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Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

Há ou existe!

por Ismael Sousa, em 18.07.18

Poderia haver uma história de amor. Ou quem sabe uma história de transformação. Poderia ter sido as duas coisas. Mas poderia não ter sido nada.

 

Há sempre uma janela com vista para um horizonte incansável, um cigarro entre os dedos. Há sempre tanta coisa num pensamento distante e vago. Havia eu, ali, em solidões exaustivas, em olhares perdidos e horas queimadas em cigarros acesos.

 

O mundo muda na sua universalidade. Existe tanta coisa esquecida e abandonada. Existe tanto para onde fugir, tanto para onde partir. Há quem deseje ficar, outros desejam partir. Há mundos pequenos, existem mundos grandes. Há quem vá e existe quem fique.

 

Senti a falta num coração apertado. Houve uma insuflação de ar, de um novo ar. A esperança de um novo recomeço. Há gente que sonha, existem quem concretize. Eu fico-me pelos intermédios.

 

Voltei no tempo a um espaço onde me sinto confortável. Um lugar onde eu um dia fui feliz. Regresso a um passado solitário, um passado que tão poucos conhecem, que tantos desejaram ignorar, que fizeram por não estar. Regresso a um presente diferente de tudo aquilo que um dia sonhei. Vou e volto entre passado e presente. Viajo por um espaço tão meu, tão exclusivo. Voo pelos meus sonhos de uma forma indiferente.

 

Não existem cartas de amor, não existe a impressão de se ser amado ou desejado. O mundo corre sempre indiferente a corações que palpitam por coisas mais importantes que a superficialidade de um mundo que ambiciona o momento, esquecendo o futuro.

 

Atravessei a cidade em passo lento, atravessei o mundo em pensamentos. Aqui, ali, acolá ou além. Importa existir, importa ser-se, importa amar.

 

Encontrei poesia na esquina de uma viela escura, desprezada por todos, pela sua degradação. Há a dor e a frieza em mil olhares direcionados, onde a raiva e a dor permanecem de uma forma cruel.

 

Um piano abandonado numa rua deserta. A melodia que ecoa num coração de amor, o silêncio nas palavras. Ali, diante do olhar, as teclas sujas pelo tempo e abandono. As notas desafinadas de um ritmo brando. Soou a mais bela das canções, a mais bela das músicas. Ecoou um mundo que existe somente num pensamento e na vontade da concretização.

 

Há, existe.

 

O presente. Somente o presente nos tolda o pensamento. O que passou, passou; o que ficou, ficou. O futuro não existe, o futuro é uma ilusão. Seremos sempre folhas em branco, tábuas rasas, onde escreveremos o rumo que queremos tomar. Há sempre a oportunidade de um ponto final, existe sempre a oportunidade de terminar e recomeçar. O mundo em espelhos quebrados e amaldiçoados.

 

Sonhos de alguém que nunca sentiu.

O que é o amor?

por Ismael Sousa, em 16.07.18

Acho que nunca percebi bem o que é o amor. Aprendi sobre ele, em tantos e variados momentos da minha vida, mas acho que nunca o compreendi muito bem, ou melhor, nunca o entendi.

Sempre que falo em amor, na minha visão do que ele é, compreendo sempre, nas minhas palavras, que o amor deve ser a dádiva a outra pessoa. Que deve fazer-se renascer a cada momento que passa, a cada dia, cada mês, cada ano.

Sempre compreendi que no amor temos que ceder e marcar posição. Que não deve ser só uma parte a ceder, mas ambas. Sempre percebi e entendi que no amor se sofre: não uma dor física ou uma dor provocada pelo outro. Mas sim aceitar e viver a dor que a outra parte sente, mesmo que pareça ridícula.

Houve alguém que disse uma vez: “se eu tivesse amnésia, apaixonar-me-ia por ele todos os dias.” E para mim, nesta minha sabedoria parva e tentativa de compreender algo que acho não conseguir ter esclarecido na totalidade, isto é o verdadeiro amor: fazer cada dia como se fosse a primeira vez.

Sou um lobo solitário sem ninguém com quem partilhar os meus dias, e por essa razão vou sendo, em muito, diário de outros. Tenho visto muitas coisas e não consigo perceber como é que alguém que está numa relação não consegue fazer mais por ela, aproveitar cada segundo com a pessoa que se ama, lutar para não a perder.

