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Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

Espero por ti...

por Ismael Sousa, em 10.08.18

Deambulo pelas ruas em busca de ti. Eu sei que tu não estás, mas todo o meu ser deseja encontrar-te. Vejo-te, agora, só na minha mente. Recordo com imensa intensidade o teu cheiro, o teu sorriso, a tua voz. Falta-me o calor do teu corpo junto ao meu.

 

Na minha memória guardo, com todas a minhas forças, cada momento passado junto a ti: as conversas que tivemos, os locais que visitámos, os beijos que roubámos.

 

Estou só: vive um corpo perdido sem ti. Na minha mente ecoam as perguntas de como estarás, se sentirás a minha falta e o quanto eu gosto de ti.

 

Abate-se, de uma forma intensa, sobre mim a saudade que tu me deixas.

 

Tão pouco tempo e um sentimento tão grande que transborda de uma forma que eu não consigo explicar. Falta-me as palavras, falta-me a vontade, abundam as lágrimas.

 

A distância é algo que nos atormenta, algo que se nos impõe sem que o desejemos. Um teste, talvez.

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Já não moram sorrisos neste rostos, já não resido aqui. Estou perdido e sem rumo e tu faltas para me orientar.

 

Há a esperança que ainda arde por te voltar a ter em meus braços, por sentir o sabor dos teus lábios. O meu coração palpita, as lágrimas não me abandonam. E eu... aqui, perdido em pensamentos, deambulando como morto pelas ruas, sem vontade de aqui estar.

 

Morro a cada minuto que passa, a cada quilometro que aumenta. Só eu sei Que morro por não te ter, por não saber quando voltarei a teus braços...

 

Espero por ti, nem que a chuva caia abundantemente.

 

Espero por ti, nem que as lágrimas consumam todo o meu ser.

 

Espero por ti até ao fim...

Encruzilhada

por Ismael Sousa, em 02.08.18

Seria um fim de tarde perfeitamente normal, aos olhos dos que percorriam as ruas da cidade.

 

O rio corria na sua calma que lhe é tão característica, dividindo-se por entre os pilares da histórica ponte. O sol caiava de laranja todo o espaço que percorria, espelhando no rio as árvores e arquiteturas mais próximas. Voavam andorinhas no ar, livres e ao sabor da pequena brisa que se fazia sentir. Uma tarde perfeitamente normal, um fim de tarde como tantos outros, num dia comum.

 

Junto ao varandim, de ferro gasto pelo tempo, expectador de tantas histórias de amor, de tantas lágrimas e desesperos, encostava-se alguém, com o coração apertado e o olhar perdido na imensidão do infinito. O mundo corria, sempre, indiferente. Sentava-se, voltava a levantar-se. E de novo se sentava, os óculos de sol a girar sobre os dedos, a cabeça pousada na palma da mão. Fervilhava cada milímetro do sistema nervoso. Percorriam-lhe os pensamentos pela cabeça, como seria, como não haveria de ser. O coração palpitava no peito, quase que saltando-lhe pela boca. Reviravam-se-lhe todas as entranhas, o medo e a ansiedade tomavam conta dele.

 

O tempo passava de forma lenta e acelerada ao mesmo tempo. Um miscelânea incapaz de ser compreendida, uma tempestade de sentimentos. O rio continuava calmo, o sol tornava-se cada vez mais vermelho. Circulavam gentes, voavam andorinhas. Uma voz, atrás um salto no coração. Levantou-se, corou, os nervos aumentaram.

 

Vieram as primeiras palavras ditas ao acaso, num cumprimento cordial e sem qualquer sentimento aparente. Só ele sabia o quanto estavam carregadas de sentimentos aquelas primeiras palavras. Depois, calmamente, veio o abraço apertado, o abraço que acalma, que não deveria ter fim, somente princípio e entretantos.

 

Passaram o rio ainda com tão poucas palavras ditas e com tanto ainda por dizer. Um café, uma esplanada, um coração que era agora paz.

 

É incompreensível a razão que faz o coração palpitar assim, de uma maneira estranhamente estranha. Há borboletas no estômago que só conhece quem sente.

 

O sol brilhava de uma forma especialmente especial. Viviam-se vontades e sentimentos, coisas que quase ninguém conseguia perceber.

 

Cada traço, cada olhar, cada pequeno gesto era agora percetível. A verdade estava ali, na sua forma mais pura. Houve a ânsia, o nervosismo, mas naquele momentos só a calma. A tempestade transformara-se em bonança, a calma o reflexo do nervosismo. O rio corria calmo, o sol quase que se pusera e já não notava se havia andorinhas pelo ar.

