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Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

...

por Ismael Sousa, em 07.10.18

Tudo o resto é passageiro. Tudo é fútil e nunca de nada serviu. A vida é feita desta maneira, a vida é feita assim.

Não guardo arrependimentos dentro de mim, não guardo ódios nem rancores. Guardo mágoas e saudades, guardo sentimentos que só eu conheço. Guardo o mundo inteiro e as memórias que tenho dele. Guardo os cheiros e as noites, os abraços que cruzámos e já não existem. Guardo as palavras que trocámos, guardo o mundo que vivemos. Eu serei sempre a vaga memória de um passado distante.

Tentei sorrir, voltar a acreditar. Pensei que desta vez fosse diferente e que a distância tivesse aproximado. Mas fui parvo em voltar a acreditar, fui parvo em voltar a recordar. Eu sabia que me ia magoar, eu sabia que nem deveria arriscar. Mas o amor que senti foi mais forte do que eu. O amor que sinto não me deixa avançar.

Caiu a noite sobre a cidade e eu estou abandonado nos meus pensamentos, solitário no meu sentir. Um dia teria de acabar. Um dia seria hora de seguir. Mas o amor não escolhe quando é o tempo para acabar, o amor não escolhe quando é o tempo de partir.

Amar-te será, durante tempo, o meu maior problema. Não se ama pelos dois, não se pode amar por quem não ama. Somente as lágrimas conseguem compreender o amor que as faz correr. Somente as lágrimas conseguem revelar o sentimento que há tanto está por desvendar.

Mundo ingrato e infértil. Mundo onde todos somos passageiros. Mundo de dor e saudades, de mágoas e verdades. Não interessa a sua dureza, são verdades que temos de acumular, são verdades que temos de desvendar e confraternizar.

Não vale a pena fingirmos ser aquilo que na verdade não somos. Não vale a pena andar-se com rodeios, se tudo aquilo que desejamos acabamos por não ter. A vida é mesmo assim, a vida continuará a ser assim. De nada nos vale fugir ou esconder. O mundo sempre incansável nos parecerá.

Metamorfoses de trovões!

por Ismael Sousa, em 04.09.18

A trovoada possui os céus lá fora, enchendo de luz toda a escuridão da noite. Não cai uma gota de chuva, somente a secura de uma trovoada de verão inundando de luz onde o sol há muito deixou de brilhar. Pela janela do meu quarto entram esses clarões de essência, dando existência a tudo o que está em meu redor durante breves instantes.

 

Estou deitado na cama, mergulhado no silêncio possível, submerso em pensamentos. De olhos fechados recordo cada traço do teu rosto que parece estar mesmo a meu lado. Sinto o teu cheiro que me tolda o pensamento. Os meus lábios sentem os teus lábios carnudos e dóceis, suaves e doces. Sinto o teu corpo junto ao meu, mesmo não estando. O teu respirar cai sobre mim e os teus lábios ainda percorrem o meu pescoço. O calor da tua pele, o sabor dos teus braços em torno de mim. Apertados, como se nos quiséssemos tornar um só. Esse calor apertado, esse abraço que não deixa de existir.

 

Cada palavra que escrevo se parece tão insuficiente para descrever aquilo que sinto. Mais um clarão, a breve existência em redor de mim. Tudo ganha vida tão brevemente e a minha realidade inferniza-me sabendo que não estás aqui.

 

Possuis-me mesmo não estando. Sinto-te presente na ausência que vivemos. E os teus lábios suaves nos meus, os meus dedos em tua face, eu e tu, nós e nada mais.

 

Sinto-me enfeitiçado, na estranheza e incerteza daquilo que vivo ou sinto. E estes breves instantes de uma existência real ou imaginária tornam-me vulnerável e inseguro. O meu coração fala-me mais que a razão. Sempre falou. Um dia irei arrancá-lo se me voltar a fazer sofrer. Irei atirá-lo para as profundezas do mundo para que ninguém o coloque em seu peito. E se um dia eu voltar a chorar por coisas que o coração me faça sofrer, regarei as flores do meu canteiro, para que nasçam e gritem ao mundo que o coração só faz sofrer.

 

E em amanhãs que me perca de esperanças infundadas, que no fim finde a minha vida junto ao mar das saudades que tanto sinto, morto por um clarão qualquer que me rodeie e tire de mim a vida que me sustenta, homem sem lágrimas e sem coração.

