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Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

Só podia ser da chuva

por Ismael Sousa, em 29.12.17

Amanheceu de maneira estranha. O frio e a chuva faziam-se sentir. Uma orquestra de sopros e percussões tocava no exterior da casa, tocadas pela chuva e pelo vento. Virou-se na cama e fechou os olhos, novamente, na tentativa de adormecer outra vez. Amanhecera de maneira estranha, não pensava em nada, somente o vazio. E sentia-se morto, sem sentido. Tinha de ser do tempo. A chuva deixava-o assim, vazio, sentimentalista. Tinha de ser a chuva a culpada daquele estado tão vazio, tão oco, tão sem sentido. Só podia ser da chuva.

 

O despertador não tardou a tocar e as obrigações do trabalho fizeram-no levantar-se. Chegou tarde ao trabalho, sem a menor vontade de se sentar um dia inteiro em frente a um computador, olhando o infinito, devido à escassez de trabalho que a época proporcionava. Passou um olhar rápido sobre as noticias, tomou o café matinal. Sentia-.se estranho, num dia estranho. Não consegui especificar o que sentia, nem o que pensava. Tentou escrever, mas as palavras eram mais vagas que a neblina matinal que já não existia. Somente dentro de si existia um enorme nevoeiro, impedindo a vista para a compreensão daquele estado estranho em que se sentia. Sentiu a necessidade de ler algo que dissipasse aquele sentimento, que lhe desse um pouco de luz. Era muito esquisito no que tocava à leitura. Detestava romances de cordel, detestava livros que não o fizessem sentir algo. Lia muitas coisas, mas poucas eram as que verdadeiramente gostava. Algumas leituras eram mera obrigação. Outras, excêntricos momentos de prazer.

 

Percorreu com os olhos as prateleiras da biblioteca, tentando encontrar algo que lhe rejuvenescesse a alma. Passou uma e outra vez. Decidiu-se por poesia, aquela forma de escrever que ele não dominava, mas que dizia tantas coisas, que preenchiam tantos momentos. A poesia era, para ele, a maior libertação da alma. Era nela que se diziam tantas coisas, com palavras escolhidas a dedo, com palavras fictícias e que diziam coisas totalmente contrárias ao que sentia. Um emaranhado de palavras e sentimentos, de sorrisos e lágrimas.

 

“O Medo” foi o título que lhe saltou à vista. Tinha já procurado obras daquele autor por entre os inúmeros livros que jazem nas prateleiras da biblioteca, que todos teimam em deixar morrer ali, cobertos de pó e de mofo. Abriu o livro e deixou-se escorregar pela madeira fria da estante. Mergulhou na leitura, indiferente ao que o rodeava. Mergulho na doçura das palavras, na forma indiferente como tinham sido escritas, nos sentimentos que elas despertavam. Deixou-se mergulhar naquele mundo que existia, agora, só entre ele e aquele livro de folhas amarelas, capa gasta e esbatida, com os cantos dobrados. Pela lombada percecionava-se que aquele livro não havia sido lido muitas vezes, se é que alguma vez foi lido por alguém. O gasto do livro era somente a marca dos anos, de ser empurrado de um lado para o outro, de ser deixado de parte, ignorado. E como aquele livro, outros tantos que morreram em estantes, sem que alguém tivesse interesse neles. Autênticas grutas para tesouros escondidos, aventuras por descobrir, sentimentos por explorar.

 

Mergulhou na leitura de forma intensa, saboreando cada palavra, relendo cada página. Mastigava as palavras, sentia-as como suas. A neblina, a bruma, o nevoeiro, a névoa que em si sentia, começou a dissipar-se, a tornar claro o que sentia e os seus pensamentos voltaram a emergir dentro de si. Era o maldito tempo que o fazia sentir-se daquela maneira, triste. O tempo que sempre influenciou o seu estado de espírito.

 

Afogou-se nas palavras, sentindo-se morrer e renascer novamente para um dia totalmente diferente. Corria-lhe no sangue as palavras simples e cruas, as frases escritas sem medos da opinião alheia. Li-a com que adivinhando cada palavra que se seguia à que acabara de ler. A forma poética da prosa que lia era como uma lufada de ar fresco no seu velho corpo, gasto pelo mundo e pela vida. Cada palavra “proibida” era como um novo despertar, uma nova forma de entender que aquilo que era não tinha que se sujeitar aos outros, mas ser, sempre e fielmente, aquilo que era. Cada página a revelação de que os alheios não poderiam voltar a interferir na sua vida, na forma como vivia. Sentia a genuinidade e precisava cada vez mais dela. Moldara-se durante demasiado tempo, deixando de viver, de se viver.

 

Quando submergiu do livro, as ideias em sua mente eram mais claras. Precisava acabar com os tabus que o impediam de escrever, com as opiniões que o impediam de viver e que o prendiam. Era tempo, urgia a necessidade. Não poderia desistir por causa de sentimentos tão banais. Apertou o livro contra o peito e deixou que cada palavra ficasse gravada na sua mente, no seu corpo, no seu ser. Apertou o livro contra o peito, entre os braços com o olhar no infinito.

