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Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

Poesia Sempre, Sempre Pura Poesia

por Ismael Sousa, em 22.03.18

Quanta poesia escrevemos com as linhas da vida? Quantas palavras poéticas proferimos em nossos dias? Ah!, e o que é a poesia se não o fogo que arde em nós, que palpita em amor e dor? Nem todo o escritor é poeta e nem todo o poeta é escritor. Mas por esta ou aquela forma de poesia, todo o homem a sente em si.

 

[Lígia Mendes]

"Ah, mas se ela adivinhasse,

Se pudesse ouvir o olhar,

E se um olhar lhe bastasse

P ́ra saber que a estão a amar!"

(O amor quando se revela, in Poema Inéditos, Fernando Pessoa)

 

E os gestos de amor, as palavras proferidas? Os olhos que encadeiam, o poeta que se exalta. É o amor que faz escrever, a musa que inspira. Quantos amores trocados, quantas palavras entrelaçadas, quantas páginas escritas em poesias desnudadas de preconceitos e hierarquias!

 

[Amaro Figueiredo]

"Quem?

Não sei quem és. Já não te vejo bem...

E ouço-me dizer (ai, tanta vez!...)

Sonho que um outro sonho me desfez?

Fantasma de que amor? Sombra de quem?"

(A Mensageira das Violetas", Florbela Espanca)

 

E o sonho, a ilusão, a ausência de alguém. É poesia, é amor, é entranhas e ardor. Falamos normalmente e recitamos lindos sonetos de amor ou saudade. E quanta dor em palavras oculta, corações sofredores, lágrimas derramadas. Seres incógnitos, seres ausentes, escritores de sentimentos.

 

[Francisco Gonçalves]

"Se me vieres buscar,

Se me devolveres a brisa,

Se me amares apenas um pouco,

Se me fizeres sorrir,

Se me tocares assim...

Voltarei a ser eu"

(Francisco Gonçalves)

 

Há esperança na poesia, há entendimento e confusão. Há a magia e a realidade, a verdade ou pura ilusão. Contam-se as palavras, formam-se as rimas. Ah!, como eu admiro todo e qualquer escritor. E o poeta ainda mais, que falseia as palavras, que as conhece e as troca, rimando-as e encruzilhando-as em quadras e sentimentos, em sorrisos de sonho ou ilusão.

 

[Carlos Almeida]

"Ser poeta é ser mais alto, é ser maior

do que os homens! Morder como quem beija!

É ser mendigo e dar como quem seja

Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!"

(Florbela Espanca)

 

Não se pode fingir ser-se aquilo que no sangue não se é. Quantos poetas se escondem nas vielas e outros tentam alcançar uma fama que nunca lhes será verdadeira. E os poetas que escrevem em paredes, a poesia que salta das pedras da calçada. As quadras que são estórias e a história que são quadras. É preciso sentir-se antes de se ser, é preciso ser antes de sentir.

 

[José Pereira]

"Nega-me o pão, o ar,

a luz, a primavera,

mas nunca o teu riso,

porque então morreria."

(Pablo Neruda)

 

O que cabe na poesia, o que cabe num poema? Cabe tanto como no mundo, a desgraça e o amor, o ódio e o rancor. E todas as palavras, brincadas por aquele que escreve, criam encadeamentos floreados de sonhos alcançados, vitórias impensáveis, sonhos indecifráveis. Quanta poesia em nossos lábios, quantas palavras de poesia.

 

[Paulo Rodrigues]

"A minha glória é esta:

Criar desumanidade!

Não acompanhar ninguém.

- Que eu vivo com o mesmo sem vontade

Com que rasguei o ventre à minha mãe."

(Cântico Negro, José Régio)

 

Poesia não são só palavras, não são só sentimentos. Poesia são diários, poesia são palavras escritas com o sangue da vida, o alinhamento do espírito. Poesias são tumbas de almas desgarradas e amadas, de almas sofridas e sentidas. Grande é o poeta e grande é a poesia, incapaz de se conter, incapaz de se controlar. E a mim que alinho somente frases, que não sei poetizar.

 

[Pedro Miguel Teixeira]

"A São Tiago não irei

como turista. Irei

- se puder – como peregrino

Tocarei a pedra e rezarei

Os padre-nossos da conta como

um campesino."

(Sophia de Mello Breyner Andresen)

 

Poesia é o voo da alma, é ir-se até onde a mente alcança. É transpor fronteiras entre o real e o imaginário. Poesia não é só o que aparenta ser. São fontes de sabedoria, revelações e tantas palavras não ditas e escritas no invisível aos olhos insensíveis. Poesia é sempre sangue que corre em nossos corpo, coração que bate em nosso peito.

 

[Joana Simões]

"Não há limite no azul, nem no rosa perdição

Há apenas uma imensidão!

Nada é vida, nada é morte,

Tudo é esperança!"