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Continuo a achar que o ser humano está cada vez mais centrado em si próprio, querendo que o mundo gire em seu redor do que em redor de outrem. Eu continuo a ser contrário a esta regra que me salta à vista e continuo a desejar que a minha vida gire em torno de alguém.

Amar é das coisas mais belas. Chego a esta conclusão por diversos fatores, mas também como síntese de muitas das minhas leituras. O homem procura amor mas não é capaz de se entregar ao amor. O homem procura ser amado, mas não quer amar. A ideia do geocentrismo perdeu-se há vários séculos. Mas há vários séculos que se criou o egocentrismo. O eu está a cima de tudo, independentemente da forma como se conquista essa posição. As pessoas dão mas não se dão.

Há a dor de não se ser amado, a mágoa de algum amor. E porque se passou por isso uma vez, tende-se a fechar-se o coração e a pensar somente com a razão. E a razão é instinto animal e como os animais deixamos de fazer amor passando a fazer-se sexo. Já não há amor mas relações , mas o uso de alguém para satisfação de si.

Sempre existiram pessoas Alfa. Hoje todos querem ser alfa rejeitando a ideia de se ser uma outra letra do alfabeto grego. Queremos mas não damos, esperando sempre só receber. Talvez se tenha esquecido o verdadeiro significado da palavra dar, substituindo-a por descargo de consciência.

É das coisas mais difíceis o sair-se de si em busca do outro. É uma espécie de subjugação ou humilhação perante o outro. Mas sair-se de si em prol de outrem é uma das características do amor. Hoje amam-de objetos e locais mas não se amam pessoas. Hoje ama-se de mais aquilo que não pode retribuir amor.

Compreendo e aceito na sua perfeição que o amor não é fácil. Mas amar nos primeiros dias também nunca foi difícil. Parece-me que se ama até determinado momento, mas depois vive-se, acomodado, ao lado de alguém. E achar-se que esse alguém é nosso por direito é matar o amor; tratar essa pessoa de forma má só porque achamos que ela nunca nos vai abandonar, é matar o amor. E o amor deve ser algo que se rega todos os dias e não que se arranca para não impedir que o ego cresça.

“Amar dói: se não doer não é amor”! Escrevi estas palavras um dia percebendo, à posteriori, que poucos foram aqueles que compreenderam a verdadeira essência desta frase. Amar dói porque sofremos com alguém, obriga-nos a sairmos da nossa praia, a lutar em cada novo dia.

Se amar é a coisa mais bela, porque desperdiça o homem esse dom? Se amar é a coisa mais bela, porque matamos este sentimento? 

Palavras abafadas!

por Ismael Sousa, em 13.07.18

Existe, no meu peito apertado, um enorme sentimento de abandono.

Rasga-se-me o peito em inúmeras horas de sofrimento silencioso, onde o sorriso sempre presente se esbate no rosto. Não existem mais lágrimas por onde escoar os sentimentos que dentro de mim gritam.

Existe, sempre, a réstia de esperança, na crença de tempos de bonança, em que não sentirei dor, em que o desespero não residirá em mim.

Sou um ser complexo e estranho em tantas coisas. Os meus gostos diferem de tantos outros. Dou-me na total pessoa que sou. Continuo a acreditar nas pessoas e na sua bondade, mas sempre acabo por me dececionar. Quero acreditar sempre, num novo passo, mas aquilo que sinto é que serei sempre mais um instrumento nas mãos de outrem.

Eis-me aqui, sentado, diante de uma vista fabulosa, acompanhado pelo Gin, sozinho e abandonado. Não há quem partilhe comigo estes momentos belos, esta forma de viver estranha.

Estranheza contida nas entranhas, inegável naquilo que sou. Desabafo nas palavras, as minhas únicas e fieis companheiras. Uso-as e abuso delas na alegria e na tristeza. Elas sempre conheceram o meu ser, as minhas dores e júbilo. Elas que sempre estão, para recordar e perdoar, para fortalecer, dar energia e por vezes fazer fracassar.

Abandono-me, cada vez mais, a este estado de incompetência e de invisibilidade. Somente as palavras me dão alento, somente as palavras reconfortam e aceitam as minhas decisões.

Abandono-me nesta minha imperfeição, nesta enormidade de defeitos e falta de qualidades que eu tenho. Sou um ser pobre, sem interesse. Tentei tantas vezes ser diferente que a diferença se instalou em mim, arrebatando-me ao campo do abandono total.