 

Deixou-se ficar e um sorriso brotou.

 

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Mensagem Natalícia

por Ismael Sousa, em 23.12.17

Estamos mesmo às portas do Natal. Comercializados de tal forma que esta época é para nós mais um momento de dar prendinhas que propriamente viver o sentido do Natal.

 

O Natal é, para os cristãos, um momento importante do ano. É a data fixada para celebrar o nascimento de Jesus Cristo. Ele é o nosso Salvador e por isso, este é um momento importantíssimo.

Mas viver o Natal é, para mim, muito mais que isto tudo. O Natal é uma época do ano especial, cheia de uma magia que não consigo explicar. É, ou deveria ser, uma época em que não deveria haver ódios nem guerras, uma época em que devíamos sensibilizarmos-nos mais no olhar o irmão, em sermos amor, em sentir verdadeiramente. Esta época deveria ajudar-nos a crescer como pessoas, a pedir perdão pelos nossos erros. Uma época em que deveríamos deixar de lado as diferenças e abraçar aquele que sofre, reconciliarmos-nos com quem andamos de costas voltadas. Esta época é a reta final de um ano, a altura de começarmos a fazer uma avaliação daquilo que foi para nós, como vivemos, os aspetos positivos e negativos.

 

Enfeitamos as ruas e as casas com tantas coisas alusivas ao Natal. Contamos histórias que nada tem a ver com o Natal, dando protagonismo a uma imagem inventada por uma marca de refrigerantes. Atarefamos-nos em comprar prendinhas para toda a gente sem pensarmos que o verdadeiro sentido é o amor.

 

Estamos no Natal e, crente ou não crente, gostando ou não do Natal, sugiro que estes dias sejam cheios de amor. Que prefiram uma verdadeira mesa, rodeada com aqueles que verdadeiramente amam, em troca às mesas fartas e rodeadas de pessoas que nos dizem tão pouco. Que ao trocarem prendas não se esqueçam de dizer ao outro o quão importante ele ou ela é para vós. Vivam de amor, troquem as redes sociais por conversas entre vós. Riam, façam coisas divertidas para que nunca se esqueçam uns dos outros. Sejam verdadeiros e amigos, sejam amor uns para os outros. Bebam um café quente e umas bolachinhas de canela, em frente à lareira enquanto assistem a um filme. Saiam de casa e olhem para o vizinho que está sozinho. Façam-lhe uma surpresa, aconcheguem-lhe o coração.

 

Findo, nestes dias em que nos sentimos cheios de coisas para fazer, com os mais sinceros votos de um feliz Natal, um momento em família verdadeira, em amor e amizade. Deixem que a alegria e a magia do Natal preencha os vossos corações e que todas as tristezas sejam dispersadas neste dia. Sejam felizes numa época feliz. E, por mais simples que seja a mensagem, desejem um Feliz Natal aos que amam, mas uma feliz Natal sincero.

 

A todos, que perdem os vossos minutos a ler-me, os meus votos mais sinceros, o abraço mais caloroso: um Feliz Natal cheio de amor.

 

Ismael Sousa

 

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Por sentir!

por Ismael Sousa, em 22.12.17

Queria puder dizer-te tanta coisa. Dizer-te com as palavras mais belas, com o maior brilho nos olhos, com a maior das sinceridades. Gostaria de te escrever o texto mais belo, a carta mais tocante, usando todos os adjetivos e formas verbais que mais belos existem. Queria dizer-te tanta coisa. Desejo-o em todas as minhas entranhas, ferve-me no sangue essa grande necessidade. Mas depois arrependo-me, os receios e os medos tomam conta de mim.

 

Tenho em mim tão bem guardado as memórias das noites que passámos juntos. Tenho gravado em mim mil e um sentimento, mil e uma palavra, mil e um gesto. E a memória mais terna dos teus olhos, dos teus lindos olhos, que me remetem para uma serenidade impossível de transcrever por palavras, impossível de transcrever em textos.

 

Somos tão diferentes. Não pensamos da mesma maneira, não temos as mesmas opiniões. O mundo surge-nos de maneiras diferentes, olhamos com outros olhos para as coisas. Somos diferentes e isso é fácil de se perceber. Mas em toda essa diferença que entre nós existe eu sinto que nos compreendemos tão bem. Talvez seja só eu que o pense, talvez tu penses de forma tão diferente. Não sei, sempre foi tão difícil ler-te.

 

Passo noites em branco, pensando em ti, recordando os momentos que partilhámos. Passo a noite desejando partilhar contigo tantos momentos. Penso em tanta coisa, em tantas hipóteses e sonhos.

 

Queria sair daqui, contigo, partirmos. Irmos para junto do mar, jantarmos num restaurante com vista para o imenso oceano, caminharmos pela noite dentro. Deitar-me contigo, adormecer no teu peito, acordar contigo junto a mim. Queria estar, bem junto, puder beijar o teu rosto suave, os teus doces lábios. Queria abraçar-te, numa eternidade, com aquela vista sobre o nosso olhar, em silêncios e palavras segredadas, em confidências tão nossas que nem os pássaros que passam junto de nós conseguem perceber.

