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Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

Renascer de um útero de mar

por Ismael Sousa, em 11.03.19

Chegou com o coração carregado e a arder de mágoa. Chegou, arrastando todas as correntes que trazia agarrado a si. O peito arfava de cansaço e dor.

 

O mar estava calmo, o areal sem ninguém. Brilhavam as estrelas no céu, a lua em quarto minguante. Mas ali, junto ao mar, somente a luz do velho farol, rodando sobre si mesmo com as suas largas riscas brancas e vermelhas, alumiava os céus. Tudo em seu redor era escuridão. As ondas rebentavam diante de si. Nem um único pensamento na sua cabeça. Somente o vento que lhe batia fortemente no rosto, o frio que lhe arrefecia o corpo.

 

Sentou-se, ali onde nada mais existia. As lágrimas escorriam-lhe para dentro, tentando apaziguar a dor e apagar o fogo que dentro de si existia. Tentava encontrar explicações, perceber as razões que o levavam a tanto sofrimento. Mas só compreendia o silêncio. Rezava ao mar para que o inundasse e destruísse tudo o que havia em si. Rezava-lhe para que levasse o que de mau existia e que algo de bom trouxesse. Como se de um pequeno contrato tivesse estabelecido há muito tempo com o velho mar.

 

Mas na sua cabeça só existia o later de alguns nomes, de amores que magoaram, de pessoas que foram mais ausência que presença. A dor das promessas que ficaram por cumprir, das palavras que soaram a falso, das atitudes de que nada valeram. Tudo ao acaso. Um acaso que não existe mas liderado pela dor imensa de passados que nunca existiram.

 

Tirou os sapatos e as meias e caminhou em direcção ao mar. As calças largas e compridas esvoaçavam com o vento. A camisa branca já desfraldada, ia dançando ao mesmo ritmo. Mergulhou os pés na água gélida. Todo o seu corpo tremeu e arrefeceu de forma instantânea. Avançou pelo mar dentro, como se de alguma maneira se decidisse entregar a algo maior e que haveria visto mais dor que os seus olhos alguma vez poderão ver. Avançava como de regresso a um útero que o tivesse expelido cá para fora sem que ele o desejasse. Avançava num regresso às entranhas de um mundo, onde tudo é belo e diferente, onde tudo é passageiro. Entregava-se à morte naquele mar calmo e reconfortante, que tudo leva e tudo trás. Que tantos amores tinha levado e que nenhum havia trazido.

 

As calças molhadas até ao joelho agarravam-se agora às suas pernas, pesando-lhe no caminhar, pesando-lhe na entrega ao destino fatal, àquele que não era mais seu. Entregava-se sem resistir, sem correntes que agora o prendessem a um mundo que não era mais parte de si, do qual deixou de existir há tanto tempo, sem que se tivesse dado conta, sem que o mundo notasse.

 

E ali estava, entregue à morte, na escuridão de um mundo qualquer, na escuridão de uma praia qualquer, despovoada de gentes ou animais selvagens. Somente a morte, o mar e a luz do farol de círculos brancos e vermelhos pintados. O farol... O farol era agora a sua única âncora ao mundo que desejava deixar para trás. Era, naquele momento, como um canto da sereia, que o levava de regresso a um mundo que achava que não era seu, a um mundo que nenhuma esperança parecia dar-lhe. Mas aquele canto da sereia formulado por uma luz giratória chamava-o para uma nova existência, chamava-o para uma nova vida, uma nova forma de viver.

 

Olhou o mar novamente, sentiu o frio que o inundava. Deixou o mar e sentou-se no areal. De novo o seu olhar fitava para lá desse mar imenso. Fitava o pensamento, o seu passado e a necessidade de se desligar do que o rodeava. Levantou-se, molhou novamente os pés. Pela primeira vez a lágrima escorreu-lhe pelo rosto. Recuou.

 

Com o dedo indicador escreveu na areia molhada os nomes que latejavam na sua cabeça, ali onde as ondas acabavam por morrer, naquele limiar em que o mar leva, aquele limite onde o mar deixa. Escreveu-os um a um, primeiro e último nome, com todas as letras, com aquela caligrafia de escola primária. Por baixo traçou um traço profundo. Olhou os nomes, um a um. Amores que teve e que o destruíram. Amores que recordava em todos os dias da sua vida, desde que terminaram. Amores que consumiram a sua vida até ao tutano. Olhou os nomes um a um e tentou recordar o que havia de bom. Mas só havia dor dentro de si.

 

"Despedimo-nos aqui!", sussurrou. E pouco a pouco foi-se afastando sem tirar os olhos dos nomes que tinha escrito, do lugar onde a partir daquele dia iriam jazer. Olhou-os enquanto recuava até que o mar os apagou. E aí virou as costas, seguiu o seu caminho, com os olhos colocados na luz do farol, gigante, de riscas vermelhas e brancas, com a luz a girar sobre si.

 

Dentro do seu peito já não ardia nada. Dentro de si existia somente a calma e o renascer para um novo dia. O mar lançara-o para este mundo como se tivesse renascido novamente. Há sempre um amanhã e nova esperança e um sol a brilhar.

Tantas vezes o eu!

por Ismael Sousa, em 21.11.18

(Colocar a reproduzir antes de começar a ler)

Estou deitado na minha cama. A chuva bate fortemente na claraboia do meu quarto. O meu pensamento... Ah!, o meu pensamento. Quem sabe por onde andará. Quem sabe? Sinto-me... perdido, triste. Sinto-me como se não tivesse um amanhã ou que o meu amanhã fosse tão fútil, sem sentido.

