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Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

Nem muito, nem tanto, mas talvez...

por Ismael Sousa, em 05.03.18

Quantas lágrimas serão precisas, quantas horas de choro são necessárias, para acalmar todo o ardor que sinto? Quantas bebedeiras necessito para te dizer o quanto te amo, a falta que me fazes, o quão especial és para mim? De que necessito para sarar este meu coração que derrama lágrimas de sangue? Ainda te lembras dos nossos cafés, as noites que passámos a falar? Tens memória de mim em algum momento da tua vida?

Longe, estamos cada vez mais longe.

 

Fui ao café, sentei-me onde nos sentávamos. Sou assim, feito de memórias, recordações, sonhos, ilusões. Estou sentado, espero-te e ao café. Ainda acredito que vais cruzar aquela porta, que te vais sentar na minha mesa e que vamos conversar com toda a normalidade. Vamos acabar o café, vamos caminhar e tu vais fazer-me sorrir. Vamos sentar-nos, vou escrever, fugindo ao silêncio, inspirar-me em ti.

Vou deixar-te com um abraço demorado.

 

O sol começa a romper por entre as nuvens cinzentas. As gotas da chuva que cessou, escorrem das folhas e dos ramos que começaram agora a dar sinais de vida novamente. Dentro de mim continua a escuridão. Os olhos são dois lagos baços, escuros, sem vida.

O frio continua, eu estou gelado.

 

As horas do meu dia são um tormento.

Dois meses sem te ver.

És importante.

 

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Vagueio pela rua dos meus pensamentos, buscando por entre a noite algo que me aqueça o coração. Somente a fogueira dos momentos que passámos me faz aquecer o coração. Ardem como sarça ardente, como fogo que arde sem se consumir, sem desaparecerem. E é aí, a esse lume que arde de memórias, que recorro todas as noites para conseguir aquecer a alma e descansar.

Hoje vou ter insónias.

 

A cama onde me deito está fria. Os lençóis parecem ter sido tirados da rua e colocados diretamente na cama. Eu estou ainda mais gelado, no coração. Existe um coração que palpita dentro de um cubo de gelo. O sangue não é vermelho mas azul água. É gelo. Estou deitado, todo eu sou gelo. Os olhos fitam o infinito, baços e sem vida. O corpo está inerte, rijo. Todo o sangue congelou, parou. Dentro do peito não há nada que bata. Um último suspiro, a alma abandona o corpo.

De novo começou a chover.

E se não houvesse chuva, o que seria?

por Ismael Sousa, em 03.03.18

Chove imensamente. Desde que acordei, e hoje foi cedo, que me deixei na cama mergulhado no barulho tranquilo da chuva que cai e nos pensamentos que na minha cabeça permanecem. Já passa do meio dia e eu ainda aqui permaneço, no silêncio do meu quarto. O meu rosto reflete sorrisos e lágrimas. Há a memória de momentos tão bons que ficam unicamente na memória vaga do meu pensamento.IMG_2713.JPG

Nada fiz, durante toda esta manhã. O mundo lá fora vive indiferente da minha existência. Há o grito que nasce em mim. Assolam-me as noites. Os fantasmas do passado matam o meu interior, perpetuando-me as noites sem dormir, envolto em barulhos em que me tento abstrair. Sou o medo e o medo sou eu.

Saí de casa, com banho tomado, vestido a rigor sem destino. Na minha mente a mera existência de um tempo perdido em pensamentos e preguiças. Ocupo os meus dias com excessos de trabalhos para não me perder. Sinto-me, a cada dia, mais vazio e sem uma motivação. A negatividade que sinto em mim, parece acentuar-se, ainda mais, com as expetativas que me colocam sobre os ombros.

Lá fora continua a chover e eu fugi para dentro do bar. Bebo um Gin enquanto escrevo estas palavras que me cosem a alma aberta de feridas. O rio corre, cheio, indiferente ao que encontra pela frente. O seu caudal vai-se alargando, lenta e pacientemente. O dia está cinzento, a minha alma está negra.

Fumo um cigarro e perco a vista pela vidraça embaçada pela diferença de temperatura que se sente: cá dentro o calor, lá fora o frio; cá dentro a tristeza, lá fora a vida.

A cada dia que passa sinto, com tristeza, o abismo que existe entre mim e as pessoas. Fujo, afasto-me. É a minha forma de proteção, a minha forma de evitar de os magoar, de lhes tocar com a minha aura negra. Sou a morte e a destruição que existe na vida das pessoas. Mato os momentos que vivo, sou passagem e não estação. Há um abismo, profundo, intransponível.

Há um cão que vagueia debaixo da chuva, os carros que passam indiferentes e fugitivos. Morre-se a cada dia que se vive. O mundo parece não querer nada mais que viver o seu dia, indiferentes ao passado, inconsequentes em relação ao futuro. Morre-se a cada dia que não se ama, que não se cuida, que não se preocupa. Vive-se indiferente com o mundo comum ao seu lado. Todos estão bem, apesar de todos os sinais que se dão. Depois, como sempre há um depois, toma-se a consciência de ter sido tarde de mais, o arrependimento de nada se ter feito. Mas o depois é sempre tarde e as questões apenas descargos de consciência.