 

Perco-me tanto e nem sei se tu também te perdes assim. Como eu gostaria de saber o que sentes, o que pensas. Saber se pensas em mim como eu penso em ti, se tens saudades. Se desejas estar comigo como eu desejo de estar contigo. Não sei, nunca soube. Mas eu sinto a tua falta em todas as manhãs, nas tardes. E nas noites quando me deito o desejo de te ter ali, comigo, adormecer junto a ti. Queria puder beijar-te, sentir os nossos rostos juntos, as minhas mãos nas tuas. E onde nos encontraremos, onde iremos?

 

E reside a saudade, a falta das tuas palavras. Faltas-me e nunca imaginarás o quanto. As palavras serão sempre só minhas, serei sempre só eu a sentir. E agora onde estarás e agora o que sentirás?

 

Não sei se lês as palavras que escrevo, não sei se sentes a forma como escrevo. Vou sair para a rua, escrever nas paredes e nos muros. Talvez consigas ler o que te escrevo, consigas perceber o que te digo. Porque sei que adoras ler o que dizem as paredes. E são tantas as palavras escritas, que encontramos nas ruelas que percorremos. São tantas as palavras que te quero dizer que somente uma rua nunca te irá dizer aquilo que estou a sentir. E de longe, daquela varanda com a mais bela das vistas, talvez leias o texto que te escrevi em todas as paredes da cidade, com palavras escolhidas a dedo para que sejam as mais belas. E no fim, talvez quando acabares de ler, consigas perceber a confusão que vai dentro do meu coração, os sentimentos que fervem dentro de mim. E todos os silêncios, todas as vezes em que faltaram as palavras, foram momentos em que te saboreei, em que memorizei o teu rosto no meu pensamento, para que na ausência, nos tempos em que estou sem ti, consiga conhecer, ao fechar os olhos, todos os traços do teu rosto, todas as linhas do teu sorriso.

  • E o quê? (com aquele sotaque)

  • Nada.

    (e tu sorrias...)

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De mim...

por Ismael Sousa, em 21.12.17

Sempre me dei em demasia às pessoas. Estive sempre disponível quando elas precisaram, preocupei-me, interessei-me pelos seus interesses. Sempre me preocupei em aprender com elas, a aprender para elas. Vivia com intensidade as suas alegrias e sempre com grande pesar as suas dores. Fazia-me tudo para todos. Estava sempre pronto a servir sem esperar agradecimentos, sempre pronto para cometer a maior loucura ou ser o melhor suporte. Sempre me preocupei com o bem estar dos outros, esquecendo-me de mim, deixando de fazer aquilo que gostava pelos outros. Nunca esperei que estivessem presentes nos meus momentos mas sempre me preocupei em estar presente nos seus momentos. Fiz-me, com todas as minhas forças, aquela pessoa com que sempre pudessem contar. Esqueci-me e fiz-me sempre.

Bebo mais um gole de Gin e perco-me na imensidão de memórias que me assolam a cabeça. Um cigarro para tentar enevoar um passado doloroso. Não, não me arrependo de nada. Talvez voltasse a fazer o mesmo, mesmo sabendo a dor que isso me iria provocar. Faria-o porque em mim sempre existiu o pensamento de me dar, de tentar arranjar forma de ser interessante, de ter amigos. E foram as inúmeras vezes que ouvi os seus problemas, sobrepondo-os aos meus. E em nada me arrependo. As suas alegrias, sempre vivi em silêncio, tantas vezes esquecido. E mesmo quando me sentia a mais, teimei em ficar.

Um distúrbio mental qualquer, uma anomalia psíquica. Um emaranhado de burrice e estupidez. E mesmo assim continuei, mostrando sempre o meu sorriso, fazendo todos os esforços, com todas as minhas forças, com toda a minha energia para viver essa felicidade de outrem da qual eu não pertencia. E agora... agora dói. Dói ver que tudo foi sempre em vão, que a minha presença, as minhas ações caíram no esquecimento.

Caem-me lágrimas pelo rosto e a enorme vontade de partir tudo em meu redor. Sinto-me enraivecido, revoltado e esquecido. Sinto que não existo, que sou somente um corpo que deambula pelo mundo na busca incessante de encontrar um sentido nas minhas ações. E agora, agora não sei viver. Aprisiono-me a memórias que, confrontaras com as de outrem, seriam só lembrança minha.

Mais um Gin, mais uns quantos cigarros seguidos.

 

- Deixa-te de merdas e segue em frente!

- E isso é por onde?

- Por onde mandar o teu coração.

- Não tenho. Destruíram-no!

 

Morri. Morri mil vezes e mil vezes renasci. Sempre no outro, nunca em mim. Renasci, morri e voltei a renascer. Derramei mais lágrimas do que devia. Passei demasiadas noites em branco, fiz enormes sacrifícios.

Vazio. Oco. Sem conteúdo.

Tentei escrever alguma coisa, algo que desse andamento à minha escrita, que transpusesse no papel aquilo que tenho sentido. Mas as palavras falham-me. Não sei, uma vez mais, como começar. E toda a minha escrita se esbarra aqui. Tento, ao máximo, escrever diariamente. Mas quando não consigo começar páro, simplesmente, de escrever. Poderia escrever exatamente sobre isso, mas penso que seria mais um texto sem conteúdo algum.