 

Perco-me diversas vezes nas minhas palavras. Perco-me na futilidade, naquilo que eu acho que pode ser importante mas que é somente o rosto amargo da minha ilusão.

 

A chuva, a esplanada, o café, a vidraça, o cigarro que fumo incessantemente. São tudo momentos de dor, melancolia. A saudade daquele tempo que já não existe. São pedaços de mim, são a falta de ti.

 

Eu! Tantas vezes o eu. Eu que penso, que paro, que me acho diferente de todos os outros. Eu, tantas vezes o eu. Ser da monotonia, do cansaço, da fragilidade. Eu, tantas vezes o eu. Tantas dores comuns a todos os outros e achar sempre que são dores maiores. Qual será, na verdade, o tamanho das dores? Qual será, na verdade, a verdadeira dor?

 

A chuva, na vidraça, é como a chuva no meu coração. Qual coração qual quê, se o coração é somente mais um órgão funcional em todo o corpo que me faz sobreviver. Corações não existem, não sentem. Os corações são órgãos vitais.

 

Eu, exagerado em toda a forma de sentir, onde me refugio nestas palavras ocas, sem sentido, onde as frases estão perdidas, onde as frases não são mais que meras e simples frases. Eu, quantas vezes o eu?

 

Sinto-me como se fosse, por vezes, um pobre desgraçado que só tem razões para chorar, quando, talvez na verdade, eu só tenha razões para sorrir. Mas falta-me... falta-me algo! Falta-me aquilo que eu não consigo explicar e que nem as palavras conseguem transparecer. Ah!, essas... essas que são as verdadeiras palavras. Aquelas que eu escrevo nesta noite, que pronuncio no meu pensamento. Essas palavras que são meros “eus”, espelhado numa escrita fútil, sem sentido, onde ninguém lê, onde abunda o exagero. Essas palavras onde eu me perco, são somente sentimentos que existem dentro de mim.

 

Não me interessa se existem no pensamento, se existem no cérebro, ou se existem no coração. Existem dentro de mim, neste ser que eu sou.

 

Amo. Amo tanto. Amo de uma forma que não tem medida. Sou assim! Sou assim como a chuva que cai, como a folha que voa ao vento: um simples acontecimento da natureza.

 

Ah!, esse coração que me enfurece! Não me interessa se é somente um órgão. É aquele coração dos sentimentos, aquele coração que existe dentro de mim, que palpita mais forte quando eu estou feliz, que palpita nas noites em que choro mesmo quando a lágrima não cai. Esse coração, órgão ou ficção, é parte de mim. E a chuva, o vento, o frio, o sol, o café, a esplanada, a vidraça, o cigarro, o olhar no firmamento ou no horizonte são partes de mim com as quais eu tenho que viver.

 

Não me digam que eu posso ser diferente, porque eu não posso ser diferente! Eu sou assim! Esta é a minha forma de ser.

 

Encharco-me demasiadas vezes em bebida para não pensar naquilo que me vai na mente nem... nem na forma como a minha vida está tão vazia, tão oca, tão sem sentido. Preencho cada minuto do meu dia para evitar pensar, para evitar sentir. Mas quando me abunda o tempo e eu não sei o que fazer, entristece-me a alma. Deito-me na cama, cubro-me com os cobertores, tento adormecer. Mas o pensamento é mais forte e não me deixa... não me deixa adormecer.

 

Ah!, que saudade, que fado o meu. Duas palavras tão simples mas que transmitem tanto de mim. Uma saudade sempre eterna, um fado que eu não conheço mas que ouso cantar. Um fado que eu gostaria de escrever ou uma saudade que eu gostaria de saciar.

 

Eu! Eu. Perdido nas palavras, perdido na vida. E todo aquele sentimento, toda aquela vontade de querer ser diferente, de não ser um filho da melancolia ou da tristeza. Ser um filho da alegria e do sol que brilha no firmamento. Eu, tantas vezes o eu. O olhar em demasia para o meu umbigo, o perder-me em demasia nos meus pensamentos.

 

Mas eu também me perco nos outros, porque só perdendo-me nos outros a minha vida ganha sentido. Mas que interessa? Que interessa se eu me perco infinitamente nos outros se os outros não notam? Que interessa eu dar-me sem medida se tudo aquilo que eu recebo é medido e pesado?

 

Vida! A vida. Mas que vida é esta, que merda de vida é esta, que forma estúpida de viver? Onde está o sentido, onde está tudo aquilo que eu gostaria de ter? Chove, o sono não vem.

 

Ah, se eu pudesse... se eu pudesse libertar-me de todas estas amarras que me prendem. Se eu pudesse ao menos sentir que era a minha oportunidade de ser feliz, de ter aquilo que eu queria, que eu desejo, que eu sempre achei que a vida teria guardado para mim. Não é o teu tempo, uns dizem, não é agora. Mas quando será essa merda desse tempo, quando será esse momento que eu vou estar completo, que eu me vou sentir completo. São tantas as palavras, são tantas as dissertações que eu poderia fazer sobre este tema. Mas não há mais nada a dizer. Não há mais nada a dizer quando o homem se perde sempre nas mesmas coisas, quando eu me perco sempre neste sentimento de abandono.