Acabou o Gin e a vontade de fazer seja o que for. Perco-me na música a única coisa que me acalenta a vida. Sinto-me perdido e não existe bússola que me oriente. Urge a necessidade de me reencontrar. Mas sei que para isso acontecer necessito de cortar com tantas coisas na minha vida. Preciso da fuga e da solidão, do recomeçar do zero, do perder tudo e necessitar de voltar a construir tudo de novo. Preciso da novidade, da verdade! A verdade: a crueldade. São sinónimos, partes integrantes um do outro. E o que interessa? Porque se a verdade é cruel, também é maleável. Cada um se diz detentor da sua própria verdade, por isso a verdade não será verdade.

Li de uma assentada "Salsugem". No fim vieste-me à mente. Eu chorei.

 

 

 

 

Por amar, o que senti; por sentir, o que amei!

por Ismael Sousa, em 26.02.18

Percorro a mente na tentativa inevitável de encontrar justificações e razões para tanta coisa. É noite, o frio lá fora, o vazio no meu coração, a lágrima escorre.

 

Tentar compreender o mundo que me rodeia é, irremediavelmente, impossível. O mundo está em constante mudança, as pessoas não são mais aquilo que se dizem ser. Já ninguém quer conhecer interiores, avaliando tudo pela primeira imagem, por aquilo que se aparenta ser. Uns olhos bonitos, um corpo esculpido, cabelo farto e pouco conteúdo.

 

Jaz a noite, o ininterrupto pensamento constante. A fraqueza e o medo, o afastamento.

 

Perco-me como as aves que voam constantemente, como o vento que sopra indiferente. As paredes brancas do meu quarto, povoadas por memórias, afligem a minha mente, fazendo-me penetrar ao mais intimo do meu ser. Vejo esforço e incompreensão, o abuso de quem sabe como me manipular.

 

Olho o passado, o ser que era e o que sou. Sósias, um do outro. Tanto queria eu mudar, que nada consegui fazer.

 

Deambulo, perdido, pelas ruas da cidade eternamente amada por mim. Suspiro incompreendido, afastado e esquecido.

 

As imagens mais negras, o sentir mais odioso. As palavras, sempre as palavras. Gravadas a fogo no meu coração, cicatrizes eternas. Não as esqueço, nunca. Tudo dentro de mm é memória e aquilo que guardo não esqueço. Sei ainda as palavras, que posso prenunciar.

 

IMG_2549.JPGA prosa, a poesia, as palavras. Labirintos e poços, pasto que rumino durante semanas.

 

Sou a encarnação da fraqueza e da fragilidade. A personificação do amar eternamente e da solidão. Sou o abandono e a perda, sou a vergonha e a mansidão. Sou a face do pecador, daquele que não tem palavra. Sou tanto e aos olhos deste imundo mundo nada sou.

 

Quem sou eu na realidade, na verdadeira alma deste mundo que se revela a meus olhos tão diferente daquilo que ambiciono ser. A diferença e a inadaptação.

 

E as pombas que esvoaçam num céu eterno, conhecedoras do ódio que sentem por si, olham-me com desdém.

 

E escrever tudo aquilo que sinto torna-se impossível. Transparecer aquilo que sinto, uma fragilidade. Não se ama, não se respeita. Usa-se como instrumento, indiferente a vontades, sonhos, sentimentos.

 

Somente as palavras, as que leio e que escrevo, conseguem dar vida a este corpo inanimado que jaz pelos cantos.

 

Mortifico-me, critico-me, esperançoso de me corrigir, de tentar ser melhor. Mas a melhora neste mundano espaço onde vivo parece ser totalmente diferente daquela que as minhas entranhas gritam ser. Revoltam-se-me os interiores, defeco a igualdade, vomito a ignorância.

 

Acerto o relógio, ativo o alarme. Fecho os olhos para dormir. Antes recusado mas diferente, que igual e mundano.

 

 

 

 

Incompletibilidades!

por Ismael Sousa, em 23.02.18

Ouço tantas vezes a tua voz na minha cabeça.IMG_2520.JPG

Sabes, aquelas conversas que costumávamos ter? Aquelas palavras que sempre dizias? Recordo-te tantas vezes durante o meu dia.

Há tanto tempo que não escrevo. Tenho-me mandriado (nem sei se essa palavra existe). Ou talvez não. Não escrevo porque, na verdade, me falta a inspiração, porque me faltas.

Tenho deambulado por entre os meus dias, na esperança de te encontrar. Mas já não estás. Faltas-me.

Ainda agora poderia jurar que te ouvi atrás de mim, repreendendo-me pelo meu estado melancólico a que me sento a esta mesa a escrever. Ao lado do computador tenho as folhas escritas à máquina, aquelas que tu me inspiraste a escrever. No quarto, somente o bater das teclas e o tic-tac do relógio.

Saio de casa, percorro as ruas da cidade. Falam-me as paredes de ti, sentem saudades de ti. Escreveram-se e reescreveram-se propositadamente para que as lesses. Elas sabem o quanto tu gostas dessas frases soltas, escritas em paredes frias e tristes.

Dois meses corridos. Dois meses em meias palavras, em bebedeiras de ausência, ressacas de vergonha. Penso que o abandono me roubou a vida, se apoderou dela, tomando-a como sua. As coisas deixaram de fazer sentido...

