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Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

Espero por ti...

por Ismael Sousa, em 10.08.18

Deambulo pelas ruas em busca de ti. Eu sei que tu não estás, mas todo o meu ser deseja encontrar-te. Vejo-te, agora, só na minha mente. Recordo com imensa intensidade o teu cheiro, o teu sorriso, a tua voz. Falta-me o calor do teu corpo junto ao meu.

 

Na minha memória guardo, com todas a minhas forças, cada momento passado junto a ti: as conversas que tivemos, os locais que visitámos, os beijos que roubámos.

 

Estou só: vive um corpo perdido sem ti. Na minha mente ecoam as perguntas de como estarás, se sentirás a minha falta e o quanto eu gosto de ti.

 

Abate-se, de uma forma intensa, sobre mim a saudade que tu me deixas.

 

Tão pouco tempo e um sentimento tão grande que transborda de uma forma que eu não consigo explicar. Falta-me as palavras, falta-me a vontade, abundam as lágrimas.

 

A distância é algo que nos atormenta, algo que se nos impõe sem que o desejemos. Um teste, talvez.

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Já não moram sorrisos neste rostos, já não resido aqui. Estou perdido e sem rumo e tu faltas para me orientar.

 

Há a esperança que ainda arde por te voltar a ter em meus braços, por sentir o sabor dos teus lábios. O meu coração palpita, as lágrimas não me abandonam. E eu... aqui, perdido em pensamentos, deambulando como morto pelas ruas, sem vontade de aqui estar.

 

Morro a cada minuto que passa, a cada quilometro que aumenta. Só eu sei Que morro por não te ter, por não saber quando voltarei a teus braços...

 

Espero por ti, nem que a chuva caia abundantemente.

 

Espero por ti, nem que as lágrimas consumam todo o meu ser.

 

Espero por ti até ao fim...

Encruzilhada

por Ismael Sousa, em 02.08.18

Seria um fim de tarde perfeitamente normal, aos olhos dos que percorriam as ruas da cidade.

 

O rio corria na sua calma que lhe é tão característica, dividindo-se por entre os pilares da histórica ponte. O sol caiava de laranja todo o espaço que percorria, espelhando no rio as árvores e arquiteturas mais próximas. Voavam andorinhas no ar, livres e ao sabor da pequena brisa que se fazia sentir. Uma tarde perfeitamente normal, um fim de tarde como tantos outros, num dia comum.

 

Junto ao varandim, de ferro gasto pelo tempo, expectador de tantas histórias de amor, de tantas lágrimas e desesperos, encostava-se alguém, com o coração apertado e o olhar perdido na imensidão do infinito. O mundo corria, sempre, indiferente. Sentava-se, voltava a levantar-se. E de novo se sentava, os óculos de sol a girar sobre os dedos, a cabeça pousada na palma da mão. Fervilhava cada milímetro do sistema nervoso. Percorriam-lhe os pensamentos pela cabeça, como seria, como não haveria de ser. O coração palpitava no peito, quase que saltando-lhe pela boca. Reviravam-se-lhe todas as entranhas, o medo e a ansiedade tomavam conta dele.

 

O tempo passava de forma lenta e acelerada ao mesmo tempo. Um miscelânea incapaz de ser compreendida, uma tempestade de sentimentos. O rio continuava calmo, o sol tornava-se cada vez mais vermelho. Circulavam gentes, voavam andorinhas. Uma voz, atrás um salto no coração. Levantou-se, corou, os nervos aumentaram.

 

Vieram as primeiras palavras ditas ao acaso, num cumprimento cordial e sem qualquer sentimento aparente. Só ele sabia o quanto estavam carregadas de sentimentos aquelas primeiras palavras. Depois, calmamente, veio o abraço apertado, o abraço que acalma, que não deveria ter fim, somente princípio e entretantos.

 

Passaram o rio ainda com tão poucas palavras ditas e com tanto ainda por dizer. Um café, uma esplanada, um coração que era agora paz.

 

É incompreensível a razão que faz o coração palpitar assim, de uma maneira estranhamente estranha. Há borboletas no estômago que só conhece quem sente.

