Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

Sem ti... (Parte II)

por Ismael Sousa, em 26.01.18

Desapareceste. Deixaste de me falar. Deixaste de procurar as minhas palavras. Simplesmente desapareceste. E agora? E agora o que eu faço com as coisas que senti, as coisas que escrevi? E agora o que somos, se alguma vez fomos? Desapareceste. Deixei de saber de ti, se estas bem ou mal, se andas feliz ou triste.
Destróis-me a cada dia que passa. Dou tantas vezes comigo a pensar em ti. E depois vem o vazio. Depois vem a tristeza. Sempre soube que nunca me pertencerias, que nunca passaria de um sonho. Mas sempre desejei a tua amizade, sempre desejei poder falar-te livremente, poder partilhar o prazer de um cafe na tua companhia. Somente desejava que, de alguma maneira, sentisses a minha falta.
Afogo-me em lágrimas constantes, mergulho num mar de tristeza. Não consigo sorrir, esquecer, avançar. Só porque desejava, tanto, que as coisas não acabassem assim. Destróis-me. Vacilam todos os meus alicerces porque esperei de mais. Esperei aquilo que nunca ia vir. E eu sabia-o. Mas simplesmente fui acreditando que estava enganado, que as coisas iam ser diferentes daquilo que eu já adivinhava ser. E tudo se concretizou: não como eu quiz mas como eu previra.
Tenho tanta vontade de te dizer coisas, mas acobardo-me e troco-as por palavras esquecidas e nunca lidas. Sofro num silencio enorme, sem deixar que ninguém se aperceba. Porque se tiver que justificar o meu sofrimento, só o poderia ser de uma maneira: apaixonei-me por quem lhe sou indiferente. Desculpa. Desculpa se estas palavras te magoam, mas são a mera verdade, aquilo que verdadeiramente sinto. E sabes o que sinto? Um coração despedaçado, ferido, um rio de sangue de dor. Sim. Chega de rodeios e dizer por entre as linhas aquilo que sinto. Chega. Agora, neste meu momento momentâneo de coragem, só a verdade. Se já te perdi, nada mais interessa. Ao menos saberás como me deixaste, aquilo que verdadeiramente eu sinto.
Lá fora nem a lua brilha no céu nem as estrelas se deixam ver. A noite está escura, o nevoeiro cobre a cidade e a vista a poucos metros de distância. E tão curiosamente é como eu estou: escuro, sem luz, sem vida. Honestamente? Ambos sabemos a verdade. Mas ela é tão dura que me faz voltar a chorar. A verdade é que o único culpado sou eu. Eu, por ter sonhado de mais, por ter acreditado de mais, por ser tudo a mais. Eu, por achar que era merecedor de ti. Poderia culpar-te a ti e talvez isso suavizasse a minha dor. Mas não sou capaz de o fazer. Por isso vou-me habituando a esta verdade, fechando o meu coração mais uma vez. Mas penso que desta vez será para sempre.
Não sou nada. Cada vez mais me apercebo da pessoa má que sou, da pessoa parva e sem interesse. Talvez erre muito. Talvez a felicidade não seja o meu caminho. Talvez não seja digno desse estado em que vejo tanta gente. Talvez tenha direito só à solidão, a esse estado que não desejo a ninguém. E a cada noite que passa, cada dia que renasce, me sinto mais afastado de ti, mais esquecido por ti. Tenho saudades tuas. Saudades de te ver, das tuas palavras, de ti...
Se conhecesses verdadeiramente a quantidade de palavras que escrevo sobre ti, a quantidade de vezes que te trago à cabeça... Derrotaste-me no primeiro momento. Ainda que não o saibas, nunca foste mais um, mas o um que eu tanto desejava. Não és mais um contacto, um conhecido, uma coisa qualquer. És aquilo que és. És-me tão especial.
Poder-te-ia ter ignorado no dia em que te conheci, no dia em que me desejaste, no dia em que me procuraste. Mas não ignorei, mesmo após tanto tempo de silêncio. Nunca te ignorei. Não te ignorarei...
Já são reticências a mais nestas palavras que te escrevo. São-o porque estou num estado alcoólico. Porque preciso de esquecer a merda de vida que tenho. Não faço falta. Não tenho um propósito na minha vida. Tudo desapareceu. Simplesmente vagueio pelas ruas do mundo, como alma penada, sem destino ou hora de chegada. Simplesmente pairo pela vida das pessoas. Não sou raíz nem tronco, muito menos ramo. Sou uma folha que exerce a sua função. E quando estou a mais caio, simplesmente, abanado pelo vento.