Ouço tantas vezes a tua voz na minha cabeça. Já não te vejo, mas vejo-te: nos sonhos, nos pensamentos, na memória, nas tuas fotos... Ainda ouço, tantas vezes, a tua voz na minha cabeça...

(Coisas ditas entre parênteses)

por Ismael Sousa, em 11.02.18

A chuva cai de leve na vidraça. Lá fora, de novo, a neblina impede a vista de um horizonte maior, deixando somente à vista até às Torres. Chove e faz frio, mas a vista daqui nunca me cansa, a neblina que se vê não chateia (sempre gostei de nevoeiro, deixa-nos imaginar e sonhar). Dá uma forma de vida diferente, um misticismo a uma cidade que tem sempre tanto para dar.
Deambulo, por entre os meus pensamentos, de uma forma vagarosa e vaga. Um pouco como na tua, na minha mente também a neblina me tolda o pensamento. Estou num ponto da minha vida em que nem eu próprio sei quem sou. Vou vivendo sem me encontrar, sem conhecer absolutamente aquilo que sou (talvez nunca tenha sabido realmente quem era). Paira em mim a eterna dúvida sobre quem sou, para onde irei. Pauto-me, muitas vezes, pelo silêncio, pela distância, pela solidão. Nela encontro muito mais de mim do que quando rodeado por tanta gente, submerso na imensidão das palavras ditas. Encontro-me e sei de mim, sei daquilo que necessito, aquilo que quero ter na minha vida, aquilo porque palpita o meu coração. Conheço, inevitavelmente, as consequências destes meus padrões, se assim se podem chamar. Sei que isso me leva a perder muitas coisas, a perder pessoas. Sei que neste meu estado de ausências (não são corpos físicos que me movem) também sofro os abandonos. E sinto falta das pessoas, das suas palavras, das conversas e gargalhadas. Não há, na minha vida, um qb, quanto baste. Mas extremos. Sim, tanto amo como odeio. Não sei simpatizar. Tanto gosto de estar rodeado de pessoas, como a seguir só quero a solidão.
A chuva cai na vidraça diante de mim. E da minha vidraça escorrem lágrimas. São estados, momentos de fraqueza, vontade de desistir de tudo, seguir um novo rumo (porque não consigo eu fechar capítulos ainda tão abertos dentro de mim, fazer a mala, partir sem rumo?). São momentos em que fracassamos, descemos do nosso intocável pedestal. E é sempre mais fácil falar em plurais que falar em singulares. Achamos que os outros sentem como nós. E novamente o plural, ignorando ou substituindo o singular.
Sei, em todo o meu conhecimento, em todas as minhas certezas, que não sou uma pessoa fácil. Mas o fácil chateia-me. Sempre me desafiaram mais as dificuldades (porque elas obrigam-me a crescer, a sair de mim, a deixar a minha praia e partir para terrenos desconhecidos) que as facilidades.
Fecho-me sobre mim, no meu espaço entre tanta gente que está sentada à mesa do café. A música preenche-me os ouvidos, impedindo que o ruído ao redor de mim me perturbe a mente. São somente memórias, memórias que residem em mim que eu não consigo deixar morrer. Vou alimentando-se com sorrisos, com esperanças. Vou alimentando-as para me sentir vivo, para sentir que um dia fui especial (talvez seja crime eu sentir isto, sentir que deveria ser especial, que merecia ser especial).
Não consigo compreender esta mania que tenho de necessitar de me sentir diferente, de me sentir especial para alguém. Mero nada que simplesmente deambula. Falta-me o amor próprio, a incondicionalidade (acho que esta palavra nem existe, mas que importa?).
Existem três coisas na minha vida que me fazem continuar a viver neste mundo onde me sinto tão deslocado: o amor que sinto por tanta gente; a música que dá voz ao meu sentimento; as palavras que descrevem tudo aquilo que sou. Não deixo que me tirem nenhuma delas. Porque no dia em que me tirarem, que eu morra (de nada vale viver sem sentido, sem aquilo que tanto nos dá, que tanto faz pulsar o coração). Não faz sentido viver sem isto, viver sem as poucas coisas que ainda fazem palpitar o coração. Não existo para além destes três elementos tão fundamentais no meu viver. Quando escrevo, a vida é a minha caneta. Quando canto, a voz é a minha natureza. Quando amo dou tudo o que sou (se for para fingir eu nem quero existir).
Ainda que possa existir algum tipo de criatividade naquilo que escrevo, escrevo aquilo que sinto, que me perturba a alma ou lhe dá tranquilidade. Se canto, é porque a alma me inebria, porque necessita de ser saciada. Quando digo que amo, é porque de verdade o sinto.
Tenho muitas camadas, carapaças, escondendo-me por detrás delas. Tenho-as porque me obrigaram a criá-las. Obrigaram porque me magoaram, brincaram com aquilo que sentia, com aquilo que eu era. E fui-as criando, dia após dia. Mas estas minhas carapaças não significam que eu sou falso, que aquilo que sinto não é verdadeiro, que aquilo que eu digo é mentira. São, somente, forma de esconder um pequeno coração magoado.
Ainda chove, lá fora. E dentro de mim uma alma grita. Sou de extremos: tão rapidamente consigo derrubar todas as dificuldades que diante de mim surgem, como no instante seguinte me sinto morrer com a falta de algo. Sou uma pessoa de medos, de receios.
Assola-me (não sei porquê mas esta palavra sempre me ficou marcada e me fez recordar) o amanhã. Receio fechar os olhos, receio o acordar. Mas tudo poderia ser diferente (coisas ditas entre parênteses parecem não causar tanto impacto, serem ignoradas).