Por vezes quero escrever mais e mais, mas a constante negrura da minha vida, a energia negra que de mim emana, impede-me a fazê-lo, no medo de me tornar tantas vezes repetitivo. Escrevo tantas vezes sobre este meu estado impuro de sobrevivência. Encho a minha vida com mil coisas, tentando esquecer a dor que dentro de mim surge.

Amar corpos tornou-se o comum e as almas já não interessam.

Em sua memória!

por Ismael Sousa, em 29.06.18

Não existe dor maior que aquela que o ser possui no seu coração por não corresponder aos padrões que a sociedade impõe em cada momento. A diferença fazia parte de si desde muito novo, desde a infância e em toda a vida. Não gostava do que a maioria gostava, não se comportava como todos os outros. Fechava-se, reprimia em si a sua verdadeira essência, tantas vezes apontado e descriminado perante um sociedade que desejava a uniformidade. Em rebanho de ovelhas brancas, sentia-se sempre a ovelha negra. Os olhos e as palavras matavam demasiadas vezes. Procurava a solidão na sua maioria das vezes. Sentia-se incompreendido, ou tantas vezes compreendido mas ignorado por causa de estúpidas aparências, por estúpidas regras que lhe eram impostas.

 

A solidão é, sempre, um pau de dois bicos que tanto ajuda como fere. O abandono é a maior dor de uma alma e de um corpo que se vê colocado de lado perante todos os que o rodeiam. Mesmo os maiores esforços se tornavam, tantas vezes, em pequenas migalhas dadas a alguém faminto e em tamanhos monstros à vista de todos. Um simples pormenor, algo simplesmente diferente: uma faca de dois gumes que fere quando entra e quando sai.

 

A estupidez nas atitudes e palavras. A morte de tantos por causa de paradigmas e mentiras. A morte e desaparecimento de tantos que no silêncio e no abandono foram morrendo, pouco a pouco, e entregando-se à morte. E os rios de lágrimas, as palavras ditas e não ditas, as ações praticadas e as que ficaram por concretizar, as promessas não cumpridas: o arrependimento. A morte que trás a culpa, o remorso, a tristeza e o afastamento corporal. E a imagem que depois deixa de aparecer, o sorriso que não se recorda nas memórias, o olhar triste que predomina. Um único culpado, milhares de aliados.

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O tempo, o tempo que tudo mata, o tempo que é escasso e sempre em demasia; o tempo que damos e nunca recuperamos, o tempo que esbanjamos e nunca reconquistamos. E ele foi-se perdendo, abandonando tudo aquilo que sempre amou. Ele foi-se apagando, apagando à vida e à luz.

 

A diferença, tantas vezes a diferença e os paradoxos que ainda existem, os preconceitos e mentiras, a falta de amor em tantos corações que tudo têm. E pediu tão pouco e nada lhe foi dado: compreensão, aceitação, amor.

 

Amou sempre de mais. Não conseguia ser diferente. Amava quem o odiava, amava quem o usava. Nunca soube o que era ser amado, o que era receber aquilo que tanto dava. Apagou-se para a vida, deu espaço à morte.

 

Partiu. Despediu-se com poucas palavras. Matou-se. E haveriam ainda de o chorar, mas agora não era tempo. Tudo permanecia igual, tudo parecia como dantes. Mas depois começou a faltar a presença, começou a faltar aquilo que sempre havia. Ele já não estava lá.

 

Um dia matou-se. Matou o ser que era e obrigou-se a nascer o que agora é. A diferença não tem que ser compreendida mas respeitada. A vida não tem de ser fácil, mas ajudada. O amor não pode existir onde não houver reciprocidade.

 

Matou-se. Matou em si tudo aquilo que algum dia o impediu de ser feliz. A diferença é aos olhos dos outros, a solidão é mais reconfortante que o mar de multidões sem amor.

 

Matou-se e matou quem nunca o quis compreender, quem sempre o desprezou, quem nunca o ajudou. Haviam de o chorar mas ele não estaria lá para reconfortar.

Partiu, sem aviso nem retorno!

por Ismael Sousa, em 24.04.18

Havia na sua voz um pequeno tremor. No seu coração um pequeno aperto. Longe estaria de saber que as palavras que lhe dizia eram as últimas. Despediu-se com a saudade já a apertar-lhe no peito. Sentia algo dentro de si mas não sabia se era da adrenalina que sentia se outra coisa qualquer.