(Joana Simões)

 

Poesia é o cigarro do tempo, que nunca se apaga e que com o seu fumo inebria as almas sensíveis. Poesia, sempre poesia. A poesia não morre, não tem tempo. A poesia vive hoje e ontem, amanha e para sempre. Viva a poesia, vivam os sonhos, os sentimentos, as emoções e o sonhos. Viva a poesia, vivam os corações de quem a escreve. Poesia sempre, poesia sempre...

 

[Ismael Sousa]

"Na verdade temos medo.

Nascemos escuro.

As existências são poucas:

Carteiro, ditador, soldado.

Nosso destino é incompleto.

 

E fomos educados para o medo.

Cheiramos flores de medo.

Vestimos panos de medo.

De medo, vermelhos rios

nadamos."

(Carlos Drummond de Andrade)

 

 

 

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E se este país fosse estrangeiro?

por Ismael Sousa, em 19.03.18

E se Portugal fosse um país estrangeiro, onde estivessemos de férias? Seria igualmente tão triste?

 

Dou comigo, muitas vezes, a pensar nos locais fantásticos que neste pequeno jardim à beira-mar plantado existem.

 

A realidade de Portugal não é assim tão diferente dos outros países e não somos, em circunstância alguma, menor que os outros. Aliás somos ainda maiores que alguns países.

 

Contudo, a nossa vivência por cá, vai-nos fazendo desacreditar este país. É a política, a situação económica, é as catástrofes que nos vão acontecendo e a incapacidade de dar a volta por cima.

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Somos, humanamente, mais focados na negatividade do que nas coisas boas e, por essa razão, achamos que Portugal é um país de terceiro mundo (e em algumas coisas é) e que necessíta sempre mais. Contudo, não perdemos tempo em pensar nas coisas tão boas que por cá existem.

 

Mesmo na nossa vida precisamos de contos de fada, de tornar certos momentos mais mágicos que aquilo que são. E porque não fazê-lo com este nosso país, tentar vender um país que tanto tem de bom a dar, para de alguma forma conseguirmos fazer com que ele cresça?

 

Tenho a sorte, e tenho-me pautado por isso também, de conhecer, ainda que vagamente, metade do meu país (e digo metade porque o Além Tejo ainda me é desconhecido). Tenho conhecido locais belíssimos e cheios de histórias e estórias. Um país rico em cultura, em arquitetura, em música e tradições. Mas muito disto torna-se, para nós, mais que banal. Não damos ao que temos o devido valor.

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Questiono-me se estamos a dar o devido valor, a oportunidade que Portugal precisa. Criticamos a cultura, criticamos a política e o atraso de Portugal (eu também o faço, atenção!) mas não contamos as estórias que por cá existem nem a história deste grande país. Esquecemos as personagens que por cá viveram, que por cá morreram.

Portugal, para mim, não é só um país, ou melhor, não é um país triste. Portugal é uma país belíssimo.

 

Quanta beleza existe nas tradições de Viana? Quanta tradição existe com os Caretos? Ou a nossa segunda língua, o Mirandês? Quantas belas vinhas existem ao longo de rios d'ouro? Quantas tradições ligadas à pesca, nos quilómetros e quilómetros de praias que nós possuímos? Quantas histórias de amor e valentia gravadas nas paredes dos castelos deste país, quantas derrotas e vitórias eternizadas em belos monumentos? E as metrópeles cheias de estórias, os grandes nomes que este país possuiu? Que seria do hábito dos ingleses se não fosse Catarina de Bragança? E os poetas que escreveram tanto sobre este país e as suas virtudes? Onde está Camões e Pessoa, Sá Carneiro e outros? Onde estão os grandes escritores deste país, os grandes músicos? Quanto amor eterniza a Pena com as suas cores, fantasia de livros de crianças? E Mafra na sua enormidade? Quantas histórias de amor e desamor num Buçaco esquecido ou num São Cristóvão de Lafões, tão antigo quanto a fundação do país? E as marcas do avanço de Afonso Henriques, ou o testemunho de António Vieira, ou o Santo português reclamado pelos italianos? Quanta cultura existe neste país onde o folclore é mais reconhecido no exterior e mais desprezado por nós? E as obras primas que possuímos, a cultura, a história que brota das pedras das calçadas com tanto para dar?

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Há tanto para conhecer, tanto para aprender e tanto para escrever e cantar sobre este país. Não somos só o parente pobre de uma Europa que nos despresa. E se o somos, somos porque não nos impomos. Há tanto para descobrir neste pais, com dois arquipélagos cheios de magia natural, com planícies para decobrir. Temos praias e rios, lagoas naturais, serras com neve, judiarias e mosteiros. Temos os passos daqueles que fizeram história, temos histórias em cada rua que cruzamos.

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Que Portugal não morra nem seja vendido. Que portugal seja sempre leal as suas tradições, aos seus costumes. Que o fado nunca deixe de se ouvir nem os cantores de outras cantigas. Que a palavra escrita nunca morra, que os poetas não deixem de se enamorar. Que a língua sempre se fale, que as línguas se aprendam. Que a humildade nunca nos acabe e o peito nunca deixe de ficar inchado quando se declarar: "EU SOU PORTUGUÊS!"