 

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Poucas palavras, sentimentos bastantes!

por Ismael Sousa, em 09.02.18

Uma noite como tantas outras. No céu não brilhava a lua, as estrelas não se viam. Era mais uma noite fria, de um outono que já era mais inverno que propriamente outono. Um parque de diversões, dois baloiços solitários. Não havia alma por ali perdida. Sentei-me no baloiço e recordei.

Não havia muito tempo em que havíamos estado ali, os dois, baloiçando-nos num entretenimento despreocupado. Vivamos estes pequenos momentos de uma forma tão intensa, que nada em nosso redor parecia importar. E não importava, pelo menos para mim. Era um tempo dedicado só a ti e pouco mais importava.

Agora resta só a memória. A distância entre nós é cada vez maior, já mal nos conhecemos. O tempo passa indiferente, sem se importar com aquilo que sinto. O tempo passa, acentuando cada vez mais esta distância que entre nós existe.

E eu tenho saudades tuas, umas saudades que não deixam de existir. Fazes-me falta e faz-me falta a paz que me davas.

Deambulo durante todos os meus dias, nas esperança de te encontrar em cada esquina que cruzo. Percorro as ruas da cidade, relembro as nossas conversas, os nossos passos. E agora, o que existe? Nada. Praticamente nada. Somente memória grata daquilo que um dia vivemos.

O baloiço ao meu lado movimenta-se por simpatia com o meu, mas reside vazio. Abandono-o, esquecido.

Há uma certa indiferença dentro de mim relativamente a tua o que se passa em meu redor. Já não mais tenho vontade de fazer seja o que for. Abandonei a escrita, abandonei os passeios e o cinema. Já não saio, perco-me em leituras eternas, devorando livros na busca de um sentido para tudo o que sinto. Mas é maior a incerteza que qualquer certeza que eu possa ter. Os dias passam e eu abandono-me a eles. Vivo indiferente, sem sentido.

O sol brilha mas já me é tão indiferente. Deambulo nesta minha vida sem sentido. Dentro de mim há uma tempestade que não quer passar, que derruba tudo aquilo que eu sonhei construir. As ruínas não tiveram nem tempo de se reconstruir.

E no meio de toda esta tempestade que tomou conta de mim, eu ainda sonho e tenho esperança. Existe a barafunda, o turbilhão. A inquietude eterna de deixar tudo e seguir por uma via totalmente diferente daquela que me talha os dias. Insatisfeito por natureza, incapaz de se acomodar e de ter interesse pelas coisas que estagnam, pela vida que não progride.

Necessito de me libertar, de criar novos hábitos, de conhecer novas pessoas. Preciso da novidade constante na minha vida, de ter algo para fazer e nada ao mesmo tempo. Necessito de me reencontrar constantemente, perdido nos meus pensamentos e nos meus tempos. Preciso de mim. E tu davas-me tanto de mim, de voltar a ter algum objetivo na minha vida.

E agora o vazio, o nada. A saudade de te ter onde já tive. E o que me resta é somente a memória e as poucas palavras que ainda trocamos.

 

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Sem ti... (Parte II)