 

Abandono. Das palavras mais difíceis de pronunciar. Dos sentimentos mais difíceis de vivenciar. Foda-se! Que todo este sentimento vá para o raio que o parta, para o diabo que o amassou!

 

Sinto-me a fraquejar. Sinto-me perdido, sem forças para encontrar o norte. Sinto-me como uma bússola sem agulha. Sinto-me... não sei como me sinto.

 

Chove, continuamente.

 

Eu deixo-me morrer.

Quando o tempo vier

por Ismael Sousa, em 27.10.18

A tarde emergiu de uma neblina que durante toda a manhã cobriu a cidade. As folhas amarelas e vermelhas esvoaçam pelos ares, bailando ao ritmo que o vento vai brincando com elas.

 

A cidade vive o seu frenesim de um sábado à tarde. Misturo-me por entre a multidão que se passeia pela cidade. Os rostos vão pesados e meios tapados por causa do frio que se faz sentir. Não sei se existe um sorriso em seus rostos ou os lábios descaídos de tristezas. Sentei-me no café onde habito. Sim, onde habito, pois passo aqui tanto tempo que é quase como um compartimento de minha casa. Sento-me na mesa do costume, gasta pelo tempo, onde a cor castanha começa a ganhar terreno em relação à preta. O habitual café não tarda em chegar à mesa como um hábito. Fumo o meu cigarro de olhar posto no frio que se faz sentir lá fora, na rua de outono, numa tarde de outono.

 

É curioso como o inicio das estações tende a inspirar os escritores e pintores, de uma forma desconhecida, levando-os a escrever, ou pintar longos textos ou belo quadros. É uma inspiração da natureza que nos cresce, deixando-nos sem forma de a contornarmos.

 

Um caderno preto diante de mim, o café que queima na chávena de porcelana branca, o cigarro que ainda esfumaça no cinzeiro de vidro. Retiro dos ombros o sobretudo com padrões cinzentos e brancos, colocando-o sobre as costas da cadeira, de uma forma trapalhona. Deixo-me estar com o cachecol com os mesmos tons ao pescoço, um casaco verde tropa e uma camisola de gola alta. Abro o caderno, tirando-lhe a virgindade com algumas palavras escritas em folhas soltas. Um caderno onde quero perpetuar a minha memória, onde quero ser de alma e coração. Não interessam as opiniões exteriores a mim, não interessam os pensamentos de outros. Um caderno onde eu sou aquilo que sempre sou, de forma pura e verdadeira, sem máscaras nem sentimentos oprimidos. Comprometi-me a escrever estas palavras de uma forma tão minha, sem os tabus onde tendo em me prender.

 

Mas a vida que ambiciono, que desejo que seja minha não me deixa deixar de pensar nos esforços que sempre faço em ser a cada dia que passa, mais eu, de uma forma que possa viver tão livre quanto o voo de uma gaivota. Uma lágrima escorreu-me pelo rosto, um olhar vazio e triste para uma sala tão cheia de gentes, tão vazia de atenções.

 

Observo tudo em meu redor. Sinto os cheiros, tendo adivinhar que infusões estão a tomar os que residem em meu redor. Há uma mulher solitária e de olhar ferido a duas mesas de mim, um homem que se aquece na chávena do café, enquanto espera por alguém. Existem crianças a correr, outras sentadas, famílias e amizades em cima das mesas. E eu, no canto, onde acaba a parede de pedra e começa a vidraça, onde bate o sol já meio frio de um outono que se começa a sentir rigoroso.

 

Espalhei as folhas sobre a mesa. Algo começava a não fazer sentido neste passado que existia em mim, neste pedaços de escrita que teimo em guardar mas que já não fazem sentido absolutamente nenhum.

 

Rasgo a primeira folha. Fecho os olhos e tento esquecer o que me rodeia, aquilo que está em meu redor. Tento encontrar o caminho para o meu coração.Há um lugar vazio e abandonado, onde pedaços já desmoronaram, onde as paredes perderam cor, onde só existe o nada e o abandono. Cruzo a porta que me fecha o coração, rebentada como que num assalto, deixando ver o interior para quem quer que dele se abeire. E a vida e os sonhos, os sentimentos e as pessoas abandonaram aquele espaço feio.

 

Vivi, em demasia, da superficialidade, no sentimento falso e sem reciprocidade. Questiono-me, tantas vezes, o motivo pelo qual, certos aspetos na minha vida não resultam da forma como eu tanto luto por eles. Sinto que por vezes a vontade de baixar os braços é maior que a de lutar de uma forma brava, de lutar por aquilo que ambiciono, por aquilo que desejo, por aquilo que eu acho que mereço. Ou talvez seja este pensamento errado, o achar que mereço algo que, na verdade, eu não mereço.

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O sol foi coberto pelas nuvens negras, cheias de chuva que o forte vento trouxe. Anoiteceu, de forma repentina, trazendo o frio psicológico ao espaço onde antes estava um calor outonal, um calor de corações e de gentes. Acabaram-me os cigarros. Levantei-me e fui comprar mais. Pedi uma infusão e sentei-me, de novo, a olhar pela vidraça. As primeiras pingas de chuva caíram na vidraça, ofuscando a visão clara que se tinha da rua. Lá fora as pessoas correm de um lado para o outro. Todos fogem, só eu fico.