Voltei aos diários de Al Berto. A sua escrita, os sentimentos que me transmite fazem-me sempre bem. Rumino cada palavra sentindo-me inspirado mas sem ser capaz de escrever algo. Desde o princípio que achei a sua escrita muito similar à minha. Mas agora, depois de o ler, sinto sempre muito receio em escrever. Temo ser uma cópia de toda a sua originalidade. Mas sinto como ele sentia, vejo o mundo da forma como ele via. Até o cheiro da terra me invade a mente. E nesta minha busca incessante de tentar escrever algo, sinto como me perco eternamente em memórias tão distantes. Faltam-me as palavras, faltam-me as emoções.

As pálidas paredes do meu quarto, oprimem todo meu pensamento. Preciso de me libertar, preciso de partir em busca daquilo que me falta. Cansa-me a monotonia desta pacata cidade onde vivo. Necessito de ir mais além.

A rotina diária começa a cansar. Começo a ficar cansado desta rotina sempre tão previsível. As manhãs são frias, o nevoeiro prende-me a vista em todas as manhãs. Há o trânsito estupidamente parvo que parece não acabar. Há a falta de algo novo, de algo que me aqueça o coração pela manhã. As pessoas já não vivem, sobrevivem. Vivem irremediavelmente sem procurar um sentido, algo que lhes faça sentir verdadeiramente, que as faça parar, que faça sentido. E neste sentir, receado por todos aqueles que vivem na sua monotonia, eu vou olhando os sonhos que não tenho durante a noite.

Tempo

por Ismael Sousa, em 13.12.17

Sentei-me à mesa do café. Liguei o computador e abri uma página para escrever. Pedi um chá, de frutos vermelhos. Tetley, preferencialmente. O cursor piscava na espera de começar a escrever qualquer palavra. Verti o chá na chávena, aqueci as mãos que estavam geladas. Lá fora a chuva caía miudinha. Estava um tempo estupidamente estúpido. O céu estava cinzento, o nevoeiro abundava em toda a cidade. O trânsito era o normal de uma tarde de dia laboral. O cursor continuava à espera de palavras que nunca mais surgiam. O nevoeiro fazia-me pensar, profundamente.

Beberiquei mais um pouco de chá, pousei a chávena e de seguida as mãos quentes sobre o teclado. As palavras não me surgiam. No meu pensamento só existias tu. Não queria voltar a escrever sobre o mesmo, aquilo que tenho escrito basicamente todos os dias. Mas tu eras quem me inspirava e só poderia descrever aquilo que sentia dentro de mim.

Escrevi uma frase, mas não gostei do que escrevi. Comecei novamente a reescrever, mas as palavras eram sempre as mesmas. Fechei a página, desliguei o computador e deixei-me ficar, simplesmente a contemplar o infinito.

Está frio na rua. Na minha mente a cena de uma sala, lareira acesa, um filme na televisão. No sofá, nós os dois, perdidos nos abraços eternos, assistindo a uma comédia francesa. E a saudade e a melancolia. E o sentimento de quanto mais tenho, mais quero ter.

Acabei o chá e saí do café. O vento que soprava era gelado. Puxei a gola do casaco e caminhei sem destino pelas ruas da cidade. Tudo me parecia cinzento, sem cor, sem alma. Cruzei uma esquina e na parede uma frase escrita. “Gosto de ler o que as paredes dizem”, disseste-me uma vez. E esta frase falava de saudade. Apertou-se-me o coração.

Caminhei sem destino e desprovido de qualquer pensamento até à baixa da cidade. O Mondego corria indiferente ao que se passava em seu redor. Abeirei-me do muro da ponte e deixei-me ficar, olhando o curso que o rio levava, indiferente a tudo em meu redor. No rio, a minha imagem refletida. Senti-te aproximar, encostares-te a mim e dizeres um “que contas?”. Mas era só imaginação minha porque o reflexo do rio continuava a mostrar somente uma silhueta. Um novo apertar no coração e a necessidade de sair dali. Fui até casa, abri a porta e perante mim o nada. Acendi a lareira, liguei a televisão e sentei-me no sofá. Um copo de vinho na mão, uma manta sobre as pernas. Pensei em ti.

Acordei com o telemóvel a tocar. A lareira estava praticamente apagada, a televisão desligada e o copo de vinho vazio no chão. Um número qualquer desconhecido. Não atendi e atirei com o telemóvel pelo sofá. Enrolado na manta, coloquei mais um cavaco na lareira e encostei-me à janela da varanda. O tempo cá fora continuava estranho e eu só queria estar abraçado a ti. Deitei-me novamente no sofá, bebi mais meio copo de vinho e deixei-me adormecer. Sentia demasiadas saudades tuas para fazer fosse o que fosse. Sentia-me perdido e vazio. E no visor do telemóvel uma mensagem tua: “Abraço-te”

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Até ao fim do mundo!

por Ismael Sousa, em 12.12.17

Não sei como começar este texto. Simplesmente não sei. Queria começar de uma forma poética, amorosa, de um forma que cativasse logo na primeira frase. Queria uma forma original, diferente, algo não tão comum como as palavras que escrevo constantemente. Queria, simplesmente, começar de forma diferente. Mas a imaginação não deixa, as palavras parecem escassear. Escrevo e apago inúmeras vezes. Simplesmente não sei como começar.