 

Cabeça Falante

por Ismael Sousa, em 22.01.18

Aconteceu. Finalmente aconteceu. A 'Cabeça Falante' já anda por aí.

 

O convite surgiu há uns meses, por parte o meu grande amigo Amaro Rafael. Aconteceu, como sempre acontece. Desafia-me, faz-me reescrever-me. Pediu-me um texto, uma pequena participação para uma fanzine que iria publicar. Receei por longos dias. Que iria escrever, sobre o quê? Seria eu capaz de estar à altura daquele desafio, iria ele gostar, iriam as pessoas gostar?

 

Escrevi. Apaguei. Voltei a escrever. Li, reli e voltei a ler. Corrigi. Mandei a primeira versão, depois outra corrigida e mais um pequeno acrescento. Estava feito. Dentro de mim nascia, a cada dia, a ânsia de ter na minha mão aquele que seria o meu primeiro texto livre publicado. Depois voltaram novamente os temores. Ele ia-me dizendo nomes e eu sentia-me cada vez mais pequeno, receoso. Mas já estava.

 

Depois surgiu o segundo convite, o de fazer a receção aos convidados. Só poderia aceitar, seria impossível dizer-lhe que não. E os nervos aumentavam ainda mais.

 

Este domingo, dia 21 de janeiro do ano de 2018, foi o dia do lançamento. Sobre isso não irei falar, pois já podem ler uma pequena resenha sobre o dia no Des i.

 

Foi enorme a emoção que senti ao estar ali, com a fanzine na mão, o meu nome na capa. Tremia como varas verdes. O início de um sonho estava ali. Mas não era o único sonho que ali estava. A música é, também, um dos meus grandes amores. E ali estava eu, prestes a começar um mini concerto com a minha querida Lígia. Começámos com Rosa Sangue, fomos Loucos de Lisboa, cantamos No Teu Poema e acabámos com Solta-se o Beijo. Tremeu e falhou a voz, uma ou outra vez o tom. Mas diverti-me imenso, naquele mini concerto tão intimista, perante tanta gente desconhecida e tanta gente conhecida.

 

Depois foi altura de subir a palco, de falar sobre o meu texto.

«'Amei-te eternamente' não é só mais um texto, mas é uma alma que fala pelas palavras, que inventa e reflete realidades. É um inicio de uma tentativa de derrubar tabus e falar aquilo que o coração sente e a mente oprime.

Escrever não é somente colocar palavras seguidas de palavras. Escrever é, na minha humilde opinião, transpor por palavras aquilo que tanto sentimos. É um esconder entre linhas sentimentos que são tão secretos.

Existem sonhos na alma, metas que desejamos atingir. Hoje inicia-se este sonho, é a rampa de lançamento.

Amei-te eternamente é um amor que fica para sempre. Amei-te eternamente é a força que não me deixa morrer. Amei-te eternamente...»

 

Neste momento sinto-me muito grato e vou usar as palavras, que me correm nas veias e fazem palpitar o coração, para agradecer.

 

Primeiro agradecer ao meu Amaro Rafael pelo convite, pela forma sempre honesta com que me critica os textos, pela força que me dá, por querer sempre que eu me lance do precipício em busca de novas aventuras. Agradecer pela sua grandeza, pela sua força e pelo ser enorme que é.

Agradecer aos meus pais pela presença, por sempre estarem lá, por me deixarem ser o louco que tanto sou. Obrigado por nunca desistirem de mim mesmo quando eu tanto desiludo.

Agradecer à Lígia pela enorme amizade, por se ter lançado no desafio de cantar comigo, quando a sua voz é tão grande, tão maior que a minha. Obrigado por tudo! Obrigado ao Jorge por ter aceite o meu convite e dar um enorme brilho ao momento.

Agradecer à Patrícia, ao Cristian, ao Pedro e ao Zé Carlos por estarem neste momento tão importante para mim. Sabem o quanto significam para mim.

Ao meu irmão por estar, mesmo quando somos tão diferentes, quando nos zangamos e temos opiniões tão diferentes. Mas também por todo o amor.

Aos abraços que me deram e às palavras que me dirigiram. Agradecer, também, a todos os que me leem, mesmo que invisíveis. Obrigado por lerem este louco.

Obrigado a todos que suportam a minha loucura, tantas vezes sem me entenderem. Obrigado do fundo do coração.

'Amei-te eternamente' é o início.

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Poesia regada com Chá!

por Ismael Sousa, em 24.10.17

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Das improbabilidades surgem, muitas vezes, coisas boas e momentos inacreditáveis.

 

De um simples convite, para algo que eu não imaginava como fosse, para dentro de uma loja de chás aromatizados com poesias e conversas.

