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Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

Quando o tempo vier

por Ismael Sousa, em 27.10.18

A tarde emergiu de uma neblina que durante toda a manhã cobriu a cidade. As folhas amarelas e vermelhas esvoaçam pelos ares, bailando ao ritmo que o vento vai brincando com elas.

 

A cidade vive o seu frenesim de um sábado à tarde. Misturo-me por entre a multidão que se passeia pela cidade. Os rostos vão pesados e meios tapados por causa do frio que se faz sentir. Não sei se existe um sorriso em seus rostos ou os lábios descaídos de tristezas. Sentei-me no café onde habito. Sim, onde habito, pois passo aqui tanto tempo que é quase como um compartimento de minha casa. Sento-me na mesa do costume, gasta pelo tempo, onde a cor castanha começa a ganhar terreno em relação à preta. O habitual café não tarda em chegar à mesa como um hábito. Fumo o meu cigarro de olhar posto no frio que se faz sentir lá fora, na rua de outono, numa tarde de outono.

 

É curioso como o inicio das estações tende a inspirar os escritores e pintores, de uma forma desconhecida, levando-os a escrever, ou pintar longos textos ou belo quadros. É uma inspiração da natureza que nos cresce, deixando-nos sem forma de a contornarmos.

 

Um caderno preto diante de mim, o café que queima na chávena de porcelana branca, o cigarro que ainda esfumaça no cinzeiro de vidro. Retiro dos ombros o sobretudo com padrões cinzentos e brancos, colocando-o sobre as costas da cadeira, de uma forma trapalhona. Deixo-me estar com o cachecol com os mesmos tons ao pescoço, um casaco verde tropa e uma camisola de gola alta. Abro o caderno, tirando-lhe a virgindade com algumas palavras escritas em folhas soltas. Um caderno onde quero perpetuar a minha memória, onde quero ser de alma e coração. Não interessam as opiniões exteriores a mim, não interessam os pensamentos de outros. Um caderno onde eu sou aquilo que sempre sou, de forma pura e verdadeira, sem máscaras nem sentimentos oprimidos. Comprometi-me a escrever estas palavras de uma forma tão minha, sem os tabus onde tendo em me prender.

 

Mas a vida que ambiciono, que desejo que seja minha não me deixa deixar de pensar nos esforços que sempre faço em ser a cada dia que passa, mais eu, de uma forma que possa viver tão livre quanto o voo de uma gaivota. Uma lágrima escorreu-me pelo rosto, um olhar vazio e triste para uma sala tão cheia de gentes, tão vazia de atenções.

 

Observo tudo em meu redor. Sinto os cheiros, tendo adivinhar que infusões estão a tomar os que residem em meu redor. Há uma mulher solitária e de olhar ferido a duas mesas de mim, um homem que se aquece na chávena do café, enquanto espera por alguém. Existem crianças a correr, outras sentadas, famílias e amizades em cima das mesas. E eu, no canto, onde acaba a parede de pedra e começa a vidraça, onde bate o sol já meio frio de um outono que se começa a sentir rigoroso.

 

Espalhei as folhas sobre a mesa. Algo começava a não fazer sentido neste passado que existia em mim, neste pedaços de escrita que teimo em guardar mas que já não fazem sentido absolutamente nenhum.

 

Rasgo a primeira folha. Fecho os olhos e tento esquecer o que me rodeia, aquilo que está em meu redor. Tento encontrar o caminho para o meu coração.Há um lugar vazio e abandonado, onde pedaços já desmoronaram, onde as paredes perderam cor, onde só existe o nada e o abandono. Cruzo a porta que me fecha o coração, rebentada como que num assalto, deixando ver o interior para quem quer que dele se abeire. E a vida e os sonhos, os sentimentos e as pessoas abandonaram aquele espaço feio.

 

Vivi, em demasia, da superficialidade, no sentimento falso e sem reciprocidade. Questiono-me, tantas vezes, o motivo pelo qual, certos aspetos na minha vida não resultam da forma como eu tanto luto por eles. Sinto que por vezes a vontade de baixar os braços é maior que a de lutar de uma forma brava, de lutar por aquilo que ambiciono, por aquilo que desejo, por aquilo que eu acho que mereço. Ou talvez seja este pensamento errado, o achar que mereço algo que, na verdade, eu não mereço.