 

 

Fecho os olhos de novo, sinto a chávena e o bule a pousarem em cima da mesa. Concentro-me ainda mais, tentando abafar o ruído dos meus pensamentos. Uma grande cidade surge na minha mente. Vejo os seus edifícios, vejo as pessoas que circulam, com rostos indecifráveis. Alguém caminha na minha direção. Cara séria, sem sorriso nem tristeza. Caminha em minha direção, como se eu não estivesse ali. E num breve momento atravessa-me. E nesses milésimos de segundo, a minha alma fica fria. Reconheço todos os seus sentimentos, reconheço os seus pensamentos. Sinto, que em si, existe uma tristeza grande que contrasta com tanta felicidade em outros campos. Sinto que deseja abandonar algo que procura e pelo qual já sofreu tanto. Que deseja baixar os braços, tentando seguir em frente, abandonando tudo aquilo que tanto desejava, talvez por falta de forças, talvez pela forma como não foram com ele. Sinto o desejo do abraço que lhe falta, a forma como se dá por inteiro aos outros. Sinto a dor e a falta de tanto que deveria ter recebido.

 

A chuva parou e as nuvens cinzentas começam a dissipar-se. Acabei a infusão e sinto a necessidade de me recolher no meu canto, onde nada mais para além do silêncio existe. Quero refugiar-me pela falta que tive, por aquele pensamento que me perturbou. Sinto, que algures neste mundo, uma alma existe assim, longe dos meus braços para abraçar. Sinto, ainda, a tristeza de quem não consegue sorrir mas que possui uma alma tão pura, uns olhos tão brilhantes, vida onde menos espera. 

Tarde outonal

por Ismael Sousa, em 21.10.18

Pensamos a poesia enquanto absorvemos aquilo que nos rodeia, deambulando pelas ruas tão cheias de gentes e tão despidas de sentimentos. Sentimos a poesia em cada olhar que trocamos, em cada pensamento que desejamos ter. A poesia é muito mais que palavras: é vida, é emoção, sentimentos e tantas coisas mais. A vida, tantas vezes a vida.

Um final tarde de outono, num domingo um pouco solarengo. As chuvas caíram tímidas e rápidas, abandonando rapidamente o espaço que lhes pertence. Dois bancos de jardim, individuais e colocados lado a lado. Um jardim no centro da cidade, praticamente abandonado e utilizado, somente, por meia dúzia de indivíduos. Alguns levantam-se do sofá para se sentarem num banco do jardim, banco comum de dois ou três. Um pouco de conversa, matar o tempo que é de mais trazido pela reforma e pelo abandono da família.

Abandonei o trabalho que me aborrecia e caminhei por espaços que conheço tão bem, com tantas estórias para contar. Vim sentar-me numa outra esplanada, livre de tudo o que me possa aborrecer. Estou só. Eu e os meus pensamentos. O pequeno lago, o arvoredo ainda verde diante de mim e o sol que ilumina o convento caiado de branco. Um café, pensamentos e muitos cigarros. São os cigarros que fumo, os cafés que tomo, a vida que tenho que me fazem penetrar neste abandono sozinho, numa espécie de introspecção e avaliação do “eu” de hoje. O passado é um premissa importante a ter em conta. O futuro a conclusão de vários pensamentos.

Existe, em mim, a necessidade de desvendar algumas suspeitas, de me desligar de passados e pessoas que nada me ajudam. Vivo isolado no meu mundo, escondido por sorrisos que não são os meus! Deparo-me, comigo mesmo, tantas vezes excluído dos espaços onde me encontro. As conversas são paralelas e não me incluem no seu leque. Amigos, colegas, namorados, nas conversas que lhes interessam, concentrados nas suas vidas. E eu, ali, na exclusão. Não que o façam propositadamente, mas por não haver o que falar. Sou, como lia num destes dias em O Paraíso Segundo Lars D., uma ilha difícil de alcançar, onde o espaço de água que a separa do pedaço de terra mais perto tende a aumentar. O fechar-me em mim por não encontrar quem se corresponda comigo, pelas ausências e pelos silêncios, pelas atitudes e desinteresses.

Falo, de forma indireta, diversas vezes, sobre os sentimentos que invadem, tantas vezes o meu coração. Falo talvez da pior forma e sinto que de alguma maneira exagero na forma sentimental como falo. Canso as pessoas com sentimentos tristes e duros, sempre com o mesmo sentimento. A mim basta-me errar uma vez mesmo que perdoe mil. Um simples erro meu faz crescer um enorme transtorno em meu redor, um afastamento e silêncios que eu tento oprimir com demasiadas coisas em meu redor. Mas chega uma altura em que o silêncio é o abandono perduram mais que eu desejo.

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Compreendo e aceito a negatividade e aborrecimento da minha pessoa, no fardo difícil que por vezes posso ser para as pessoas que vivem comigo. Sou uma alma infeliz, um corpo triste, um ser sem vida. Os sentimentos corroboram-me mais que aquilo que por vezes eu desejava. Tento ser diferente, tornar-me diferente, mas os segredos e sentimentos que oculto em mim tornam-me impotente e sem capacidades pra mudar.

Falta-me amor, falta-me vida, falta-me ser. Sou palavras tristes, sou o poema da dor, o texto do sofrimento, a encarnação da angustia. Sou o desinteresse, a vida fútil e necessária somente na necessidade de outrem. Oprimo-me, deixo de viver, deixo de ser, deixo-me.