por Ismael Sousa, em 26.01.18

Desapareceste. Deixaste de me falar. Deixaste de procurar as minhas palavras. Simplesmente desapareceste. E agora? E agora o que eu faço com as coisas que senti, as coisas que escrevi? E agora o que somos, se alguma vez fomos? Desapareceste. Deixei de saber de ti, se estas bem ou mal, se andas feliz ou triste.
Destróis-me a cada dia que passa. Dou tantas vezes comigo a pensar em ti. E depois vem o vazio. Depois vem a tristeza. Sempre soube que nunca me pertencerias, que nunca passaria de um sonho. Mas sempre desejei a tua amizade, sempre desejei poder falar-te livremente, poder partilhar o prazer de um cafe na tua companhia. Somente desejava que, de alguma maneira, sentisses a minha falta.
Afogo-me em lágrimas constantes, mergulho num mar de tristeza. Não consigo sorrir, esquecer, avançar. Só porque desejava, tanto, que as coisas não acabassem assim. Destróis-me. Vacilam todos os meus alicerces porque esperei de mais. Esperei aquilo que nunca ia vir. E eu sabia-o. Mas simplesmente fui acreditando que estava enganado, que as coisas iam ser diferentes daquilo que eu já adivinhava ser. E tudo se concretizou: não como eu quiz mas como eu previra.
Tenho tanta vontade de te dizer coisas, mas acobardo-me e troco-as por palavras esquecidas e nunca lidas. Sofro num silencio enorme, sem deixar que ninguém se aperceba. Porque se tiver que justificar o meu sofrimento, só o poderia ser de uma maneira: apaixonei-me por quem lhe sou indiferente. Desculpa. Desculpa se estas palavras te magoam, mas são a mera verdade, aquilo que verdadeiramente sinto. E sabes o que sinto? Um coração despedaçado, ferido, um rio de sangue de dor. Sim. Chega de rodeios e dizer por entre as linhas aquilo que sinto. Chega. Agora, neste meu momento momentâneo de coragem, só a verdade. Se já te perdi, nada mais interessa. Ao menos saberás como me deixaste, aquilo que verdadeiramente eu sinto.
Lá fora nem a lua brilha no céu nem as estrelas se deixam ver. A noite está escura, o nevoeiro cobre a cidade e a vista a poucos metros de distância. E tão curiosamente é como eu estou: escuro, sem luz, sem vida. Honestamente? Ambos sabemos a verdade. Mas ela é tão dura que me faz voltar a chorar. A verdade é que o único culpado sou eu. Eu, por ter sonhado de mais, por ter acreditado de mais, por ser tudo a mais. Eu, por achar que era merecedor de ti. Poderia culpar-te a ti e talvez isso suavizasse a minha dor. Mas não sou capaz de o fazer. Por isso vou-me habituando a esta verdade, fechando o meu coração mais uma vez. Mas penso que desta vez será para sempre.
Não sou nada. Cada vez mais me apercebo da pessoa má que sou, da pessoa parva e sem interesse. Talvez erre muito. Talvez a felicidade não seja o meu caminho. Talvez não seja digno desse estado em que vejo tanta gente. Talvez tenha direito só à solidão, a esse estado que não desejo a ninguém. E a cada noite que passa, cada dia que renasce, me sinto mais afastado de ti, mais esquecido por ti. Tenho saudades tuas. Saudades de te ver, das tuas palavras, de ti...
Se conhecesses verdadeiramente a quantidade de palavras que escrevo sobre ti, a quantidade de vezes que te trago à cabeça... Derrotaste-me no primeiro momento. Ainda que não o saibas, nunca foste mais um, mas o um que eu tanto desejava. Não és mais um contacto, um conhecido, uma coisa qualquer. És aquilo que és. És-me tão especial.
Poder-te-ia ter ignorado no dia em que te conheci, no dia em que me desejaste, no dia em que me procuraste. Mas não ignorei, mesmo após tanto tempo de silêncio. Nunca te ignorei. Não te ignorarei...
Já são reticências a mais nestas palavras que te escrevo. São-o porque estou num estado alcoólico. Porque preciso de esquecer a merda de vida que tenho. Não faço falta. Não tenho um propósito na minha vida. Tudo desapareceu. Simplesmente vagueio pelas ruas do mundo, como alma penada, sem destino ou hora de chegada. Simplesmente pairo pela vida das pessoas. Não sou raíz nem tronco, muito menos ramo. Sou uma folha que exerce a sua função. E quando estou a mais caio, simplesmente, abanado pelo vento.

Talvez não me compreendas ou não compreendas as minhas palavras. Talvez aches que sou um desesperado que força as coisas para que aconteçam. Talvez aches mil e uma coisa sobre mim. Quem sabe se muitas não estarão certas ou que saibas o que sou e que eu o negue. Não sei. Não sei nem imagino o que pensas sobre mim. E talvez seja melhor assim. Ou não. Quem sabe não deseje saber o que pensas sobre mim para que de alguma maneira eu possa dizer que não ou justificar-me, fazendo-te, ou pelo menos tentando, perceber as minhas razões.
É tarde. As horas da noite vão avançando e eu estou aqui, escrevendo, pensando. Que mais te posso eu dizer sem te dar a conhecer a minha alma? E eu acho que já te disse tanto sobre ela sem o querer. Segredei-te as minhas vontades, escritas entre as linhas que te escrevo. Não sei se as consegues ler ou se as queres ler. Escrevo-te palavras mas também desejos, vontades, coisas que não tenho coragem para te dizer. Mascaro essas coisas com palavras imensas quando aquilo que te queria dizer era tão simples. Mas como eu, complicado, também as minhas palavras o são. Mascaro-me com tanta coisa porque não sou uma pessoa simples, de fácil compreensão. Mais complicado que aquilo que possas pensar. Não tenho tido uma vida fácil, nem fáceis são os meus dias. Não vivo, vou sobrevivendo. É por isso que eu tanto sonho. É por isso que me mascaro. Gostava de te poder dizer que sou uma pessoa que diz tudo o que deve dizer. Mas não sou. Gostava de te dizer que sou a melhor pessoa do mundo. Mas também te estaria a mentir. Sou frágil, fraco, inseguro, cobarde, amedrontado. Se queres que te diga, nem devia existir. Mas existo e vou-me esforçando para sobreviver. O meu sorriso é frágil. Quantas vezes falso. Tantas e tantas vezes ele cai, dando espaço a lágrimas e sentimentos de abandono. Mas isso de nada interessa. Nada disso alguma vez teve importância alguma. Somente para mim.
E aqui vou eu, percorrendo quilómetros deste país, pela noite escura e de nevoeiro. E nesta quase solidão, pergunto-me a quem faria falta, quem sentiria saudades. Paro. Reflito. Releio o que escrevo e vejo-me a cair numa melancolia tal que foge totalmente ao propósito que tenho de te escrever, ao propósito das palavras que te dirijo. Para quê falar de coisas tristes? Para nada. Peco-te que desculpes o meu desabafo, as tristes palavras que tiveste que ler. Peço-te que as esqueças e se o desejares risca-as, apaga-as da tua memória. São palavras vãs, palavras de uma alma triste. E talvez seja essa mancha que trago na alma que te afasta de mim. Quem sabe se não a verás em mim mais do que aquilo que desejo, mais do que aquilo que pretendo demonstrar. Os teus olhos não deveriam ver estas coisas. Perdoa-me.
Enquanto viajo penso em ti. Muito provavelmente estarás a dormir. A dormir calmamente, sonhando algo belo. Imagino o teu sorriso no teu rosto adormecido, reflexo daquilo que sonhas. Perdoa-me por abusar, mas imagino-te a dormir livremente, coberto por um suave lençol que desenha a silhueta do teu corpo. Pudera ser eu esse lençol que tão intimamente partilha a cama contigo. Ser a almofada onde repousas a cabeça que se enche de sonhos, onde te aconchegas. Talvez seja só a minha imaginação. Porque nada me diz que não estarás aconchegado a esse outro corpo que te pertence, que repousas a cabeça no peito desse outro que é bem fadado em te ter. Só Deus sabe como o invejo. Mas não me posso permitir a meter-me onde não pertenço. Não posso. Não devo.
Cheguei ao meu destino. Vou repousar. Vou sonhar e encontrar-te nos meus sonhos. E lá, nesse mundo dos sonhos, vou ser feliz, nem que seja por um instante que é mais fugaz que o tempo que uma folha demora a cair, desde que se desprende do ramo e toca no chão. Mais fugaz que a queda de uma estrela no firmamento.