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O sol foi coberto pelas nuvens negras, cheias de chuva que o forte vento trouxe. Anoiteceu, de forma repentina, trazendo o frio psicológico ao espaço onde antes estava um calor outonal, um calor de corações e de gentes. Acabaram-me os cigarros. Levantei-me e fui comprar mais. Pedi uma infusão e sentei-me, de novo, a olhar pela vidraça. As primeiras pingas de chuva caíram na vidraça, ofuscando a visão clara que se tinha da rua. Lá fora as pessoas correm de um lado para o outro. Todos fogem, só eu fico.

 

 

Fecho os olhos de novo, sinto a chávena e o bule a pousarem em cima da mesa. Concentro-me ainda mais, tentando abafar o ruído dos meus pensamentos. Uma grande cidade surge na minha mente. Vejo os seus edifícios, vejo as pessoas que circulam, com rostos indecifráveis. Alguém caminha na minha direção. Cara séria, sem sorriso nem tristeza. Caminha em minha direção, como se eu não estivesse ali. E num breve momento atravessa-me. E nesses milésimos de segundo, a minha alma fica fria. Reconheço todos os seus sentimentos, reconheço os seus pensamentos. Sinto, que em si, existe uma tristeza grande que contrasta com tanta felicidade em outros campos. Sinto que deseja abandonar algo que procura e pelo qual já sofreu tanto. Que deseja baixar os braços, tentando seguir em frente, abandonando tudo aquilo que tanto desejava, talvez por falta de forças, talvez pela forma como não foram com ele. Sinto o desejo do abraço que lhe falta, a forma como se dá por inteiro aos outros. Sinto a dor e a falta de tanto que deveria ter recebido.

 

A chuva parou e as nuvens cinzentas começam a dissipar-se. Acabei a infusão e sinto a necessidade de me recolher no meu canto, onde nada mais para além do silêncio existe. Quero refugiar-me pela falta que tive, por aquele pensamento que me perturbou. Sinto, que algures neste mundo, uma alma existe assim, longe dos meus braços para abraçar. Sinto, ainda, a tristeza de quem não consegue sorrir mas que possui uma alma tão pura, uns olhos tão brilhantes, vida onde menos espera. 

Tarde outonal

por Ismael Sousa, em 21.10.18

Pensamos a poesia enquanto absorvemos aquilo que nos rodeia, deambulando pelas ruas tão cheias de gentes e tão despidas de sentimentos. Sentimos a poesia em cada olhar que trocamos, em cada pensamento que desejamos ter. A poesia é muito mais que palavras: é vida, é emoção, sentimentos e tantas coisas mais. A vida, tantas vezes a vida.

Um final tarde de outono, num domingo um pouco solarengo. As chuvas caíram tímidas e rápidas, abandonando rapidamente o espaço que lhes pertence. Dois bancos de jardim, individuais e colocados lado a lado. Um jardim no centro da cidade, praticamente abandonado e utilizado, somente, por meia dúzia de indivíduos. Alguns levantam-se do sofá para se sentarem num banco do jardim, banco comum de dois ou três. Um pouco de conversa, matar o tempo que é de mais trazido pela reforma e pelo abandono da família.

Abandonei o trabalho que me aborrecia e caminhei por espaços que conheço tão bem, com tantas estórias para contar. Vim sentar-me numa outra esplanada, livre de tudo o que me possa aborrecer. Estou só. Eu e os meus pensamentos. O pequeno lago, o arvoredo ainda verde diante de mim e o sol que ilumina o convento caiado de branco. Um café, pensamentos e muitos cigarros. São os cigarros que fumo, os cafés que tomo, a vida que tenho que me fazem penetrar neste abandono sozinho, numa espécie de introspecção e avaliação do “eu” de hoje. O passado é um premissa importante a ter em conta. O futuro a conclusão de vários pensamentos.

Existe, em mim, a necessidade de desvendar algumas suspeitas, de me desligar de passados e pessoas que nada me ajudam. Vivo isolado no meu mundo, escondido por sorrisos que não são os meus! Deparo-me, comigo mesmo, tantas vezes excluído dos espaços onde me encontro. As conversas são paralelas e não me incluem no seu leque. Amigos, colegas, namorados, nas conversas que lhes interessam, concentrados nas suas vidas. E eu, ali, na exclusão. Não que o façam propositadamente, mas por não haver o que falar. Sou, como lia num destes dias em O Paraíso Segundo Lars D., uma ilha difícil de alcançar, onde o espaço de água que a separa do pedaço de terra mais perto tende a aumentar. O fechar-me em mim por não encontrar quem se corresponda comigo, pelas ausências e pelos silêncios, pelas atitudes e desinteresses.

