem amor.

 

Matou-se e matou quem nunca o quis compreender, quem sempre o desprezou, quem nunca o ajudou. Haviam de o chorar mas ele não estaria lá para reconfortar.

Partiu, sem aviso nem retorno!

por Ismael Sousa, em 24.04.18

Havia na sua voz um pequeno tremor. No seu coração um pequeno aperto. Longe estaria de saber que as palavras que lhe dizia eram as últimas. Despediu-se com a saudade já a apertar-lhe no peito. Sentia algo dentro de si mas não sabia se era da adrenalina que sentia se outra coisa qualquer.

Quando ria de mais assolava-o sempre o presságio de algo mau acontecer. Por essa razão evitava muitas vezes rir em demasia, tamanho era o medo que sentia. Mas havia rido pouco naquela noite sem saber que presságio maior lhe estava destinado.

A noite era igual a tantas outras mas a diferença estava nos pequenos momentos que ia gravando na sua mente para nunca esquecer. Tinha-o feito desde o primeiro momento em que sem medos revelara toda a sua vida. Nunca tinha sido capaz de entender as razões que o levaram a falar assim tão abertamente. Mas fê-lo sem sentir qualquer pudor. Trocaram muitas palavras e momentos que viveram ficaram para sempre guardados. Agora parara o carro, despedira-se. Foi a última vez que se viram e desde então o sorriso desapareceu para sempre do seu rosto.

Deixara de sorrir. Cada vez que o fazia sentia-se falso. Desde então ficou carrancudo, com os lábios torcidos para baixo. O seu semblante tornou-se pesado, as poucas lágrimas que ainda em si residiam ficavam muitas vezes em risco de correr. Já não havia um brilho nos seus olhos, já não havia luz naquele corpo. Seria só memória, passagem, recordação.

Era uma noite como tantas outras, especial nos momentos que partilharam, fatal na despedida. Houve noites em que chorou ou que quando chegou a casa bêbedo escreveu-lhe palavras que guardava dentro de si. Pensava várias vezes ao longo do dia no seu nome, na sua pessoa, nos momentos que viveram. Pensava em como era diferente a sua companhia, em como já não conseguia recordar o som da sua voz.

O tempo foi passando sem que se dessem sinais disso nem de um possível reencontro. O tempo afastou intensamente aquilo que existia, mas ele mantinha sempre acesa em si a memória desse alguém que havia feito sorrir num dos momentos que mais dor sentiu. O tempo apagou qualquer rasto de si.

Passava-lhe muitas vezes à porta. Não de propósito mas porque ali sempre fora um local de passagem. Passava e olhava na tentativa de puder rever. Mas eram esperanças vãs, esperanças que não passavam disso, esperanças. Dentro de si crescia sempre um enorme peso, uma enorme dor que se prolongava em todo o trajeto até casa, em todas as horas que depois passassem.

O tempo não esperou, somente ele esperou por alguém que não veio. O sentimento que cresceu nunca esmoreceu, mesmo em todo o tempo que passou. No seu coração negro, no seu enorme pesar e em todas as saudades, incapazes de serem saciadas, aquela pequena esperança tem-se mantido ao longo dos tempos.

A noite chegou uma vez mais. O peso de tanta coisa nos seus ombros. Continuava a acreditar e a pensar nesse outro alguém, mas morria em cada noite que adormecia. Era mais uma noite, sem palavras, isolado do mundo incapaz de o compreender. Era apelidado de dramático e, mesmo depois de tantos gritos de socorro, continuava ignorado.

Haveria de chorar tudo, um dia. Haveria de ser capaz de esquecer tudo e seguir em frente. Mas essa altura não chegava e amar foi sempre o que tentou fazer de melhor. Mas em todas as suas tentativas, sentia que falhava cada vez mais, que era fraco e indesejado.

Tentou compreender muitas vezes as razões que levaram a tal comportamento. Mas o seu entendimento não lhe dava respostas, não lhe dava nenhum sinal.

Saiu para a rua, os olhos em lágrimas. Conduziu durante quilómetros. A hora já era de um novo dia. Parou o carro algures numa estrada, perdido, sem saber onde estaria. Conduziu durante algum tempo sem destino ou orientação. E chorava. O sol do novo dia despontou. Estava ali há horas, no mesmo local. Ninguém notaria a sua ausência. E sem anúncio nem nada que o previsse, partiu sem destino e sem saber se iria recuperar, sem saber se iria voltar.

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"há sempre uma noite escura!"

por Ismael Sousa, em 03.04.18

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Sentado, num balcão sozinho, a beber uma cerveja. Paira o ar pesado do abandono e da saudade. Percorro caminhos que não são os meus, vivo histórias que não são as minhas.


Estou de fato, como muitas das vezes. Hoje é cinzento, bota preta e camisa branca. Estou só eu e os meus pensamentos.


Não sei bem o que paira na minha mente, aquilo que estou a sentir ou o que me faz estar aqui. Lá fora chove, miudinho, o frio faz-se sentir em demasia. Sorrio por simpatia a quem passa e cumprimenta por cortesia. Fumo um cigarro e abandono-me em todo o meu eu. Sou pequeno, realmente, perante tanta grandeza em meu redor.


Chove. Eu acabo a minha cerveja e saio para a rua. O frio gela-me por inteiro. Não me apetece ir para casa, fechar-me no meu canto, enfrentar a realidade. Quero fugir, desaparecer para longe. Quero novas realidades em meu redor, novas pessoas com quem me cruzar.


Dou por mim perdido por entre os caminhos da cidade. Há o frio e a chuva, o abandono e o esquecimento. Há o rio que passa lá em baixo e eu perdido, aqui em cima, abeirando-me do precipício.