Quando ria de mais assolava-o sempre o presságio de algo mau acontecer. Por essa razão evitava muitas vezes rir em demasia, tamanho era o medo que sentia. Mas havia rido pouco naquela noite sem saber que presságio maior lhe estava destinado.

A noite era igual a tantas outras mas a diferença estava nos pequenos momentos que ia gravando na sua mente para nunca esquecer. Tinha-o feito desde o primeiro momento em que sem medos revelara toda a sua vida. Nunca tinha sido capaz de entender as razões que o levaram a falar assim tão abertamente. Mas fê-lo sem sentir qualquer pudor. Trocaram muitas palavras e momentos que viveram ficaram para sempre guardados. Agora parara o carro, despedira-se. Foi a última vez que se viram e desde então o sorriso desapareceu para sempre do seu rosto.

Deixara de sorrir. Cada vez que o fazia sentia-se falso. Desde então ficou carrancudo, com os lábios torcidos para baixo. O seu semblante tornou-se pesado, as poucas lágrimas que ainda em si residiam ficavam muitas vezes em risco de correr. Já não havia um brilho nos seus olhos, já não havia luz naquele corpo. Seria só memória, passagem, recordação.

Era uma noite como tantas outras, especial nos momentos que partilharam, fatal na despedida. Houve noites em que chorou ou que quando chegou a casa bêbedo escreveu-lhe palavras que guardava dentro de si. Pensava várias vezes ao longo do dia no seu nome, na sua pessoa, nos momentos que viveram. Pensava em como era diferente a sua companhia, em como já não conseguia recordar o som da sua voz.

O tempo foi passando sem que se dessem sinais disso nem de um possível reencontro. O tempo afastou intensamente aquilo que existia, mas ele mantinha sempre acesa em si a memória desse alguém que havia feito sorrir num dos momentos que mais dor sentiu. O tempo apagou qualquer rasto de si.

Passava-lhe muitas vezes à porta. Não de propósito mas porque ali sempre fora um local de passagem. Passava e olhava na tentativa de puder rever. Mas eram esperanças vãs, esperanças que não passavam disso, esperanças. Dentro de si crescia sempre um enorme peso, uma enorme dor que se prolongava em todo o trajeto até casa, em todas as horas que depois passassem.

O tempo não esperou, somente ele esperou por alguém que não veio. O sentimento que cresceu nunca esmoreceu, mesmo em todo o tempo que passou. No seu coração negro, no seu enorme pesar e em todas as saudades, incapazes de serem saciadas, aquela pequena esperança tem-se mantido ao longo dos tempos.

A noite chegou uma vez mais. O peso de tanta coisa nos seus ombros. Continuava a acreditar e a pensar nesse outro alguém, mas morria em cada noite que adormecia. Era mais uma noite, sem palavras, isolado do mundo incapaz de o compreender. Era apelidado de dramático e, mesmo depois de tantos gritos de socorro, continuava ignorado.

Haveria de chorar tudo, um dia. Haveria de ser capaz de esquecer tudo e seguir em frente. Mas essa altura não chegava e amar foi sempre o que tentou fazer de melhor. Mas em todas as suas tentativas, sentia que falhava cada vez mais, que era fraco e indesejado.

Tentou compreender muitas vezes as razões que levaram a tal comportamento. Mas o seu entendimento não lhe dava respostas, não lhe dava nenhum sinal.

Saiu para a rua, os olhos em lágrimas. Conduziu durante quilómetros. A hora já era de um novo dia. Parou o carro algures numa estrada, perdido, sem saber onde estaria. Conduziu durante algum tempo sem destino ou orientação. E chorava. O sol do novo dia despontou. Estava ali há horas, no mesmo local. Ninguém notaria a sua ausência. E sem anúncio nem nada que o previsse, partiu sem destino e sem saber se iria recuperar, sem saber se iria voltar.

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"há sempre uma noite escura!"

por Ismael Sousa, em 03.04.18

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Sentado, num balcão sozinho, a beber uma cerveja. Paira o ar pesado do abandono e da saudade. Percorro caminhos que não são os meus, vivo histórias que não são as minhas.


Estou de fato, como muitas das vezes. Hoje é cinzento, bota preta e camisa branca. Estou só eu e os meus pensamentos.