O café esfriou, o sol já não aquece, os cigarros acabaram. Os dois bancos de jardim, diante de mim, individuais e colocados lado a lado, continuam vazios, sem enamorados que ali pousem, sem almas solitárias como eu. O mundo, a distância, a vida. O vento já sopra frevo, as lágrimas já deixaram de escorrer. Moedas em cima da mesa, isqueiro no bolso e os passos de retorno a uma realidade constante da minha vida. Novamente os espaços, as memórias e a falta das palavras. Novamente no meu espaço, no meu mundo onde não reside ninguém. A ilha que sou cada vez mais distante do mundo que a rodeia, impossível de alcançar alguém, inalcançável por ninguém. Melhor assim: a dor e a angústia que sinto guardo-as para mim. O sorriso de palhaço no rosto novamente e a vida que não para nem me permite ficar preso num espaço e tempo.

E voltaram as chuvas!

por Ismael Sousa, em 17.10.18

Voltou a chuva. Voltaram os ventos frios, as manhãs nebulosas, os dias cinzentos. Voltou a chuva.

 

Dou por mim irrequieto, sem vontade ou motivação que me valha. Sinto-me vazio, abandonado, com a aura negra, sem vida. Percorre-me na mente as pessoas que fui perdendo ao longo dos tempos. Recordo os seus rostos, os nossos momentos, as nossas conversas. Perco-me no pingo das chuvas que caem do lado de fora da janela. A saudade aperta dentro do meu peito, o sentimento de culpa por de alguma maneira ter menosprezado ou ter abandonado amizades ou pessoas ao longo da minha vida.

 

O dia hoje está cinzento, sem brilho. Não há nada que faça exaltar uma alma perdida de um horizonte que a guie. Existe a perda em demasia no meu peito, a saudade dos risos e da vontade que dentro de mim crescia.

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Tomo o meu longo café com sabor a cigarros constantes que enublam o meu pensamento num esforço enorme de não deixar que a lágrima escorra pela minha face. Sinto-me impotente, sem capacidade de fazer algo que mude aquilo que eu sou, aquilo que eu sinto.

 

O café está escuro, apesar das luzes estarem ligadas. A cobertura de madeira escura de todo o café entristece mais a alma que a acalenta. A superficialidade do momento, daquilo que eu suponho ter e não tenho. A incerteza do meu futuro, a vontade de me focar e não ter por onde me mover.

 

A madrugada da minha vida parece não ter despontado. Faltam-me as certezas e as forças, falta-me a vida, falta-me a alma.

 

Digito uma mensagem no telemóvel, apago-a. Falta-me a coragem de dizer aquilo que me vai no coração. Falta-me a força ou estou cheio de receio, da resposta que possa vir ou da mensagem que não virá.

 

O meu coração palpita incessantemente. Corre-me nas veias a fraqueza e a falta de um amor que me preencha. Apaixono-me constantemente e com muita facilidade. Preciso da atenção despendida, necessito do amor e do carinho. Sou feito de emoções, das emoções que fazem aquecer o coração. Amo o que não me ama. Uma constante da vida que se perpetua pelo tempo.

 

Voltaram as chuvas, voltaram os dias cinzentos e as longas horas dentro do café, inspirando cada palavra que escrevo na gota de chuva que escorre pela janela embaciada pelo calor de um ar artificial.

 

Preciso do tempo, do tempo que urge. Preciso do meu espaço e da minha calma, da lareira acesa, do lume que consome a madeira. Necessito do livro e do chá quente, do meu canto indiferente, onde sou eu na minha paz. Preciso do meu espaço, aquele espaço pelo qual ambiciono mas não possuo. Sou, eternamente, vazio e sem sentimento, triste e oco.

 

As palavras acumulam-se nas pontas dos dedos, querendo-lhes dar vida, querendo tornarem-se algo. Mas eu confundo-as, troco-as e as não sei expressar. Sou somente fútil e incapaz, preso a sentimentos que são tão díspares. Sou a encarnação da fraqueza e do abandono.

 

A chuva voltou. Voltaram os dias cinzentos e sem luz, o frio que leva a vida, a saudade que retoma, a melancolia que se instala. Voltaram as chuvas e a vida que eu não tenho.

Negruras

por Ismael Sousa, em 15.09.18

O caos. Tantas vezes o caos. A mente que percorre mil e um locais, memórias, pensamentos. O caos, responsável por nos fazer pensar.

Uma tarde de sol, o calor nas ruas. Eu, no meu local, refugiado de todos e mergulhado, como sempre, nos meus pensamentos.

Por vezes maldigo a hora em que o meu pensamento começou a funcionar, as horas de sofrimento da minha mãe para me parir. Tomara que não fosse concebido num momento de prazer entre dois seres humanos, gerando uma criança. Haveria de ter falhado algo, haveria de ter passado somente de uma simples ejaculação sem frutos. Mas não. Os espermatozoides decidiram nadar em direção a um maldito óvulo, criando a minha existência.

Sem sorte desde esse momento, fui crescendo ao longo de nove meses, absorvendo aquilo que a minha mãe é, aquilo que ela sentia e que tão bem me transmitiu. Maldita hora em que o cordão umbilical não torceu e eu ficasse somente com aquilo que era essência. Mas não torceu e eu continuei a absorver tudo aquilo que se vivia no exterior, a forma como a minha progenitora sente as coisas e a dedicação que põe nelas.