Quis arrancar o coração do peito. Tirei as roupas, mergulhei nas gélidas águas. Cravei as mãos no peito e apertei o coração. Mas ele desfez-se nos meus dedos, desfez-se de saudades.


Não sei bem o que pensar, desejo não sentir. Tenho perdido amores que são o nome de cada lágrima que cai, em cada noite, do poço dos meus olhos vagos. Solidão, abandono, falta. O meu coração que se desfez de saudades era negro como a noite. Na minha cabeça pairam palavras cruas, frias, dolorosas.

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Há um tempo, um espaço de tempo demasiado grande. Há o meu afundar diário, o negro cada vez mais intenso. Já não consigo sentir algo bom. Choro todas as noites a tua ausência, a falta que me fazes. Já não me lembro do tempo em que sorri, em que gargalhei com tanta sinceridade.


Conto todos os dias, todos os dias que passaram sem te ver. Na minha mente paira aquelas últimas palavras. Aquela última despedida, aquela última palavra. Agora só sobram as cinzas de um coração desfeito.


Existem questões na minha cabeça para as quais eu não tenho uma resposta. Por vezes desejo-as, outras vezes só não as queria ter.


Era um abraço tão reconfortante, algo que foi cura, que foi bálsamo. E eu estava tão frágil, tão despedaçado. E, mergulhado naquele abraço, eu voltei a acreditar naquilo que achava ser mentira, naquilo que havia deixado de acreditar.


Ah, quantas noites me teria perdido nos teus braços, quantas vezes me teria entregue a ti.


Voltei. Voltei àquele lugar que te é tão querido. Voltei a violar o silêncio das ruas, a ler as paredes que um dia decifrámos em conjunto. Voltei a ver o teu rosto que em cada novo dia me está tão desaparecido da mente e que só recordo com a memória cravada no meu peito.

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Queria ver-te uma última vez. Queria conseguir dizer-te toda a verdade, sem te causar um peso nos ombros. Sou tão cobarde que até tenho vergonha de mim. E sem te querer causar pena, sem ser um fardo para ti, escrevo. Escrevo tanto. “A ti”!


Onde residirá o amor? Por vezes numa simples pedra de calçada. Por vezes nos pequenos gestos, nas poucas palavras. Nos silêncios.

 
Não tenho um rumo, não tenho uma vida. E eis-me aqui, mergulhado nas gélidas Águas de um rio, rodeado da ausência. Eis-me aqui, sem coração, moribundo, desfeito em memórias. Somente as palavras aliviam a dor que sinto.


Parto agora, sem coração, sem emoções, sem ninguém. Parto sem morada nas memórias que desapareceram. Uma última lágrima, um último adeus, uma última lembrança: o teu rosto.

Somente quem sente, quem saberá?

por Ismael Sousa, em 24.03.18

Não há fogo que não queime o coração daquele que amou.

O cigarro aceso que se consome, o fumo que se espalha no ar, misturando-se com o oxigénio.

O bem e o mal, numa mistura tão difícil de diferenciar.

A saudade que aperta no peito, o abandono que sufoca a alma.

Quem saberá amar se não somente aquele que verdadeiramente já amou? Quantas vezes se amará num vida, se de dor é o peito daquele que amou sem ser amado?

Como se reconstrói aquilo que já não há sinal de existência?

Quem volta a colocar a mão no fogo depois de se haver queimado?

A evolução do homem parece ser, tanta vez, somente a nível intelectual e tecnológico. Porque a nível sentimental parece não evoluir. Ama-se, desama-se; odeia-se, gosta-se; sofre-se, sobrevive-se, vive-se.

O cigarro continua a queimar, o tempo parece não passar. Mas passa e já lá vai tanto tempo.

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Como esquecer a última vez que te vi? Como esquecer o último abraço que te dei. Como esquecer-te?

É grande o esforço de tentar escrever sobre coisas positivas. É grande o esforço de tentar ser melhor. Mas estagnei, na vida e no tempo, estagnei no insucesso e no abandono.

Remeti-me ao silêncio, mas gostar de ti continua a ser o poema que não digo, a canção que teimo em não cantar.

Saberias tu algum dia que se me pedisses a lua eu iria roubá-la só para te dar? Saberias tu, algum dia, que te daria todo o mundo se o pedisses?

Acabou o cigarro, o fumo ainda existe no ar.

As paredes magoam, fazem sofrer. Cai a chuva na minha janela, as paredes brancas não dizem nada. Tantas recordações e somente passado, a ausência de um presente, a falta de perspetiva para o futuro.

Fecho os olhos e faltas-me tu. Em cada lágrima que derramo, o teu nome no silêncio. Não há sentido no que escrevo, falta tanta coisa.

Há mais linhas em branco que palavras escritas.

Somente a noite parece entender cada palavra que eu escrevo. Mas tu já não lês o que escrevo, já nada te diz o meu nome.

Está fria a cama, frio o corpo que a viola.

Foda-se para toda esta merda de vida e de estado de sentir.

Que se dane o cuidado com as palavras. São falsas e tão verdadeiras ao mesmo tempo.

Cansei.

Exasperei.

Fui preterido.

E nestas, em estas três simples palavras, toda uma enorme verdade contida.

Fui, simplesmente, por ser coitado. Agora só sou aquilo que outrora já era: nada.

Nada.

Mero nada.

Inexistente.

E por mais que eu tente alcançar, por mais que tente esquecer, nada me faz, nada me preenche, nada me faz sorrir e gargalhar como tu.

Adeus.

Adeus!

Adeus...