 

Num olhar comum, tudo seria normal. No coração tudo era diferente e especial. A estranheza acabara, a verdade revelara-se. As horas já eram galopantes, saltando de dez em dez minutos, fazendo passar o tempo na metade daquilo que se pensava na realidade.

 

A magia que existia no ar, a magia que existia nos sentimentos. Um coração palpitante e ansioso, era tudo o que havia para dar. Por entre os abraços e os beijos, as mão unidas ou os braços apertados, viveu-se num mundo de magia, aparentemente normal.

 

Depois, depois cresceu a saudade numa forma muito maior. Cresceu o sentimento em tudo aquilo que a vida tem para dar. Teme-se o futuro mas existe a vontade de lutar. E num amanha ainda maior e mais persistente, a vida não deixa de ser vivida. O sentimento e a saudade, de mãos dadas, vão crescendo cada um na sua medida. Um cresce para nunca acabar, o outro para se ir diminuindo cada vez mais.

 

Um coração que no silêncio e no desconhecido palpita por alguém lá longe, por amores conhecidos.

 

Este sentimento que cresce e vive, este sentimento que não deixa de existir. De tantas leituras ainda não se conseguiu encontrar forma mais bela para se descrever aquilo que se sentiu. Os sentimentos escrevem-se mas não se explicam no papel nem em palavras. Somente sentindo e proferindo palavras verdadeiras que correspondam aquilo que se sente.

 

A noite, a maior amiga e a maior inimiga dos amantes, chega e destrói. Mas existe sempre algo que perdurará no tempo, haverá sempre algo guardado em memórias, essas que são e serão sempre maiores que as palavras que se escreve um dia.

 

E no silêncio da noite, na escuridão de um quarto, ainda se sente o seu cheiro.

 

 

...

por Ismael Sousa, em 24.07.18

Perco-me na infinítude do teu olhar. Anseio conhecer cada traço do teu rosto, cada local teu, cada sentimento e pensamento. Quero-te, junto a mim, em dias incontáveis de eternidade, onde sonhos e mundos habitam em nós e somos tudo aquilo que desejamos.

 

As horas passam infinítamente em anseios de te ter junto a mim, em meus braços e em meu sentir. Sentir o teu cheiro, conhecer a tua respiração, o sabor dos teus beijos e o calor do teu abraço.

 

O sonho e a vontade perpetuam a vontade de ser parte de ti, num complemento e conformidade que só nós dois conhecemos. O tempo que é indiferente, o tempo que não sente ou que não quer sentir, o tempo que acentua e magoa, o tempo e o tempo.

 

Sonho-te em cada momento que o meu pensamento se desliga do trabalho. Sinto o corpo a movimentar-se e o meu pensamento a procurar-te. Viver cada segundo inseguro de ti, com o receio de te perder, o medo de não bastar.

 

Tantos os silêncios que nem o mar me traz conforto. Olho-o na sua imensidão, para além das vidas que me circundam, em momentos de ilusão e abandono. Quebro as regras que me impuseram: o sonho e a vidraça, o café e o horizonte sem fim. E em fins inesperados me espero encontrar contigo.

 

Falham-me as palavras que te quero dizer; falham-me as forças e a confiança. O café está frio, o sol não me aquece a alma. Sinto-me a vaguear sem rumo, na ausência que não compreendo. A vida passa-me diante dos olhos e a melancolia abate-se de novo sobre a minha alma negra e esfarrapada.

 

Saio, para a rua, em ausências inexplicáveis. A vida, que simplesmente corre, não se inebria por mim. Há um triste fado nesta forma de viver, nesta dor de sentir, nesta fome insaciável. Há um fado melancólico em palavras bucólicas e desajeitadas, tentando dizer tudo aquilo que sinto em mim.

 

Falham-me as formas gramaticais, as palavras e os verbos. Repito o que digo sentindo inexplicavelmente algo maior, que não consigo compreender, que não consigo ver. E o depois que é sempre tão constante, impedindo a forma de viver bem o presente que desejamos. O medo de um futuro esvaziando aquilo que dentro de nós existe. Pelas palavras que dizemos, comprometemos as nossas vidas, unindo-as num forte laço inquebrável por quem quer que passe.

 

Sonhos, ilusões, certezas ou angústias. Perdas irreparáveis, medos e receios.

 

Uma estrada ou meio, uma forma de chegar. Vai-se ficando, vai-se vivendo. Um estado de inexplicável sentimento, que nenhuma palavra no meu conhecimento consegue traduzir aquilo que dentro do meu estranho ser se faz sentir. Talvez um fado, talvez uma saudade, quiçá um fado-saudade.

