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Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

Lá fora e eu cá dentro

por Ismael Sousa, em 26.12.17

Lá fora o frio. A cidade está coberta por uma cortina de nevoeiro impedindo a vista para além das torres do centro histórico. Diante dos meus olhos, a calma no parque. Está frio, chove uma chuva chata, o vento sacode as árvores.

Um chá de frutos vermelhos, típico nesta altura do ano e com este tempo. As grandes vidraças do café deixam-me vislumbrar toda a vista possível diante de mim. O café, agradável, tem cerca de uma dúzia de pessoas. O vento sopra e eu, entre o chá e os pensamentos, vou escrevendo algumas palavras no meu sempre caderno preto. Um certa estranheza está minha preferência por cadernos pretos. Tenho muitas folhas escritas, muitas páginas de cadernos com outras cores e feitios. Mas nestes, cadernos de capa preta, sem linhas, acabam sempre por ser os meus favoritos e onde segredo as palavras mais íntimas.

Olho pela vidraça: está vista deste dia frio, chuvoso e com vento, esta cortina de nevoeiro e a cidade diante de mim, fazem-me perder em pensamentos bons, em momentos vividos de forma intensa. A vista prende-me o olhar. É verdade que não é um vista fabulosa, mas é uma vista para esta minha cidade eterna.

Há dias em que o nosso coração nos faz sofrer, nos faz andar naquele estado tão parvo e ridículo. Sim, porque há aquele estado parvo em que nos encontramos porque estamos bem, porque sorrimos por tudo e por nada. Mas neste caso é um parvo ridículo porque sofro por algo que já passou, que já acabou e que eu não deixo partir. E há tanto a viver, tantas coisas por sentir, locais por conhecer. Pena é que eu me continue a prender por quem não quer saber. É hora de recomeçar, de esquecer e seguir em frente. E ontem foi esse dia. Tem de haver uma altura em que decidimos colocar pontos finais onde teimamos em colocar vírgulas, dar um nó numa ponta que anda solta há demasiado tempo. E demasiado tempo foi aquilo que passou, sem uma palavra, sem um prenúncio.

Perco-me novamente na vista que me prende os sentimentos. Os dias começam já a crescer, lentamente. O meu futuro é incerto, deixando de ter certezas de nada. As pessoas que hoje estão, amanhã podem não estar. Começo a sentir-me cansado desta vida sem perspectivas, sem planos para o futuro, simplesmente porque sai sempre tudo rebuscado, os planos falham sempre. Mas eu continuo a necessitar de pensar no futuro, no amanhã.

Deixei a escrita e fui fumar um cigarro. O vento atira com toda a chuva à cara de uma pessoa e entro novamente encharcado. Pedi mais um chá e na espera sentei-me ao pequeno piano ao canto do café. Toco umas notas na simples lembrança de algo que não sei descrever o que é. E a música, a música sempre presente na minha vida. E esta montanha russa que é a minha vida, talvez sejam as notas de uma melodia que eu ainda não soube descobrir. Os baixos e os altos, a fugacidade e a demora, compassos intensos que desejamos prolongar ou encurtar. A minha vida, predestinado pela escrita de uma partitura. E basta pensar, que no final, poderá ser uma bela peça onde alguém se erguerá da cadeira e encherá a sala de espetáculos com uma forte salva de palmas. Ou talvez não e saiam todos sem pronunciar uma única palavra. E qual será, um dia, importante isso? Nada, somente a forma como vivemos. E eu que tenho vivido para agradar, agora quero viver ainda mais para saborear.

Vou retomar ao meu chá, de rosas e baunilha agora. Vou mergulhar na minha escrita, nos meus amores e desamores. Vou mergulhar em mim e naquilo que sou, libertar amarras, dar nós e deixar partir. Vou apagar vírgulas e colocar pontos finais. E desta vez tem mesmo que ser.

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