Falo, de forma indireta, diversas vezes, sobre os sentimentos que invadem, tantas vezes o meu coração. Falo talvez da pior forma e sinto que de alguma maneira exagero na forma sentimental como falo. Canso as pessoas com sentimentos tristes e duros, sempre com o mesmo sentimento. A mim basta-me errar uma vez mesmo que perdoe mil. Um simples erro meu faz crescer um enorme transtorno em meu redor, um afastamento e silêncios que eu tento oprimir com demasiadas coisas em meu redor. Mas chega uma altura em que o silêncio é o abandono perduram mais que eu desejo.

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Compreendo e aceito a negatividade e aborrecimento da minha pessoa, no fardo difícil que por vezes posso ser para as pessoas que vivem comigo. Sou uma alma infeliz, um corpo triste, um ser sem vida. Os sentimentos corroboram-me mais que aquilo que por vezes eu desejava. Tento ser diferente, tornar-me diferente, mas os segredos e sentimentos que oculto em mim tornam-me impotente e sem capacidades pra mudar.

Falta-me amor, falta-me vida, falta-me ser. Sou palavras tristes, sou o poema da dor, o texto do sofrimento, a encarnação da angustia. Sou o desinteresse, a vida fútil e necessária somente na necessidade de outrem. Oprimo-me, deixo de viver, deixo de ser, deixo-me.

O café esfriou, o sol já não aquece, os cigarros acabaram. Os dois bancos de jardim, diante de mim, individuais e colocados lado a lado, continuam vazios, sem enamorados que ali pousem, sem almas solitárias como eu. O mundo, a distância, a vida. O vento já sopra frevo, as lágrimas já deixaram de escorrer. Moedas em cima da mesa, isqueiro no bolso e os passos de retorno a uma realidade constante da minha vida. Novamente os espaços, as memórias e a falta das palavras. Novamente no meu espaço, no meu mundo onde não reside ninguém. A ilha que sou cada vez mais distante do mundo que a rodeia, impossível de alcançar alguém, inalcançável por ninguém. Melhor assim: a dor e a angústia que sinto guardo-as para mim. O sorriso de palhaço no rosto novamente e a vida que não para nem me permite ficar preso num espaço e tempo.

E voltaram as chuvas!

por Ismael Sousa, em 17.10.18

Voltou a chuva. Voltaram os ventos frios, as manhãs nebulosas, os dias cinzentos. Voltou a chuva.

 

Dou por mim irrequieto, sem vontade ou motivação que me valha. Sinto-me vazio, abandonado, com a aura negra, sem vida. Percorre-me na mente as pessoas que fui perdendo ao longo dos tempos. Recordo os seus rostos, os nossos momentos, as nossas conversas. Perco-me no pingo das chuvas que caem do lado de fora da janela. A saudade aperta dentro do meu peito, o sentimento de culpa por de alguma maneira ter menosprezado ou ter abandonado amizades ou pessoas ao longo da minha vida.

 

O dia hoje está cinzento, sem brilho. Não há nada que faça exaltar uma alma perdida de um horizonte que a guie. Existe a perda em demasia no meu peito, a saudade dos risos e da vontade que dentro de mim crescia.

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Tomo o meu longo café com sabor a cigarros constantes que enublam o meu pensamento num esforço enorme de não deixar que a lágrima escorra pela minha face. Sinto-me impotente, sem capacidade de fazer algo que mude aquilo que eu sou, aquilo que eu sinto.

 

O café está escuro, apesar das luzes estarem ligadas. A cobertura de madeira escura de todo o café entristece mais a alma que a acalenta. A superficialidade do momento, daquilo que eu suponho ter e não tenho. A incerteza do meu futuro, a vontade de me focar e não ter por onde me mover.

 

A madrugada da minha vida parece não ter despontado. Faltam-me as certezas e as forças, falta-me a vida, falta-me a alma.

 

Digito uma mensagem no telemóvel, apago-a. Falta-me a coragem de dizer aquilo que me vai no coração. Falta-me a força ou estou cheio de receio, da resposta que possa vir ou da mensagem que não virá.

 

O meu coração palpita incessantemente. Corre-me nas veias a fraqueza e a falta de um amor que me preencha. Apaixono-me constantemente e com muita facilidade. Preciso da atenção despendida, necessito do amor e do carinho. Sou feito de emoções, das emoções que fazem aquecer o coração. Amo o que não me ama. Uma constante da vida que se perpetua pelo tempo.

 

Voltaram as chuvas, voltaram os dias cinzentos e as longas horas dentro do café, inspirando cada palavra que escrevo na gota de chuva que escorre pela janela embaciada pelo calor de um ar artificial.