Palavras abafadas!

por Ismael Sousa, em 13.07.18

Existe, no meu peito apertado, um enorme sentimento de abandono.

Rasga-se-me o peito em inúmeras horas de sofrimento silencioso, onde o sorriso sempre presente se esbate no rosto. Não existem mais lágrimas por onde escoar os sentimentos que dentro de mim gritam.

Existe, sempre, a réstia de esperança, na crença de tempos de bonança, em que não sentirei dor, em que o desespero não residirá em mim.

Sou um ser complexo e estranho em tantas coisas. Os meus gostos diferem de tantos outros. Dou-me na total pessoa que sou. Continuo a acreditar nas pessoas e na sua bondade, mas sempre acabo por me dececionar. Quero acreditar sempre, num novo passo, mas aquilo que sinto é que serei sempre mais um instrumento nas mãos de outrem.

Eis-me aqui, sentado, diante de uma vista fabulosa, acompanhado pelo Gin, sozinho e abandonado. Não há quem partilhe comigo estes momentos belos, esta forma de viver estranha.

Estranheza contida nas entranhas, inegável naquilo que sou. Desabafo nas palavras, as minhas únicas e fieis companheiras. Uso-as e abuso delas na alegria e na tristeza. Elas sempre conheceram o meu ser, as minhas dores e júbilo. Elas que sempre estão, para recordar e perdoar, para fortalecer, dar energia e por vezes fazer fracassar.

Abandono-me, cada vez mais, a este estado de incompetência e de invisibilidade. Somente as palavras me dão alento, somente as palavras reconfortam e aceitam as minhas decisões.

Abandono-me nesta minha imperfeição, nesta enormidade de defeitos e falta de qualidades que eu tenho. Sou um ser pobre, sem interesse. Tentei tantas vezes ser diferente que a diferença se instalou em mim, arrebatando-me ao campo do abandono total.

Por vezes quero escrever mais e mais, mas a constante negrura da minha vida, a energia negra que de mim emana, impede-me a fazê-lo, no medo de me tornar tantas vezes repetitivo. Escrevo tantas vezes sobre este meu estado impuro de sobrevivência. Encho a minha vida com mil coisas, tentando esquecer a dor que dentro de mim surge.

Amar corpos tornou-se o comum e as almas já não interessam.

Cartas amarrotadas de amor!

por Ismael Sousa, em 15.03.18

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"Esta chuva faz-me lembrar de ti. Porquê? Talvez saibas a resposta, ou talvez não. Na verdade, já nem sei se continuas a ler aquilo que escrevo. Deves ter perdido o interesse, o que é normal. Mas não faz mal. Eu vou continuar a escrever sobre ti e para ti.


Sabes, tenho escrito muito sobre a chuva. Talvez porque ela me deprima ou por outra razão qualquer. Mas tenho escrito. Escrevo aquilo que me vai na alma. Tem andado muito negra a minha alma. Os meus dias, em toda a sua diversidade, estão cada vez mais monótonos. Faço as mesmas coisas diariamente, as mesmas rotinas.


Deixei de ir ao cinema. Agora assustam-me as salas vazias ou a minha solidão. Não sei. E eu que era tão solitário na minha forma de escrever. Talvez seja do frio e da chuva.


Nunca quis a monotonia na minha vida. Gosto da diversidade. Mas a verdade é que ando cada vez mais monótono. Os meus dias são iguais todas as semanas. Já pouco saio. Os olhares das pessoas sobre um solitário andam a incomodar-me cada vez mais, dia para dia. Tenho-me fechado sobre mim mesmo, perdendo a vontade para fazer seja o que for. Agora são só dias, normais. Nasce o sol, desce o sol. Na maioria dos dias nem o vejo. Estou cada vez mais solitário e cada vez mais abandonado. E eu que tenho tanto medo do abandono.


Os meus dias são uma treta. Trabalho e trabalho. As horas custam a passar. Abandonei também um pouco a leitura. Já não leio com tanta frequência. Parece que os livros já não me satisfazem! E logo a mim que adoro ler. Também já não escrevo na máquina de escrever há algum tempo. Nela escrevia tanto sobre ti. Há tanta coisa que gostava de te ter dito.


Por vezes pergunto-me se sabes, realmente, porque falo tão pouco ou respondo de forma tão seca. Talvez não saibas. Eu também nunca te expliquei, acho eu. Em tudo o que te tenho escrito, acho que nunca te expliquei. Acho que nem deves dar importância, porque eu sou muito sentimentalista e estou sempre com o sentimento na boca. Todas aquelas vezes que te disse tantas coisas, quando estava bêbedo, levam-te, agora a desvalorizar o que eu digo, com certeza. Mas nada foi dito em mentira.