 

O sol brilhava de uma forma especialmente especial. Viviam-se vontades e sentimentos, coisas que quase ninguém conseguia perceber.

 

Cada traço, cada olhar, cada pequeno gesto era agora percetível. A verdade estava ali, na sua forma mais pura. Houve a ânsia, o nervosismo, mas naquele momentos só a calma. A tempestade transformara-se em bonança, a calma o reflexo do nervosismo. O rio corria calmo, o sol quase que se pusera e já não notava se havia andorinhas pelo ar.

 

Num olhar comum, tudo seria normal. No coração tudo era diferente e especial. A estranheza acabara, a verdade revelara-se. As horas já eram galopantes, saltando de dez em dez minutos, fazendo passar o tempo na metade daquilo que se pensava na realidade.

 

A magia que existia no ar, a magia que existia nos sentimentos. Um coração palpitante e ansioso, era tudo o que havia para dar. Por entre os abraços e os beijos, as mão unidas ou os braços apertados, viveu-se num mundo de magia, aparentemente normal.

 

Depois, depois cresceu a saudade numa forma muito maior. Cresceu o sentimento em tudo aquilo que a vida tem para dar. Teme-se o futuro mas existe a vontade de lutar. E num amanha ainda maior e mais persistente, a vida não deixa de ser vivida. O sentimento e a saudade, de mãos dadas, vão crescendo cada um na sua medida. Um cresce para nunca acabar, o outro para se ir diminuindo cada vez mais.

 

Um coração que no silêncio e no desconhecido palpita por alguém lá longe, por amores conhecidos.

 

Este sentimento que cresce e vive, este sentimento que não deixa de existir. De tantas leituras ainda não se conseguiu encontrar forma mais bela para se descrever aquilo que se sentiu. Os sentimentos escrevem-se mas não se explicam no papel nem em palavras. Somente sentindo e proferindo palavras verdadeiras que correspondam aquilo que se sente.

 

A noite, a maior amiga e a maior inimiga dos amantes, chega e destrói. Mas existe sempre algo que perdurará no tempo, haverá sempre algo guardado em memórias, essas que são e serão sempre maiores que as palavras que se escreve um dia.

 

E no silêncio da noite, na escuridão de um quarto, ainda se sente o seu cheiro.

 

 

...

por Ismael Sousa, em 24.07.18

Perco-me na infinítude do teu olhar. Anseio conhecer cada traço do teu rosto, cada local teu, cada sentimento e pensamento. Quero-te, junto a mim, em dias incontáveis de eternidade, onde sonhos e mundos habitam em nós e somos tudo aquilo que desejamos.

 

As horas passam infinítamente em anseios de te ter junto a mim, em meus braços e em meu sentir. Sentir o teu cheiro, conhecer a tua respiração, o sabor dos teus beijos e o calor do teu abraço.

 

O sonho e a vontade perpetuam a vontade de ser parte de ti, num complemento e conformidade que só nós dois conhecemos. O tempo que é indiferente, o tempo que não sente ou que não quer sentir, o tempo que acentua e magoa, o tempo e o tempo.

 

Sonho-te em cada momento que o meu pensamento se desliga do trabalho. Sinto o corpo a movimentar-se e o meu pensamento a procurar-te. Viver cada segundo inseguro de ti, com o receio de te perder, o medo de não bastar.

 

Tantos os silêncios que nem o mar me traz conforto. Olho-o na sua imensidão, para além das vidas que me circundam, em momentos de ilusão e abandono. Quebro as regras que me impuseram: o sonho e a vidraça, o café e o horizonte sem fim. E em fins inesperados me espero encontrar contigo.

 

Falham-me as palavras que te quero dizer; falham-me as forças e a confiança. O café está frio, o sol não me aquece a alma. Sinto-me a vaguear sem rumo, na ausência que não compreendo. A vida passa-me diante dos olhos e a melancolia abate-se de novo sobre a minha alma negra e esfarrapada.