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Sem ti... (I Parte)

por Ismael Sousa, em 25.01.18

Quão fugaz é a vida? Que significado tem? Que caminho ruma? Somos seres tão frágeis e débeis, ignorantes na nossa estrada, ignorantes no nosso próprio conhecimento. Somos fugazes. Deparamo-nos com a morte e somos tão incapazes de a compreender, de lidar com ela. Remexe-nos as entranhas, faz-nos sentir tão ocos, tão cheios de nada, tão vazios. Amaldiçoamos o dia e a noite, a hora e o momento. O dia chega e não estamos preparados ou mentalizados. Meros nadas numa longa ou curta vida! A quem pertence o desígnio de dar ou retirar a vida? Quais os seus padrões? Tanto conhecimento e tanto desconhecimento ao mesmo tempo! Infelizes de nós, infortunados que somos que desconhecemos o que pensamos dizer!

Nada mais para fazer. Peguei nas chaves e na carteira e saí de casa. Na rua estão uns trinta graus. Só falta a lua a alumiar o caminho e as ruelas da cidade. Vou caminhando até a um cafe aberto. Vou-me cruzando com as pessoas. As ruas estão povoadas de gente. Com o calor saíram à rua. A maioria segue alheia a sua vida. Outras olham-me de lado. Que pensamentos sobre mim povoarāo as suas cabeças? Que pensarão quando cruzam o seu olhar com o meu?
Sigo o meu caminho despreocupado. Hoje sinto o meu astral em cima, sentindo que ninguém será capaz de destruir aquilo que sou.
Paro no primeiro café. Sento-me. Peço um café e olho em meu redor. Há festa na cidade. As pessoas divertem-se, cumprimentam-se. Riem. Chega o café. Bebo-o de uma golada. O empregado pergunta-me se espero mais alguém. Digo-lhe que não. Olha-me desconfiado. Deve estar a pensar quem é o tolo que vem tomar café sozinho numa noite como esta. Retira a cadeira e agradece-me com a cabeça. Pego no telemóvel. Viajo um pouco pelas redes sociais. Tudo mais do mesmo. Começo a fartar-me. O mundo está todo tão igual. Sinto-me excluído dele. Por isso vou aproveitando todos os momentos. Mesmo que tenham de ser na solidão. Não me importo. Antes uma vida solitária mas aproveitada que uma vida em companhia e desperdiçada.
Não compreendo o mundo. O mundo não me compreende. Se metade das pessoas soubessem os pensamentos que me vão na cabeça, se eles conseguissem compreender as minhas razões, talvez não fossem tão rápidas a julgar-me.
Acendo um cigarro. O fumo esvoaça pelos ares. Livre. Solitário. Porquê que achamos que tem de ser tudo tão igual? Porque não acolhemos a diversidade tão facilmente? Temos de ser assim tão iguais?
Por vezes acho que são todos uns fúteis, uns ignorantes, incapazes de explorar o mundo à sua volta. Burros. Incapazes. Limitados. Ou não serei eu a estar enganado? Achando que há algo mais do que isto que os meus olhos veem?
Mais um cigarro, um olhar distante. Sou eu. Sou o que sou. Não agrado a ninguém. Já não sou mais assim. Vivo para mim. Quando morrer vou só e sem nada. Por isso, de que vale andar a agradar alguém?
As ruas começam a esvaziar. Amanhã é mais um dia de trabalho. Para mim, mais um dia sem fazer nada. Repugna-me este meu estado. Levanto-me à hora que desejo, deito-me à hora que quero. E nas horas que distam o levantar do deitar, faço aquilo que surgir. Não aguento horas infindas em frente à televisão. Não aguento as paredes de casa. Saio, leio, passo horas em frente ao computador. Por vezes vem a inspiração e abro o caderno e escrevo. Outras vezes recorro às tecnologias para escrever. Como é o caso agora, porque abalei de casa para o incerto sem saber para onde ia. Sentei-me neste cafe, observei e comecei a escrever. Perdi a noção das horas. Mas que importa? Nada me espera, ninguém me espera. Por isso, para quê preocupar-me.