 

Novamente um clarão, vida por um instante, coração palpitante, lágrimas secas, razão censurada. Pensamentos e vida, eu e tu, nós se existir um nós. E o bater do teu coração, peça indispensável de vida, junto ao meu peito, o ar que te insufla os pulmões e me aquece o pescoço. E eu e a minha saudade. E eu e a minha existência.

 

E de novo os teus lábios carnudos, o teu corpo contra o meu. E o medo que me assola de ser mais um momento. É um último clarão, fraco, inundando fracamente tudo em meu redor. O último, o final, o derradeiro. E eu que me deixei levar pelo sono sem mais saber que existências terei no amanhã que surgirá tão certo como as estrelas brilharem mesmo por detrás das nuvens carregadas de raiva e energia. E nesse amanhã não saberei se eu estou. Talvez este último, derradeiro, final clarão me retire a vida, deixando o corpo frio, sem movimento, sem bater de coração.

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Partiu, sem aviso nem retorno!

por Ismael Sousa, em 24.04.18

Havia na sua voz um pequeno tremor. No seu coração um pequeno aperto. Longe estaria de saber que as palavras que lhe dizia eram as últimas. Despediu-se com a saudade já a apertar-lhe no peito. Sentia algo dentro de si mas não sabia se era da adrenalina que sentia se outra coisa qualquer.

Quando ria de mais assolava-o sempre o presságio de algo mau acontecer. Por essa razão evitava muitas vezes rir em demasia, tamanho era o medo que sentia. Mas havia rido pouco naquela noite sem saber que presságio maior lhe estava destinado.

A noite era igual a tantas outras mas a diferença estava nos pequenos momentos que ia gravando na sua mente para nunca esquecer. Tinha-o feito desde o primeiro momento em que sem medos revelara toda a sua vida. Nunca tinha sido capaz de entender as razões que o levaram a falar assim tão abertamente. Mas fê-lo sem sentir qualquer pudor. Trocaram muitas palavras e momentos que viveram ficaram para sempre guardados. Agora parara o carro, despedira-se. Foi a última vez que se viram e desde então o sorriso desapareceu para sempre do seu rosto.

Deixara de sorrir. Cada vez que o fazia sentia-se falso. Desde então ficou carrancudo, com os lábios torcidos para baixo. O seu semblante tornou-se pesado, as poucas lágrimas que ainda em si residiam ficavam muitas vezes em risco de correr. Já não havia um brilho nos seus olhos, já não havia luz naquele corpo. Seria só memória, passagem, recordação.

Era uma noite como tantas outras, especial nos momentos que partilharam, fatal na despedida. Houve noites em que chorou ou que quando chegou a casa bêbedo escreveu-lhe palavras que guardava dentro de si. Pensava várias vezes ao longo do dia no seu nome, na sua pessoa, nos momentos que viveram. Pensava em como era diferente a sua companhia, em como já não conseguia recordar o som da sua voz.

O tempo foi passando sem que se dessem sinais disso nem de um possível reencontro. O tempo afastou intensamente aquilo que existia, mas ele mantinha sempre acesa em si a memória desse alguém que havia feito sorrir num dos momentos que mais dor sentiu. O tempo apagou qualquer rasto de si.

Passava-lhe muitas vezes à porta. Não de propósito mas porque ali sempre fora um local de passagem. Passava e olhava na tentativa de puder rever. Mas eram esperanças vãs, esperanças que não passavam disso, esperanças. Dentro de si crescia sempre um enorme peso, uma enorme dor que se prolongava em todo o trajeto até casa, em todas as horas que depois passassem.

O tempo não esperou, somente ele esperou por alguém que não veio. O sentimento que cresceu nunca esmoreceu, mesmo em todo o tempo que passou. No seu coração negro, no seu enorme pesar e em todas as saudades, incapazes de serem saciadas, aquela pequena esperança tem-se mantido ao longo dos tempos.

A noite chegou uma vez mais. O peso de tanta coisa nos seus ombros. Continuava a acreditar e a pensar nesse outro alguém, mas morria em cada noite que adormecia. Era mais uma noite, sem palavras, isolado do mundo incapaz de o compreender. Era apelidado de dramático e, mesmo depois de tantos gritos de socorro, continuava ignorado.