 

E porque não sabia como começar, comecei simplesmente com palavras confusas e sem intenção declarada ao inicio. Comecei e vim por aí, sem grande sentido, somente numa enorme confusão.

 

Quero escrever, sinto essa necessidade. Mas não sei sobre o que escrever. Tudo parece tão banal, tão sem sentido. Não quero falar de tristezas mas também não quero falar de amor. E estes são sempre os dois temas inspiradores de qualquer escritor. Ou somente meus, não sei. Por vezes generalizo para não me sentir tão sozinho.

 

Preciso urgentemente de escrever. Não quero falar de tristezas porque me afundam. Não quero falar de amor porque me traz saudades. Então não sei sobre o que falar. Talvez do tempo e do frio que se faz sentir.

 

- Faz frio lá fora.

- Sim, está gelado!

- Como o meu coração.

- E não há fogo que o aqueça?

- Faz frio lá fora.

- Parece que vai chover...

- Não, sou eu que estou com saudades...

- E de quem tens saudades?

- Parece que vai nevar.

 

E o mundo gira, indiferente a mim e a outros. Gira na sua enormidade, na sua grandeza, na sua infinitude. E eu perco-me a debruçar-me sobre a forma como começar. E comecei, sem dar por isso. E escrevi, num tanto sem sentido, numa tentativa de manipular as palavras que uso no dia-a-dia, sem que elas sejam especiais ou belas, mas simplesmente banais, como eu.

 

- Começou a chover.

- (silêncio)

- Parece que veio para ficar...

- Somos seres tão comuns...

- Não trouxe guarda-chuva. Vou apanhar uma chuvada.

- E se o mundo um dia parasse para pensar.

- Vou-me embora antes que chova mais.

 

E porquê que tudo tem que ter um belo inicio? Porque teremos que desvendar todos os mistérios no princípio? E a mística do ir desvendando onde está? A vontade de querer tudo saber para depois não ter nada que conversar? Surge a dúvida constantemente na minha mente. Odeio a dúvida. Odeio-a porque talvez a ame de mais, porque ela me faça questionar tanta coisa que era tão certo antes. Não sei por onde começar, nem que palavras usar. Soa-me tudo tão estúpido.

 

- Vens?

- Não, fico mais um pouco.

- Olha que depois apanhas uma grande molha.

- Gosto da chuva.

- Mas está tanto vento...

- Gosto da chuva e do vento. Do som a bater na vidraça. De caminhar à chuva e de chegar a casa encharcado.

- Não sejas doido, anda-te embora.

- Não, eu fico mais um pouco.

- Teimoso! Até logo.

- Não vás, fica comigo...

 

E em tantas reticências para começar, comecei e acabei, sem escrever nada em condições. Devaneios, loucuras. Nada mais. Comecei e terminei porque necessito sempre de terminar. Não gosto de pontas soltas e já há tanta ponta na minha vida a que eu não consigo dar um nó. Comecei e acabei sem dizer nada. Somente palavras encadeadas, loucuras mais que expressas. E todo o âmago, toda a amargura, indiferença e insensibilidade. A chuva bate fortemente na vidraça, o vento leva consigo as folhas que ainda se prendem nos ramos das árvores.

 

- Vou-me embora!

- Não vás, fica!

- Vens?

- Onde?

- Vens?

- Até ao fim do mundo.

 

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Enquanto a chuva cai!

por Ismael Sousa, em 11.12.17

Chovia intensamente. O vento soprava de forma tão furiosa que as copas das árvores entrelaçavam-se umas nas outras, quase tocando o chão. Estava uma noite de tempestade.

Adormecera no teu abraço, no teu colo. Não sei quanto tempo dormi, mas quando acordei com o rugir do vento e a chuva a bater na vidraça, tu dormias suavemente. Deixei-te na cama e fui sentar-me à secretária que estava de frente para a cama, a janela à direita e a porta à esquerda. Acendi a pequena luz do candeeiro, peguei a caneta de tinta permanente e abri o caderno de capa preta. Inspirei-me em ti, sobre a cama, o lençol a delinear as linhas do teu corpo. A caneta deslizou freneticamente sobre as folhas do caderno. Escrevi páginas e mais páginas, numa escrita que seria guardada só para mim. Nem tu, que repousas na cama as irias ler.

A chuva batia com muita intensidade na vidraça. Fechei o caderno, arrumei-o na gaveta e fitei a noite tempestuosa. Um forte trovão fez-te acordar. Fitas-te-me e eu voltei para a cama para junto de ti. Repousei a cabeça sobre o teu peito. Envolveste-me num abraço caloroso. O meu pensamento parou. Sentia-me bem no teu abraço e deixei-me ficar. Não existiam palavras entre nós, somente o silêncio. E a chuva e o vento forte que batiam na vidraça da janela. Voltámos a adormecer.