 

Preciso do tempo, do tempo que urge. Preciso do meu espaço e da minha calma, da lareira acesa, do lume que consome a madeira. Necessito do livro e do chá quente, do meu canto indiferente, onde sou eu na minha paz. Preciso do meu espaço, aquele espaço pelo qual ambiciono mas não possuo. Sou, eternamente, vazio e sem sentimento, triste e oco.

 

As palavras acumulam-se nas pontas dos dedos, querendo-lhes dar vida, querendo tornarem-se algo. Mas eu confundo-as, troco-as e as não sei expressar. Sou somente fútil e incapaz, preso a sentimentos que são tão díspares. Sou a encarnação da fraqueza e do abandono.

 

A chuva voltou. Voltaram os dias cinzentos e sem luz, o frio que leva a vida, a saudade que retoma, a melancolia que se instala. Voltaram as chuvas e a vida que eu não tenho.

...

por Ismael Sousa, em 07.10.18

Tudo o resto é passageiro. Tudo é fútil e nunca de nada serviu. A vida é feita desta maneira, a vida é feita assim.

Não guardo arrependimentos dentro de mim, não guardo ódios nem rancores. Guardo mágoas e saudades, guardo sentimentos que só eu conheço. Guardo o mundo inteiro e as memórias que tenho dele. Guardo os cheiros e as noites, os abraços que cruzámos e já não existem. Guardo as palavras que trocámos, guardo o mundo que vivemos. Eu serei sempre a vaga memória de um passado distante.

Tentei sorrir, voltar a acreditar. Pensei que desta vez fosse diferente e que a distância tivesse aproximado. Mas fui parvo em voltar a acreditar, fui parvo em voltar a recordar. Eu sabia que me ia magoar, eu sabia que nem deveria arriscar. Mas o amor que senti foi mais forte do que eu. O amor que sinto não me deixa avançar.

Caiu a noite sobre a cidade e eu estou abandonado nos meus pensamentos, solitário no meu sentir. Um dia teria de acabar. Um dia seria hora de seguir. Mas o amor não escolhe quando é o tempo para acabar, o amor não escolhe quando é o tempo de partir.

Amar-te será, durante tempo, o meu maior problema. Não se ama pelos dois, não se pode amar por quem não ama. Somente as lágrimas conseguem compreender o amor que as faz correr. Somente as lágrimas conseguem revelar o sentimento que há tanto está por desvendar.

Mundo ingrato e infértil. Mundo onde todos somos passageiros. Mundo de dor e saudades, de mágoas e verdades. Não interessa a sua dureza, são verdades que temos de acumular, são verdades que temos de desvendar e confraternizar.

Não vale a pena fingirmos ser aquilo que na verdade não somos. Não vale a pena andar-se com rodeios, se tudo aquilo que desejamos acabamos por não ter. A vida é mesmo assim, a vida continuará a ser assim. De nada nos vale fugir ou esconder. O mundo sempre incansável nos parecerá.

Mar

por Ismael Sousa, em 01.10.18

As portadas de madeira da velha casa com riscas azuis e brancas batiam com força na trave que fazia toda a volta da janela mais a sul da casa. Ele abriu a janela e um vento forte entrou por toda a casa, apagando as velas que estavam dispostas sobre a mesa da sala.

 

- Trás o isqueiro! – replicou ele enquanto tentava fechar a custo a portada, impedindo que ela batesse ainda mais. O vento soprava e o mar em frente rebuliçava-se, batendo fortemente nos grandes rochedos que ocupavam quase toda a extensão da praia.

 

- Vai ser forte hoje… - atirou para o ar enquanto voltava a acender as velas que repousavam por ali, alumiando o espaço pequeno da sala. Um cadeirão de chenile a um dos cantos, uma pequena mesa de centro e um sofá com pouco mais de três lugares. Nas costas do sofá, dobradas e como que a marcar lugares, duas mantas, cada uma de sua cor, escuras (ou talvez fossem escuras devido à pouca luz que ali se tinha).

 

Sentaram-se à mesa, comeram o jantar e arrumaram a cozinha. Sentaram-se no sofá. O vento ainda soprava de forma impressionante do lado de fora. Ouvia-se o mar a bater e de repente um enorme troar ecoou por toda a casa. Quase que tivera a sensação de que toda a casa mexera, que um dos pratos ainda tilintara. Depois veio a chuva.

 

A cada som estarrecedor sucedia-se um enorme flash por toda a casa. As portadas estavam fechadas e toda a luz entrava pelas frestas delas e das portas. O som do mar, juntamente com a chuva e a trovoada pareciam ecoar como uma orquestra num opera qualquer, talvez sobre os descobrimentos.