Haveria de chorar tudo, um dia. Haveria de ser capaz de esquecer tudo e seguir em frente. Mas essa altura não chegava e amar foi sempre o que tentou fazer de melhor. Mas em todas as suas tentativas, sentia que falhava cada vez mais, que era fraco e indesejado.

Tentou compreender muitas vezes as razões que levaram a tal comportamento. Mas o seu entendimento não lhe dava respostas, não lhe dava nenhum sinal.

Saiu para a rua, os olhos em lágrimas. Conduziu durante quilómetros. A hora já era de um novo dia. Parou o carro algures numa estrada, perdido, sem saber onde estaria. Conduziu durante algum tempo sem destino ou orientação. E chorava. O sol do novo dia despontou. Estava ali há horas, no mesmo local. Ninguém notaria a sua ausência. E sem anúncio nem nada que o previsse, partiu sem destino e sem saber se iria recuperar, sem saber se iria voltar.

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Incompletibilidades!

por Ismael Sousa, em 23.02.18

Ouço tantas vezes a tua voz na minha cabeça.IMG_2520.JPG

Sabes, aquelas conversas que costumávamos ter? Aquelas palavras que sempre dizias? Recordo-te tantas vezes durante o meu dia.

Há tanto tempo que não escrevo. Tenho-me mandriado (nem sei se essa palavra existe). Ou talvez não. Não escrevo porque, na verdade, me falta a inspiração, porque me faltas.

Tenho deambulado por entre os meus dias, na esperança de te encontrar. Mas já não estás. Faltas-me.

Ainda agora poderia jurar que te ouvi atrás de mim, repreendendo-me pelo meu estado melancólico a que me sento a esta mesa a escrever. Ao lado do computador tenho as folhas escritas à máquina, aquelas que tu me inspiraste a escrever. No quarto, somente o bater das teclas e o tic-tac do relógio.

Saio de casa, percorro as ruas da cidade. Falam-me as paredes de ti, sentem saudades de ti. Escreveram-se e reescreveram-se propositadamente para que as lesses. Elas sabem o quanto tu gostas dessas frases soltas, escritas em paredes frias e tristes.

Dois meses corridos. Dois meses em meias palavras, em bebedeiras de ausência, ressacas de vergonha. Penso que o abandono me roubou a vida, se apoderou dela, tomando-a como sua. As coisas deixaram de fazer sentido...

Ouço tantas vezes a tua voz na minha cabeça. Já não te vejo, mas vejo-te: nos sonhos, nos pensamentos, na memória, nas tuas fotos... Ainda ouço, tantas vezes, a tua voz na minha cabeça...

Por sentir!

por Ismael Sousa, em 22.12.17

Queria puder dizer-te tanta coisa. Dizer-te com as palavras mais belas, com o maior brilho nos olhos, com a maior das sinceridades. Gostaria de te escrever o texto mais belo, a carta mais tocante, usando todos os adjetivos e formas verbais que mais belos existem. Queria dizer-te tanta coisa. Desejo-o em todas as minhas entranhas, ferve-me no sangue essa grande necessidade. Mas depois arrependo-me, os receios e os medos tomam conta de mim.

 

Tenho em mim tão bem guardado as memórias das noites que passámos juntos. Tenho gravado em mim mil e um sentimento, mil e uma palavra, mil e um gesto. E a memória mais terna dos teus olhos, dos teus lindos olhos, que me remetem para uma serenidade impossível de transcrever por palavras, impossível de transcrever em textos.

 

Somos tão diferentes. Não pensamos da mesma maneira, não temos as mesmas opiniões. O mundo surge-nos de maneiras diferentes, olhamos com outros olhos para as coisas. Somos diferentes e isso é fácil de se perceber. Mas em toda essa diferença que entre nós existe eu sinto que nos compreendemos tão bem. Talvez seja só eu que o pense, talvez tu penses de forma tão diferente. Não sei, sempre foi tão difícil ler-te.

 

Passo noites em branco, pensando em ti, recordando os momentos que partilhámos. Passo a noite desejando partilhar contigo tantos momentos. Penso em tanta coisa, em tantas hipóteses e sonhos.