Acordei e a tempestade ainda não tinha passado. Olhei o teu rosto sereno que fitava o infinito. Passei-te a mão pelo cabelo, algo que tanto detestas mas a que eu não consigo resistir. Fechei os olhos e os teus lábios tocaram o meu rosto. Pequenos toques, suaves. Sentia o teu respirar, pesado, mas envolvido numa imensa ternura. E eu perdido em tantas emoções que era incapaz de as expressar. Optei por me deixar estar.

O teu rosto junto ao meu, num imenso mar de tranquilidade que eu aproveitava em cada segundo, marcando-o na minha memória. Os teus suaves lábios beijavam o meu rosto milhões de vezes e em cada vez era diferente, suave, carinhoso. Descobria os teus movimentos pelo ar quente da tua respiração. E sentia esse respirar tão perto da minha boca que só queria beijar-te os lábios. Deixei-me ficar, sem querer apressar nada. Entre nós nunca tinha existido nenhum contacto físico, somente em abraços bem apertados. Eu desejava beijar-te todas as vezes que te tinha comigo, mas resistia sempre a essa tentação, com medo de apressar algo que estava a ter um caminho tão belo. Deixei-me estar, calmo exteriormente, nervoso interiormente. De vez em quando abria os meus olhos e via-te perdido com o olhar no infinito. Tentei ler-te, mas como sempre tornavas-te impossível de ler. Os teus olhos brilhavam e tinhas pensamentos que eu não consegui decifrar. E uma e outra vez fechei os olhos, mergulhando em milhares de emoções.

Sim, eu sou muito emocional e todos os momentos vivo-os cheio de sentimentos, incapaz de os deixar de lado. Brilhavas intensamente na minha mente e em todos os momentos em que não estou contigo, não me sais do pensamento. A importância que fostes tomando não a consigo descrever, somente sentir. E ia sentindo todos os teus movimentos, o abraço apertado. Procurei-te o rosto, beijei-te suavemente. A tua pele é suave, cuidada, contrastando com a minha tão gasta pelo tempo, tão envelhecida. O sabor do teu rosto, gravado a fogo na minha memória para não esquecer, tornava-se cada vez mais claro.

Não sei quanto tempo passou e nem queria saber. Sentia-me confortável, seguro, e em mim só existia a enorme vontade de não querer que aquele momento terminasse. O teu abraço seguro, quente e que afastava todos os meus medos. De novo me foste beijando o rosto e eu estava tão bem, tão calmo. Mas dentro de mim crescia a tão grande vontade de te beijar, de sentir os teus lábios nos meus, desvendar finalmente o sabor de ti.

E enquanto a chuva caía indiferente ao mundo, o vento soprava, causando destruição e mostrando um pouco do seu poder e as pessoas corriam para os seus trabalhos, atarefadas, o trânsito que não avançava, nesse momento em que fora das paredes daquele quarto parecia só existir caos, os teus lábios tocaram tão suavemente os meus que eu pensei ser somente imaginação minha. Mas não. Os teus suaves e doces lábios tocaram os meus e, naquele momento, o mundo parou para mim. Milésimos de segundo, num suave beijo, foram como uma eternidade. E olhei-te nos olhos e tu não desviaste o teu olhar.

E o vento e a chuva que continuaram a cair. E nós, eu, tão indiferente a tudo em meu redor. Só existias tu, nada mais faria sentido. E um outro beijo e eu aninhei-me no calor de ti, no conforto do teu abraço, na paz do teu colo.

Sou ambicioso e quero sempre muitas coisas. Quero mais e mais. Mas ali, naquele momento, eu não quis mais nada, somente ficar eternamente ali. E o teu sorriso, o teu olhar, o doce sabor dos teus lábios. E eu e tu, ali, somente os dois, sem mais ninguém, sem palavras embaraçosas, sem pressas nem vergonhas. Eu e tu; os dois; ambos; nós. E os pensamentos que deixavam de existir, e os sentimentos que fluíam no ar. E eu, que imagino tanto, que sinta, talvez, pelos dois. E as palavras secretas que escrevo nas noites sombrias, nas noites claras e dolorosas. E os cadernos pretos que dizem mais de mim que eu possa imaginar, que me põem a nu, que me desvendam a alma, que me desmoronam. E tu, que me desconstróis em cada palavra simples, em cada gesto e abraço, em cada beijo suave.

Adormeci, contrariado, com medo de ser tudo um sonho. Adormeci numa tranquilidade que poucas vezes acho que senti. Adormeci esperando que quando acordasse tu ainda ali estivesses.

Preciso de um abraço teu...

por Ismael Sousa, em 09.12.17

Perco-me todos os dias nas memórias dos tempos que passámos juntos. Sinto o amargo nas palavras que me surgem na cabeça. A saudade é fel que me faz vomitar. Odeio este sentimento tão horrível que aprisiona o sorriso que tenho vontade em demonstrar.

 

E tantas, tantas as palavras que eu gostaria de dizer, ou somente escrever. Mas algo aprisiona o meu pensamento, a minha mão atrofia, impedindo-me de escrever aquilo que sente o coração. Falta-me o sangue, emoções a mais correm nos meus vasos sanguíneos.