 

Foi no centro da cidade de Viseu, mais propriamente ao cima da rua Nunes de Carvalho, que o orgasmo literário e cultural se deu. Agulha do Tempo é o nome da casa de chás, onde se pode encontrar muito mais do que chás. Ali o chá é um chamariz, porque aquela pequena loja, de bicicleta à porta, escorre cultura e arte em todas as suas paredes, em todas as suas peças de mobiliário. É arte, pura, violentada, amada e, talvez, indesejada. É arte no falar, no olhar, no beber.

 

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E, numa pequena sala daquela casa, onde residem "restos" de história, mataram-se e voltaram a ressuscitar-se almas. Em volta de pequenas mesas, de conversas de amigos, a rede social mais antiga, a escrita, voltou a tomar forma. Não só pelos textos que se declamaram, mas como no chá que se bebeu (e que ainda guardo o sabor daquele chá amarelo, do Tibete), nas conversas e linhas de vida cruzadas. A arte surgia aos nossos olhos com um fantástico poder, embelezados pelos desenhos da querida e tímida Inês, pelas peças que nos transportaram a outras épocas, pela voz de cada um, que à sua maneira iam dando voz à poesia.

 

Chá e poesia: que dupla inevitável. O chá saboreia-se, aquece o corpo. Descobrem-se sabores, sensações e emoções (e aquele bendito chá amarelo que me transportou para a minha infância, o cheiro a trabalho do campo, agreste como cada dia de trabalho). E, inevitavelmente, as palavras escritas por grandes nomes e as novas descobertas. Emoções, sensações, palavras saboreadas, ruminadas, interiorizadas, que acalentam o coração. Um final de tarde de sábado, o frio a querer fazer-se sentir. Um fim de tarde outonal.

 

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Duas horas depois, despedi-me daqueles que me encheram o coração com palavras doces, palavras amargas, palavras de amor. Cá fora fazia frio e eu só queria voltar àquele recanto. Face.The.Book é sem dúvida um projeto fantástico. E em cada nova oportunidade, o esforço para estar novamente presente. Agulha do Tempo, umas loja a revisitar, um conversa com o Zé e a esposa.

 

Naquela pequena sala, aquecidos pelo calor do chá e pela chama da escrita, os leitores deram voz às almas presas em páginas de livros, pela mão de algum amante.

 

Obrigado Face.The.Book, obrigado Agulha do Tempo.

 

Quem passar por Viseu que não deixe de lá dar um saltinho!

O homem discriminado!

por Ismael Sousa, em 29.08.17

Toda a gente fala do assunto. Todos imitem a sua opinião sobre o tema. Os livros da Porto Editora são o assunto mais falado nesta última semana.

 

Não conheço os livros, nunca tive com nenhum na mão. A única coisa que sei sobre eles é aquilo que leio na blogosfera e nas noticias que leio pela manhã.

 

O que tenho constatado é que o rosa já não é mais uma cor feminina e que o azul não é uma cor masculina.

 

Não sou perito em nada, não tenho nenhum curso que me possa dar as faculdades necessárias para avaliar seja o que for. A única coisa que tenho é experiência de vida (sim, apesar dos meus 27 aninhos, tenho vivido mais que aquilo que pensam)!

 

Um dos temas mais badalados desde o século passado é a igualdade de direitos entre homem e mulher. E eu, com todo o respeito que tenho por estes seres, não podia estar mais de acordo que as mulheres tenham os mesmos direitos que um homem. Se um homem pode ser camionista, uma mulher também pode. E se for eficiente, que tenha tanto direito a ser contratada como um homem. Se uma mulher pode ser dona de casa, um homem também o poderá ser. O tempo em que a mulher ficava em casa e o homem trazia o sustento, já lá vai. Hoje, mulheres e homens, são o sustento.

 

Nasci num tempo em que as coisas eram diferentes dos dias de hoje. Eu brincava na rua, via desenhos animados, via filmes. Fazia as lides domésticas, ia à escola e construía cabanas em cima de árvores. Vivíamos na rua e os pais ralhavam-nos por andarmos até tarde na rua com os amigos. No meu tempo líamos livros, jogávamos à macaca e ao lencinho. Saltávamos à corda e brincávamos ao elástico. No meu tempo, duas pedras eram os postes das balizas e a bola andava nos pés. Todos jogávamos independentemente de sermos bons ou não (e eu que sempre tive dois pés esquerdos). No meu tempo era diferente, mas saudosismos não nos levam a lado nenhum.

 

Os dias que correm são diferentes, pela evolução lógica da natureza. Se existe evolução normal é que as brincadeiras e formas de vermos o mundo também sejam diferentes. Ninguém quer voltar aos anos 90 (no meu caso) e um futuro melhor está sempre ao vislumbre da nossa imaginação.

 

Mas com a evolução dos tempos está inerente a evolução da mentalidade. Mas nisto, em questões de mentalidades, parece-me que estamos num processo de retroversão. Não avançamos mas regredimos.