 

Saio, para a rua, em ausências inexplicáveis. A vida, que simplesmente corre, não se inebria por mim. Há um triste fado nesta forma de viver, nesta dor de sentir, nesta fome insaciável. Há um fado melancólico em palavras bucólicas e desajeitadas, tentando dizer tudo aquilo que sinto em mim.

 

Falham-me as formas gramaticais, as palavras e os verbos. Repito o que digo sentindo inexplicavelmente algo maior, que não consigo compreender, que não consigo ver. E o depois que é sempre tão constante, impedindo a forma de viver bem o presente que desejamos. O medo de um futuro esvaziando aquilo que dentro de nós existe. Pelas palavras que dizemos, comprometemos as nossas vidas, unindo-as num forte laço inquebrável por quem quer que passe.

 

Sonhos, ilusões, certezas ou angústias. Perdas irreparáveis, medos e receios.

 

Uma estrada ou meio, uma forma de chegar. Vai-se ficando, vai-se vivendo. Um estado de inexplicável sentimento, que nenhuma palavra no meu conhecimento consegue traduzir aquilo que dentro do meu estranho ser se faz sentir. Talvez um fado, talvez uma saudade, quiçá um fado-saudade.

Há ou existe!

por Ismael Sousa, em 18.07.18

Poderia haver uma história de amor. Ou quem sabe uma história de transformação. Poderia ter sido as duas coisas. Mas poderia não ter sido nada.

 

Há sempre uma janela com vista para um horizonte incansável, um cigarro entre os dedos. Há sempre tanta coisa num pensamento distante e vago. Havia eu, ali, em solidões exaustivas, em olhares perdidos e horas queimadas em cigarros acesos.

 

O mundo muda na sua universalidade. Existe tanta coisa esquecida e abandonada. Existe tanto para onde fugir, tanto para onde partir. Há quem deseje ficar, outros desejam partir. Há mundos pequenos, existem mundos grandes. Há quem vá e existe quem fique.

 

Senti a falta num coração apertado. Houve uma insuflação de ar, de um novo ar. A esperança de um novo recomeço. Há gente que sonha, existem quem concretize. Eu fico-me pelos intermédios.

 

Voltei no tempo a um espaço onde me sinto confortável. Um lugar onde eu um dia fui feliz. Regresso a um passado solitário, um passado que tão poucos conhecem, que tantos desejaram ignorar, que fizeram por não estar. Regresso a um presente diferente de tudo aquilo que um dia sonhei. Vou e volto entre passado e presente. Viajo por um espaço tão meu, tão exclusivo. Voo pelos meus sonhos de uma forma indiferente.

 

Não existem cartas de amor, não existe a impressão de se ser amado ou desejado. O mundo corre sempre indiferente a corações que palpitam por coisas mais importantes que a superficialidade de um mundo que ambiciona o momento, esquecendo o futuro.

 

Atravessei a cidade em passo lento, atravessei o mundo em pensamentos. Aqui, ali, acolá ou além. Importa existir, importa ser-se, importa amar.

 

Encontrei poesia na esquina de uma viela escura, desprezada por todos, pela sua degradação. Há a dor e a frieza em mil olhares direcionados, onde a raiva e a dor permanecem de uma forma cruel.

 

Um piano abandonado numa rua deserta. A melodia que ecoa num coração de amor, o silêncio nas palavras. Ali, diante do olhar, as teclas sujas pelo tempo e abandono. As notas desafinadas de um ritmo brando. Soou a mais bela das canções, a mais bela das músicas. Ecoou um mundo que existe somente num pensamento e na vontade da concretização.

 

Há, existe.

 

O presente. Somente o presente nos tolda o pensamento. O que passou, passou; o que ficou, ficou. O futuro não existe, o futuro é uma ilusão. Seremos sempre folhas em branco, tábuas rasas, onde escreveremos o rumo que queremos tomar. Há sempre a oportunidade de um ponto final, existe sempre a oportunidade de terminar e recomeçar. O mundo em espelhos quebrados e amaldiçoados.

 

Sonhos de alguém que nunca sentiu.