Continua a chover, por estes dias. Tenho-me sentado por debaixo da claraboia a ouvir a chuva. O quarto está escuro, somente uma pequena vela me dá à luz necessária a escrever-te esta carta. Mais uma entre tantas.


Não tenho muito mais a dizer-te hoje, por entre tantas coisas que te quereria dizer. Mas talvez me falte a coragem, me assole a ideia de te perder com palavras em demasia. Talvez já tenhas ido, sejas só memória para mim.


Nunca leves as minhas palavras muito a peito. Somente as de amor. As outras são só floreado para te dizer o quanto gosto de ti.


Vou dormir. Talvez não acorde novamente ou passe a noite a ouvir a chuva a cair, o vento a soprar. Talvez ouça o teu nome no limbo entre o adormecer e sonhar. Também já não sonho. E queria tanto ver-te nos meus sonhos e não só a vaga imagem tua na minha memória."

 

 

[Amarrotou a carta, atirou-a para o canto, para junto de tantas outras. Adormeceu ali, no chão frio, debaixo da chuva que caía, no abandono da noite, no frio do vento. Adormeceu ali, envolto em amor.]

Exacerbação da palavra

por Ismael Sousa, em 12.03.18

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Somos feitos de palavras. São elas que nos definem e sem elas a nossa existência parece reduzida a nada. Sou feito de palavras, tantas vezes sem sentido. Como-as ao pequeno-almoço, bebo-as enquanto como, vomito-as sempre que não estou bem. Palavras, vagas tantas vezes, sem sentido outras tantas. Palavras que são mais doces que o açúcar e mais agrestes que o vinagra. Palavras que matam e que constroem.

 

Odeio palavras.

 

Fumo mais um cigarro enquanto espero. Pela vidraça, ainda salpicada pelas gotas da chuva trazidas pelo vento, passam os raios de sol que agora despontam depois da tempestade. Lá ao fundo, a cidade. É a memória e património ali, ao cimo. É as gentes que por ali passaram e as outras tantas que ainda por lá estão. É a vida que cresce das pedras da calçada, as palavras perdidas entre as paredes.

 

Novamente as palavras.

 

Sinto o cheiro a mar na minha memória. O sol transporta-me para a beira mar onde me sentei a fitar o horizonte. A melancolia, a falta e a necessidade de algo mais. Podemos ter tanto, viver com tanta intensidade que mais não seja possível, mas há a falta de algo, quando recostamos a cabeça na almofada ao final de um dia. Falta aquilo que nos preenche, aquilo que fomos, aquilo que tanto desejamos ser. Fracos. Fraquezas, medos, terramotos e tempestades em nossas certezas. A confusão.

 

Fulmino palavras.

 

Como transpor aquilo que sentimos, aquilo de que necessitamos? Como fazer compreender? As palavras traem os sentimentos, são fonte de zanga e de mal-entendidos. Mas são verdade, pura e dura, são realmente aquilo que sentimos. Nada somos sem as palavras, por mais que elas nos custem. São as palavras que escrevemos, que nos dão vida. São a concretização do que sentimos.

 

Sou feito de palavras.

 

Nada faz sentido. E a vida é, muitas vezes, isso mesmo: não fazer sentido. Escrevo em demasia e nesse abuso que faço das palavras concluo que nenhumas fazem sentido. Tomo-as como minhas, mas nunca o são, nunca o foram, nunca serão. Usamo-las, brincamos com elas ou simplesmente desperdiçamo-las. E eu, na conclusão de todos os meus pensamentos, sinto que sou um desperdiçador de palavras! Uso-as como se fossem inesgotáveis. Mas esgotam-se e por vezes nem sabemos o que dizer. Talvez porque não haja nada para dizer, talvez nada tenha de ser dito. Outras vezes não se deveria dizer e nada, e eu abuso delas. Sou indelicado, sou inconveniente. Sou o que sou.

 

Odeio-me e fulmino-me!

 

E se não houvesse chuva, o que seria?

por Ismael Sousa, em 03.03.18

Chove imensamente. Desde que acordei, e hoje foi cedo, que me deixei na cama mergulhado no barulho tranquilo da chuva que cai e nos pensamentos que na minha cabeça permanecem. Já passa do meio dia e eu ainda aqui permaneço, no silêncio do meu quarto. O meu rosto reflete sorrisos e lágrimas. Há a memória de momentos tão bons que ficam unicamente na memória vaga do meu pensamento.IMG_2713.JPG

Nada fiz, durante toda esta manhã. O mundo lá fora vive indiferente da minha existência. Há o grito que nasce em mim. Assolam-me as noites. Os fantasmas do passado matam o meu interior, perpetuando-me as noites sem dormir, envolto em barulhos em que me tento abstrair. Sou o medo e o medo sou eu.