 

Hoje qualquer palavra é ofensa, qualquer forma de ver é repugnante. Preocupamos-nos com questões que são mais irrelevantes que a queda de uma folha. Que importa se o rosa é a cor ou não das raparigas e o azul a cor dos rapazes? Que importa se há um livro azul que diz "exercícios para rapazes" e outro rosa que diz "exercícios para raparigas"? No meu tempo não pensávamos nisso, os pais não pensavam nisso.

 

"Uma questão de justiça" podem afirmar. Mas enquanto se preocupam com questões de igualdade, não se preocupam com questões de dignidade. Uma parte do meu trabalho é lidar com crianças. E quando elas entram por esta porta dentro, para brincarem, não pensam se esta ou aquela brincadeira é para meninos ou meninas. Brinca-se em conjunto. E eu, na minha formação e contínuo interesse pela área psicológica, vou fazendo as minhas avaliações particulares. Há crianças que carecem de atenção, crianças que não têm uma vida fácil. Há crianças que têm tudo e outras que pouco têm. Mas no mundo deles, onde fantasiam, isso é esquecido.

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A maior necessidade, para mim, é formar bem estes pais, filhos da libertinagem, que não se preocupam em dar uma boa educação aos filhos, mas "sustenta-los". Não se incutem valores, não se incute educação. As crianças nascem ao "deus dará" aprendendo aos encontrões com a vida. Não há "obrigados" nem "desculpas", somente o eu e eu. Filhos da libertinagem, libertinos serão. E o homem que cria o mundo, destrói-o também.

 

Falamos em igualdade, mas esquecemos-nos que não há igualdade. Os homens têm de continuar a ceder passagem a uma senhora, a serem "cavalheiros" (e aonde é que já vai esse código de honra), têm de continuar a mimar as mulheres. Mas nisso não se fala em igualdade. As mulheres têm muito mais aceitação e concretização no mundo do trabalho que o homem. Já não se pedem colaboradores (o termo certo com que a nossa língua sempre definiu os dois sexos em conjunto) mas colaboradorAs. Precisam-se de empregadAs de mesa, de balcão, de colaboradorA para isto e para aquilo. Qualificadas ou não, acabam sempre por ficar com o lugar, porque se não é descriminação, há processos e afins.

 

Vivemos do avesso e numa igualdade falseada. O homem passou a submisso. Talvez lhe seja bem feito pelos anos em que se armou em superior. Infeliz de mim que nasci homem e tenho de lutar por tudo.

 

P.S. - Às mulheres da minha vida, às minhas colegas, todo o respeito e admiração que tenho por vós!

De onde sou?

por Ismael Sousa, em 23.08.17

Vivemos num mundo onde a diversidade é enorme. De um país para o outro, mesmo lado a lado, a diversidade cultural é tão diferente que mesmo sem linhas traçadas podemos reconhecer cada país pela sua cultura.

 

Com toda a normalidade, quando conhecemos alguém, é natural perguntarem-nos de onde somos, numa tentativa de reconhecer origens. Eu, na minha maior brincadeira, tenho por hábito dizer que sou do mundo. Do outro lado surge sempre um sorriso, mas do lado de cá a nostalgia de me ver preso a raízes que tanto me dizem mas que não me completam por completo.

 

Sou do mundo é uma resposta vaga. Mas na verdade diz tanto. Sou do mundo porque há coisas no mundo que se pudesse agregá-las num só país, seria o país de Ismael.

 

Sou português, com orgulho e acho este país onde nasci e cresci, uma das maravilhas escondidas do mundo, plantado à beira mar, com tanto para descobrir. Somos o povo que com mais facilidade aprende línguas, o povo da sardinha e do vinho do Porto. O povo do folclore, do bailinho. Temos as touradas, temos monumentos, temos serras e praias. Temos doces e gastronomia sem igual. Temos o Fado, a história. E acreditem que sinto isso tudo em mim.

 

Mas também sinto em mim o sangue quente dos espanhois, as cores espanholas, o flamenco, as tradições. Amo as tapas, mas falta-me o café. Sou fã da siesta e das horas de esplanada e da vida que os espanhois têm inerentes a si.

 

Sou português e gosto do francês, pelo romanticismo da língua, pelo enorme gosto pelas artes. Sou português mas faltam-me as óperas italianas, a moda italiana, a lingua e os monumentos e religiosidade e o carnaval de veneza. Sou português mas faltam-me os musicais ingleses, a cultura e estilo de vida inglês.

 

Falta-me a influência muçulmana, nas decorações e formas de vestir. Faltam-me os russos pelos palácios e literatura. Falta-me tanta coisa que sinto-me mais incompleto do que completo. O mundo tem uma diversidade enorme e nunca serei capaz de absorver tudo quanto gostava. Sou multicultural e não me deixo prender por raízes. Um dia vou explorar o mundo da maneira que desejo. E no fim, quando tver vivido tudo, voltarei a querer viver novamente!