O que é o amor?

por Ismael Sousa, em 16.07.18

Acho que nunca percebi bem o que é o amor. Aprendi sobre ele, em tantos e variados momentos da minha vida, mas acho que nunca o compreendi muito bem, ou melhor, nunca o entendi.

Sempre que falo em amor, na minha visão do que ele é, compreendo sempre, nas minhas palavras, que o amor deve ser a dádiva a outra pessoa. Que deve fazer-se renascer a cada momento que passa, a cada dia, cada mês, cada ano.

Sempre compreendi que no amor temos que ceder e marcar posição. Que não deve ser só uma parte a ceder, mas ambas. Sempre percebi e entendi que no amor se sofre: não uma dor física ou uma dor provocada pelo outro. Mas sim aceitar e viver a dor que a outra parte sente, mesmo que pareça ridícula.

Houve alguém que disse uma vez: “se eu tivesse amnésia, apaixonar-me-ia por ele todos os dias.” E para mim, nesta minha sabedoria parva e tentativa de compreender algo que acho não conseguir ter esclarecido na totalidade, isto é o verdadeiro amor: fazer cada dia como se fosse a primeira vez.

Sou um lobo solitário sem ninguém com quem partilhar os meus dias, e por essa razão vou sendo, em muito, diário de outros. Tenho visto muitas coisas e não consigo perceber como é que alguém que está numa relação não consegue fazer mais por ela, aproveitar cada segundo com a pessoa que se ama, lutar para não a perder.

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Continuo a achar que o ser humano está cada vez mais centrado em si próprio, querendo que o mundo gire em seu redor do que em redor de outrem. Eu continuo a ser contrário a esta regra que me salta à vista e continuo a desejar que a minha vida gire em torno de alguém.

Amar é das coisas mais belas. Chego a esta conclusão por diversos fatores, mas também como síntese de muitas das minhas leituras. O homem procura amor mas não é capaz de se entregar ao amor. O homem procura ser amado, mas não quer amar. A ideia do geocentrismo perdeu-se há vários séculos. Mas há vários séculos que se criou o egocentrismo. O eu está a cima de tudo, independentemente da forma como se conquista essa posição. As pessoas dão mas não se dão.

Há a dor de não se ser amado, a mágoa de algum amor. E porque se passou por isso uma vez, tende-se a fechar-se o coração e a pensar somente com a razão. E a razão é instinto animal e como os animais deixamos de fazer amor passando a fazer-se sexo. Já não há amor mas relações , mas o uso de alguém para satisfação de si.

Sempre existiram pessoas Alfa. Hoje todos querem ser alfa rejeitando a ideia de se ser uma outra letra do alfabeto grego. Queremos mas não damos, esperando sempre só receber. Talvez se tenha esquecido o verdadeiro significado da palavra dar, substituindo-a por descargo de consciência.

É das coisas mais difíceis o sair-se de si em busca do outro. É uma espécie de subjugação ou humilhação perante o outro. Mas sair-se de si em prol de outrem é uma das características do amor. Hoje amam-de objetos e locais mas não se amam pessoas. Hoje ama-se de mais aquilo que não pode retribuir amor.

Compreendo e aceito na sua perfeição que o amor não é fácil. Mas amar nos primeiros dias também nunca foi difícil. Parece-me que se ama até determinado momento, mas depois vive-se, acomodado, ao lado de alguém. E achar-se que esse alguém é nosso por direito é matar o amor; tratar essa pessoa de forma má só porque achamos que ela nunca nos vai abandonar, é matar o amor. E o amor deve ser algo que se rega todos os dias e não que se arranca para não impedir que o ego cresça.

“Amar dói: se não doer não é amor”! Escrevi estas palavras um dia percebendo, à posteriori, que poucos foram aqueles que compreenderam a verdadeira essência desta frase. Amar dói porque sofremos com alguém, obriga-nos a sairmos da nossa praia, a lutar em cada novo dia.

Se amar é a coisa mais bela, porque desperdiça o homem esse dom? Se amar é a coisa mais bela, porque matamos este sentimento? 