Depois vem a chuva, encharca-me com a tristeza e o abandono. Depois o sol que me faz apodrecer em melancolias até que com as novas chuvas eu desapareço. E como quem não é visto não é lembrado, quem não faz falta ao esquecimento é reduzido. E eis-me aqui, reduzido e abandonado, inebriado pelo álcool a escrever palavras. Palavras que me saem da alma.
Cada vez mais me convenço de que o álcool é a chave da alma. Tomado a mais, faz-nos dizer aquilo que não queremos, aquilo que só para nós queremos guardar. E isto porque num pobre coração como o meu, nada mais faz sentido. Quem me dera adormecer para nunca mais acordar. Seria menos um fardo que alguns têm de carregar. Seria menos um a estorvar no caminho, menos um em tantas vidas. Seria somente memória, recordada unicamente de passagem. Não sou pertença na vida de ninguém. Não sou nada. Nada sou. E neste nada desapareço. De mim só restaram memórias vagas e palavras escritas em papeis que voaram mais depressa para o fogo do que alguém perder tempo a ler. Nada mais faz sentido. Nada mais tem um propósito. Cansei de lutar. Cansei de me esforçar para ser um ramo verde na árvore da vida de alguém. E todo o meu esforço é para sempre ser uma folha que na primeira brisa de felicidade para a árvore, cai. Ao menos se a beleza me tivesse favorecido, se as linhas traçadas do destino me tivessem sido mais favoráveis e eu tivesse passado uma vida feliz, talvez aí eu tivesse sucesso.
Mas a minha vida é feita só de desgraças, de desencontros, de insucesso, de solidão, de afastamentos, de desprezo. E esta tem sido a minha vida. Isto e só isto. Talvez eu desapareça de vez e aí não exista mais aquela eterna melga, aquela incómoda presença, aquela triste figura.
Rendo-me, cada vez mais, às energias negativas que me rodeiam. A minha alma está negra. Pesam-me as tristezas no rosto, as mágoas nos olhos, a infelicidade na minha postura. Cada vez mais me torno num vulto ambulante, pairando nas ruas amargas deste mundo.
Sinto-me sem norte, sem rumo. Roubaste a bússola que havia em mim, no sentido que eu tinha para a vida. Onde andas? Porque desapareceste sem me dizer nada? Bastava-me um adeus e eu seguia em frente. Mas fiquei desamparado, sem perceber as razões que te levaram a esse enorme silencio. Ou talvez saiba. E sei.
Releio tantas vezes as mensagens que trocámos. Trazem-me tanto de ti. Um sorriso, um momento de serenidade. És-me tanto. Fizeste despertar em mim sentimentos que eu já não conhecia. Inspiravas-me, animavas os meus dias. E eu escrevi tanta coisa, inspirado por ti. E agora o nada. O absolutamente nada. Preocupo-me tanto em saber se estas bem. Nada mais te peço e não mais te perturbo a vida. Mas por favor, dá-me sinais de ti, diz-me só se estas bem, que nada mais entre nós existirá. Diz-me só algo a que me possa agarrar...

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A vida não é feita de se’s!

por Ismael Sousa, em 16.01.18

Somos, infinitamente, seres vulneráveis nesta vida. Damos de nós sem a certeza de virmos a receber. Tentamos dar a conhecer aquilo que somos, aquilo que sentimos e daquilo que gostamos. Somos frágeis ou fortes, dependendo de pessoa para pessoa. Somos de fácil leitura ou de um mistério enorme.

Sentado no café do costume, olho a vida e os momentos. Olho as circunstâncias e os sentimentos. Há vazios. Demasiados até. E na verdade, quem me conhecerá?

Se me conhecessem saberiam que sou um ser que se apega com demasiada facilidade. Que gosto de perder a cabeça de vez em quando, divertir-me como um louco. Que gosto de cafés acompanhados de boas conversas, de caminhadas improváveis. Que amo tanto a praia como o monte, que adoro história e estórias. Saberiam que amo sem limites e que odeio de forma igual. Que não gosto de conveniência e prefiro sempre a verdade.

Se me conhecessem, saberiam que gosto de um bom filme e que leio bem entre linhas. Saberiam que consigo ser uma autêntica besta mas também uma excelente pessoa. Saberiam, se me conhecessem, que faço tudo pelo bem estar dos outros prescindindo em demasia do meu. Que as palavras e as ações têm um grande peso em mim e que dificilmente esqueço.

Se, na verdade me conhecessem, saberiam que adoro surpresas, que adoro estar presente nos momentos bons dos amigos mas também gosto que eles estejam nos meus. Se me conhecessem, leriam a tristeza nos meus olhos e a felicidade no meu sorriso. Que adoro Gin e um bom vinho, que uma noite de petiscos é sempre bem vinda. Saberiam que sofro com as ausências e gosto muito da minha solidão. Que não faço fretes nem quero que os façam por mim.

Saberiam também que escrever é uma das minhas paixões, que as críticas favoráveis as aceito todas e que as negativas me ferem de mais. Saberiam que quando me sinto a mais me afasto e que a bodas e batizados não vou sem ser convidado. Que adoro música, que canto sempre no banho, que gosto imenso de me divertir. Saberiam que não digo sempre o que sinto para não ferir, que me rendo mais do que venço. Que dou muitas bofetadas sem mão e que partilhar o meu conhecimento é uma das minhas coisas favoritas. Saberiam que não falo sem conhecimento de causa e que quando estou nervoso falo em demasia. Digo muitas babujaríeis e digo verdades a brincar.