 

Queria sair daqui, contigo, partirmos. Irmos para junto do mar, jantarmos num restaurante com vista para o imenso oceano, caminharmos pela noite dentro. Deitar-me contigo, adormecer no teu peito, acordar contigo junto a mim. Queria estar, bem junto, puder beijar o teu rosto suave, os teus doces lábios. Queria abraçar-te, numa eternidade, com aquela vista sobre o nosso olhar, em silêncios e palavras segredadas, em confidências tão nossas que nem os pássaros que passam junto de nós conseguem perceber.

 

Perco-me tanto e nem sei se tu também te perdes assim. Como eu gostaria de saber o que sentes, o que pensas. Saber se pensas em mim como eu penso em ti, se tens saudades. Se desejas estar comigo como eu desejo de estar contigo. Não sei, nunca soube. Mas eu sinto a tua falta em todas as manhãs, nas tardes. E nas noites quando me deito o desejo de te ter ali, comigo, adormecer junto a ti. Queria puder beijar-te, sentir os nossos rostos juntos, as minhas mãos nas tuas. E onde nos encontraremos, onde iremos?

 

E reside a saudade, a falta das tuas palavras. Faltas-me e nunca imaginarás o quanto. As palavras serão sempre só minhas, serei sempre só eu a sentir. E agora onde estarás e agora o que sentirás?

 

Não sei se lês as palavras que escrevo, não sei se sentes a forma como escrevo. Vou sair para a rua, escrever nas paredes e nos muros. Talvez consigas ler o que te escrevo, consigas perceber o que te digo. Porque sei que adoras ler o que dizem as paredes. E são tantas as palavras escritas, que encontramos nas ruelas que percorremos. São tantas as palavras que te quero dizer que somente uma rua nunca te irá dizer aquilo que estou a sentir. E de longe, daquela varanda com a mais bela das vistas, talvez leias o texto que te escrevi em todas as paredes da cidade, com palavras escolhidas a dedo para que sejam as mais belas. E no fim, talvez quando acabares de ler, consigas perceber a confusão que vai dentro do meu coração, os sentimentos que fervem dentro de mim. E todos os silêncios, todas as vezes em que faltaram as palavras, foram momentos em que te saboreei, em que memorizei o teu rosto no meu pensamento, para que na ausência, nos tempos em que estou sem ti, consiga conhecer, ao fechar os olhos, todos os traços do teu rosto, todas as linhas do teu sorriso.

  • E o quê? (com aquele sotaque)

  • Nada.

    (e tu sorrias...)

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A braços...

por Ismael Sousa, em 28.11.17

Dá-me um abraço.

Não um abraço qualquer, mas um abraço longo e demorado.

Dá-me um abraço quente.

Dá-me um abraço onde esqueça tudo o que me atormenta, onde eu me afogue em paz, conforto, carinho. Não quero um simples abraço, mas um abraço cheio de sentido.

Abraça-me de uma forma tão especial que fique marcado na memória, aonde eu queira voltar sempre, todos os dias. Abraça-me com força.

Abraça-me de tal maneira que não exista desejo de sair dele, independentemente do mundo e das suas circunstâncias.

Um abraço, a forma mais silenciosa de se dizer tanta coisa. E tanto eu quis dizer e tudo ficou dito num abraço. Um abraço quente, especial e demorado.

Quero um abraço que me inspire, que me faça desabrochar o sorriso mais sincero, que me faça esquecer tudo. Um abraço que faça esquecer toda a saudade.

Um simples e especial abraço, é tudo o que quero.

Há abraços de tanta coisa, mas só alguns são especiais. Só alguns transmitem tanta coisa que acabamos por deixar encher um coração tão partido e cheio de coisas menos boas. Um abraço que faz transbordar, que preenche. Um abraço tão especial como a pessoa que o dá. Aquele abraço que vem até nós, de forma tão inesperada. Aquele abraço que é muito mais que um abraço.

E ali ficava eu, enrolado naquele abraço numa eternidade tão longa quanto o infinito número de estrelas no céu. Infinitamente num abraço que apazigua todo o turbilhão de ideias e sentimentos mais obscuros. Ficar, simplesmente ficar, mergulhado no infindo calor de um especial abraço.

E as palavras que são tão poucas e pobres para descrever abraços tão especiais. Palavras que serão sempre poucas, insuficientes, ocas, meras palavras, vulgares. Somente o sentimento que transborda depois de um abraço tão quente.

Dá-me um abraço maior que o infinito do universo, maior que o pensamento, maior que todas as palavras que se possam proferir. Um simples e eterno abraço.

Dá-me o abraço!

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