Devo ter sido feito numa noite de lua nova e nascido numa mesma lua nova, nove meses depois. Saí das entranhas da minha mãe e a minha sorte escorreu juntamente com o líquido amniótico. Limpo das sortes que o mundo tinha para mim, chorei a primeira vez talhando assim um futuro com mais choros que sorrisos.

Cresci, de forma diferente de todos os outros, sempre no meu mundo, sempre na minha forma de pensar, usado e abusado por tantos. A minha sorte não começaria ali. Toldei a minha vida pelo bem ao próximo em preterição ao meu próprio bem. Fui escorraçado e deitado aos leões. Depois veio a saúde que me fez ter que ter forças, mais do que as que eu pensava ter. Perdi demasiado, ganhei mais, talvez. Depois soube que me fiz de pobre coitado, centrando todas as atenções em mim. Maldita hora em que de alguma forma tentei ser diferente.

A noite já se abateu sobre mim, entre cigarros fumados com lágrimas, a longos cigarros pensativos. Tenho saudades, em mim, muitas mais que alguém possa algum dia imaginar. Sou diferente, não sou como todos os outros. Sinto de forma diferente e especial, sinto de forma triste e amargurada. Sou melancólico e triste, negro de alma e de pensamento. Deixei de esperar, deixei de acreditar. O mundo não é para mim, eu não fui feito para o mundo.

Embebedo-me nos meus pensamentos que as ausências me provocam, que os amores que senti nunca foram correspondidos. Um dia achei ser amado, mas fui somente mais um entre tantos. Tive demasiadas partidas e tão poucos regressos. Mergulhei em mim, fechando-me no escuro do meu ser sem luz que o ilumine.

Acabou o maço de cigarros, o bar vai fechar e eu vou deambular pela noite escura e fria. Vou voltar a lembrar de ti, lembrar que um dia estiveste a meu lado. Vou esperar encontrar-te numa rua escura ou iluminada pela rua. Vou esperar-te até que apareças, sentir-te até que sejamos novamente. Vou morrer na espera, desaparecer do pensamento, deixar de ser memória.

À espera que regresses. Fico à tua espera.

por Ismael Sousa, em 14.09.18

Por mais que nos seja doloroso, haverá sempre uma altura em que nos despedimos de alguém. As pessoas partem, seguem as suas vidas, de livre vontade ou forçosamente. Há outras que partem para não mais voltar, outras em que a partida é definitiva.

Custa sempre dizer “adeus”, “até um dia”.

Chorei todo o caminho que fiz, desde o momento em que te deixei até estacionar o carro em casa. Há muito que nos havíamos separado, há muito que deixávamos de estar lado a lado e que tão raramente trocávamos uma mensagem. Mas permanecias no lugar especial que um dia ocupaste. Permanecias ali. E eu, tantas vezes, tentava odiar-te, tentava esquecer-te.

“A ti…”

Não sei se tu te lembras de metade das coisas que vivemos e fizemos juntos em tão pouco espaço de tempo. Dos quilómetros que andámos juntos, das vielas e ruelas que percorremos. Dos cafés infindáveis, das histórias que partilhámos.

Não sei se tu te lembras daquele local onde me levaste por ser para ti o melhor, com a melhor vista sobre a cidade. Não sei se tu te lembras dos beijos que trocámos, dos abraços que fizemos, do sentimento que se criou.

O tempo, tantas vezes o tempo, estúpido e parvo, que traz mais reflexões que as que devia trazer. O tempo, aquele que passámos juntos, aquele que era mais nosso que do mundo. O tempo que despendemos um com o outro, as conversas e as estrelas no firmamento, os provérbios que completámos. A vida que foi tão pura durante esse tempo.

Agora despedes-te das coisas, partes para longe. Já partimos um do outro mas houve algo que sempre ficou, algo que nunca nos separou, pelo menos a mim.

E aquela noite fria, naquela sala cinzenta, onde ouvimos rádio e lemos poemas, onde escrevemos palavras que pensávamos não conhecer. A ti, quantas vezes a ti te escrevi textos, quantas vezes estivemos mais perto do que nunca, em filmes que vimos, em tanta coisa que partilhámos.

Não sei se vais, não sei se ficas. Sei o que és e o que significas e isso eu nunca vou poder esquecer.

Fica o meu abraço forte e sentido, aquele que muitas vezes trocámos e que tanto desejámos. Fico à tua espera. À espera que regresses. Fico à tua espera.

 

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Nevoeiro

por Ismael Sousa, em 11.09.18

O mar respirava diante dos seus olhos, rebentando calmamente na areia que brilhava com o sol imenso que se sentia, parecendo um areal de ouro. As gaivotas esvoaçavam pelos ares, banhando-se do imenso sol, pairando na suave brisa que se ia sentindo. Tudo, naquele quadro que se podia ver à distância, parecia bem. Uma alma que olhava o infinito de uma paisagem para além de bela.

 

Os seus olhos fixavam o firmamento, sem qualquer movimento do corpo. Simplesmente estava ali, no seu mundo, no seu momento. Escorriam-lhe as lágrimas pelo rosto, salgadas no seu palato. Chorava pelo que perdera, pelo que não tinha, pelo que desperdiçara. Ardia-lhe o coração de uma maneira que nem ele mesmo conseguia explicar. Possivelmente, a imagem mais próxima do sofrimento que sentia, seria um coração apertado pelos grilhões dos erros.

