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Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

"há sempre uma noite escura!"

por Ismael Sousa, em 03.04.18

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Sentado, num balcão sozinho, a beber uma cerveja. Paira o ar pesado do abandono e da saudade. Percorro caminhos que não são os meus, vivo histórias que não são as minhas.


Estou de fato, como muitas das vezes. Hoje é cinzento, bota preta e camisa branca. Estou só eu e os meus pensamentos.


Não sei bem o que paira na minha mente, aquilo que estou a sentir ou o que me faz estar aqui. Lá fora chove, miudinho, o frio faz-se sentir em demasia. Sorrio por simpatia a quem passa e cumprimenta por cortesia. Fumo um cigarro e abandono-me em todo o meu eu. Sou pequeno, realmente, perante tanta grandeza em meu redor.


Chove. Eu acabo a minha cerveja e saio para a rua. O frio gela-me por inteiro. Não me apetece ir para casa, fechar-me no meu canto, enfrentar a realidade. Quero fugir, desaparecer para longe. Quero novas realidades em meu redor, novas pessoas com quem me cruzar.


Dou por mim perdido por entre os caminhos da cidade. Há o frio e a chuva, o abandono e o esquecimento. Há o rio que passa lá em baixo e eu perdido, aqui em cima, abeirando-me do precipício.


Quis arrancar o coração do peito. Tirei as roupas, mergulhei nas gélidas águas. Cravei as mãos no peito e apertei o coração. Mas ele desfez-se nos meus dedos, desfez-se de saudades.


Não sei bem o que pensar, desejo não sentir. Tenho perdido amores que são o nome de cada lágrima que cai, em cada noite, do poço dos meus olhos vagos. Solidão, abandono, falta. O meu coração que se desfez de saudades era negro como a noite. Na minha cabeça pairam palavras cruas, frias, dolorosas.

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Há um tempo, um espaço de tempo demasiado grande. Há o meu afundar diário, o negro cada vez mais intenso. Já não consigo sentir algo bom. Choro todas as noites a tua ausência, a falta que me fazes. Já não me lembro do tempo em que sorri, em que gargalhei com tanta sinceridade.


Conto todos os dias, todos os dias que passaram sem te ver. Na minha mente paira aquelas últimas palavras. Aquela última despedida, aquela última palavra. Agora só sobram as cinzas de um coração desfeito.


Existem questões na minha cabeça para as quais eu não tenho uma resposta. Por vezes desejo-as, outras vezes só não as queria ter.


Era um abraço tão reconfortante, algo que foi cura, que foi bálsamo. E eu estava tão frágil, tão despedaçado. E, mergulhado naquele abraço, eu voltei a acreditar naquilo que achava ser mentira, naquilo que havia deixado de acreditar.


Ah, quantas noites me teria perdido nos teus braços, quantas vezes me teria entregue a ti.


Voltei. Voltei àquele lugar que te é tão querido. Voltei a violar o silêncio das ruas, a ler as paredes que um dia decifrámos em conjunto. Voltei a ver o teu rosto que em cada novo dia me está tão desaparecido da mente e que só recordo com a memória cravada no meu peito.

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Queria ver-te uma última vez. Queria conseguir dizer-te toda a verdade, sem te causar um peso nos ombros. Sou tão cobarde que até tenho vergonha de mim. E sem te querer causar pena, sem ser um fardo para ti, escrevo. Escrevo tanto. “A ti”!


Onde residirá o amor? Por vezes numa simples pedra de calçada. Por vezes nos pequenos gestos, nas poucas palavras. Nos silêncios.

 
Não tenho um rumo, não tenho uma vida. E eis-me aqui, mergulhado nas gélidas Águas de um rio, rodeado da ausência. Eis-me aqui, sem coração, moribundo, desfeito em memórias. Somente as palavras aliviam a dor que sinto.


Parto agora, sem coração, sem emoções, sem ninguém. Parto sem morada nas memórias que desapareceram. Uma última lágrima, um último adeus, uma última lembrança: o teu rosto.

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