Palavras abafadas!

por Ismael Sousa, em 13.07.18

Existe, no meu peito apertado, um enorme sentimento de abandono.

Rasga-se-me o peito em inúmeras horas de sofrimento silencioso, onde o sorriso sempre presente se esbate no rosto. Não existem mais lágrimas por onde escoar os sentimentos que dentro de mim gritam.

Existe, sempre, a réstia de esperança, na crença de tempos de bonança, em que não sentirei dor, em que o desespero não residirá em mim.

Sou um ser complexo e estranho em tantas coisas. Os meus gostos diferem de tantos outros. Dou-me na total pessoa que sou. Continuo a acreditar nas pessoas e na sua bondade, mas sempre acabo por me dececionar. Quero acreditar sempre, num novo passo, mas aquilo que sinto é que serei sempre mais um instrumento nas mãos de outrem.

Eis-me aqui, sentado, diante de uma vista fabulosa, acompanhado pelo Gin, sozinho e abandonado. Não há quem partilhe comigo estes momentos belos, esta forma de viver estranha.

Estranheza contida nas entranhas, inegável naquilo que sou. Desabafo nas palavras, as minhas únicas e fieis companheiras. Uso-as e abuso delas na alegria e na tristeza. Elas sempre conheceram o meu ser, as minhas dores e júbilo. Elas que sempre estão, para recordar e perdoar, para fortalecer, dar energia e por vezes fazer fracassar.

Abandono-me, cada vez mais, a este estado de incompetência e de invisibilidade. Somente as palavras me dão alento, somente as palavras reconfortam e aceitam as minhas decisões.

Abandono-me nesta minha imperfeição, nesta enormidade de defeitos e falta de qualidades que eu tenho. Sou um ser pobre, sem interesse. Tentei tantas vezes ser diferente que a diferença se instalou em mim, arrebatando-me ao campo do abandono total.

Por vezes quero escrever mais e mais, mas a constante negrura da minha vida, a energia negra que de mim emana, impede-me a fazê-lo, no medo de me tornar tantas vezes repetitivo. Escrevo tantas vezes sobre este meu estado impuro de sobrevivência. Encho a minha vida com mil coisas, tentando esquecer a dor que dentro de mim surge.

Amar corpos tornou-se o comum e as almas já não interessam.

Tragédia - Regole de Contemplazione, de Pedro Inock

por Ismael Sousa, em 10.07.18

O silêncio. O silêncio e espaços abandonados. O teu silêncio. O caos. Vives no silêncio, tratando-o tantas vezes por tu. A tranquilidade, a paz. O abandono e o silêncio onde te abandonas. Um espaço tão teu que te parece preencher em todos os momentos. Tu, o teu espaço. Tantas palavras ditas em tão prolongados espaços de silêncio.

 

Talvez haja muito quem passe e não te compreenda no teu silêncio, no teu espaço, no caos que te rodeia. O silêncio, o teu silêncio perturbador.

 

Compreendo perfeitamente a noção de que um artista tenta exprimir na sua arte aquilo que vai dentro de si, a forma como vê o mundo, a forma como sente a negrura ou a luz que o rodeia. Um verdadeiro artista não faz algo só porque sim. Há ali palavras escondidas em ações, em traços.

 

Conheço, pouco, a arte que transmites. Conheço os teus silêncios. Tenho visto o caos em teu redor. Tento sempre ler algo nas palavras que não dizes, nas imagens que mostras e transmites. Não são imagens mudas, simplesmente não usam palavras.

 

Será errado, da minha parte, analisar a arte que fazes ou aquilo que tentas transmitir. Simplesmente posso falar, em palavras escritas e mudas, aquilo que transmite as imagens que partilhas, os silêncios imensos.

 

O silêncio, entre os homens, é assustador. Proferem-se constantes palavras, tantas sem qualquer sentido. Interrompem-se silêncios com palavras desnecessárias, por vezes tão absurdas. Tu reinas no silêncio, evitando as palavras. E a solidão, aquela solidão que não magoa porque não é abandono. Mas, ao mesmo tempo, o abandono e a destruição do que já foi e já não é. Talvez o caos que reina dentro de nós e que não conseguimos organizar, que não queremos demonstrar.

