Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

A chuva voltou...

por Ismael Sousa, em 11.10.18

Acordei com a chuva que batia fortemente na vidraça. O vento soprava-a, salpicando as grandes janelas do meu quarto. Uma neblina pairava sobre as copas das árvores, entranhando-se por entre a floresta que que se prolongava pelo monte.

 

Da minha cama conseguia contemplar todo aquele imenso cenário, de uma vista privilegiada, como um espetador na primeira fila de uma ópera, onde consegue ver os músicos que executam as partituras, os bailarinos nas suas melhores performances, as divas nos seus pontos altos. Privilegiado era assim que me sentia por acordar todas as manhãs com aquela vista. Durante o dia as cortinas estavam corridas, mas todas as noites as corria para conseguir contemplar o céu estrelado, a lua que se despedia por detrás das árvores.

 

Fiquei ali mais de dez minutos a contemplar aquele espetáculo da natureza. Fiquei até que o despertador tocou, dando sinal de alvorada numa manhã tão cheia de outono.

 

Mergulhava nestas manhãs tão cheias de estações do ano com uma enorme raridade. Os dias são passados a correr, de trabalho em trabalho, daqui para ali. Os dias são passados e as noites são o único momento de mim para mim. Mas a noite não tem estações do ano. As noites são todas iguais, algumas com nuvens, outras com estrelas. Umas com lua outras com chuva. Mas as noites acabam todas por serem iguais, frias no alto do monte, solitárias, escuras.

 

Por isso, cada vez que acordava antes do relógio tocar a hora de levantar, mergulhava em manhãs de pensamentos, sempre diferentes no seu acordar. A vidraça, virada para poente, haveria um dia de me permitir ver o sol esconder-se por detrás da montanha, na calma de uma vida que desejo ter.

 

O mundo parou por instantes em torno de mim. A neblina que por entre os troncos das árvores se dissipava, penetrava no meu pensamento de uma forma estranha, cobrindo o meu coração de uma felicidade simples. Como um suave lençol que com que se cobre um corpo nu sobre uma cama ou um véu com que se tapa a cara dos mortos. A felicidade é amarga, como um pico, um momento fugaz. A felicidade anda sempre de mãos dadas com a desgraça. Temo-a mais que a morte porque causa mais dor. E aquele suave sentimento de felicidade perturbou a minha mente, fazendo-me temer o futuro.

 

A chuva havia parado há algum tempo. O despertador voltou a tocar como de aviso se à primeira não o tivesse escutado. Olhei de novo aquela paisagem por detrás dos vidros salpicados pela chuva. Olhava de forma a perpetuar aquele quadro na minha memória, na procura de força para mais um dia. Fechei os olhos e vi na minha mente aquela imagem. Aquele pequeno pico de felicidade haveria de ficar marcada por aquela imagem. E mesmo que a dor venha a ser enorme aquele pequeno quadro, gravado com força na memória, haverá de me dar algum conforto.