Se me conhecessem, saberiam, que detesto ser igual a outros tantos e que preservo bem a minha diferença. Que tenho necessidade de ser aceite, que preciso de me sentir incluído. Que sou palhaço na vida e sério nos momentos certos.

Mas a vida não é feita de se’s! A vida não perdoa. Ou é ou não é! Porque se fosse feita de se’s eu seria totalmente diferente, viveria de forma tão diferente.

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Haver - do latim habeo, -ere

por Ismael Sousa, em 07.01.18

Talvez a memória falhe e não recordemos. Talvez não fixemos certos momentos tão comuns ou incomuns. Talvez não se dê importância, ou nem nos lembremos por casualidade ou normalidade de uma vida. Mas eu, teimoso em ter memória de elefante, ainda consigo recordar.

Não era uma noite fria como as que agora vivemos. Talvez um pouco, mas o normal para quem saía de um verão longo que entrava já no outono sem chuva. A seca extrema era uma das notícias mais badaladas da altura, juntamente com o flagelo dos fogos que se tinham vivido pouco tempo antes, ainda nem um mês havia feito.

Eu andava perdido, deambulando em todas as noites pelas ruas, na esperança de um retorno que nunca existiu. Esperava uma palavra, qualquer coisa do género. Mas isso não existia. E eu, esperava, todas as noites. E como esperava, deambulava. Saía de casa, ao fim de jantar, percorria as ruas da cidade numa solidão triste e vazia.

Tinha conhecido Al Berto há pouco tempo e devorava tudo o que apanhava à frente, escrito por ele. Li a sua biografia, dois dos seus livros. Li textos e poemas soltos. Sentia em mim a sede de me deixar inebriar por ele, pela sua forma de escrever. Era uma terça-feira à noite. Sentei-me no bar do costume, mas não na mesa do costume. Debrucei-me sobre o meu caderno, teimosamente de capa preta, escrevi várias palavras. Era tudo sem sentido, tudo fusco e sem uma linha que interligasse o meu pensamento. Era um palavreado barato. Nunca tive jeito para o palavreado caro. Não sei escrever com ele. Sou um pobre, culturalmente, e isso nunca me deixará ir mais além.

Devo ter escrito umas dez páginas nessa noite. E tudo vazio como o que abundava dentro de mim: o vazio. Não sei quantas pessoas estariam no bar, pois eu estava mais concentrado na minha escrita que no ambiente que me rodeava.

Penetro-me, assim, muitas vezes. O mundo em meu redor é uma ilusão, existo somente eu e as palavras, num mundo tão só meu que é raro que alguém o consiga perceber. São as palavras o reflexo dos meus olhos e os meus olhos o reflexo da minha alma negra. E ali estava eu, com períodos em que os espelhos da alma se embaciavam, cobrindo-se com uma humidade comum: as lágrimas.

Já não choro, não sei chorar. Embaciam-se-me os olhos, enchem-se de lágrimas, falha-me a voz e há um pequeno apertar na garganta. Mas as lágrimas não correm, o sopro de ar fulminante não existe e tudo acaba por morrer. E ali estava eu, perdido e encontrado, nas palavras que sempre escrevo e que jazem eternamente nas páginas dos cadernos que um dia serão fogo e deixarão de existir. Ali estava eu, a beber o meu Gin, preparado de forma especial para mim, com aquele gosto que eu sempre desejo.

Não sou de fugir muito às minhas rotinas. Procuro encontrar-me sempre entre os meus gostos, entre as coisas que gosto. Fora disso sou como um peixe fora de água. Não sou de aventuras, de experimentar coisas novas. Somente em tempos de loucura, mas tirando isso, procuro sempre o meu conforto e em manter-me nesse espaço, onde os olhos não me olham de forma diferente, onde o sentimento de excesso não o sinto.

A conversa surgiu de forma inesperada, sem que o pudesse contar. Al Berto foi a causa. Alguém tão profundo, tão existencialista, português e tão desconhecido. A probabilidade do cruzamento de alguém por causa deste tema/pessoa, parece uma enorme utopia, sonhava pelas almas mais profundas. Mas começou por aí e toda a existência de Beno e de Outsider se cruzou.

Há um início, um passado, um dia que ficou para trás na história. A improbabilidade e o conhecimento, numa miscelânea até então desconhecida.

Há um agora, um presente, a impossibilidade de se prever mas somente de viver e de se sentir.

Há um depois, um futuro, construído pela vontade, pelo conhecimento e circunstâncias.

Há um passado, que era tão presente, uma esperança de futuro, que ficou presa no tempo, pela falta de tanta coisa, pelos esforços e desconsiderações. Há esse passado que ainda tem um espinho no futuro, mas que apodrecerá num presente futuro.

Há as palavras que tanto transmitem. E toda a falta delas, toda a serenidade e todo o bem. Há aquilo que em tanto tempo não houve. E uma razão, desconhecida. Há abraços que são mais que tudo aquilo que se possa desejar. Há e somente o desejo de continuar a existir.

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