Talvez não me compreendas ou não compreendas as minhas palavras. Talvez aches que sou um desesperado que força as coisas para que aconteçam. Talvez aches mil e uma coisa sobre mim. Quem sabe se muitas não estarão certas ou que saibas o que sou e que eu o negue. Não sei. Não sei nem imagino o que pensas sobre mim. E talvez seja melhor assim. Ou não. Quem sabe não deseje saber o que pensas sobre mim para que de alguma maneira eu possa dizer que não ou justificar-me, fazendo-te, ou pelo menos tentando, perceber as minhas razões.
É tarde. As horas da noite vão avançando e eu estou aqui, escrevendo, pensando. Que mais te posso eu dizer sem te dar a conhecer a minha alma? E eu acho que já te disse tanto sobre ela sem o querer. Segredei-te as minhas vontades, escritas entre as linhas que te escrevo. Não sei se as consegues ler ou se as queres ler. Escrevo-te palavras mas também desejos, vontades, coisas que não tenho coragem para te dizer. Mascaro essas coisas com palavras imensas quando aquilo que te queria dizer era tão simples. Mas como eu, complicado, também as minhas palavras o são. Mascaro-me com tanta coisa porque não sou uma pessoa simples, de fácil compreensão. Mais complicado que aquilo que possas pensar. Não tenho tido uma vida fácil, nem fáceis são os meus dias. Não vivo, vou sobrevivendo. É por isso que eu tanto sonho. É por isso que me mascaro. Gostava de te poder dizer que sou uma pessoa que diz tudo o que deve dizer. Mas não sou. Gostava de te dizer que sou a melhor pessoa do mundo. Mas também te estaria a mentir. Sou frágil, fraco, inseguro, cobarde, amedrontado. Se queres que te diga, nem devia existir. Mas existo e vou-me esforçando para sobreviver. O meu sorriso é frágil. Quantas vezes falso. Tantas e tantas vezes ele cai, dando espaço a lágrimas e sentimentos de abandono. Mas isso de nada interessa. Nada disso alguma vez teve importância alguma. Somente para mim.
E aqui vou eu, percorrendo quilómetros deste país, pela noite escura e de nevoeiro. E nesta quase solidão, pergunto-me a quem faria falta, quem sentiria saudades. Paro. Reflito. Releio o que escrevo e vejo-me a cair numa melancolia tal que foge totalmente ao propósito que tenho de te escrever, ao propósito das palavras que te dirijo. Para quê falar de coisas tristes? Para nada. Peco-te que desculpes o meu desabafo, as tristes palavras que tiveste que ler. Peço-te que as esqueças e se o desejares risca-as, apaga-as da tua memória. São palavras vãs, palavras de uma alma triste. E talvez seja essa mancha que trago na alma que te afasta de mim. Quem sabe se não a verás em mim mais do que aquilo que desejo, mais do que aquilo que pretendo demonstrar. Os teus olhos não deveriam ver estas coisas. Perdoa-me.
Enquanto viajo penso em ti. Muito provavelmente estarás a dormir. A dormir calmamente, sonhando algo belo. Imagino o teu sorriso no teu rosto adormecido, reflexo daquilo que sonhas. Perdoa-me por abusar, mas imagino-te a dormir livremente, coberto por um suave lençol que desenha a silhueta do teu corpo. Pudera ser eu esse lençol que tão intimamente partilha a cama contigo. Ser a almofada onde repousas a cabeça que se enche de sonhos, onde te aconchegas. Talvez seja só a minha imaginação. Porque nada me diz que não estarás aconchegado a esse outro corpo que te pertence, que repousas a cabeça no peito desse outro que é bem fadado em te ter. Só Deus sabe como o invejo. Mas não me posso permitir a meter-me onde não pertenço. Não posso. Não devo.
Cheguei ao meu destino. Vou repousar. Vou sonhar e encontrar-te nos meus sonhos. E lá, nesse mundo dos sonhos, vou ser feliz, nem que seja por um instante que é mais fugaz que o tempo que uma folha demora a cair, desde que se desprende do ramo e toca no chão. Mais fugaz que a queda de uma estrela no firmamento.

FD1B2B68-FB73-4F99-94CF-1B0DFD98FFFB.jpeg

 

1 comentário

Comentar post