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Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

De mim...

por Ismael Sousa, em 21.12.17

Sempre me dei em demasia às pessoas. Estive sempre disponível quando elas precisaram, preocupei-me, interessei-me pelos seus interesses. Sempre me preocupei em aprender com elas, a aprender para elas. Vivia com intensidade as suas alegrias e sempre com grande pesar as suas dores. Fazia-me tudo para todos. Estava sempre pronto a servir sem esperar agradecimentos, sempre pronto para cometer a maior loucura ou ser o melhor suporte. Sempre me preocupei com o bem estar dos outros, esquecendo-me de mim, deixando de fazer aquilo que gostava pelos outros. Nunca esperei que estivessem presentes nos meus momentos mas sempre me preocupei em estar presente nos seus momentos. Fiz-me, com todas as minhas forças, aquela pessoa com que sempre pudessem contar. Esqueci-me e fiz-me sempre.

Bebo mais um gole de Gin e perco-me na imensidão de memórias que me assolam a cabeça. Um cigarro para tentar enevoar um passado doloroso. Não, não me arrependo de nada. Talvez voltasse a fazer o mesmo, mesmo sabendo a dor que isso me iria provocar. Faria-o porque em mim sempre existiu o pensamento de me dar, de tentar arranjar forma de ser interessante, de ter amigos. E foram as inúmeras vezes que ouvi os seus problemas, sobrepondo-os aos meus. E em nada me arrependo. As suas alegrias, sempre vivi em silêncio, tantas vezes esquecido. E mesmo quando me sentia a mais, teimei em ficar.

Um distúrbio mental qualquer, uma anomalia psíquica. Um emaranhado de burrice e estupidez. E mesmo assim continuei, mostrando sempre o meu sorriso, fazendo todos os esforços, com todas as minhas forças, com toda a minha energia para viver essa felicidade de outrem da qual eu não pertencia. E agora... agora dói. Dói ver que tudo foi sempre em vão, que a minha presença, as minhas ações caíram no esquecimento.

Caem-me lágrimas pelo rosto e a enorme vontade de partir tudo em meu redor. Sinto-me enraivecido, revoltado e esquecido. Sinto que não existo, que sou somente um corpo que deambula pelo mundo na busca incessante de encontrar um sentido nas minhas ações. E agora, agora não sei viver. Aprisiono-me a memórias que, confrontaras com as de outrem, seriam só lembrança minha.

Mais um Gin, mais uns quantos cigarros seguidos.

 

- Deixa-te de merdas e segue em frente!

- E isso é por onde?

- Por onde mandar o teu coração.

- Não tenho. Destruíram-no!

 

Morri. Morri mil vezes e mil vezes renasci. Sempre no outro, nunca em mim. Renasci, morri e voltei a renascer. Derramei mais lágrimas do que devia. Passei demasiadas noites em branco, fiz enormes sacrifícios.

Vazio. Oco. Sem conteúdo.

Tentei escrever alguma coisa, algo que desse andamento à minha escrita, que transpusesse no papel aquilo que tenho sentido. Mas as palavras falham-me. Não sei, uma vez mais, como começar. E toda a minha escrita se esbarra aqui. Tento, ao máximo, escrever diariamente. Mas quando não consigo começar páro, simplesmente, de escrever. Poderia escrever exatamente sobre isso, mas penso que seria mais um texto sem conteúdo algum.

Voltei aos diários de Al Berto. A sua escrita, os sentimentos que me transmite fazem-me sempre bem. Rumino cada palavra sentindo-me inspirado mas sem ser capaz de escrever algo. Desde o princípio que achei a sua escrita muito similar à minha. Mas agora, depois de o ler, sinto sempre muito receio em escrever. Temo ser uma cópia de toda a sua originalidade. Mas sinto como ele sentia, vejo o mundo da forma como ele via. Até o cheiro da terra me invade a mente. E nesta minha busca incessante de tentar escrever algo, sinto como me perco eternamente em memórias tão distantes. Faltam-me as palavras, faltam-me as emoções.

As pálidas paredes do meu quarto, oprimem todo meu pensamento. Preciso de me libertar, preciso de partir em busca daquilo que me falta. Cansa-me a monotonia desta pacata cidade onde vivo. Necessito de ir mais além.

A rotina diária começa a cansar. Começo a ficar cansado desta rotina sempre tão previsível. As manhãs são frias, o nevoeiro prende-me a vista em todas as manhãs. Há o trânsito estupidamente parvo que parece não acabar. Há a falta de algo novo, de algo que me aqueça o coração pela manhã. As pessoas já não vivem, sobrevivem. Vivem irremediavelmente sem procurar um sentido, algo que lhes faça sentir verdadeiramente, que as faça parar, que faça sentido. E neste sentir, receado por todos aqueles que vivem na sua monotonia, eu vou olhando os sonhos que não tenho durante a noite.

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