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Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

Somente quem sente, quem saberá?

por Ismael Sousa, em 24.03.18

Não há fogo que não queime o coração daquele que amou.

O cigarro aceso que se consome, o fumo que se espalha no ar, misturando-se com o oxigénio.

O bem e o mal, numa mistura tão difícil de diferenciar.

A saudade que aperta no peito, o abandono que sufoca a alma.

Quem saberá amar se não somente aquele que verdadeiramente já amou? Quantas vezes se amará num vida, se de dor é o peito daquele que amou sem ser amado?

Como se reconstrói aquilo que já não há sinal de existência?

Quem volta a colocar a mão no fogo depois de se haver queimado?

A evolução do homem parece ser, tanta vez, somente a nível intelectual e tecnológico. Porque a nível sentimental parece não evoluir. Ama-se, desama-se; odeia-se, gosta-se; sofre-se, sobrevive-se, vive-se.

O cigarro continua a queimar, o tempo parece não passar. Mas passa e já lá vai tanto tempo.

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Como esquecer a última vez que te vi? Como esquecer o último abraço que te dei. Como esquecer-te?

É grande o esforço de tentar escrever sobre coisas positivas. É grande o esforço de tentar ser melhor. Mas estagnei, na vida e no tempo, estagnei no insucesso e no abandono.

Remeti-me ao silêncio, mas gostar de ti continua a ser o poema que não digo, a canção que teimo em não cantar.

Saberias tu algum dia que se me pedisses a lua eu iria roubá-la só para te dar? Saberias tu, algum dia, que te daria todo o mundo se o pedisses?

Acabou o cigarro, o fumo ainda existe no ar.

As paredes magoam, fazem sofrer. Cai a chuva na minha janela, as paredes brancas não dizem nada. Tantas recordações e somente passado, a ausência de um presente, a falta de perspetiva para o futuro.

Fecho os olhos e faltas-me tu. Em cada lágrima que derramo, o teu nome no silêncio. Não há sentido no que escrevo, falta tanta coisa.

Há mais linhas em branco que palavras escritas.

Somente a noite parece entender cada palavra que eu escrevo. Mas tu já não lês o que escrevo, já nada te diz o meu nome.

Está fria a cama, frio o corpo que a viola.

Foda-se para toda esta merda de vida e de estado de sentir.

Que se dane o cuidado com as palavras. São falsas e tão verdadeiras ao mesmo tempo.

Cansei.

Exasperei.

Fui preterido.

E nestas, em estas três simples palavras, toda uma enorme verdade contida.

Fui, simplesmente, por ser coitado. Agora só sou aquilo que outrora já era: nada.

Nada.

Mero nada.

Inexistente.

E por mais que eu tente alcançar, por mais que tente esquecer, nada me faz, nada me preenche, nada me faz sorrir e gargalhar como tu.

Adeus.

Adeus!

Adeus...