Saí de casa, com banho tomado, vestido a rigor sem destino. Na minha mente a mera existência de um tempo perdido em pensamentos e preguiças. Ocupo os meus dias com excessos de trabalhos para não me perder. Sinto-me, a cada dia, mais vazio e sem uma motivação. A negatividade que sinto em mim, parece acentuar-se, ainda mais, com as expetativas que me colocam sobre os ombros.

Lá fora continua a chover e eu fugi para dentro do bar. Bebo um Gin enquanto escrevo estas palavras que me cosem a alma aberta de feridas. O rio corre, cheio, indiferente ao que encontra pela frente. O seu caudal vai-se alargando, lenta e pacientemente. O dia está cinzento, a minha alma está negra.

Fumo um cigarro e perco a vista pela vidraça embaçada pela diferença de temperatura que se sente: cá dentro o calor, lá fora o frio; cá dentro a tristeza, lá fora a vida.

A cada dia que passa sinto, com tristeza, o abismo que existe entre mim e as pessoas. Fujo, afasto-me. É a minha forma de proteção, a minha forma de evitar de os magoar, de lhes tocar com a minha aura negra. Sou a morte e a destruição que existe na vida das pessoas. Mato os momentos que vivo, sou passagem e não estação. Há um abismo, profundo, intransponível.

Há um cão que vagueia debaixo da chuva, os carros que passam indiferentes e fugitivos. Morre-se a cada dia que se vive. O mundo parece não querer nada mais que viver o seu dia, indiferentes ao passado, inconsequentes em relação ao futuro. Morre-se a cada dia que não se ama, que não se cuida, que não se preocupa. Vive-se indiferente com o mundo comum ao seu lado. Todos estão bem, apesar de todos os sinais que se dão. Depois, como sempre há um depois, toma-se a consciência de ter sido tarde de mais, o arrependimento de nada se ter feito. Mas o depois é sempre tarde e as questões apenas descargos de consciência.

Acabou o Gin e a vontade de fazer seja o que for. Perco-me na música a única coisa que me acalenta a vida. Sinto-me perdido e não existe bússola que me oriente. Urge a necessidade de me reencontrar. Mas sei que para isso acontecer necessito de cortar com tantas coisas na minha vida. Preciso da fuga e da solidão, do recomeçar do zero, do perder tudo e necessitar de voltar a construir tudo de novo. Preciso da novidade, da verdade! A verdade: a crueldade. São sinónimos, partes integrantes um do outro. E o que interessa? Porque se a verdade é cruel, também é maleável. Cada um se diz detentor da sua própria verdade, por isso a verdade não será verdade.

Li de uma assentada "Salsugem". No fim vieste-me à mente. Eu chorei.

 

 

 

 

Sem ti... (I Parte)

por Ismael Sousa, em 25.01.18

Quão fugaz é a vida? Que significado tem? Que caminho ruma? Somos seres tão frágeis e débeis, ignorantes na nossa estrada, ignorantes no nosso próprio conhecimento. Somos fugazes. Deparamo-nos com a morte e somos tão incapazes de a compreender, de lidar com ela. Remexe-nos as entranhas, faz-nos sentir tão ocos, tão cheios de nada, tão vazios. Amaldiçoamos o dia e a noite, a hora e o momento. O dia chega e não estamos preparados ou mentalizados. Meros nadas numa longa ou curta vida! A quem pertence o desígnio de dar ou retirar a vida? Quais os seus padrões? Tanto conhecimento e tanto desconhecimento ao mesmo tempo! Infelizes de nós, infortunados que somos que desconhecemos o que pensamos dizer!