 

E nesse caos, nessa destruição e nesse abandono, na solidão e no silêncio, há uma enorme ordem estabelecida entre o correto e o incorreto. Há a expressão de que somos o que somos, que tão depressa seremos maré serena como tijolo quebrado. Perdem-se os alicerces, abandona-se aquilo que se quer recuperar e não se consegue entender.

 

Há, acima de tudo, a confusão que em nós encontramos e não conseguimos explicar. Ou talvez nem devêssemos querer explicar, mas simplesmente clarear. O caos tudo ordenou, o caos novamente ordenará. A maré calma voltará a abrir o caminho por onde deveremos caminhar. É necessária a calma, a tranquilidade. Fechar os olhos e escutar, fazer silêncio dentro de nós para escutar aquilo que somos, escutar qual o grito do mundo e tentar ser diferente. Chega de palavras desnecessárias, chega de ter medo.

 

Talvez não entendam ou talvez eu ache que entendo e não entendo. Talvez tudo aquilo que se quis transmitir nada seja aquilo que absorvi. Talvez a minha visão seja impura, prejudicada por sentimentos que tanto gritam dentro de mim, por imagens que desejo ler e não leio. Mas percebi o quão difícil é fazer silêncio, parar e olhar sem falar, sem perder tempo a ouvir, mas somente parar, escutar e deixar sentir. Talvez o caos tenha despertado a lágrima que há muito anseia cair e que esteve presa por momentos atarefados de uma vida, por dores que se sentiu e nunca se teve tempo de chorar. Talvez já não haja esperança e que seja melhor abandonar.

 

“Quando saíres mantém o silêncio... como se aqui estivesses.”

[Pedro Inock in "COMO SE AQUI ESTIVESSES - Diagrams on Brick Walls]

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[Este texto é uma reflexão minha a partir do trabalho "Tragédia - Regole de Contemplazione," de Pedro Inock, apresentado nos Jardins Efémeros 2018]

 

 

Silêncios...

por Ismael Sousa, em 05.07.18

Não são as palavras que definem a essência de uma pessoa. Não são as palavras que proferimos que nos tornam grandes e enormes no mundo.

 

O silêncio. Tantas vezes o silêncio que fazemos, a ausência das palavras torna-nos grandes na forma como nos expomos ao mundo.

 

Uma janela, um horizonte e uns quantos cigarros. A ausência total de uma única palavra e tanta expressão no olhar, nas expressões faciais e corporais. Um olhar preso no horizonte, um olhar cheio de tanta palavra por dizer e quem sabe sem ninguém para escutar.

 

O silêncio quase total. Somente o barulho que nos circunda. A reflexão interna e intensa de uma alma. Os sentimentos que ecoarão naquele coração, os pensamentos que correrão em sua mente. E a tristeza ou mágoa que parece inundar o seu ser. A incompreensão que paira no ar, a confusão que provoca a quem observa. O estranho mas tão natural. O preenchimento da vida em constantes palavras que se tornam vazias são contrastadas com o silêncio que se faz ouvir.

 

Lá longe o vento ou o mar.

 

Não há palavras para dizer, é preciso sentir-se na alma.

 

Fez-se silêncio. Fecharam-se os olhos, examinou-se a alma. Suspirou-se por um mundo melhor, onde existem tochas ainda acesas que dão luz num mundo de escuridão.

 

Olhei do lado de cá, para um espelho onde me encontrei. Olhei e vi o rosto de uma alma carregada e triste. Não era eu mas é como se fosse. Era um mundo e uma total inquietação.

 

As palavras baralham-se na forma e naquilo que quero dizer. Ou melhor, naquilo que quero escrever e ler no silêncio de um mundo cheio de barulho. As palavras faladas perdem todo o seu valor, escritas podem ser lidas e relidas, podem ser recordadas e queimadas. Podem ferir ou consolar, podem ser compreensão ou simplesmente revolução.