 

Sinto-me perdido em labirintos sem saídas, aprisionado, em que nem os gritos de pranto são ouvidos por quem está em meu redor. Sou um ser baralhado, confuso, onde o caos se instalou dentro de mim, apoderando-se de todo o meu coração. A mente já não ordena, o coração comanda todas as minhas atitudes.

 

Acobardo-me, na noite da minha existência, deixando escapar as oportunidades que diante de mim tomam forma.

 

Faltam-me pequenas coisas, tão simples, mas que me destroem em cada minuto de distância. E a imprevisibilidade, a falta de conhecimento de quando te voltarei a ver. E tudo o que queria era deleitar-me novamente em teus braços, sentir os teus lábios suaves no meu rosto. Sentir o calor do teu corpo, o silêncio de palavras e os gestos tão cuidados e assertivos.

E nesse teu abraço apertado, no calor que emanas, do carinho com que me tocas, o caos vira tranquilidade e só me assola o medo de ter de os deixar. O teu abraço, sempre tão carinhoso. Falta-me.

 

Há o sonho. Aquele que lembro ou que acho que nunca tive.

 

Há a vontade de ter algo, desejar algo. Depois o triste contraste com a realidade que te faz perceber que tantas coisas um dia não se irão realizar.

 

Há as pessoas, aquelas que desejamos ter a nosso lado, que desejamos ter eternamente na nossa vida.

 

Há tantas coisas nesta vida que deixaram de fazer sentido, ou que continuam a ter, não sei. Há mais incógnita a pairar no ar que respiro que as certezas que possa ter. Somente a certeza de não ter certeza de nada.

 

Fecho-me. Fecho-me para um mundo que não sabe amar, para as pessoas que só sabem usar. Cansei, fartei, desisti. Não quero ser marioneta em mãos alheias, não quero ser uma vez mais descartável. Também eu sinto, também eu rio e choro. Também bate dentro de mim um coração, ainda que revestido de caos. Mas não deixa de bater, eu não deixo de sentir.

 

E eu que sou mais emotivo que alguém possa pensar, sou mais frágil que aquilo que possa aparentar. E chove. Na rua mas também dentro de mim. Só que ninguém sabe, porque as janelas da alma estão embaciadas, as portadas fechadas. E eu inundo-me constantemente, deixando de possuir qualquer vontade em mim. Somente a enorme necessidade de transbordar, de abrir as portadas e as janelas que encobrem toda a minha mente. E falta-me tanta coisa e um misto de nada ao mesmo tempo. E a alma abandona-me, correndo por um mundo ainda por descobrir, deixando-me sem orientação.

 

Um calafrio. O calor do teu abraço momentâneo, as imagens de ti a percorrerem-me a mente. Preciso de ti, de uma forma que nunca compreenderás. Qual timoneiro de uma barca que navega pelos mares dos sentimentos, dando orientação a quem nela embarca, atracando em porto seguro. E eu, e eu, e eu. E tantas vezes o 'eu' que surge dentro de mim, questionando toda a minha forma de sentir e de ser. E o medo de perder. E tantos outros medos e, novamente, o erro de perder. E a minha vontade tão contrária aos meus medos. Querer arriscar e ter medo. Querer dizer e ter medo. Querer ter e ter medo. E eu e os medos, os meus medos, que são gigantes dentro de mim, que são monstros que me destroem.

 

Preciso de um abraço teu.

 

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Filosofia da Loucura

por Ismael Sousa, em 30.11.17

Temos sempre de partir. Inevitavelmente, por tantas coisas na vida, temos sempre que partir. Deixar para trás algo que nos faz bem, alguém que fica e alguém que parte. Temos sempre que partir, talvez porque há o mundo e as suas circunstâncias. Temos sempre que partir.

Gostaria de criar um mundo onde cada partida fosse uma nova chegada. Que todo o espaço de tempo fosse, simplesmente, um fugaz momento de ausência. Que cada momento bom durasse eternidades e não fugazes minutos. Um mundo onde o tempo parasse nos momentos em que o coração transborda, em que a alma brilha, em que a mente pára, que a produção de hormonas está no seu auge. Parar, simplesmente e perpetuar esses instantes. Um mundo, simplesmente, bom.

Custa sempre partir, porque significa que estamos bem, que aquele estado de satisfação nos proporciona tudo aquilo que achamos desejar. Custa sempre partir e em cada minuto do regresso é como uma adaga que perfura o corpo, que corta todas as cordas que seguram um coração fraco.

Saber que as ideias são tão díspares, mas que mesmo assim se teima em discutir. Um discussão onde não há vencidos nem vencedores, mas que enriquecem tanto, que criam dúvidas, que fazem repensar. Ter certezas de não ter certezas de nada.

E depois, quando a noite chega e ficamos na solidão do quarto, na cama fria, a saudade de tanta coisa e as palavras que restam. E eu que teimo em ter a mania que consigo brincar com as palavras, escrevo páginas infindas de sentimentos, de sonhos e de sentimentos. Páginas de palavras que guardo no meu silencio, no meu segredo.