Nada mais para fazer. Peguei nas chaves e na carteira e saí de casa. Na rua estão uns trinta graus. Só falta a lua a alumiar o caminho e as ruelas da cidade. Vou caminhando até a um cafe aberto. Vou-me cruzando com as pessoas. As ruas estão povoadas de gente. Com o calor saíram à rua. A maioria segue alheia a sua vida. Outras olham-me de lado. Que pensamentos sobre mim povoarāo as suas cabeças? Que pensarão quando cruzam o seu olhar com o meu?
Sigo o meu caminho despreocupado. Hoje sinto o meu astral em cima, sentindo que ninguém será capaz de destruir aquilo que sou.
Paro no primeiro café. Sento-me. Peço um café e olho em meu redor. Há festa na cidade. As pessoas divertem-se, cumprimentam-se. Riem. Chega o café. Bebo-o de uma golada. O empregado pergunta-me se espero mais alguém. Digo-lhe que não. Olha-me desconfiado. Deve estar a pensar quem é o tolo que vem tomar café sozinho numa noite como esta. Retira a cadeira e agradece-me com a cabeça. Pego no telemóvel. Viajo um pouco pelas redes sociais. Tudo mais do mesmo. Começo a fartar-me. O mundo está todo tão igual. Sinto-me excluído dele. Por isso vou aproveitando todos os momentos. Mesmo que tenham de ser na solidão. Não me importo. Antes uma vida solitária mas aproveitada que uma vida em companhia e desperdiçada.
Não compreendo o mundo. O mundo não me compreende. Se metade das pessoas soubessem os pensamentos que me vão na cabeça, se eles conseguissem compreender as minhas razões, talvez não fossem tão rápidas a julgar-me.
Acendo um cigarro. O fumo esvoaça pelos ares. Livre. Solitário. Porquê que achamos que tem de ser tudo tão igual? Porque não acolhemos a diversidade tão facilmente? Temos de ser assim tão iguais?
Por vezes acho que são todos uns fúteis, uns ignorantes, incapazes de explorar o mundo à sua volta. Burros. Incapazes. Limitados. Ou não serei eu a estar enganado? Achando que há algo mais do que isto que os meus olhos veem?
Mais um cigarro, um olhar distante. Sou eu. Sou o que sou. Não agrado a ninguém. Já não sou mais assim. Vivo para mim. Quando morrer vou só e sem nada. Por isso, de que vale andar a agradar alguém?
As ruas começam a esvaziar. Amanhã é mais um dia de trabalho. Para mim, mais um dia sem fazer nada. Repugna-me este meu estado. Levanto-me à hora que desejo, deito-me à hora que quero. E nas horas que distam o levantar do deitar, faço aquilo que surgir. Não aguento horas infindas em frente à televisão. Não aguento as paredes de casa. Saio, leio, passo horas em frente ao computador. Por vezes vem a inspiração e abro o caderno e escrevo. Outras vezes recorro às tecnologias para escrever. Como é o caso agora, porque abalei de casa para o incerto sem saber para onde ia. Sentei-me neste cafe, observei e comecei a escrever. Perdi a noção das horas. Mas que importa? Nada me espera, ninguém me espera. Por isso, para quê preocupar-me.

Depois vem a chuva, encharca-me com a tristeza e o abandono. Depois o sol que me faz apodrecer em melancolias até que com as novas chuvas eu desapareço. E como quem não é visto não é lembrado, quem não faz falta ao esquecimento é reduzido. E eis-me aqui, reduzido e abandonado, inebriado pelo álcool a escrever palavras. Palavras que me saem da alma.
Cada vez mais me convenço de que o álcool é a chave da alma. Tomado a mais, faz-nos dizer aquilo que não queremos, aquilo que só para nós queremos guardar. E isto porque num pobre coração como o meu, nada mais faz sentido. Quem me dera adormecer para nunca mais acordar. Seria menos um fardo que alguns têm de carregar. Seria menos um a estorvar no caminho, menos um em tantas vidas. Seria somente memória, recordada unicamente de passagem. Não sou pertença na vida de ninguém. Não sou nada. Nada sou. E neste nada desapareço. De mim só restaram memórias vagas e palavras escritas em papeis que voaram mais depressa para o fogo do que alguém perder tempo a ler. Nada mais faz sentido. Nada mais tem um propósito. Cansei de lutar. Cansei de me esforçar para ser um ramo verde na árvore da vida de alguém. E todo o meu esforço é para sempre ser uma folha que na primeira brisa de felicidade para a árvore, cai. Ao menos se a beleza me tivesse favorecido, se as linhas traçadas do destino me tivessem sido mais favoráveis e eu tivesse passado uma vida feliz, talvez aí eu tivesse sucesso.
Mas a minha vida é feita só de desgraças, de desencontros, de insucesso, de solidão, de afastamentos, de desprezo. E esta tem sido a minha vida. Isto e só isto. Talvez eu desapareça de vez e aí não exista mais aquela eterna melga, aquela incómoda presença, aquela triste figura.
Rendo-me, cada vez mais, às energias negativas que me rodeiam. A minha alma está negra. Pesam-me as tristezas no rosto, as mágoas nos olhos, a infelicidade na minha postura. Cada vez mais me torno num vulto ambulante, pairando nas ruas amargas deste mundo.
Sinto-me sem norte, sem rumo. Roubaste a bússola que havia em mim, no sentido que eu tinha para a vida. Onde andas? Porque desapareceste sem me dizer nada? Bastava-me um adeus e eu seguia em frente. Mas fiquei desamparado, sem perceber as razões que te levaram a esse enorme silencio. Ou talvez saiba. E sei.
Releio tantas vezes as mensagens que trocámos. Trazem-me tanto de ti. Um sorriso, um momento de serenidade. És-me tanto. Fizeste despertar em mim sentimentos que eu já não conhecia. Inspiravas-me, animavas os meus dias. E eu escrevi tanta coisa, inspirado por ti. E agora o nada. O absolutamente nada. Preocupo-me tanto em saber se estas bem. Nada mais te peço e não mais te perturbo a vida. Mas por favor, dá-me sinais de ti, diz-me só se estas bem, que nada mais entre nós existirá. Diz-me só algo a que me possa agarrar...