 

A memória, tanta vez a memória. Essa maldição que lhe trazia sempre tão maus momentos, porque esses, os maus momentos, os erros, as asneiras, eram o que mais saltavam à memória. Recordava com força aquilo que de bom tinha vivido, mas depois voltava a mágoa, aquilo que fez destruir tudo.

 

Chorava intensamente cada lágrima. Escorria-lhe pelo rosto, marcando todo o percurso que fazia. Chorava na solidão tentando suavizar a dor que sentia. Somente o abanar da cabeça em sinal de reprovação o diferenciava de uma miragem, de uma rocha, de um boneco. Reprovava-se a si próprio. Queria gritar, mas as suas forças não o permitiam. Somente as lágrimas exteriorizavam o seu sentimento. Somente as lágrimas sabiam tudo aquilo que se passava no seu interior, porque estas eram também o seu interior.

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O sol começava agora a mergulhar em direção ao mar, tornando castanha toda a areia, avermelhando o mar azul e calmo. O seu peito ardia incessantemente. As lágrimas secaram, o sabor a mar deixava agora de existir. Somente um olhar vago e triste, sem vida, baço.

 

Ergueu-se. Caminhou até ao precipício. Nada fazia mais sentido. A sua vida não tinha propósito, a sua vida não lhe permitia mais. Amava de forma imensa e raras eram as vezes em que se sentia amado. Precisava morrer, desaparecer, deixar de existir. Em seu peito palpitavam segredos a mais, palpitavam ações escondidas. Tudo haveria de morrer, tudo haveria de desaparecer, deixar de existir. O precipício, a morte, ali, diante de um passo, tão fácil de dar, mas que uma vida inteira distanciava.

 

O mar, avermelhado, tornou-se ainda mais vermelho. O mar, ainda mais vermelho, zangou-se e batia agora de forma bruta contra os rochedos, ressaltando pelo ar, num enorme grito de socorro e fúria. A areia já não valia nada, nem ouro como antes haveria de ter sido tomada. O mar sangue, vermelho, furioso, tornava-se negro. O sol já não brilhava mais, havia mergulhado para as profundezas do oceano. Em redor tudo era sombra e penumbra, tudo era negro. O nevoeiro ganhou vida, tomando como seu todo aquela paisagem que antes parecia perfeita. Não haviam lágrimas, não existia ouro, não havia calma. Somente a tempestade, somente o negro, a morte que o clima indicava. Alguma coisa ou alguém morreria, haveria de morrer, pois o nevoeiro não se apodera sem levar alma consigo.

 

O silêncio. Já nem o mar bramia nem o vento soprava. Já não se ouviam os guinchos das gaivotas. Tudo era noite. Somente, por entre a neblina da noite, do nevoeiro que haveria de levar recompensa, a luz do farol que guia, que conduz, que avisa.

Metamorfoses de trovões!

por Ismael Sousa, em 04.09.18

A trovoada possui os céus lá fora, enchendo de luz toda a escuridão da noite. Não cai uma gota de chuva, somente a secura de uma trovoada de verão inundando de luz onde o sol há muito deixou de brilhar. Pela janela do meu quarto entram esses clarões de essência, dando existência a tudo o que está em meu redor durante breves instantes.

 

Estou deitado na cama, mergulhado no silêncio possível, submerso em pensamentos. De olhos fechados recordo cada traço do teu rosto que parece estar mesmo a meu lado. Sinto o teu cheiro que me tolda o pensamento. Os meus lábios sentem os teus lábios carnudos e dóceis, suaves e doces. Sinto o teu corpo junto ao meu, mesmo não estando. O teu respirar cai sobre mim e os teus lábios ainda percorrem o meu pescoço. O calor da tua pele, o sabor dos teus braços em torno de mim. Apertados, como se nos quiséssemos tornar um só. Esse calor apertado, esse abraço que não deixa de existir.

 

Cada palavra que escrevo se parece tão insuficiente para descrever aquilo que sinto. Mais um clarão, a breve existência em redor de mim. Tudo ganha vida tão brevemente e a minha realidade inferniza-me sabendo que não estás aqui.

 

Possuis-me mesmo não estando. Sinto-te presente na ausência que vivemos. E os teus lábios suaves nos meus, os meus dedos em tua face, eu e tu, nós e nada mais.

 

Sinto-me enfeitiçado, na estranheza e incerteza daquilo que vivo ou sinto. E estes breves instantes de uma existência real ou imaginária tornam-me vulnerável e inseguro. O meu coração fala-me mais que a razão. Sempre falou. Um dia irei arrancá-lo se me voltar a fazer sofrer. Irei atirá-lo para as profundezas do mundo para que ninguém o coloque em seu peito. E se um dia eu voltar a chorar por coisas que o coração me faça sofrer, regarei as flores do meu canteiro, para que nasçam e gritem ao mundo que o coração só faz sofrer.

 

E em amanhãs que me perca de esperanças infundadas, que no fim finde a minha vida junto ao mar das saudades que tanto sinto, morto por um clarão qualquer que me rodeie e tire de mim a vida que me sustenta, homem sem lágrimas e sem coração.