Competitivos por natureza!

por Ismael Sousa, em 22.08.17

É terça-feira: mais um dia de agosto, mais um dia de trabalho. Três crianças no espaço lúdico, raparigas por sinal.

 

Acabei de publicar num dos blogues e dou comigo a observar as estatiscas dos mesmos. Ao mesmo tempo que eu me perco em estatísticas de blogues, as três meninas competem entre elas. Uma quer fazer assim, outra quer fazer assado. Uma não quer que a outra faça, a terceira faz tudo como quer. E berros e amuos constantes fazem parte do meu dia.

 

Com esta competição entre elas, comigo a ver estatísticas, recai sobre o meu pensamento a simples frase: estamos sempre em competição. Queremos alcançar o sucesso de várias formas, sermos aceites e notaveis na sociedade. É um pensamento comum e geral a todos e não me venham com cântigas, mas de uma ou de outra maneira, queremos ser "vistos" e notados pela sociedade.

 

Não escrevo nos blogues de forma a ter sucesso ou a ser conhecido. Somente de forma a demonstrar a minha opinião ou, como na grandíssima maioria dos casos, encher a internet com textos de minha autoria, permitindo a quem os quiser ler, uma forma de fácil acesso.

 

Todos desejamos sucesso em algo: uns no trabalho, outros na realização pessoal. O sucesso é-nos incutido por natureza. Enquanto crianças vivemos esta competição/sucesso com o "o meu é melhor que o teu" ou o famoso "eu é que sei". Na adolescência com o "tive melhor nota que tu". Na juventude e em fase adulta, deixam-se as palavras de lado e demonstra-se com atitudes e posses. Acho que, somente quando chegamos a velhos é que deixamos de competir. E só alguns, porque outros competem até ao último dia de vida (e não achemos que a sueca e o dominó ou as damas são competição!).

 

Há pessoas mais humildes que outras, que apesar de necessitarem de se sentirem realizadas, não se vangloriam pelas coisas que alcançam. Outros fazem sempre questão de esfregarem na cara dos que o rodeiam esse facto.

 

Vejamos: os políticos competem entre si sobre quem deixou melhor (ou pior) o país, municipio, associação; nas empresas é para ver quem é mais querido pelo patrão; no campo, quem teve mais tomates ou cebolas, melhor vinho ou melhor colheita. Os filhos que serão sempre melhores, o irmão que será sempre a estrela. Uns têm que lutar pelo sucesso, outros é-lhes nato esse sucesso.

 

No passado domingo assisti a um desfile. Qual o meu espanto quando uma certa pessoa estava em cima de palco. O meu pensamento? Logo de revolta. Senti que não era justo, bla bla bla. Agora, dois dias depois, tenho em mente uma das maiores verdades de sempre: a vida não é justa. Mas de nada me vale odiar e ficar irritado por essa razão. Cada pessoa tem direito ao seu sucesso e isso incomoda muito as outras pessoas. Mas todos procuramos o sucesso, procuramos aquilo que nos torna competitivos. Depois o que fazemos quando o alcançamos já faz parte da essência de cada um.

 

Conheço pessoas que alcançaram o sucesso, que foram competitivas a um nível saudável, e que quando lá chegaram, continuaram a ser as mesma pessoas que eram antes. Outras, sentiram-se superiores e deixaram aqueles que estiveram a seu lado esquecidos, calcaram muita gente.

 

A vida terá sempre duas faces: o bem e o mal. Tão inevitavel como o sol "nascer" todos os dias. Cabe a cada pessoa ser ou não, boa na sua essência. Cá eu, continuarei a perder-me por estatísticas, tentando alcançar algum sucesso. Continuarei nas minhas escritas, mesmo que aquilo que escrevo seja página perdida na internet. Continuarei a ser eterno amante, mesmo sem correspondência. Eterno sonhador, mesmo sem sonhos.

 

Para hoje fica este pequeno pensamento que vale o que vale. Continuação de boa semana e votos de muito sucesso!

 

P.S.: No dia em que chegar ao topo eu depois digo-vos, ok?

Diga não à autoestrada, conheça o nosso país!

por Ismael Sousa, em 21.08.17

As redes de autoestradas são um meio fácil e rápido de acesso entre vários pontos do país. Fácilmente entramos e saímos perto do local que desejamos, viajando a um velocidade mais confortavel, sem semáforos e limites de velocidade ridículos. Vamos de um ponto ao outro do país sempre sem parar. A paisagem é sempre a mesma, sem grandes diferenças: mato, mato e mato. Tirando as grandes metrópeles, esta é a vista que se tem durante uma viagem numa autoestrada. Mas para quem, neste fim de mês de agosto e final de verão, ainda for gozar umas férias, diga NÃO às autoestradas.

 

Sempre gostei de andar de um lado para o outro, parar aqui e acolá. Irritam-me as viagens diretas, em que saímos de um ponto, fazemos uma carrada de quilómetros somente para ir sair num outro ponto. E o que está no meio? Ninguém sabe! Mas quando a pressa aperta, lá tenho que ceder a fazer rodagem em alcatrão de autoestrada.