 

- Vou lá para fora. – Balbuciou e saiu porta fora. Ele levantou-se, preparou duas chávenas grandes de café e saiu também.

 

Estavam os dois sentados, debaixo do alpendre envidraçado por causa das noites de chuva. Um gostava de ouvir a tempestade. A outro inspirava-lhe todo o cenário.

 

- As tempestades no mar são lindas. E estas noites de tempestade no mar são de uma brutalidade… - comentou ele. E de novo o silêncio, a eternidade do silêncio que perdurou por tempo que nenhum foi capaz de decifrar.

 

A magnificência daquela visão fazia acudir por um deus qualquer numa forma de agradecimento especial por se considerarem dignos de assistir a tão belo espetáculo da natureza. Era uma forma pura da natureza, a rebelião de um mar ou simplesmente a forma de união entre o céu e a terra.

 

O mar rebentava de uma forma bruta e generosa, os raios caíam sobre as águas, como se de uma mensagem tentasse enviar. O vento soprava brutalmente, fazendo dobrar o velho pinheiro que crescera junto à falésia e por ali tinha vivia desde há muito tempo.

 

- O mar, tantas vezes o mar. Inspirador, arrebatador, forte. Inspiram-me estas noites. Não sei como poderia deixar de viver aqui. Faz-me falta o mar. Amo-o quase tanto como te amo a ti. – e entrou, levando as chávenas para dentro deixando-o, a ele, a saborear aquele espetáculo que tanto gostava.

 

“Como te amo a ti…” foram as palavras que a ele ficaram a ecoar na cabeça. Entrou, apagou as luzes, abriu as portadas e foi-se deitar, abraçado a quem amava e a quem o amava.

 

O vento acalmou, a tempestade abrandou e a alma tranquilizou.

 

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Nevoeiro

por Ismael Sousa, em 11.09.18

O mar respirava diante dos seus olhos, rebentando calmamente na areia que brilhava com o sol imenso que se sentia, parecendo um areal de ouro. As gaivotas esvoaçavam pelos ares, banhando-se do imenso sol, pairando na suave brisa que se ia sentindo. Tudo, naquele quadro que se podia ver à distância, parecia bem. Uma alma que olhava o infinito de uma paisagem para além de bela.

 

Os seus olhos fixavam o firmamento, sem qualquer movimento do corpo. Simplesmente estava ali, no seu mundo, no seu momento. Escorriam-lhe as lágrimas pelo rosto, salgadas no seu palato. Chorava pelo que perdera, pelo que não tinha, pelo que desperdiçara. Ardia-lhe o coração de uma maneira que nem ele mesmo conseguia explicar. Possivelmente, a imagem mais próxima do sofrimento que sentia, seria um coração apertado pelos grilhões dos erros.

 

A memória, tanta vez a memória. Essa maldição que lhe trazia sempre tão maus momentos, porque esses, os maus momentos, os erros, as asneiras, eram o que mais saltavam à memória. Recordava com força aquilo que de bom tinha vivido, mas depois voltava a mágoa, aquilo que fez destruir tudo.

 

Chorava intensamente cada lágrima. Escorria-lhe pelo rosto, marcando todo o percurso que fazia. Chorava na solidão tentando suavizar a dor que sentia. Somente o abanar da cabeça em sinal de reprovação o diferenciava de uma miragem, de uma rocha, de um boneco. Reprovava-se a si próprio. Queria gritar, mas as suas forças não o permitiam. Somente as lágrimas exteriorizavam o seu sentimento. Somente as lágrimas sabiam tudo aquilo que se passava no seu interior, porque estas eram também o seu interior.

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O sol começava agora a mergulhar em direção ao mar, tornando castanha toda a areia, avermelhando o mar azul e calmo. O seu peito ardia incessantemente. As lágrimas secaram, o sabor a mar deixava agora de existir. Somente um olhar vago e triste, sem vida, baço.

 

Ergueu-se. Caminhou até ao precipício. Nada fazia mais sentido. A sua vida não tinha propósito, a sua vida não lhe permitia mais. Amava de forma imensa e raras eram as vezes em que se sentia amado. Precisava morrer, desaparecer, deixar de existir. Em seu peito palpitavam segredos a mais, palpitavam ações escondidas. Tudo haveria de morrer, tudo haveria de desaparecer, deixar de existir. O precipício, a morte, ali, diante de um passo, tão fácil de dar, mas que uma vida inteira distanciava.

