Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

Haver - do latim habeo, -ere

por Ismael Sousa, em 07.01.18

Talvez a memória falhe e não recordemos. Talvez não fixemos certos momentos tão comuns ou incomuns. Talvez não se dê importância, ou nem nos lembremos por casualidade ou normalidade de uma vida. Mas eu, teimoso em ter memória de elefante, ainda consigo recordar.

Não era uma noite fria como as que agora vivemos. Talvez um pouco, mas o normal para quem saía de um verão longo que entrava já no outono sem chuva. A seca extrema era uma das notícias mais badaladas da altura, juntamente com o flagelo dos fogos que se tinham vivido pouco tempo antes, ainda nem um mês havia feito.

Eu andava perdido, deambulando em todas as noites pelas ruas, na esperança de um retorno que nunca existiu. Esperava uma palavra, qualquer coisa do género. Mas isso não existia. E eu, esperava, todas as noites. E como esperava, deambulava. Saía de casa, ao fim de jantar, percorria as ruas da cidade numa solidão triste e vazia.

Tinha conhecido Al Berto há pouco tempo e devorava tudo o que apanhava à frente, escrito por ele. Li a sua biografia, dois dos seus livros. Li textos e poemas soltos. Sentia em mim a sede de me deixar inebriar por ele, pela sua forma de escrever. Era uma terça-feira à noite. Sentei-me no bar do costume, mas não na mesa do costume. Debrucei-me sobre o meu caderno, teimosamente de capa preta, escrevi várias palavras. Era tudo sem sentido, tudo fusco e sem uma linha que interligasse o meu pensamento. Era um palavreado barato. Nunca tive jeito para o palavreado caro. Não sei escrever com ele. Sou um pobre, culturalmente, e isso nunca me deixará ir mais além.

Devo ter escrito umas dez páginas nessa noite. E tudo vazio como o que abundava dentro de mim: o vazio. Não sei quantas pessoas estariam no bar, pois eu estava mais concentrado na minha escrita que no ambiente que me rodeava.

Penetro-me, assim, muitas vezes. O mundo em meu redor é uma ilusão, existo somente eu e as palavras, num mundo tão só meu que é raro que alguém o consiga perceber. São as palavras o reflexo dos meus olhos e os meus olhos o reflexo da minha alma negra. E ali estava eu, com períodos em que os espelhos da alma se embaciavam, cobrindo-se com uma humidade comum: as lágrimas.

Já não choro, não sei chorar. Embaciam-se-me os olhos, enchem-se de lágrimas, falha-me a voz e há um pequeno apertar na garganta. Mas as lágrimas não correm, o sopro de ar fulminante não existe e tudo acaba por morrer. E ali estava eu, perdido e encontrado, nas palavras que sempre escrevo e que jazem eternamente nas páginas dos cadernos que um dia serão fogo e deixarão de existir. Ali estava eu, a beber o meu Gin, preparado de forma especial para mim, com aquele gosto que eu sempre desejo.

Não sou de fugir muito às minhas rotinas. Procuro encontrar-me sempre entre os meus gostos, entre as coisas que gosto. Fora disso sou como um peixe fora de água. Não sou de aventuras, de experimentar coisas novas. Somente em tempos de loucura, mas tirando isso, procuro sempre o meu conforto e em manter-me nesse espaço, onde os olhos não me olham de forma diferente, onde o sentimento de excesso não o sinto.

A conversa surgiu de forma inesperada, sem que o pudesse contar. Al Berto foi a causa. Alguém tão profundo, tão existencialista, português e tão desconhecido. A probabilidade do cruzamento de alguém por causa deste tema/pessoa, parece uma enorme utopia, sonhava pelas almas mais profundas. Mas começou por aí e toda a existência de Beno e de Outsider se cruzou.

Há um início, um passado, um dia que ficou para trás na história. A improbabilidade e o conhecimento, numa miscelânea até então desconhecida.

Há um agora, um presente, a impossibilidade de se prever mas somente de viver e de se sentir.

Há um depois, um futuro, construído pela vontade, pelo conhecimento e circunstâncias.

Há um passado, que era tão presente, uma esperança de futuro, que ficou presa no tempo, pela falta de tanta coisa, pelos esforços e desconsiderações. Há esse passado que ainda tem um espinho no futuro, mas que apodrecerá num presente futuro.

Há as palavras que tanto transmitem. E toda a falta delas, toda a serenidade e todo o bem. Há aquilo que em tanto tempo não houve. E uma razão, desconhecida. Há abraços que são mais que tudo aquilo que se possa desejar. Há e somente o desejo de continuar a existir.

B3081A4D-8AA0-43B0-A31F-F618CE03AA0C.jpeg

 

1 comentário

Comentar post