Não sei bem o que paira na minha mente, aquilo que estou a sentir ou o que me faz estar aqui. Lá fora chove, miudinho, o frio faz-se sentir em demasia. Sorrio por simpatia a quem passa e cumprimenta por cortesia. Fumo um cigarro e abandono-me em todo o meu eu. Sou pequeno, realmente, perante tanta grandeza em meu redor.


Chove. Eu acabo a minha cerveja e saio para a rua. O frio gela-me por inteiro. Não me apetece ir para casa, fechar-me no meu canto, enfrentar a realidade. Quero fugir, desaparecer para longe. Quero novas realidades em meu redor, novas pessoas com quem me cruzar.


Dou por mim perdido por entre os caminhos da cidade. Há o frio e a chuva, o abandono e o esquecimento. Há o rio que passa lá em baixo e eu perdido, aqui em cima, abeirando-me do precipício.


Quis arrancar o coração do peito. Tirei as roupas, mergulhei nas gélidas águas. Cravei as mãos no peito e apertei o coração. Mas ele desfez-se nos meus dedos, desfez-se de saudades.


Não sei bem o que pensar, desejo não sentir. Tenho perdido amores que são o nome de cada lágrima que cai, em cada noite, do poço dos meus olhos vagos. Solidão, abandono, falta. O meu coração que se desfez de saudades era negro como a noite. Na minha cabeça pairam palavras cruas, frias, dolorosas.

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Há um tempo, um espaço de tempo demasiado grande. Há o meu afundar diário, o negro cada vez mais intenso. Já não consigo sentir algo bom. Choro todas as noites a tua ausência, a falta que me fazes. Já não me lembro do tempo em que sorri, em que gargalhei com tanta sinceridade.


Conto todos os dias, todos os dias que passaram sem te ver. Na minha mente paira aquelas últimas palavras. Aquela última despedida, aquela última palavra. Agora só sobram as cinzas de um coração desfeito.


Existem questões na minha cabeça para as quais eu não tenho uma resposta. Por vezes desejo-as, outras vezes só não as queria ter.


Era um abraço tão reconfortante, algo que foi cura, que foi bálsamo. E eu estava tão frágil, tão despedaçado. E, mergulhado naquele abraço, eu voltei a acreditar naquilo que achava ser mentira, naquilo que havia deixado de acreditar.


Ah, quantas noites me teria perdido nos teus braços, quantas vezes me teria entregue a ti.


Voltei. Voltei àquele lugar que te é tão querido. Voltei a violar o silêncio das ruas, a ler as paredes que um dia decifrámos em conjunto. Voltei a ver o teu rosto que em cada novo dia me está tão desaparecido da mente e que só recordo com a memória cravada no meu peito.

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Queria ver-te uma última vez. Queria conseguir dizer-te toda a verdade, sem te causar um peso nos ombros. Sou tão cobarde que até tenho vergonha de mim. E sem te querer causar pena, sem ser um fardo para ti, escrevo. Escrevo tanto. “A ti”!


Onde residirá o amor? Por vezes numa simples pedra de calçada. Por vezes nos pequenos gestos, nas poucas palavras. Nos silêncios.

 
Não tenho um rumo, não tenho uma vida. E eis-me aqui, mergulhado nas gélidas Águas de um rio, rodeado da ausência. Eis-me aqui, sem coração, moribundo, desfeito em memórias. Somente as palavras aliviam a dor que sinto.


Parto agora, sem coração, sem emoções, sem ninguém. Parto sem morada nas memórias que desapareceram. Uma última lágrima, um último adeus, uma última lembrança: o teu rosto.

Somente quem sente, quem saberá?

por Ismael Sousa, em 24.03.18

Não há fogo que não queime o coração daquele que amou.

O cigarro aceso que se consome, o fumo que se espalha no ar, misturando-se com o oxigénio.

O bem e o mal, numa mistura tão difícil de diferenciar.

A saudade que aperta no peito, o abandono que sufoca a alma.

Quem saberá amar se não somente aquele que verdadeiramente já amou? Quantas vezes se amará num vida, se de dor é o peito daquele que amou sem ser amado?

Como se reconstrói aquilo que já não há sinal de existência?

Quem volta a colocar a mão no fogo depois de se haver queimado?

A evolução do homem parece ser, tanta vez, somente a nível intelectual e tecnológico. Porque a nível sentimental parece não evoluir. Ama-se, desama-se; odeia-se, gosta-se; sofre-se, sobrevive-se, vive-se.

