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Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

Sem ti... (I Parte)

por Ismael Sousa, em 25.01.18

Quão fugaz é a vida? Que significado tem? Que caminho ruma? Somos seres tão frágeis e débeis, ignorantes na nossa estrada, ignorantes no nosso próprio conhecimento. Somos fugazes. Deparamo-nos com a morte e somos tão incapazes de a compreender, de lidar com ela. Remexe-nos as entranhas, faz-nos sentir tão ocos, tão cheios de nada, tão vazios. Amaldiçoamos o dia e a noite, a hora e o momento. O dia chega e não estamos preparados ou mentalizados. Meros nadas numa longa ou curta vida! A quem pertence o desígnio de dar ou retirar a vida? Quais os seus padrões? Tanto conhecimento e tanto desconhecimento ao mesmo tempo! Infelizes de nós, infortunados que somos que desconhecemos o que pensamos dizer!

Nada mais para fazer. Peguei nas chaves e na carteira e saí de casa. Na rua estão uns trinta graus. Só falta a lua a alumiar o caminho e as ruelas da cidade. Vou caminhando até a um cafe aberto. Vou-me cruzando com as pessoas. As ruas estão povoadas de gente. Com o calor saíram à rua. A maioria segue alheia a sua vida. Outras olham-me de lado. Que pensamentos sobre mim povoarāo as suas cabeças? Que pensarão quando cruzam o seu olhar com o meu?
Sigo o meu caminho despreocupado. Hoje sinto o meu astral em cima, sentindo que ninguém será capaz de destruir aquilo que sou.
Paro no primeiro café. Sento-me. Peço um café e olho em meu redor. Há festa na cidade. As pessoas divertem-se, cumprimentam-se. Riem. Chega o café. Bebo-o de uma golada. O empregado pergunta-me se espero mais alguém. Digo-lhe que não. Olha-me desconfiado. Deve estar a pensar quem é o tolo que vem tomar café sozinho numa noite como esta. Retira a cadeira e agradece-me com a cabeça. Pego no telemóvel. Viajo um pouco pelas redes sociais. Tudo mais do mesmo. Começo a fartar-me. O mundo está todo tão igual. Sinto-me excluído dele. Por isso vou aproveitando todos os momentos. Mesmo que tenham de ser na solidão. Não me importo. Antes uma vida solitária mas aproveitada que uma vida em companhia e desperdiçada.
Não compreendo o mundo. O mundo não me compreende. Se metade das pessoas soubessem os pensamentos que me vão na cabeça, se eles conseguissem compreender as minhas razões, talvez não fossem tão rápidas a julgar-me.
Acendo um cigarro. O fumo esvoaça pelos ares. Livre. Solitário. Porquê que achamos que tem de ser tudo tão igual? Porque não acolhemos a diversidade tão facilmente? Temos de ser assim tão iguais?
Por vezes acho que são todos uns fúteis, uns ignorantes, incapazes de explorar o mundo à sua volta. Burros. Incapazes. Limitados. Ou não serei eu a estar enganado? Achando que há algo mais do que isto que os meus olhos veem?
Mais um cigarro, um olhar distante. Sou eu. Sou o que sou. Não agrado a ninguém. Já não sou mais assim. Vivo para mim. Quando morrer vou só e sem nada. Por isso, de que vale andar a agradar alguém?
As ruas começam a esvaziar. Amanhã é mais um dia de trabalho. Para mim, mais um dia sem fazer nada. Repugna-me este meu estado. Levanto-me à hora que desejo, deito-me à hora que quero. E nas horas que distam o levantar do deitar, faço aquilo que surgir. Não aguento horas infindas em frente à televisão. Não aguento as paredes de casa. Saio, leio, passo horas em frente ao computador. Por vezes vem a inspiração e abro o caderno e escrevo. Outras vezes recorro às tecnologias para escrever. Como é o caso agora, porque abalei de casa para o incerto sem saber para onde ia. Sentei-me neste cafe, observei e comecei a escrever. Perdi a noção das horas. Mas que importa? Nada me espera, ninguém me espera. Por isso, para quê preocupar-me.

Depois vem a chuva, encharca-me com a tristeza e o abandono. Depois o sol que me faz apodrecer em melancolias até que com as novas chuvas eu desapareço. E como quem não é visto não é lembrado, quem não faz falta ao esquecimento é reduzido. E eis-me aqui, reduzido e abandonado, inebriado pelo álcool a escrever palavras. Palavras que me saem da alma.
Cada vez mais me convenço de que o álcool é a chave da alma. Tomado a mais, faz-nos dizer aquilo que não queremos, aquilo que só para nós queremos guardar. E isto porque num pobre coração como o meu, nada mais faz sentido. Quem me dera adormecer para nunca mais acordar. Seria menos um fardo que alguns têm de carregar. Seria menos um a estorvar no caminho, menos um em tantas vidas. Seria somente memória, recordada unicamente de passagem. Não sou pertença na vida de ninguém. Não sou nada. Nada sou. E neste nada desapareço. De mim só restaram memórias vagas e palavras escritas em papeis que voaram mais depressa para o fogo do que alguém perder tempo a ler. Nada mais faz sentido. Nada mais tem um propósito. Cansei de lutar. Cansei de me esforçar para ser um ramo verde na árvore da vida de alguém. E todo o meu esforço é para sempre ser uma folha que na primeira brisa de felicidade para a árvore, cai. Ao menos se a beleza me tivesse favorecido, se as linhas traçadas do destino me tivessem sido mais favoráveis e eu tivesse passado uma vida feliz, talvez aí eu tivesse sucesso.
Mas a minha vida é feita só de desgraças, de desencontros, de insucesso, de solidão, de afastamentos, de desprezo. E esta tem sido a minha vida. Isto e só isto. Talvez eu desapareça de vez e aí não exista mais aquela eterna melga, aquela incómoda presença, aquela triste figura.
Rendo-me, cada vez mais, às energias negativas que me rodeiam. A minha alma está negra. Pesam-me as tristezas no rosto, as mágoas nos olhos, a infelicidade na minha postura. Cada vez mais me torno num vulto ambulante, pairando nas ruas amargas deste mundo.
Sinto-me sem norte, sem rumo. Roubaste a bússola que havia em mim, no sentido que eu tinha para a vida. Onde andas? Porque desapareceste sem me dizer nada? Bastava-me um adeus e eu seguia em frente. Mas fiquei desamparado, sem perceber as razões que te levaram a esse enorme silencio. Ou talvez saiba. E sei.
Releio tantas vezes as mensagens que trocámos. Trazem-me tanto de ti. Um sorriso, um momento de serenidade. És-me tanto. Fizeste despertar em mim sentimentos que eu já não conhecia. Inspiravas-me, animavas os meus dias. E eu escrevi tanta coisa, inspirado por ti. E agora o nada. O absolutamente nada. Preocupo-me tanto em saber se estas bem. Nada mais te peço e não mais te perturbo a vida. Mas por favor, dá-me sinais de ti, diz-me só se estas bem, que nada mais entre nós existirá. Diz-me só algo a que me possa agarrar...

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