 

O mar, avermelhado, tornou-se ainda mais vermelho. O mar, ainda mais vermelho, zangou-se e batia agora de forma bruta contra os rochedos, ressaltando pelo ar, num enorme grito de socorro e fúria. A areia já não valia nada, nem ouro como antes haveria de ter sido tomada. O mar sangue, vermelho, furioso, tornava-se negro. O sol já não brilhava mais, havia mergulhado para as profundezas do oceano. Em redor tudo era sombra e penumbra, tudo era negro. O nevoeiro ganhou vida, tomando como seu todo aquela paisagem que antes parecia perfeita. Não haviam lágrimas, não existia ouro, não havia calma. Somente a tempestade, somente o negro, a morte que o clima indicava. Alguma coisa ou alguém morreria, haveria de morrer, pois o nevoeiro não se apodera sem levar alma consigo.

 

O silêncio. Já nem o mar bramia nem o vento soprava. Já não se ouviam os guinchos das gaivotas. Tudo era noite. Somente, por entre a neblina da noite, do nevoeiro que haveria de levar recompensa, a luz do farol que guia, que conduz, que avisa.

Metamorfoses de trovões!

por Ismael Sousa, em 04.09.18

A trovoada possui os céus lá fora, enchendo de luz toda a escuridão da noite. Não cai uma gota de chuva, somente a secura de uma trovoada de verão inundando de luz onde o sol há muito deixou de brilhar. Pela janela do meu quarto entram esses clarões de essência, dando existência a tudo o que está em meu redor durante breves instantes.

 

Estou deitado na cama, mergulhado no silêncio possível, submerso em pensamentos. De olhos fechados recordo cada traço do teu rosto que parece estar mesmo a meu lado. Sinto o teu cheiro que me tolda o pensamento. Os meus lábios sentem os teus lábios carnudos e dóceis, suaves e doces. Sinto o teu corpo junto ao meu, mesmo não estando. O teu respirar cai sobre mim e os teus lábios ainda percorrem o meu pescoço. O calor da tua pele, o sabor dos teus braços em torno de mim. Apertados, como se nos quiséssemos tornar um só. Esse calor apertado, esse abraço que não deixa de existir.

 

Cada palavra que escrevo se parece tão insuficiente para descrever aquilo que sinto. Mais um clarão, a breve existência em redor de mim. Tudo ganha vida tão brevemente e a minha realidade inferniza-me sabendo que não estás aqui.

 

Possuis-me mesmo não estando. Sinto-te presente na ausência que vivemos. E os teus lábios suaves nos meus, os meus dedos em tua face, eu e tu, nós e nada mais.

 

Sinto-me enfeitiçado, na estranheza e incerteza daquilo que vivo ou sinto. E estes breves instantes de uma existência real ou imaginária tornam-me vulnerável e inseguro. O meu coração fala-me mais que a razão. Sempre falou. Um dia irei arrancá-lo se me voltar a fazer sofrer. Irei atirá-lo para as profundezas do mundo para que ninguém o coloque em seu peito. E se um dia eu voltar a chorar por coisas que o coração me faça sofrer, regarei as flores do meu canteiro, para que nasçam e gritem ao mundo que o coração só faz sofrer.

 

E em amanhãs que me perca de esperanças infundadas, que no fim finde a minha vida junto ao mar das saudades que tanto sinto, morto por um clarão qualquer que me rodeie e tire de mim a vida que me sustenta, homem sem lágrimas e sem coração.

 

Novamente um clarão, vida por um instante, coração palpitante, lágrimas secas, razão censurada. Pensamentos e vida, eu e tu, nós se existir um nós. E o bater do teu coração, peça indispensável de vida, junto ao meu peito, o ar que te insufla os pulmões e me aquece o pescoço. E eu e a minha saudade. E eu e a minha existência.

 

E de novo os teus lábios carnudos, o teu corpo contra o meu. E o medo que me assola de ser mais um momento. É um último clarão, fraco, inundando fracamente tudo em meu redor. O último, o final, o derradeiro. E eu que me deixei levar pelo sono sem mais saber que existências terei no amanhã que surgirá tão certo como as estrelas brilharem mesmo por detrás das nuvens carregadas de raiva e energia. E nesse amanhã não saberei se eu estou. Talvez este último, derradeiro, final clarão me retire a vida, deixando o corpo frio, sem movimento, sem bater de coração.

