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Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

Sonhei

por Ismael Sousa, em 11.12.18

Um dia sonhei ter alguém a meu lado tão louco quanto eu. Ter alguém que gostasse de mim pela pessoa que eu sou e não pela minha forma física. Alguém em quem confiar a cem por cento, alguém que me amasse tanto como eu a ela. Desejei ter alguém que me dedicasse tanto tempo quanto eu lhe dedicasse, que me suportasse nas minhas dores e com quem poderia partilhar a minha alegria. Alguém que me esperasse nas noites frias e solitárias, alguém que me surpreendesse em dias que o meu estado de espírito não fosse tão bom. Alguém que passeasse comigo, que tivéssemos os nossos planos. Um dia eu sonhei com alguém que eu desejava ser o centro do meu mundo, que lhe dedicasse todo o meu tempo, alguém em quem eu pudesse depositar todo o meu amor.

 

Um dia eu sonhei com a pessoa que estaria comigo quando eu envelhecesse, que comigo contasse a história das nossas vidas. Alguém por quem eu daria a vida, alguém que eu tivesse orgulho de ter a meu lado.

 

Somente sonhei.

 

Embebedo-me em bebidas alcoólicas diversas, na vã esperança de silenciar este meu tormento. Sou uma alma triste e a minha escrita é tão triste quanto eu. Mais um gole do Gin, ou do vinho. Não interessa.

 

Perco-me na saudade daqueles que eu um dia amei, na melancolia de um tempo que já não existe.

 

Releio, vezes sem conta, o mesmo poema. Aquele que um dia foi nosso. Vejo em minha mente as palavras que um dia trocamos, a forma como nos tratámos. Vejo tanta coisa em minha memória que mais desejo não recordar.

 

Choro lágrimas imensas de uma dor que não consigo consolar. Um fogo que arde incessantemente dentro do meu coração. Sou eu, eu, a encarnação da dor e mágoa, a encarnação daquilo que tanto de mal existe para se sentir.

 

Abandono. Frieza. Tristeza. Mágoa. Melancolia. Saudade.

 

Amei. Amei sempre com todo o meu coração e sempre fui aquilo que nunca foram para mim. Sempre me dei em toda a minha totalidade, sempre fiz das tripas coração para ser aquilo que desejava ser em suas vidas. Mas fui, somente, estrada que pisaram, objeto que usaram. Fui o brinquedo que se esquece facilmente.

 

Como posso falar em amor se não sei o que é ser amado, mas somente ser amor em toda a sua totalidade?

 

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De que me valeu ser ou tentar ser perfeito, quando na verdade nem um minuto de pensamento existiu? Fui, passado, ausência, inexistência, estrada ou até pedra no caminho que se desviou com um pontapé.

 

Hoje o amor transformou-se em ódio, em carga negativa que me persegue, que impede que eu, mesmo sozinho, consiga ser feliz.

 

As lágrimas que me escorrem pela cara, inundam o copo de vinho ou Gin que levo à boca.

 

Perco-me, tantas vezes, no tato da tua mão, no cheiro do teu corpo. Em cada dia desejo odiar-te ainda mais. Mas sou fraco, fraco, fraco. Sou um nada nesta imensidão de mundo.

 

Dentro de mim existe um mundo que só eu conheço.

 

Estou bêbedo. Escrevo frases sem sentido, coloco palavras seguidas sem sentido. Sou fraco.

 

A noite, o abandono, a maldita noite. A maldita noite que me trás de novo o teu corpo à memória, o sabor dos teus beijos, o calor do teu respirar, o ritmo do teu olhar, o brilho que criavas dentro de mim.

 

E agora, agora que fui abandonado por todos, por toda a vida que existia de mim. Sou somente carcaça que deambula pelo mundo dos vivos.

 

Acabou-se a bebida, acabou-se o tabaco, acabou-se a vida. Um dia, talvez, exista a memória e quiçá a saudade. Mas por agora, por agora somente um corpo perdido, sem vida, à mercê de feras.