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Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

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por Ismael Sousa, em 07.10.18

Tudo o resto é passageiro. Tudo é fútil e nunca de nada serviu. A vida é feita desta maneira, a vida é feita assim.

Não guardo arrependimentos dentro de mim, não guardo ódios nem rancores. Guardo mágoas e saudades, guardo sentimentos que só eu conheço. Guardo o mundo inteiro e as memórias que tenho dele. Guardo os cheiros e as noites, os abraços que cruzámos e já não existem. Guardo as palavras que trocámos, guardo o mundo que vivemos. Eu serei sempre a vaga memória de um passado distante.

Tentei sorrir, voltar a acreditar. Pensei que desta vez fosse diferente e que a distância tivesse aproximado. Mas fui parvo em voltar a acreditar, fui parvo em voltar a recordar. Eu sabia que me ia magoar, eu sabia que nem deveria arriscar. Mas o amor que senti foi mais forte do que eu. O amor que sinto não me deixa avançar.

Caiu a noite sobre a cidade e eu estou abandonado nos meus pensamentos, solitário no meu sentir. Um dia teria de acabar. Um dia seria hora de seguir. Mas o amor não escolhe quando é o tempo para acabar, o amor não escolhe quando é o tempo de partir.

Amar-te será, durante tempo, o meu maior problema. Não se ama pelos dois, não se pode amar por quem não ama. Somente as lágrimas conseguem compreender o amor que as faz correr. Somente as lágrimas conseguem revelar o sentimento que há tanto está por desvendar.

Mundo ingrato e infértil. Mundo onde todos somos passageiros. Mundo de dor e saudades, de mágoas e verdades. Não interessa a sua dureza, são verdades que temos de acumular, são verdades que temos de desvendar e confraternizar.

Não vale a pena fingirmos ser aquilo que na verdade não somos. Não vale a pena andar-se com rodeios, se tudo aquilo que desejamos acabamos por não ter. A vida é mesmo assim, a vida continuará a ser assim. De nada nos vale fugir ou esconder. O mundo sempre incansável nos parecerá.

"Cristina": a vergonha de uma capa!

por Ismael Sousa, em 07.07.17

“Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.”

 

Todos os dias somos bombardeados com coisas que nos escandalizam, com coisas que vão contra os nossos princípios, bem como aquilo que consideramos normal. Todos os dias o mundo está em constante mudança, em constante evolução, em inevitável mudança. Coisas novas se descobrem, novos assuntos são trazidos à ribalta. Este é o mundo onde nasci, o mundo onde vivemos. É a razão humana e a ininterrupta evolução de Darwin.

 

Crescemos com as nossas ideias, com aquilo que vamos apreendendo e formando na nossa mente, segundo costumes e tradições. E como seres humanos que somos, vamos classificando como bom e mau aquilo com que nos defrontamos. Há ideias e ideais que mantemos, outros que revíramos totalmente e ainda aqueles que vamos moldando. Somos inerentes à mudança. O que hoje estranhamos, amanhã entranhamos.

 

A bomba rebentou com uma partilha nas redes sociais e outros meios. Na véspera do lançamento mensal da afamada revista “Cristina”, a diretora da revista, a própria Cristina Ferreira, partilhou as duas capas possíveis de encontrar nas bancas, no dia seguinte. Sob o título “isto choca?” onde se via Cristina Ferreira a beijar um homem, apareciam mais duas capas, aquelas que sairiam para as bancas: duas mulheres a beijarem-se e dois homens a beijarem-se. O caos, a polémica, a controvérsia estavam instaladas. As reações foram inúmeras, tanto positivas como negativas. E, para mim, surge o escândalo.