 

Palavras, muitas ou poucas. Podem dizer e não falar. Palavras que ninguém diz e tantos sentem.

 

Silêncio, o que eu mais desejo.

Em sua memória!

por Ismael Sousa, em 29.06.18

Não existe dor maior que aquela que o ser possui no seu coração por não corresponder aos padrões que a sociedade impõe em cada momento. A diferença fazia parte de si desde muito novo, desde a infância e em toda a vida. Não gostava do que a maioria gostava, não se comportava como todos os outros. Fechava-se, reprimia em si a sua verdadeira essência, tantas vezes apontado e descriminado perante um sociedade que desejava a uniformidade. Em rebanho de ovelhas brancas, sentia-se sempre a ovelha negra. Os olhos e as palavras matavam demasiadas vezes. Procurava a solidão na sua maioria das vezes. Sentia-se incompreendido, ou tantas vezes compreendido mas ignorado por causa de estúpidas aparências, por estúpidas regras que lhe eram impostas.

 

A solidão é, sempre, um pau de dois bicos que tanto ajuda como fere. O abandono é a maior dor de uma alma e de um corpo que se vê colocado de lado perante todos os que o rodeiam. Mesmo os maiores esforços se tornavam, tantas vezes, em pequenas migalhas dadas a alguém faminto e em tamanhos monstros à vista de todos. Um simples pormenor, algo simplesmente diferente: uma faca de dois gumes que fere quando entra e quando sai.

 

A estupidez nas atitudes e palavras. A morte de tantos por causa de paradigmas e mentiras. A morte e desaparecimento de tantos que no silêncio e no abandono foram morrendo, pouco a pouco, e entregando-se à morte. E os rios de lágrimas, as palavras ditas e não ditas, as ações praticadas e as que ficaram por concretizar, as promessas não cumpridas: o arrependimento. A morte que trás a culpa, o remorso, a tristeza e o afastamento corporal. E a imagem que depois deixa de aparecer, o sorriso que não se recorda nas memórias, o olhar triste que predomina. Um único culpado, milhares de aliados.

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O tempo, o tempo que tudo mata, o tempo que é escasso e sempre em demasia; o tempo que damos e nunca recuperamos, o tempo que esbanjamos e nunca reconquistamos. E ele foi-se perdendo, abandonando tudo aquilo que sempre amou. Ele foi-se apagando, apagando à vida e à luz.

 

A diferença, tantas vezes a diferença e os paradoxos que ainda existem, os preconceitos e mentiras, a falta de amor em tantos corações que tudo têm. E pediu tão pouco e nada lhe foi dado: compreensão, aceitação, amor.

 

Amou sempre de mais. Não conseguia ser diferente. Amava quem o odiava, amava quem o usava. Nunca soube o que era ser amado, o que era receber aquilo que tanto dava. Apagou-se para a vida, deu espaço à morte.

 

Partiu. Despediu-se com poucas palavras. Matou-se. E haveriam ainda de o chorar, mas agora não era tempo. Tudo permanecia igual, tudo parecia como dantes. Mas depois começou a faltar a presença, começou a faltar aquilo que sempre havia. Ele já não estava lá.

 

Um dia matou-se. Matou o ser que era e obrigou-se a nascer o que agora é. A diferença não tem que ser compreendida mas respeitada. A vida não tem de ser fácil, mas ajudada. O amor não pode existir onde não houver reciprocidade.

 

Matou-se. Matou em si tudo aquilo que algum dia o impediu de ser feliz. A diferença é aos olhos dos outros, a solidão é mais reconfortante que o mar de multidões sem amor.

 

Matou-se e matou quem nunca o quis compreender, quem sempre o desprezou, quem nunca o ajudou. Haviam de o chorar mas ele não estaria lá para reconfortar.

Partiu, sem aviso nem retorno!

por Ismael Sousa, em 24.04.18

Havia na sua voz um pequeno tremor. No seu coração um pequeno aperto. Longe estaria de saber que as palavras que lhe dizia eram as últimas. Despediu-se com a saudade já a apertar-lhe no peito. Sentia algo dentro de si mas não sabia se era da adrenalina que sentia se outra coisa qualquer.