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E depois da chuva...?

por Ismael Sousa, em 10.01.18

Refugiei-me num café, ou melhor, fugi para lá. Chove intensamente lá fora. O rio corre na sua calma, mais enriquecido em cada gota de água que cai dos céus. Precisei deste espaço para fugir aos barulhos da casa. Um café, um espaço onde posso fumar, escrever um pouco e acabar leituras pendentes.

Trago comigo Valter Hugo Mãe para acabar de o ler. A sua escrita, em algo parecida à de Saramago, na minha opinião, fascina-me de uma maneira tal que me prende à sua leitura.

Chove, chove intensamente. Bebi o meu café, fumei o meu cigarro. A vista sobre o rio, picotado pelo cair da chuva, prende a minha visão e o meu pensamento.

Quero ler, mas a vista é os pensamentos prendem-me e a necessidade enorme de escrever urge, nasce em mim.

Cansei-me de avaliar a minha vida, de traçar planos e projetos. A necessidade de viver de forma intensa cresce cada dia mais em mim. Sinto-me preso a esta vida, preso e amordaçado. E esta incapacidade de viver de forma intensa, a de gozar os prazeres da vida numa forma de me fazer aprender, prende-me ainda mais aos sentimentos que floresçam dentro de mim. Quem me dera dizer que são todas belas e lindas rosas. Mas ainda existem muitas ervas daninhas.

Um forte raio de sol irrompe das nuvens, iluminando a mesa onde estou, incidindo diretamente em mim. O breve momento de calor, de conforto, de ser acariciado. A comparação mais estúpida, mas bem mais sentida no meu pensamento.

Este raio de sol que me encandeia a vista dá-me as certezas que necessito. Não é o raio de sol em si, mas as conclusões que dentro de mim encontro. São as meditações profundas da alma, as questões que têm atormentado o meu dia. É este raio de sol que me diz que depois das nuvens se dissiparem, o sol voltará a brilhar. Que depois da tempestade e da chuva o sol virá para fazer rebentar a relva verde, as flores escondidas. É este raio de sol que me diz que é hora de seguir.

Há a necessidade de pontos finais na minha vida. Não suporto vírgulas nem pontos e vírgulas. Preciso de pontas amarradas, de situações resolvidas. É sempre eu a esperar que os venham colocar, aos pontos, que venham dar nós nas cordas e pontas soltas. Pois bem, é altura de mudar, de colocar mãos à obra e fazer o que tem de ser feito. É hora de seguir em frente.

A chuva voltou, eu acendi mais um cigarro. A ilusão de termos de ter uma vida perfeita turva-nos o olhar. Não lidamos bem com o fracasso, com o insucesso. E deixamos-nos abater, odiando tudo em nosso redor. Mas o que seria a vida se tudo fosse feito de sucessos? Que prazer nos trariam?

Tenho a mente limpa. Dentro de mim a certeza de amarrar as pontas soltas. Há um fim, a decisão de hoje ser o fim. E em mim surge a calma e o bem que há tempo demais desejo. Esta forma de estar, esta forma de esperar, acabou. A vida vai ter que ser talhada com o que acontecer.

E agora, agora somente coisas aleatórias e tão ligadas entre si existem no meu pensamento. Há as ruas e palavras escritas nas paredes. Há uma máquina de escrever, as luzes de uma cidade do outro lado de um rio. Há as gargalhadas, o sorriso parvo, as salas de cinema.

Chega de escrever. Tenho o Valter à minha espera e a necessidade de o acabar.