 

Vivemos em pleno século XXI. Celebrámos, há poucos dias, a abolição da pena de morte em Portugal, fizemos história neste último ano. Acreditamos numa mentalidade aberta e em mudança. Pelo menos eu acredito, mas parece-me que me desiludi. Sempre acreditei nas pessoas e na sua capacidade de mudança, mas ontem senti vergonha. Vergonha e desilusão. As redes sociais facilitam-nos em ver tudo, principalmente quando as coisas não são boas, parecem um vírus que se espalha com uma enorme rapidez. A capa da revista “Cristina” estava a chocar o povo português que se sai com o seu pior lado. Os comentários que apareceram não são dignos de serem citados. Há linguagem e homofobia em exagero. O lado negro dos portugueses demonstra-se.Vivemos no século XXI mas com uma mentalidade do século XV.

 

A capa da revista é polémica, sem dúvida, porque é das poucas (se não a única) a mostrar algo deste tipo em Portugal. Como tudo há quem goste e quem não goste. Mas daí a mostrarem a sua ignorância, vai um grande passo. Não concebo, na minha ideia, que se digam tantas barbaridades como as que foram ditas. Fala-se em aceitar ou não aceitar. Para mim, ninguém tem que aceitar ou não aceitar. As pessoas gostam do que gostam e cada um tem a sua ideia. Temos que respeitar. Somos livres de ter a nossa opinião, livres da expressar. Mas quando isso interfere na dignidade do outro, não temos direito nenhum. A minha liberdade acaba onde começa a do outro.

 

O beijo entre dois homens tem sido o principal motivo de todo o escândalo. Sobre o beijo entre duas mulheres, poucos se manifestam de forma tão agressiva. Algumas pessoas falam no que está capa poderá fazer aos seus filhos. É muito estranho que isso aconteça, que dois homens aos beijos seja “traumático” para uma criança. E uma mulher/homem despidos nas capas de revistas nas bancas?! É uma criança morta numa praia?! E a guerra?! Isto não é traumático?!

 

Comecei este texto com o primeiro artigo de “Os Direitos do Homem”. “Iguais em dignidade e direitos”, mas parece que não. Parece que só alguns podem usufruir disto. Cada vez mais se assiste a uma desvalorização de valores. Na televisão existem programas totalmente sexuais, onde a traição e o “eros” é o principal. Valorizam-se corpos em vez de personalidades. Mas isso é correto. Agora aceitar que dois seres do mesmo sexo se amem, que vivam em valores e dignidade, não! Isso é contranatura.

 

A minha opinião/posição em relação a esse tema, guardo-a para mim. Se me escandaliza? Não! Em minha casa, ao contrário de muitas, a revista “Cristina” entrou, como todos os meses. Os artigos estão lidos. Contra tanta coisa, sinto-me feliz por aqueles dois casais serem felizes, por viverem com mais valor que muitos casais heterossexuais. É preciso ter coragem para lançar uma revista com uma capa destas. É preciso ir contra muita coisa. É preciso fazê-lo. Contra todos os riscos, contra todos os tabús. O tema está mais que presente na nossa sociedade, temos que viver com ele.

 

A diferença é sempre contraditória. Eu, por várias vezes, fui rotulado de “gay”, somente porque não namorava, porque não namoro. É uma opção minha, mas isso mexe com as pessoas. Todas as semanas ouço que tenho de arranjar uma namorada, uma pessoa para a minha vida. E quem disse que quero?! Porque não posso viver sozinho e mesmo assim ser feliz?! Porque temos de ser todos iguais?! Cada um sabe da sua vida e vivi-a da forma que se sente mais feliz! Sou diferente e isso incomoda muita gente. E como eu, muitos sentem a dor da diferença, a rejeição dessa ideia.

 

Parabéns Cristina Ferreira pela coragem de derrubares tabús, pela coragem de seres diferente, por falares no que muitos não falam. Obrigado Cristina Ferreira por, com esta capa, ajudares tanta gente, por criares incómodo, por trazeres a público aquilo que se fala por entre dentes. Espero, sinceramente, que com isto abras mentes, abras portas de armários. Ser gay, bi ou hetero, são todos seres humanos. Temos todos direitos, como temos todos deveres. Aceito e gosto da diferença. Obrigado aos casais que posaram para as capas. Obrigado por tomarem essa coragem mesmo sabendo as represálias que poderiam vir a sofrer.

 

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