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Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

E voltaram as chuvas!

por Ismael Sousa, em 17.10.18

Voltou a chuva. Voltaram os ventos frios, as manhãs nebulosas, os dias cinzentos. Voltou a chuva.

 

Dou por mim irrequieto, sem vontade ou motivação que me valha. Sinto-me vazio, abandonado, com a aura negra, sem vida. Percorre-me na mente as pessoas que fui perdendo ao longo dos tempos. Recordo os seus rostos, os nossos momentos, as nossas conversas. Perco-me no pingo das chuvas que caem do lado de fora da janela. A saudade aperta dentro do meu peito, o sentimento de culpa por de alguma maneira ter menosprezado ou ter abandonado amizades ou pessoas ao longo da minha vida.

 

O dia hoje está cinzento, sem brilho. Não há nada que faça exaltar uma alma perdida de um horizonte que a guie. Existe a perda em demasia no meu peito, a saudade dos risos e da vontade que dentro de mim crescia.

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Tomo o meu longo café com sabor a cigarros constantes que enublam o meu pensamento num esforço enorme de não deixar que a lágrima escorra pela minha face. Sinto-me impotente, sem capacidade de fazer algo que mude aquilo que eu sou, aquilo que eu sinto.

 

O café está escuro, apesar das luzes estarem ligadas. A cobertura de madeira escura de todo o café entristece mais a alma que a acalenta. A superficialidade do momento, daquilo que eu suponho ter e não tenho. A incerteza do meu futuro, a vontade de me focar e não ter por onde me mover.

 

A madrugada da minha vida parece não ter despontado. Faltam-me as certezas e as forças, falta-me a vida, falta-me a alma.

 

Digito uma mensagem no telemóvel, apago-a. Falta-me a coragem de dizer aquilo que me vai no coração. Falta-me a força ou estou cheio de receio, da resposta que possa vir ou da mensagem que não virá.

 

O meu coração palpita incessantemente. Corre-me nas veias a fraqueza e a falta de um amor que me preencha. Apaixono-me constantemente e com muita facilidade. Preciso da atenção despendida, necessito do amor e do carinho. Sou feito de emoções, das emoções que fazem aquecer o coração. Amo o que não me ama. Uma constante da vida que se perpetua pelo tempo.

 

Voltaram as chuvas, voltaram os dias cinzentos e as longas horas dentro do café, inspirando cada palavra que escrevo na gota de chuva que escorre pela janela embaciada pelo calor de um ar artificial.

 

Preciso do tempo, do tempo que urge. Preciso do meu espaço e da minha calma, da lareira acesa, do lume que consome a madeira. Necessito do livro e do chá quente, do meu canto indiferente, onde sou eu na minha paz. Preciso do meu espaço, aquele espaço pelo qual ambiciono mas não possuo. Sou, eternamente, vazio e sem sentimento, triste e oco.

 

As palavras acumulam-se nas pontas dos dedos, querendo-lhes dar vida, querendo tornarem-se algo. Mas eu confundo-as, troco-as e as não sei expressar. Sou somente fútil e incapaz, preso a sentimentos que são tão díspares. Sou a encarnação da fraqueza e do abandono.

 

A chuva voltou. Voltaram os dias cinzentos e sem luz, o frio que leva a vida, a saudade que retoma, a melancolia que se instala. Voltaram as chuvas e a vida que eu não tenho.