 

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Haver - do latim habeo, -ere

por Ismael Sousa, em 07.01.18

Talvez a memória falhe e não recordemos. Talvez não fixemos certos momentos tão comuns ou incomuns. Talvez não se dê importância, ou nem nos lembremos por casualidade ou normalidade de uma vida. Mas eu, teimoso em ter memória de elefante, ainda consigo recordar.

Não era uma noite fria como as que agora vivemos. Talvez um pouco, mas o normal para quem saía de um verão longo que entrava já no outono sem chuva. A seca extrema era uma das notícias mais badaladas da altura, juntamente com o flagelo dos fogos que se tinham vivido pouco tempo antes, ainda nem um mês havia feito.

Eu andava perdido, deambulando em todas as noites pelas ruas, na esperança de um retorno que nunca existiu. Esperava uma palavra, qualquer coisa do género. Mas isso não existia. E eu, esperava, todas as noites. E como esperava, deambulava. Saía de casa, ao fim de jantar, percorria as ruas da cidade numa solidão triste e vazia.

Tinha conhecido Al Berto há pouco tempo e devorava tudo o que apanhava à frente, escrito por ele. Li a sua biografia, dois dos seus livros. Li textos e poemas soltos. Sentia em mim a sede de me deixar inebriar por ele, pela sua forma de escrever. Era uma terça-feira à noite. Sentei-me no bar do costume, mas não na mesa do costume. Debrucei-me sobre o meu caderno, teimosamente de capa preta, escrevi várias palavras. Era tudo sem sentido, tudo fusco e sem uma linha que interligasse o meu pensamento. Era um palavreado barato. Nunca tive jeito para o palavreado caro. Não sei escrever com ele. Sou um pobre, culturalmente, e isso nunca me deixará ir mais além.

Devo ter escrito umas dez páginas nessa noite. E tudo vazio como o que abundava dentro de mim: o vazio. Não sei quantas pessoas estariam no bar, pois eu estava mais concentrado na minha escrita que no ambiente que me rodeava.

Penetro-me, assim, muitas vezes. O mundo em meu redor é uma ilusão, existo somente eu e as palavras, num mundo tão só meu que é raro que alguém o consiga perceber. São as palavras o reflexo dos meus olhos e os meus olhos o reflexo da minha alma negra. E ali estava eu, com períodos em que os espelhos da alma se embaciavam, cobrindo-se com uma humidade comum: as lágrimas.

Já não choro, não sei chorar. Embaciam-se-me os olhos, enchem-se de lágrimas, falha-me a voz e há um pequeno apertar na garganta. Mas as lágrimas não correm, o sopro de ar fulminante não existe e tudo acaba por morrer. E ali estava eu, perdido e encontrado, nas palavras que sempre escrevo e que jazem eternamente nas páginas dos cadernos que um dia serão fogo e deixarão de existir. Ali estava eu, a beber o meu Gin, preparado de forma especial para mim, com aquele gosto que eu sempre desejo.

Não sou de fugir muito às minhas rotinas. Procuro encontrar-me sempre entre os meus gostos, entre as coisas que gosto. Fora disso sou como um peixe fora de água. Não sou de aventuras, de experimentar coisas novas. Somente em tempos de loucura, mas tirando isso, procuro sempre o meu conforto e em manter-me nesse espaço, onde os olhos não me olham de forma diferente, onde o sentimento de excesso não o sinto.

A conversa surgiu de forma inesperada, sem que o pudesse contar. Al Berto foi a causa. Alguém tão profundo, tão existencialista, português e tão desconhecido. A probabilidade do cruzamento de alguém por causa deste tema/pessoa, parece uma enorme utopia, sonhava pelas almas mais profundas. Mas começou por aí e toda a existência de Beno e de Outsider se cruzou.

Há um início, um passado, um dia que ficou para trás na história. A improbabilidade e o conhecimento, numa miscelânea até então desconhecida.

Há um agora, um presente, a impossibilidade de se prever mas somente de viver e de se sentir.

Há um depois, um futuro, construído pela vontade, pelo conhecimento e circunstâncias.

Há um passado, que era tão presente, uma esperança de futuro, que ficou presa no tempo, pela falta de tanta coisa, pelos esforços e desconsiderações. Há esse passado que ainda tem um espinho no futuro, mas que apodrecerá num presente futuro.

Há as palavras que tanto transmitem. E toda a falta delas, toda a serenidade e todo o bem. Há aquilo que em tanto tempo não houve. E uma razão, desconhecida. Há abraços que são mais que tudo aquilo que se possa desejar. Há e somente o desejo de continuar a existir.

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