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Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

Partiu, sem aviso nem retorno!

por Ismael Sousa, em 24.04.18

Havia na sua voz um pequeno tremor. No seu coração um pequeno aperto. Longe estaria de saber que as palavras que lhe dizia eram as últimas. Despediu-se com a saudade já a apertar-lhe no peito. Sentia algo dentro de si mas não sabia se era da adrenalina que sentia se outra coisa qualquer.

Quando ria de mais assolava-o sempre o presságio de algo mau acontecer. Por essa razão evitava muitas vezes rir em demasia, tamanho era o medo que sentia. Mas havia rido pouco naquela noite sem saber que presságio maior lhe estava destinado.

A noite era igual a tantas outras mas a diferença estava nos pequenos momentos que ia gravando na sua mente para nunca esquecer. Tinha-o feito desde o primeiro momento em que sem medos revelara toda a sua vida. Nunca tinha sido capaz de entender as razões que o levaram a falar assim tão abertamente. Mas fê-lo sem sentir qualquer pudor. Trocaram muitas palavras e momentos que viveram ficaram para sempre guardados. Agora parara o carro, despedira-se. Foi a última vez que se viram e desde então o sorriso desapareceu para sempre do seu rosto.

Deixara de sorrir. Cada vez que o fazia sentia-se falso. Desde então ficou carrancudo, com os lábios torcidos para baixo. O seu semblante tornou-se pesado, as poucas lágrimas que ainda em si residiam ficavam muitas vezes em risco de correr. Já não havia um brilho nos seus olhos, já não havia luz naquele corpo. Seria só memória, passagem, recordação.

Era uma noite como tantas outras, especial nos momentos que partilharam, fatal na despedida. Houve noites em que chorou ou que quando chegou a casa bêbedo escreveu-lhe palavras que guardava dentro de si. Pensava várias vezes ao longo do dia no seu nome, na sua pessoa, nos momentos que viveram. Pensava em como era diferente a sua companhia, em como já não conseguia recordar o som da sua voz.

O tempo foi passando sem que se dessem sinais disso nem de um possível reencontro. O tempo afastou intensamente aquilo que existia, mas ele mantinha sempre acesa em si a memória desse alguém que havia feito sorrir num dos momentos que mais dor sentiu. O tempo apagou qualquer rasto de si.

Passava-lhe muitas vezes à porta. Não de propósito mas porque ali sempre fora um local de passagem. Passava e olhava na tentativa de puder rever. Mas eram esperanças vãs, esperanças que não passavam disso, esperanças. Dentro de si crescia sempre um enorme peso, uma enorme dor que se prolongava em todo o trajeto até casa, em todas as horas que depois passassem.

O tempo não esperou, somente ele esperou por alguém que não veio. O sentimento que cresceu nunca esmoreceu, mesmo em todo o tempo que passou. No seu coração negro, no seu enorme pesar e em todas as saudades, incapazes de serem saciadas, aquela pequena esperança tem-se mantido ao longo dos tempos.

A noite chegou uma vez mais. O peso de tanta coisa nos seus ombros. Continuava a acreditar e a pensar nesse outro alguém, mas morria em cada noite que adormecia. Era mais uma noite, sem palavras, isolado do mundo incapaz de o compreender. Era apelidado de dramático e, mesmo depois de tantos gritos de socorro, continuava ignorado.

Haveria de chorar tudo, um dia. Haveria de ser capaz de esquecer tudo e seguir em frente. Mas essa altura não chegava e amar foi sempre o que tentou fazer de melhor. Mas em todas as suas tentativas, sentia que falhava cada vez mais, que era fraco e indesejado.

Tentou compreender muitas vezes as razões que levaram a tal comportamento. Mas o seu entendimento não lhe dava respostas, não lhe dava nenhum sinal.

Saiu para a rua, os olhos em lágrimas. Conduziu durante quilómetros. A hora já era de um novo dia. Parou o carro algures numa estrada, perdido, sem saber onde estaria. Conduziu durante algum tempo sem destino ou orientação. E chorava. O sol do novo dia despontou. Estava ali há horas, no mesmo local. Ninguém notaria a sua ausência. E sem anúncio nem nada que o previsse, partiu sem destino e sem saber se iria recuperar, sem saber se iria voltar.

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