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Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

Exacerbação da palavra

por Ismael Sousa, em 12.03.18

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Somos feitos de palavras. São elas que nos definem e sem elas a nossa existência parece reduzida a nada. Sou feito de palavras, tantas vezes sem sentido. Como-as ao pequeno-almoço, bebo-as enquanto como, vomito-as sempre que não estou bem. Palavras, vagas tantas vezes, sem sentido outras tantas. Palavras que são mais doces que o açúcar e mais agrestes que o vinagra. Palavras que matam e que constroem.

 

Odeio palavras.

 

Fumo mais um cigarro enquanto espero. Pela vidraça, ainda salpicada pelas gotas da chuva trazidas pelo vento, passam os raios de sol que agora despontam depois da tempestade. Lá ao fundo, a cidade. É a memória e património ali, ao cimo. É as gentes que por ali passaram e as outras tantas que ainda por lá estão. É a vida que cresce das pedras da calçada, as palavras perdidas entre as paredes.

 

Novamente as palavras.

 

Sinto o cheiro a mar na minha memória. O sol transporta-me para a beira mar onde me sentei a fitar o horizonte. A melancolia, a falta e a necessidade de algo mais. Podemos ter tanto, viver com tanta intensidade que mais não seja possível, mas há a falta de algo, quando recostamos a cabeça na almofada ao final de um dia. Falta aquilo que nos preenche, aquilo que fomos, aquilo que tanto desejamos ser. Fracos. Fraquezas, medos, terramotos e tempestades em nossas certezas. A confusão.

 

Fulmino palavras.

 

Como transpor aquilo que sentimos, aquilo de que necessitamos? Como fazer compreender? As palavras traem os sentimentos, são fonte de zanga e de mal-entendidos. Mas são verdade, pura e dura, são realmente aquilo que sentimos. Nada somos sem as palavras, por mais que elas nos custem. São as palavras que escrevemos, que nos dão vida. São a concretização do que sentimos.

 

Sou feito de palavras.

 

Nada faz sentido. E a vida é, muitas vezes, isso mesmo: não fazer sentido. Escrevo em demasia e nesse abuso que faço das palavras concluo que nenhumas fazem sentido. Tomo-as como minhas, mas nunca o são, nunca o foram, nunca serão. Usamo-las, brincamos com elas ou simplesmente desperdiçamo-las. E eu, na conclusão de todos os meus pensamentos, sinto que sou um desperdiçador de palavras! Uso-as como se fossem inesgotáveis. Mas esgotam-se e por vezes nem sabemos o que dizer. Talvez porque não haja nada para dizer, talvez nada tenha de ser dito. Outras vezes não se deveria dizer e nada, e eu abuso delas. Sou indelicado, sou inconveniente. Sou o que sou.

 

Odeio-me e fulmino-me!

 

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