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Espero por ti...

por Ismael Sousa, em 10.08.18

Deambulo pelas ruas em busca de ti. Eu sei que tu não estás, mas todo o meu ser deseja encontrar-te. Vejo-te, agora, só na minha mente. Recordo com imensa intensidade o teu cheiro, o teu sorriso, a tua voz. Falta-me o calor do teu corpo junto ao meu.

 

Na minha memória guardo, com todas a minhas forças, cada momento passado junto a ti: as conversas que tivemos, os locais que visitámos, os beijos que roubámos.

 

Estou só: vive um corpo perdido sem ti. Na minha mente ecoam as perguntas de como estarás, se sentirás a minha falta e o quanto eu gosto de ti.

 

Abate-se, de uma forma intensa, sobre mim a saudade que tu me deixas.

 

Tão pouco tempo e um sentimento tão grande que transborda de uma forma que eu não consigo explicar. Falta-me as palavras, falta-me a vontade, abundam as lágrimas.

 

A distância é algo que nos atormenta, algo que se nos impõe sem que o desejemos. Um teste, talvez.

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Já não moram sorrisos neste rostos, já não resido aqui. Estou perdido e sem rumo e tu faltas para me orientar.

 

Há a esperança que ainda arde por te voltar a ter em meus braços, por sentir o sabor dos teus lábios. O meu coração palpita, as lágrimas não me abandonam. E eu... aqui, perdido em pensamentos, deambulando como morto pelas ruas, sem vontade de aqui estar.

 

Morro a cada minuto que passa, a cada quilometro que aumenta. Só eu sei Que morro por não te ter, por não saber quando voltarei a teus braços...

 

Espero por ti, nem que a chuva caia abundantemente.

 

Espero por ti, nem que as lágrimas consumam todo o meu ser.

 

Espero por ti até ao fim...

Encruzilhada

por Ismael Sousa, em 02.08.18

Seria um fim de tarde perfeitamente normal, aos olhos dos que percorriam as ruas da cidade.

 

O rio corria na sua calma que lhe é tão característica, dividindo-se por entre os pilares da histórica ponte. O sol caiava de laranja todo o espaço que percorria, espelhando no rio as árvores e arquiteturas mais próximas. Voavam andorinhas no ar, livres e ao sabor da pequena brisa que se fazia sentir. Uma tarde perfeitamente normal, um fim de tarde como tantos outros, num dia comum.

 

Junto ao varandim, de ferro gasto pelo tempo, expectador de tantas histórias de amor, de tantas lágrimas e desesperos, encostava-se alguém, com o coração apertado e o olhar perdido na imensidão do infinito. O mundo corria, sempre, indiferente. Sentava-se, voltava a levantar-se. E de novo se sentava, os óculos de sol a girar sobre os dedos, a cabeça pousada na palma da mão. Fervilhava cada milímetro do sistema nervoso. Percorriam-lhe os pensamentos pela cabeça, como seria, como não haveria de ser. O coração palpitava no peito, quase que saltando-lhe pela boca. Reviravam-se-lhe todas as entranhas, o medo e a ansiedade tomavam conta dele.

 

O tempo passava de forma lenta e acelerada ao mesmo tempo. Um miscelânea incapaz de ser compreendida, uma tempestade de sentimentos. O rio continuava calmo, o sol tornava-se cada vez mais vermelho. Circulavam gentes, voavam andorinhas. Uma voz, atrás um salto no coração. Levantou-se, corou, os nervos aumentaram.

 

Vieram as primeiras palavras ditas ao acaso, num cumprimento cordial e sem qualquer sentimento aparente. Só ele sabia o quanto estavam carregadas de sentimentos aquelas primeiras palavras. Depois, calmamente, veio o abraço apertado, o abraço que acalma, que não deveria ter fim, somente princípio e entretantos.

 

Passaram o rio ainda com tão poucas palavras ditas e com tanto ainda por dizer. Um café, uma esplanada, um coração que era agora paz.

 

É incompreensível a razão que faz o coração palpitar assim, de uma maneira estranhamente estranha. Há borboletas no estômago que só conhece quem sente.

 

O sol brilhava de uma forma especialmente especial. Viviam-se vontades e sentimentos, coisas que quase ninguém conseguia perceber.

 

Cada traço, cada olhar, cada pequeno gesto era agora percetível. A verdade estava ali, na sua forma mais pura. Houve a ânsia, o nervosismo, mas naquele momentos só a calma. A tempestade transformara-se em bonança, a calma o reflexo do nervosismo. O rio corria calmo, o sol quase que se pusera e já não notava se havia andorinhas pelo ar.