 

E este fim-de-semana foi assim. O caminho para as Caldas da Raínha foi feito pelas várias autoestradas que se tem de percorrer para lá chegar. Foi uma viagem de descida (territorial) apressada e com algum nervosismo à mistura (mas quanto a isso, nada a fazer). Rodou o pimba durante toda a viagem, misturado com o latino e o cigano. Diga-se de passagem que a viagem foi horrível, cuja única paragem foi no McDonald's de Tomar para recarregar baterias e ter a força física (e mental) necessária para chegar ao destino.

 

A zona das Caldas da Rainha é, para mim, sempre um bom local de descanso. O Oeste tem coisas fantásticas, permitindo-nos recarregar baterias com muita facilidade. Apesar de este fim-de-semana não ter passeado por aquela zona, no ano passado tive o previlégio de ir conhecendo aquela zona. Ali há muito para ver e muita história para saborear. E não precisamos de passar muito tempo enfiadinhos (tipo salsicha enlatada) dentro del coche!

 

Começando pelas Caldas da Raínha, que até nem parece ter grande coisa para visitar, podemos perder-nos pelo parque Dom Carlos I, onde nos podemos perder por entre um verde abundante, um lago ladeado por uma velha instancia termal, mais o Museu José Malhoa e um café fantástico (tanto em decoração como em serviço). Tem praças e Bordalo Pinheiro por todos os lados, uma praça de touros e ruelas cheias de vida.

 

Deixando as Caldas da Rainha para trás, temos a poucos quilómetros o famoso Bacalhôa Buddha Éden, onde se podem perder várias horas a passear por entre budas, soldados e fabulosas peças de arte, rodeadas por uma enorme mancha verde e um lago que nos dá vontade de mergulhar.

 

Óbidos é também paragem obrigatória e fica ali bem pertinho. Mas antes ainda há uma velha e imponente igreja, no Senhor da Pedra, que deixa qualquer admirador de arquitetura maravilhado e apaixonados os amantes de arte sacra. Em Óbidos há uma imensidade de coisas para ver, desde livrarias em que as prateleiras são caixas de fruta ou uma outra dentro de uma antiga igreja. Há a muralha e a ginja. Nas costas de Óbidos há uma lagoa e a poucos quilómetros Peniche com tanto para oferecer.

 

Bem, mas comecei este texto falando das autoestradas porque, na volta das Caldas da Raínha, decidi nem percorrer um metro de autoestrada. Arriei (como se diz por estas bandas) caminho por estradas nacionais e, há semelhança de um ano atrás, visitei aqueles espaços em que até as pedras da calçada são históricos.

 

Passando ao lado de São Martinho do Porto (outro local que merece sempre uma visita), a minha primeira paragem foi em Alcobaça. O mosteiro estava fechado (e já o visitei), mas no grande adro em frente, uma feira de velharias. Contudo Alcobaça não se fica só pelo mosteiro, pois a zona que o rodeia também é digna de ser vista. Há casas com azuleijos, túneis afontanados. Ali respira-se história.

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 Alcobaça ficou para trás e o meu próximo destino foi Fátima. Contudo, no caminho de Alcobaça até Fátima, podemos visitar locais como o Mosteiro da Batalha, os campos de batalha de Aljubarrota, entre outros locais que as setas castanhas nos vão indicando.

Contornando o Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros, chega-se a Fátima. Mas para aqueles que Fátima é um local indiferente, existe sempre a possibilidade de se visitarem as grutas que são de uma beleza estonteante. E que tal aquela sensação de estar "dentro" da terra?

 

Rumando a norte, parei em Leiria para visitar aquela cidade uma vez mais e conhecer o Castelo lá no alto. Leiria tem em si parques e praças, ruas catitas e pintadas. Mas tem também uma Sé que deixa qualquer um mergulhado numa enorme paz. Tem um fantástico órgão de tubos e telas dignas de serem vistas. A Igreja da Misericórdia é também local de paragem obrigatória, não pela sua imponência mas pela beleza e simplicidade a ela aliada. Lá no alto, imponente, as muralhas do velho Castelo. 2,10€ de entrada para uma enormidade de ruínas que levam a nossa mente a imaginar e viajar pelo tempo. Há uma velha igreja, ou as paredes que dela restam, os vestígios de um palácio onde uma enorme sala nos recebe e nos deixa, da sua varanda, ter a melhor vista sobre a cidade de Leiria. E esta varanda deixa qualquer um maravilhado (e para os eternos romanticos, ali é um verdadeiro local de romantismo).

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A torre de menagem permite-nos ir ao ponto mais alto da cidade, deixando um imenso horizonte na nossa frente, espreitando por entre ameias que nos recortam a vista. Enquanto subimos vamos conhecendo pedaços de história que muito bem ali foram colocados como patamares, deixando qualquer visitante um pouco mais culto. Descendo do castelo, um museu e uma igreja romanica são paragem obrigatória.