E se houver quem goste de ler as palavras que escrevo? E se existir quem sinta o que eu sinto, se reconheça nas minhas palavras e sentimentos, nas minhas saudades e melancolias? E se houver quem goste de me ler? Não há certezas de nada, principalmente agora que ficou instaurada a dúvida.

Há refúgios, locais e pessoas que nos abraçam de forma tão especial, que nada mais consegue ocupar esse lugar na mente.

E há a distância que tanto se faz sentir. Há a saudade e todas as coisas que ela comporta. E o cheiro, o perfume que trazemos, que nos retoma para lugares e pessoas tão especiais. E há palavras ditas e não ditas, segredos tão nossos que ninguém os conseguirá descobrir. Há tanta coisa, tanta mística de cosmos e imperfeições, tantas incertezas de certezas. E um vento que leva e traz, que apazigua e provoca. E há tanto e nada ao mesmo tempo.

E, eu, aqui, deitado sobre a cama, sentado à secretária, em frente ao computador ou com o caderno nas pernas, divago num mundo tão só meu, tão incompreensível. E a escrita que suaviza e se torna insuficiente tantas vezes. Há o tanto e o tão pouco. Há tanta coisa e tão pouca ao mesmo tempo. E as palavras, sempre as palavras, tão suaves ou agrestes, que libertam o ser que há dentro de mim, que libertam a felicidade ou a tristeza, o amor ou o ódio. E tudo aquilo que sinto, mascarado em tantas vezes na profundidade das palavras, algumas tão sem sentido. Mas há, existe! E a falta de lógica ou sentido daquilo que escrevo, das frases que não levam a lado nenhum, das entrelinhas tão pouco percetíveis. A loucura aliada à miscelânea de palavras. E frases inacabadas, sem sentido, provas irrefutáveis da minha loucura diária. E estas publico-as, outras talvez não. Cadernos e cadernos, folhas e mais folhas, manchadas com palavras, num segredo tão só meu que é tão difícil de compreender. Porquê partilhar aquilo que sinto? Porquê transpor em palavras os momentos que vivo? Para lhes dar vida, para lhes dar memória nas noites em que aperta o abandono, nas noites em que a lágrima cai. E essa, a lágrima, molécula que contêm em si todos os sentimentos que transbordam do coração, essa lágrima por vezes tão fatal e tão essencial, essa que liberta e ajuda a seguir em frente, já é tão rara.

Talvez eu já não sinta ou os meus sentimentos sejam tão frios que gelam ao saírem do coração. Pequenas gotas em oceanos tão grandes como a imensidão do universo. Onde estão as certezas, onde está tudo aquilo que não tenho? E que quererei eu? Será que não tenho já aquilo que procuro e não consigo ver? Onde estão os olhos essenciais do coração que veem aquilo que os olhos do rosto não veem? E onde estará o sentido de tudo aquilo que nesta manhã escrevi? Que sentido terá, que repercussão terá? E o tanto e o nada. E a falta de sentido. E relendo tudo o que escrevi, nada faz sentido ou, na loucura que se apodera de mim, um sentido que só eu sei explicar.

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A braços...

por Ismael Sousa, em 28.11.17

Dá-me um abraço.

Não um abraço qualquer, mas um abraço longo e demorado.

Dá-me um abraço quente.

Dá-me um abraço onde esqueça tudo o que me atormenta, onde eu me afogue em paz, conforto, carinho. Não quero um simples abraço, mas um abraço cheio de sentido.

Abraça-me de uma forma tão especial que fique marcado na memória, aonde eu queira voltar sempre, todos os dias. Abraça-me com força.

Abraça-me de tal maneira que não exista desejo de sair dele, independentemente do mundo e das suas circunstâncias.

Um abraço, a forma mais silenciosa de se dizer tanta coisa. E tanto eu quis dizer e tudo ficou dito num abraço. Um abraço quente, especial e demorado.

Quero um abraço que me inspire, que me faça desabrochar o sorriso mais sincero, que me faça esquecer tudo. Um abraço que faça esquecer toda a saudade.

Um simples e especial abraço, é tudo o que quero.

Há abraços de tanta coisa, mas só alguns são especiais. Só alguns transmitem tanta coisa que acabamos por deixar encher um coração tão partido e cheio de coisas menos boas. Um abraço que faz transbordar, que preenche. Um abraço tão especial como a pessoa que o dá. Aquele abraço que vem até nós, de forma tão inesperada. Aquele abraço que é muito mais que um abraço.

E ali ficava eu, enrolado naquele abraço numa eternidade tão longa quanto o infinito número de estrelas no céu. Infinitamente num abraço que apazigua todo o turbilhão de ideias e sentimentos mais obscuros. Ficar, simplesmente ficar, mergulhado no infindo calor de um especial abraço.

E as palavras que são tão poucas e pobres para descrever abraços tão especiais. Palavras que serão sempre poucas, insuficientes, ocas, meras palavras, vulgares. Somente o sentimento que transborda depois de um abraço tão quente.

Dá-me um abraço maior que o infinito do universo, maior que o pensamento, maior que todas as palavras que se possam proferir. Um simples e eterno abraço.

Dá-me o abraço!

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