O cigarro continua a queimar, o tempo parece não passar. Mas passa e já lá vai tanto tempo.

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Como esquecer a última vez que te vi? Como esquecer o último abraço que te dei. Como esquecer-te?

É grande o esforço de tentar escrever sobre coisas positivas. É grande o esforço de tentar ser melhor. Mas estagnei, na vida e no tempo, estagnei no insucesso e no abandono.

Remeti-me ao silêncio, mas gostar de ti continua a ser o poema que não digo, a canção que teimo em não cantar.

Saberias tu algum dia que se me pedisses a lua eu iria roubá-la só para te dar? Saberias tu, algum dia, que te daria todo o mundo se o pedisses?

Acabou o cigarro, o fumo ainda existe no ar.

As paredes magoam, fazem sofrer. Cai a chuva na minha janela, as paredes brancas não dizem nada. Tantas recordações e somente passado, a ausência de um presente, a falta de perspetiva para o futuro.

Fecho os olhos e faltas-me tu. Em cada lágrima que derramo, o teu nome no silêncio. Não há sentido no que escrevo, falta tanta coisa.

Há mais linhas em branco que palavras escritas.

Somente a noite parece entender cada palavra que eu escrevo. Mas tu já não lês o que escrevo, já nada te diz o meu nome.

Está fria a cama, frio o corpo que a viola.

Foda-se para toda esta merda de vida e de estado de sentir.

Que se dane o cuidado com as palavras. São falsas e tão verdadeiras ao mesmo tempo.

Cansei.

Exasperei.

Fui preterido.

E nestas, em estas três simples palavras, toda uma enorme verdade contida.

Fui, simplesmente, por ser coitado. Agora só sou aquilo que outrora já era: nada.

Nada.

Mero nada.

Inexistente.

E por mais que eu tente alcançar, por mais que tente esquecer, nada me faz, nada me preenche, nada me faz sorrir e gargalhar como tu.

Adeus.

Adeus!

Adeus...

 

 

Poesia Sempre, Sempre Pura Poesia

por Ismael Sousa, em 22.03.18

Quanta poesia escrevemos com as linhas da vida? Quantas palavras poéticas proferimos em nossos dias? Ah!, e o que é a poesia se não o fogo que arde em nós, que palpita em amor e dor? Nem todo o escritor é poeta e nem todo o poeta é escritor. Mas por esta ou aquela forma de poesia, todo o homem a sente em si.

 

[Lígia Mendes]

"Ah, mas se ela adivinhasse,

Se pudesse ouvir o olhar,

E se um olhar lhe bastasse

P ́ra saber que a estão a amar!"

(O amor quando se revela, in Poema Inéditos, Fernando Pessoa)

 

E os gestos de amor, as palavras proferidas? Os olhos que encadeiam, o poeta que se exalta. É o amor que faz escrever, a musa que inspira. Quantos amores trocados, quantas palavras entrelaçadas, quantas páginas escritas em poesias desnudadas de preconceitos e hierarquias!

 

[Amaro Figueiredo]

"Quem?

Não sei quem és. Já não te vejo bem...

E ouço-me dizer (ai, tanta vez!...)

Sonho que um outro sonho me desfez?

Fantasma de que amor? Sombra de quem?"

(A Mensageira das Violetas", Florbela Espanca)

 

E o sonho, a ilusão, a ausência de alguém. É poesia, é amor, é entranhas e ardor. Falamos normalmente e recitamos lindos sonetos de amor ou saudade. E quanta dor em palavras oculta, corações sofredores, lágrimas derramadas. Seres incógnitos, seres ausentes, escritores de sentimentos.

 

[Francisco Gonçalves]

"Se me vieres buscar,

Se me devolveres a brisa,

Se me amares apenas um pouco,

Se me fizeres sorrir,

Se me tocares assim...

Voltarei a ser eu"

(Francisco Gonçalves)

 

Há esperança na poesia, há entendimento e confusão. Há a magia e a realidade, a verdade ou pura ilusão. Contam-se as palavras, formam-se as rimas. Ah!, como eu admiro todo e qualquer escritor. E o poeta ainda mais, que falseia as palavras, que as conhece e as troca, rimando-as e encruzilhando-as em quadras e sentimentos, em sorrisos de sonho ou ilusão.

 

[Carlos Almeida]

"Ser poeta é ser mais alto, é ser maior

do que os homens! Morder como quem beija!