 

Num olhar comum, tudo seria normal. No coração tudo era diferente e especial. A estranheza acabara, a verdade revelara-se. As horas já eram galopantes, saltando de dez em dez minutos, fazendo passar o tempo na metade daquilo que se pensava na realidade.

 

A magia que existia no ar, a magia que existia nos sentimentos. Um coração palpitante e ansioso, era tudo o que havia para dar. Por entre os abraços e os beijos, as mão unidas ou os braços apertados, viveu-se num mundo de magia, aparentemente normal.

 

Depois, depois cresceu a saudade numa forma muito maior. Cresceu o sentimento em tudo aquilo que a vida tem para dar. Teme-se o futuro mas existe a vontade de lutar. E num amanha ainda maior e mais persistente, a vida não deixa de ser vivida. O sentimento e a saudade, de mãos dadas, vão crescendo cada um na sua medida. Um cresce para nunca acabar, o outro para se ir diminuindo cada vez mais.

 

Um coração que no silêncio e no desconhecido palpita por alguém lá longe, por amores conhecidos.

 

Este sentimento que cresce e vive, este sentimento que não deixa de existir. De tantas leituras ainda não se conseguiu encontrar forma mais bela para se descrever aquilo que se sentiu. Os sentimentos escrevem-se mas não se explicam no papel nem em palavras. Somente sentindo e proferindo palavras verdadeiras que correspondam aquilo que se sente.

 

A noite, a maior amiga e a maior inimiga dos amantes, chega e destrói. Mas existe sempre algo que perdurará no tempo, haverá sempre algo guardado em memórias, essas que são e serão sempre maiores que as palavras que se escreve um dia.

 

E no silêncio da noite, na escuridão de um quarto, ainda se sente o seu cheiro.

 

 

Há ou existe!

por Ismael Sousa, em 18.07.18

Poderia haver uma história de amor. Ou quem sabe uma história de transformação. Poderia ter sido as duas coisas. Mas poderia não ter sido nada.

 

Há sempre uma janela com vista para um horizonte incansável, um cigarro entre os dedos. Há sempre tanta coisa num pensamento distante e vago. Havia eu, ali, em solidões exaustivas, em olhares perdidos e horas queimadas em cigarros acesos.

 

O mundo muda na sua universalidade. Existe tanta coisa esquecida e abandonada. Existe tanto para onde fugir, tanto para onde partir. Há quem deseje ficar, outros desejam partir. Há mundos pequenos, existem mundos grandes. Há quem vá e existe quem fique.

 

Senti a falta num coração apertado. Houve uma insuflação de ar, de um novo ar. A esperança de um novo recomeço. Há gente que sonha, existem quem concretize. Eu fico-me pelos intermédios.

 

Voltei no tempo a um espaço onde me sinto confortável. Um lugar onde eu um dia fui feliz. Regresso a um passado solitário, um passado que tão poucos conhecem, que tantos desejaram ignorar, que fizeram por não estar. Regresso a um presente diferente de tudo aquilo que um dia sonhei. Vou e volto entre passado e presente. Viajo por um espaço tão meu, tão exclusivo. Voo pelos meus sonhos de uma forma indiferente.

 

Não existem cartas de amor, não existe a impressão de se ser amado ou desejado. O mundo corre sempre indiferente a corações que palpitam por coisas mais importantes que a superficialidade de um mundo que ambiciona o momento, esquecendo o futuro.

 

Atravessei a cidade em passo lento, atravessei o mundo em pensamentos. Aqui, ali, acolá ou além. Importa existir, importa ser-se, importa amar.

 

Encontrei poesia na esquina de uma viela escura, desprezada por todos, pela sua degradação. Há a dor e a frieza em mil olhares direcionados, onde a raiva e a dor permanecem de uma forma cruel.

 

Um piano abandonado numa rua deserta. A melodia que ecoa num coração de amor, o silêncio nas palavras. Ali, diante do olhar, as teclas sujas pelo tempo e abandono. As notas desafinadas de um ritmo brando. Soou a mais bela das canções, a mais bela das músicas. Ecoou um mundo que existe somente num pensamento e na vontade da concretização.

 

Há, existe.

 

O presente. Somente o presente nos tolda o pensamento. O que passou, passou; o que ficou, ficou. O futuro não existe, o futuro é uma ilusão. Seremos sempre folhas em branco, tábuas rasas, onde escreveremos o rumo que queremos tomar. Há sempre a oportunidade de um ponto final, existe sempre a oportunidade de terminar e recomeçar. O mundo em espelhos quebrados e amaldiçoados.

 

Sonhos de alguém que nunca sentiu.