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Pelo meu excesso de cansaço, deixei Leiria em direção a Coimbra. Mas, neste percurso pela nacional, passando por Pombal e Condeixa, fiquei tentado em rumar um pouco mais a este, voltando a Tomar, terra de tabuleiros e templários. Também tem um castelo possuidor de belos jardins e da famosa janela manuelina. Também tem praças e igrejas várias para serem vistas.

 

Coimbra irá ser sempre uma enorme paixão. Regalo-me sempre com o percurso desde o Largo da Portagem até à Universidade. Ali há um ar diferente que se respira, um ar de história e conhecimento. Em Coimbra há dois reis que repousam na Igreja de Santa Cruz, uma sé velha e uma nova. Há uma universidade com conhecimentos inumeros e de belezas tamanhas. Há ruelas e calçadas, jardins de sereias e escadas monumentais. Há musica e serenatas e a casa onde viveu José Afonso. Há um penedo de saudades, conventos e igrejas. Um Portugal em tamanho pequeno, a reliquia da Rainha Santa e a quinta onde se derramaram lágrimas. Coimbra é, para mim, um todo onde sempre se vai beber e renascer.

 

No percurso de Coimbra até Viseu (no meu caso mais própriamente São Pedro do Sul) há também inúmeros locais escondidos para visitar. Mas sobre esses locais, deixo para uma próxima viagem, para uma próxima "eu, o Seat e muitos quilómetros a fazer".

 

P.S.: As fotografias não estão grande coisa. Brevemente um post só com as fotografias tiradas neste mini viagem!

Non Stop!!!

por Ismael Sousa, em 17.08.17

O blogue Des-i tem estado em alta. Há novas mini entrevistas com pessoas super fantásticas. Passem e leiam!

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O Pequeno Grande Polegar

por Ismael Sousa, em 14.08.17

Era uma criança tão pequena, com os dedos tão pequeninos que todos se chamavam mindinho. Era uma criança mais alta que as escadas, mais larga que as árvores e que de pé via toda a vila em seu redor. Era uma criança, que nascera para salvar uma aldeia, vinda de uma gravidez das costas para o seio de uma aldeia esquecida. Era uma criança que havia de partir, para a terra do era uma vez, onde a sua casa era feita de livros, o mundo o imaginário.

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Era uma criança que nascera numa aldeia, onde havia um casal com mais costas que barriga, uma velha que escutava as pedras, um velho que dava conselhos ao tempo, um Vagalume que arrancava os olhos para não ver desgraças. E numa predestinação a aldeia ia acabar. Até que nasce Polegar, pequenino mas maior que as casas. Mas na sua grandeza haveria de partir. Chegam os palhaços, de caras pintadas e sorrisos esboçados, subindo a escadas altíssimas. E em tamanha grandeza e pequenesa do pequeno que poderia ser bala para canhão humano, os palhaços deixaram os narizes e a felicidade reinou onde não havia réstia de sorrisos. Um nariz vermelho, uma pequena grande criança: uma felicidade que pode ser tão grande. "Se o Polegar chegar ao céu, vai brilhar como uma estrela. A lua levará um véu e o sol camisa vermelha. Pico, pico, sarrabico, espera aí que eu já lá vou. Eu aqui é que não fico que a festa já começou."

 

Foi no passado sábado, dia 12 de agosto, que em Vouzela nasceu o Pequeno Grande Polegar. Uma vez mais, o Trigo Limpo teatro ACERT leva aos locais do distrito um enorme espétaculo com os seus característicos bonecos gigantes. Depois de A Viagem do Elefante, o teatro de rua (sobre)vive com a história de O Pequeno Grande Polegar.

IMG_4734.JPGPara quem achar que é mais um espetáculo que se desengane. O Pequeno Grande Polegar, envolve novamente os habitantes dos locais que visita, num espetáculo grandioso, não só a nível de espaço e imagem, como também pelas músicas e textos. Para os mais atentos, O Pequeno Grande Polegar trás um texto delicioso, com vontade de se mastigar todas as palavras que são ditas. Há uma velha que escuta pedras, um velho que queria ir num caixão e que dá conselhos ao tempo. Há um tolo que diz dar estrelas e que tira os olhos para não ver as desgraças. Há um casal que dá à luz um filho e um circo que chega à aldeia. Há metáforas e analogias, narizes vermelhos e tantas outras coisas para descobrir neste teatro de rua. Há uma loucura associada que nos leva a voar agarrados a guarda-chuvas de multicores.

Há arte na rua, de forma gratuíta. A arte/cultura continua viva, só é necessário deixar-se envolver por ela. Depois de nascer em Vouzela, Pequeno Grande Polegar irá nascer novamente no Sátão e depois em Tondela. Não deixem de assistir e de viver, nem que seja só por uma hora, no mundo do era uma vez...

 

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