É ser mendigo e dar como quem seja

Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!"

(Florbela Espanca)

 

Não se pode fingir ser-se aquilo que no sangue não se é. Quantos poetas se escondem nas vielas e outros tentam alcançar uma fama que nunca lhes será verdadeira. E os poetas que escrevem em paredes, a poesia que salta das pedras da calçada. As quadras que são estórias e a história que são quadras. É preciso sentir-se antes de se ser, é preciso ser antes de sentir.

 

[José Pereira]

"Nega-me o pão, o ar,

a luz, a primavera,

mas nunca o teu riso,

porque então morreria."

(Pablo Neruda)

 

O que cabe na poesia, o que cabe num poema? Cabe tanto como no mundo, a desgraça e o amor, o ódio e o rancor. E todas as palavras, brincadas por aquele que escreve, criam encadeamentos floreados de sonhos alcançados, vitórias impensáveis, sonhos indecifráveis. Quanta poesia em nossos lábios, quantas palavras de poesia.

 

[Paulo Rodrigues]

"A minha glória é esta:

Criar desumanidade!

Não acompanhar ninguém.

- Que eu vivo com o mesmo sem vontade

Com que rasguei o ventre à minha mãe."

(Cântico Negro, José Régio)

 

Poesia não são só palavras, não são só sentimentos. Poesia são diários, poesia são palavras escritas com o sangue da vida, o alinhamento do espírito. Poesias são tumbas de almas desgarradas e amadas, de almas sofridas e sentidas. Grande é o poeta e grande é a poesia, incapaz de se conter, incapaz de se controlar. E a mim que alinho somente frases, que não sei poetizar.

 

[Pedro Miguel Teixeira]

"A São Tiago não irei

como turista. Irei

- se puder – como peregrino

Tocarei a pedra e rezarei

Os padre-nossos da conta como

um campesino."

(Sophia de Mello Breyner Andresen)

 

Poesia é o voo da alma, é ir-se até onde a mente alcança. É transpor fronteiras entre o real e o imaginário. Poesia não é só o que aparenta ser. São fontes de sabedoria, revelações e tantas palavras não ditas e escritas no invisível aos olhos insensíveis. Poesia é sempre sangue que corre em nossos corpo, coração que bate em nosso peito.

 

[Joana Simões]

"Não há limite no azul, nem no rosa perdição

Há apenas uma imensidão!

Nada é vida, nada é morte,

Tudo é esperança!"

(Joana Simões)

 

Poesia é o cigarro do tempo, que nunca se apaga e que com o seu fumo inebria as almas sensíveis. Poesia, sempre poesia. A poesia não morre, não tem tempo. A poesia vive hoje e ontem, amanha e para sempre. Viva a poesia, vivam os sonhos, os sentimentos, as emoções e o sonhos. Viva a poesia, vivam os corações de quem a escreve. Poesia sempre, poesia sempre...

 

[Ismael Sousa]

"Na verdade temos medo.

Nascemos escuro.

As existências são poucas:

Carteiro, ditador, soldado.

Nosso destino é incompleto.

 

E fomos educados para o medo.

Cheiramos flores de medo.

Vestimos panos de medo.

De medo, vermelhos rios

nadamos."

(Carlos Drummond de Andrade)

 

 

 

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Enquanto amar...

por Ismael Sousa, em 18.03.18

Não consigo deixar de te amar.


Vou tentando procurar outras coisas, algo que me faça esquecer-te e deixar-te partir. Mas tu não sais do meu coração, não me abandonas a mente.


Passam horas, dias, semanas. Dói tanto não te sentir junto a mim, não ter uma palavra tua. Uma palavra querida.


Choro sempre que reclino a cabeça na almofada, no silêncio do meu quarto, no abandono do mundo. Não sei, não consigo compreender, é mais forte do que eu.
Vou deixando migalhas de mim, vou-me desintegrando, deixando de existir. Já não habito o meu corpo, a minha alma esvoaça por entre a penumbra da noite. Sou a mágoa encarnada. É tão difícil não ser amado, tão difícil deixar quem se ama.
A incompreensão tem-me matado. Morro na infinidade dos meus pensamentos.


As paredes brancas, cobertas de recordações e de pessoas que já não estão na minha vida, torna-se cada vez mais esbatida, sem cor. Memórias do passado.


