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Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

Enquanto a chuva cai!

por Ismael Sousa, em 11.12.17

Chovia intensamente. O vento soprava de forma tão furiosa que as copas das árvores entrelaçavam-se umas nas outras, quase tocando o chão. Estava uma noite de tempestade.

Adormecera no teu abraço, no teu colo. Não sei quanto tempo dormi, mas quando acordei com o rugir do vento e a chuva a bater na vidraça, tu dormias suavemente. Deixei-te na cama e fui sentar-me à secretária que estava de frente para a cama, a janela à direita e a porta à esquerda. Acendi a pequena luz do candeeiro, peguei a caneta de tinta permanente e abri o caderno de capa preta. Inspirei-me em ti, sobre a cama, o lençol a delinear as linhas do teu corpo. A caneta deslizou freneticamente sobre as folhas do caderno. Escrevi páginas e mais páginas, numa escrita que seria guardada só para mim. Nem tu, que repousas na cama as irias ler.

A chuva batia com muita intensidade na vidraça. Fechei o caderno, arrumei-o na gaveta e fitei a noite tempestuosa. Um forte trovão fez-te acordar. Fitas-te-me e eu voltei para a cama para junto de ti. Repousei a cabeça sobre o teu peito. Envolveste-me num abraço caloroso. O meu pensamento parou. Sentia-me bem no teu abraço e deixei-me ficar. Não existiam palavras entre nós, somente o silêncio. E a chuva e o vento forte que batiam na vidraça da janela. Voltámos a adormecer.

Acordei e a tempestade ainda não tinha passado. Olhei o teu rosto sereno que fitava o infinito. Passei-te a mão pelo cabelo, algo que tanto detestas mas a que eu não consigo resistir. Fechei os olhos e os teus lábios tocaram o meu rosto. Pequenos toques, suaves. Sentia o teu respirar, pesado, mas envolvido numa imensa ternura. E eu perdido em tantas emoções que era incapaz de as expressar. Optei por me deixar estar.

O teu rosto junto ao meu, num imenso mar de tranquilidade que eu aproveitava em cada segundo, marcando-o na minha memória. Os teus suaves lábios beijavam o meu rosto milhões de vezes e em cada vez era diferente, suave, carinhoso. Descobria os teus movimentos pelo ar quente da tua respiração. E sentia esse respirar tão perto da minha boca que só queria beijar-te os lábios. Deixei-me ficar, sem querer apressar nada. Entre nós nunca tinha existido nenhum contacto físico, somente em abraços bem apertados. Eu desejava beijar-te todas as vezes que te tinha comigo, mas resistia sempre a essa tentação, com medo de apressar algo que estava a ter um caminho tão belo. Deixei-me estar, calmo exteriormente, nervoso interiormente. De vez em quando abria os meus olhos e via-te perdido com o olhar no infinito. Tentei ler-te, mas como sempre tornavas-te impossível de ler. Os teus olhos brilhavam e tinhas pensamentos que eu não consegui decifrar. E uma e outra vez fechei os olhos, mergulhando em milhares de emoções.

Sim, eu sou muito emocional e todos os momentos vivo-os cheio de sentimentos, incapaz de os deixar de lado. Brilhavas intensamente na minha mente e em todos os momentos em que não estou contigo, não me sais do pensamento. A importância que fostes tomando não a consigo descrever, somente sentir. E ia sentindo todos os teus movimentos, o abraço apertado. Procurei-te o rosto, beijei-te suavemente. A tua pele é suave, cuidada, contrastando com a minha tão gasta pelo tempo, tão envelhecida. O sabor do teu rosto, gravado a fogo na minha memória para não esquecer, tornava-se cada vez mais claro.

Não sei quanto tempo passou e nem queria saber. Sentia-me confortável, seguro, e em mim só existia a enorme vontade de não querer que aquele momento terminasse. O teu abraço seguro, quente e que afastava todos os meus medos. De novo me foste beijando o rosto e eu estava tão bem, tão calmo. Mas dentro de mim crescia a tão grande vontade de te beijar, de sentir os teus lábios nos meus, desvendar finalmente o sabor de ti.

E enquanto a chuva caía indiferente ao mundo, o vento soprava, causando destruição e mostrando um pouco do seu poder e as pessoas corriam para os seus trabalhos, atarefadas, o trânsito que não avançava, nesse momento em que fora das paredes daquele quarto parecia só existir caos, os teus lábios tocaram tão suavemente os meus que eu pensei ser somente imaginação minha. Mas não. Os teus suaves e doces lábios tocaram os meus e, naquele momento, o mundo parou para mim. Milésimos de segundo, num suave beijo, foram como uma eternidade. E olhei-te nos olhos e tu não desviaste o teu olhar.

E o vento e a chuva que continuaram a cair. E nós, eu, tão indiferente a tudo em meu redor. Só existias tu, nada mais faria sentido. E um outro beijo e eu aninhei-me no calor de ti, no conforto do teu abraço, na paz do teu colo.

Sou ambicioso e quero sempre muitas coisas. Quero mais e mais. Mas ali, naquele momento, eu não quis mais nada, somente ficar eternamente ali. E o teu sorriso, o teu olhar, o doce sabor dos teus lábios. E eu e tu, ali, somente os dois, sem mais ninguém, sem palavras embaraçosas, sem pressas nem vergonhas. Eu e tu; os dois; ambos; nós. E os pensamentos que deixavam de existir, e os sentimentos que fluíam no ar. E eu, que imagino tanto, que sinta, talvez, pelos dois. E as palavras secretas que escrevo nas noites sombrias, nas noites claras e dolorosas. E os cadernos pretos que dizem mais de mim que eu possa imaginar, que me põem a nu, que me desvendam a alma, que me desmoronam. E tu, que me desconstróis em cada palavra simples, em cada gesto e abraço, em cada beijo suave.

Adormeci, contrariado, com medo de ser tudo um sonho. Adormeci numa tranquilidade que poucas vezes acho que senti. Adormeci esperando que quando acordasse tu ainda ali estivesses.

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