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Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

(Coisas ditas entre parênteses)

por Ismael Sousa, em 11.02.18

A chuva cai de leve na vidraça. Lá fora, de novo, a neblina impede a vista de um horizonte maior, deixando somente à vista até às Torres. Chove e faz frio, mas a vista daqui nunca me cansa, a neblina que se vê não chateia (sempre gostei de nevoeiro, deixa-nos imaginar e sonhar). Dá uma forma de vida diferente, um misticismo a uma cidade que tem sempre tanto para dar.
Deambulo, por entre os meus pensamentos, de uma forma vagarosa e vaga. Um pouco como na tua, na minha mente também a neblina me tolda o pensamento. Estou num ponto da minha vida em que nem eu próprio sei quem sou. Vou vivendo sem me encontrar, sem conhecer absolutamente aquilo que sou (talvez nunca tenha sabido realmente quem era). Paira em mim a eterna dúvida sobre quem sou, para onde irei. Pauto-me, muitas vezes, pelo silêncio, pela distância, pela solidão. Nela encontro muito mais de mim do que quando rodeado por tanta gente, submerso na imensidão das palavras ditas. Encontro-me e sei de mim, sei daquilo que necessito, aquilo que quero ter na minha vida, aquilo porque palpita o meu coração. Conheço, inevitavelmente, as consequências destes meus padrões, se assim se podem chamar. Sei que isso me leva a perder muitas coisas, a perder pessoas. Sei que neste meu estado de ausências (não são corpos físicos que me movem) também sofro os abandonos. E sinto falta das pessoas, das suas palavras, das conversas e gargalhadas. Não há, na minha vida, um qb, quanto baste. Mas extremos. Sim, tanto amo como odeio. Não sei simpatizar. Tanto gosto de estar rodeado de pessoas, como a seguir só quero a solidão.
A chuva cai na vidraça diante de mim. E da minha vidraça escorrem lágrimas. São estados, momentos de fraqueza, vontade de desistir de tudo, seguir um novo rumo (porque não consigo eu fechar capítulos ainda tão abertos dentro de mim, fazer a mala, partir sem rumo?). São momentos em que fracassamos, descemos do nosso intocável pedestal. E é sempre mais fácil falar em plurais que falar em singulares. Achamos que os outros sentem como nós. E novamente o plural, ignorando ou substituindo o singular.
Sei, em todo o meu conhecimento, em todas as minhas certezas, que não sou uma pessoa fácil. Mas o fácil chateia-me. Sempre me desafiaram mais as dificuldades (porque elas obrigam-me a crescer, a sair de mim, a deixar a minha praia e partir para terrenos desconhecidos) que as facilidades.
Fecho-me sobre mim, no meu espaço entre tanta gente que está sentada à mesa do café. A música preenche-me os ouvidos, impedindo que o ruído ao redor de mim me perturbe a mente. São somente memórias, memórias que residem em mim que eu não consigo deixar morrer. Vou alimentando-se com sorrisos, com esperanças. Vou alimentando-as para me sentir vivo, para sentir que um dia fui especial (talvez seja crime eu sentir isto, sentir que deveria ser especial, que merecia ser especial).
Não consigo compreender esta mania que tenho de necessitar de me sentir diferente, de me sentir especial para alguém. Mero nada que simplesmente deambula. Falta-me o amor próprio, a incondicionalidade (acho que esta palavra nem existe, mas que importa?).
Existem três coisas na minha vida que me fazem continuar a viver neste mundo onde me sinto tão deslocado: o amor que sinto por tanta gente; a música que dá voz ao meu sentimento; as palavras que descrevem tudo aquilo que sou. Não deixo que me tirem nenhuma delas. Porque no dia em que me tirarem, que eu morra (de nada vale viver sem sentido, sem aquilo que tanto nos dá, que tanto faz pulsar o coração). Não faz sentido viver sem isto, viver sem as poucas coisas que ainda fazem palpitar o coração. Não existo para além destes três elementos tão fundamentais no meu viver. Quando escrevo, a vida é a minha caneta. Quando canto, a voz é a minha natureza. Quando amo dou tudo o que sou (se for para fingir eu nem quero existir).
Ainda que possa existir algum tipo de criatividade naquilo que escrevo, escrevo aquilo que sinto, que me perturba a alma ou lhe dá tranquilidade. Se canto, é porque a alma me inebria, porque necessita de ser saciada. Quando digo que amo, é porque de verdade o sinto.
Tenho muitas camadas, carapaças, escondendo-me por detrás delas. Tenho-as porque me obrigaram a criá-las. Obrigaram porque me magoaram, brincaram com aquilo que sentia, com aquilo que eu era. E fui-as criando, dia após dia. Mas estas minhas carapaças não significam que eu sou falso, que aquilo que sinto não é verdadeiro, que aquilo que eu digo é mentira. São, somente, forma de esconder um pequeno coração magoado.
Ainda chove, lá fora. E dentro de mim uma alma grita. Sou de extremos: tão rapidamente consigo derrubar todas as dificuldades que diante de mim surgem, como no instante seguinte me sinto morrer com a falta de algo. Sou uma pessoa de medos, de receios.
Assola-me (não sei porquê mas esta palavra sempre me ficou marcada e me fez recordar) o amanhã. Receio fechar os olhos, receio o acordar. Mas tudo poderia ser diferente (coisas ditas entre parênteses parecem não causar tanto impacto, serem ignoradas).

 

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