E tudo é passado, nada é presente. Mesmo estas palavras que acabo de escrever já são passado e podem até já não ser aquilo que sinto. Mas são. São pretérito imperfeito na minha vida, prolongam-se pelos tempos, sendo sempre presente. São pela lágrima salgada, pela lágrima que escorre do meu rosto.


Sou fugaz. E nem todos o somos. Alguns vivem na eternidade, outros são só árvores no tempo pelas quais se passam, deixando-as para trás.


Há a estrada sem destino, aquilo que nos leva até ao fim da nossa vida. A minha cai no precipício sem perspetivas de horizontes.


Sinto que falhei, que em algum momento, que cometi erros em demasiada. Talvez seja altivo e orgulhoso de mais para os reconhecer, para saber onde errei.


Amar-te não foi um erro, em nenhuma vez. Amar-te foi belo, foi vida, foi força! Amar-te foi e é.

Amar-te será sempre.

 

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Cartas amarrotadas de amor!

por Ismael Sousa, em 15.03.18

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"Esta chuva faz-me lembrar de ti. Porquê? Talvez saibas a resposta, ou talvez não. Na verdade, já nem sei se continuas a ler aquilo que escrevo. Deves ter perdido o interesse, o que é normal. Mas não faz mal. Eu vou continuar a escrever sobre ti e para ti.


Sabes, tenho escrito muito sobre a chuva. Talvez porque ela me deprima ou por outra razão qualquer. Mas tenho escrito. Escrevo aquilo que me vai na alma. Tem andado muito negra a minha alma. Os meus dias, em toda a sua diversidade, estão cada vez mais monótonos. Faço as mesmas coisas diariamente, as mesmas rotinas.


Deixei de ir ao cinema. Agora assustam-me as salas vazias ou a minha solidão. Não sei. E eu que era tão solitário na minha forma de escrever. Talvez seja do frio e da chuva.


Nunca quis a monotonia na minha vida. Gosto da diversidade. Mas a verdade é que ando cada vez mais monótono. Os meus dias são iguais todas as semanas. Já pouco saio. Os olhares das pessoas sobre um solitário andam a incomodar-me cada vez mais, dia para dia. Tenho-me fechado sobre mim mesmo, perdendo a vontade para fazer seja o que for. Agora são só dias, normais. Nasce o sol, desce o sol. Na maioria dos dias nem o vejo. Estou cada vez mais solitário e cada vez mais abandonado. E eu que tenho tanto medo do abandono.


Os meus dias são uma treta. Trabalho e trabalho. As horas custam a passar. Abandonei também um pouco a leitura. Já não leio com tanta frequência. Parece que os livros já não me satisfazem! E logo a mim que adoro ler. Também já não escrevo na máquina de escrever há algum tempo. Nela escrevia tanto sobre ti. Há tanta coisa que gostava de te ter dito.


Por vezes pergunto-me se sabes, realmente, porque falo tão pouco ou respondo de forma tão seca. Talvez não saibas. Eu também nunca te expliquei, acho eu. Em tudo o que te tenho escrito, acho que nunca te expliquei. Acho que nem deves dar importância, porque eu sou muito sentimentalista e estou sempre com o sentimento na boca. Todas aquelas vezes que te disse tantas coisas, quando estava bêbedo, levam-te, agora a desvalorizar o que eu digo, com certeza. Mas nada foi dito em mentira.


Continua a chover, por estes dias. Tenho-me sentado por debaixo da claraboia a ouvir a chuva. O quarto está escuro, somente uma pequena vela me dá à luz necessária a escrever-te esta carta. Mais uma entre tantas.


Não tenho muito mais a dizer-te hoje, por entre tantas coisas que te quereria dizer. Mas talvez me falte a coragem, me assole a ideia de te perder com palavras em demasia. Talvez já tenhas ido, sejas só memória para mim.


Nunca leves as minhas palavras muito a peito. Somente as de amor. As outras são só floreado para te dizer o quanto gosto de ti.


Vou dormir. Talvez não acorde novamente ou passe a noite a ouvir a chuva a cair, o vento a soprar. Talvez ouça o teu nome no limbo entre o adormecer e sonhar. Também já não sonho. E queria tanto ver-te nos meus sonhos e não só a vaga imagem tua na minha memória."

 

 

[Amarrotou a carta, atirou-a para o canto, para junto de tantas outras. Adormeceu ali, no chão frio, debaixo da chuva que caía, no abandono da noite, no frio do vento. Adormeceu ali, envolto em amor.]