 

Novamente um clarão, vida por um instante, coração palpitante, lágrimas secas, razão censurada. Pensamentos e vida, eu e tu, nós se existir um nós. E o bater do teu coração, peça indispensável de vida, junto ao meu peito, o ar que te insufla os pulmões e me aquece o pescoço. E eu e a minha saudade. E eu e a minha existência.

 

E de novo os teus lábios carnudos, o teu corpo contra o meu. E o medo que me assola de ser mais um momento. É um último clarão, fraco, inundando fracamente tudo em meu redor. O último, o final, o derradeiro. E eu que me deixei levar pelo sono sem mais saber que existências terei no amanhã que surgirá tão certo como as estrelas brilharem mesmo por detrás das nuvens carregadas de raiva e energia. E nesse amanhã não saberei se eu estou. Talvez este último, derradeiro, final clarão me retire a vida, deixando o corpo frio, sem movimento, sem bater de coração.

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Encruzilhada

por Ismael Sousa, em 02.08.18

Seria um fim de tarde perfeitamente normal, aos olhos dos que percorriam as ruas da cidade.

 

O rio corria na sua calma que lhe é tão característica, dividindo-se por entre os pilares da histórica ponte. O sol caiava de laranja todo o espaço que percorria, espelhando no rio as árvores e arquiteturas mais próximas. Voavam andorinhas no ar, livres e ao sabor da pequena brisa que se fazia sentir. Uma tarde perfeitamente normal, um fim de tarde como tantos outros, num dia comum.

 

Junto ao varandim, de ferro gasto pelo tempo, expectador de tantas histórias de amor, de tantas lágrimas e desesperos, encostava-se alguém, com o coração apertado e o olhar perdido na imensidão do infinito. O mundo corria, sempre, indiferente. Sentava-se, voltava a levantar-se. E de novo se sentava, os óculos de sol a girar sobre os dedos, a cabeça pousada na palma da mão. Fervilhava cada milímetro do sistema nervoso. Percorriam-lhe os pensamentos pela cabeça, como seria, como não haveria de ser. O coração palpitava no peito, quase que saltando-lhe pela boca. Reviravam-se-lhe todas as entranhas, o medo e a ansiedade tomavam conta dele.

 

O tempo passava de forma lenta e acelerada ao mesmo tempo. Um miscelânea incapaz de ser compreendida, uma tempestade de sentimentos. O rio continuava calmo, o sol tornava-se cada vez mais vermelho. Circulavam gentes, voavam andorinhas. Uma voz, atrás um salto no coração. Levantou-se, corou, os nervos aumentaram.

 

Vieram as primeiras palavras ditas ao acaso, num cumprimento cordial e sem qualquer sentimento aparente. Só ele sabia o quanto estavam carregadas de sentimentos aquelas primeiras palavras. Depois, calmamente, veio o abraço apertado, o abraço que acalma, que não deveria ter fim, somente princípio e entretantos.

 

Passaram o rio ainda com tão poucas palavras ditas e com tanto ainda por dizer. Um café, uma esplanada, um coração que era agora paz.

 

É incompreensível a razão que faz o coração palpitar assim, de uma maneira estranhamente estranha. Há borboletas no estômago que só conhece quem sente.

 

O sol brilhava de uma forma especialmente especial. Viviam-se vontades e sentimentos, coisas que quase ninguém conseguia perceber.

 

Cada traço, cada olhar, cada pequeno gesto era agora percetível. A verdade estava ali, na sua forma mais pura. Houve a ânsia, o nervosismo, mas naquele momentos só a calma. A tempestade transformara-se em bonança, a calma o reflexo do nervosismo. O rio corria calmo, o sol quase que se pusera e já não notava se havia andorinhas pelo ar.

 

Num olhar comum, tudo seria normal. No coração tudo era diferente e especial. A estranheza acabara, a verdade revelara-se. As horas já eram galopantes, saltando de dez em dez minutos, fazendo passar o tempo na metade daquilo que se pensava na realidade.

 

A magia que existia no ar, a magia que existia nos sentimentos. Um coração palpitante e ansioso, era tudo o que havia para dar. Por entre os abraços e os beijos, as mão unidas ou os braços apertados, viveu-se num mundo de magia, aparentemente normal.

 

Depois, depois cresceu a saudade numa forma muito maior. Cresceu o sentimento em tudo aquilo que a vida tem para dar. Teme-se o futuro mas existe a vontade de lutar. E num amanha ainda maior e mais persistente, a vida não deixa de ser vivida. O sentimento e a saudade, de mãos dadas, vão crescendo cada um na sua medida. Um cresce para nunca acabar, o outro para se ir diminuindo cada vez mais.

 

Um coração que no silêncio e no desconhecido palpita por alguém lá longe, por amores conhecidos.

 

Este sentimento que cresce e vive, este sentimento que não deixa de existir. De tantas leituras ainda não se conseguiu encontrar forma mais bela para se descrever aquilo que se sentiu. Os sentimentos escrevem-se mas não se explicam no papel nem em palavras. Somente sentindo e proferindo palavras verdadeiras que correspondam aquilo que se sente.

 

A noite, a maior amiga e a maior inimiga dos amantes, chega e destrói. Mas existe sempre algo que perdurará no tempo, haverá sempre algo guardado em memórias, essas que são e serão sempre maiores que as palavras que se escreve um dia.

 

E no silêncio da noite, na escuridão de um quarto, ainda se sente o seu cheiro.