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Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

Cartas amarrotadas de amor!

por Ismael Sousa, em 15.03.18

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"Esta chuva faz-me lembrar de ti. Porquê? Talvez saibas a resposta, ou talvez não. Na verdade, já nem sei se continuas a ler aquilo que escrevo. Deves ter perdido o interesse, o que é normal. Mas não faz mal. Eu vou continuar a escrever sobre ti e para ti.


Sabes, tenho escrito muito sobre a chuva. Talvez porque ela me deprima ou por outra razão qualquer. Mas tenho escrito. Escrevo aquilo que me vai na alma. Tem andado muito negra a minha alma. Os meus dias, em toda a sua diversidade, estão cada vez mais monótonos. Faço as mesmas coisas diariamente, as mesmas rotinas.


Deixei de ir ao cinema. Agora assustam-me as salas vazias ou a minha solidão. Não sei. E eu que era tão solitário na minha forma de escrever. Talvez seja do frio e da chuva.


Nunca quis a monotonia na minha vida. Gosto da diversidade. Mas a verdade é que ando cada vez mais monótono. Os meus dias são iguais todas as semanas. Já pouco saio. Os olhares das pessoas sobre um solitário andam a incomodar-me cada vez mais, dia para dia. Tenho-me fechado sobre mim mesmo, perdendo a vontade para fazer seja o que for. Agora são só dias, normais. Nasce o sol, desce o sol. Na maioria dos dias nem o vejo. Estou cada vez mais solitário e cada vez mais abandonado. E eu que tenho tanto medo do abandono.


Os meus dias são uma treta. Trabalho e trabalho. As horas custam a passar. Abandonei também um pouco a leitura. Já não leio com tanta frequência. Parece que os livros já não me satisfazem! E logo a mim que adoro ler. Também já não escrevo na máquina de escrever há algum tempo. Nela escrevia tanto sobre ti. Há tanta coisa que gostava de te ter dito.


Por vezes pergunto-me se sabes, realmente, porque falo tão pouco ou respondo de forma tão seca. Talvez não saibas. Eu também nunca te expliquei, acho eu. Em tudo o que te tenho escrito, acho que nunca te expliquei. Acho que nem deves dar importância, porque eu sou muito sentimentalista e estou sempre com o sentimento na boca. Todas aquelas vezes que te disse tantas coisas, quando estava bêbedo, levam-te, agora a desvalorizar o que eu digo, com certeza. Mas nada foi dito em mentira.


Continua a chover, por estes dias. Tenho-me sentado por debaixo da claraboia a ouvir a chuva. O quarto está escuro, somente uma pequena vela me dá à luz necessária a escrever-te esta carta. Mais uma entre tantas.


Não tenho muito mais a dizer-te hoje, por entre tantas coisas que te quereria dizer. Mas talvez me falte a coragem, me assole a ideia de te perder com palavras em demasia. Talvez já tenhas ido, sejas só memória para mim.


Nunca leves as minhas palavras muito a peito. Somente as de amor. As outras são só floreado para te dizer o quanto gosto de ti.


Vou dormir. Talvez não acorde novamente ou passe a noite a ouvir a chuva a cair, o vento a soprar. Talvez ouça o teu nome no limbo entre o adormecer e sonhar. Também já não sonho. E queria tanto ver-te nos meus sonhos e não só a vaga imagem tua na minha memória."

 

 

[Amarrotou a carta, atirou-a para o canto, para junto de tantas outras. Adormeceu ali, no chão frio, debaixo da chuva que caía, no abandono da noite, no frio do vento. Adormeceu ali, envolto em amor.]

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