Quando ria de mais assolava-o sempre o presságio de algo mau acontecer. Por essa razão evitava muitas vezes rir em demasia, tamanho era o medo que sentia. Mas havia rido pouco naquela noite sem saber que presságio maior lhe estava destinado.

A noite era igual a tantas outras mas a diferença estava nos pequenos momentos que ia gravando na sua mente para nunca esquecer. Tinha-o feito desde o primeiro momento em que sem medos revelara toda a sua vida. Nunca tinha sido capaz de entender as razões que o levaram a falar assim tão abertamente. Mas fê-lo sem sentir qualquer pudor. Trocaram muitas palavras e momentos que viveram ficaram para sempre guardados. Agora parara o carro, despedira-se. Foi a última vez que se viram e desde então o sorriso desapareceu para sempre do seu rosto.

Deixara de sorrir. Cada vez que o fazia sentia-se falso. Desde então ficou carrancudo, com os lábios torcidos para baixo. O seu semblante tornou-se pesado, as poucas lágrimas que ainda em si residiam ficavam muitas vezes em risco de correr. Já não havia um brilho nos seus olhos, já não havia luz naquele corpo. Seria só memória, passagem, recordação.

Era uma noite como tantas outras, especial nos momentos que partilharam, fatal na despedida. Houve noites em que chorou ou que quando chegou a casa bêbedo escreveu-lhe palavras que guardava dentro de si. Pensava várias vezes ao longo do dia no seu nome, na sua pessoa, nos momentos que viveram. Pensava em como era diferente a sua companhia, em como já não conseguia recordar o som da sua voz.

O tempo foi passando sem que se dessem sinais disso nem de um possível reencontro. O tempo afastou intensamente aquilo que existia, mas ele mantinha sempre acesa em si a memória desse alguém que havia feito sorrir num dos momentos que mais dor sentiu. O tempo apagou qualquer rasto de si.

Passava-lhe muitas vezes à porta. Não de propósito mas porque ali sempre fora um local de passagem. Passava e olhava na tentativa de puder rever. Mas eram esperanças vãs, esperanças que não passavam disso, esperanças. Dentro de si crescia sempre um enorme peso, uma enorme dor que se prolongava em todo o trajeto até casa, em todas as horas que depois passassem.

O tempo não esperou, somente ele esperou por alguém que não veio. O sentimento que cresceu nunca esmoreceu, mesmo em todo o tempo que passou. No seu coração negro, no seu enorme pesar e em todas as saudades, incapazes de serem saciadas, aquela pequena esperança tem-se mantido ao longo dos tempos.

A noite chegou uma vez mais. O peso de tanta coisa nos seus ombros. Continuava a acreditar e a pensar nesse outro alguém, mas morria em cada noite que adormecia. Era mais uma noite, sem palavras, isolado do mundo incapaz de o compreender. Era apelidado de dramático e, mesmo depois de tantos gritos de socorro, continuava ignorado.

Haveria de chorar tudo, um dia. Haveria de ser capaz de esquecer tudo e seguir em frente. Mas essa altura não chegava e amar foi sempre o que tentou fazer de melhor. Mas em todas as suas tentativas, sentia que falhava cada vez mais, que era fraco e indesejado.

Tentou compreender muitas vezes as razões que levaram a tal comportamento. Mas o seu entendimento não lhe dava respostas, não lhe dava nenhum sinal.

Saiu para a rua, os olhos em lágrimas. Conduziu durante quilómetros. A hora já era de um novo dia. Parou o carro algures numa estrada, perdido, sem saber onde estaria. Conduziu durante algum tempo sem destino ou orientação. E chorava. O sol do novo dia despontou. Estava ali há horas, no mesmo local. Ninguém notaria a sua ausência. E sem anúncio nem nada que o previsse, partiu sem destino e sem saber se iria recuperar, sem saber se iria voltar.

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