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Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

Voar pelos sonhos...

Fim de uma tarde de verão. O calor apertava. Ele caminhava calmamente pelas ruas da cidade, desligado de tudo o que se passava em seu redor. Caminhava mergulhado nos seus pensamentos. Vivia de uma forma independente, de uma forma solitária. Sentia-se longe de todos, mesmo daqueles que estavam perto. Não se sentia inserido em certos núcleos, na grande maioria dos grupos sociais. Por isso vivia à parte, no seu pequeno mundo. Caminhou pelas ruas perdendo-se em palavras que iria escrever depois. Sentou-se numa esplanada, pediu um refrigerante e abriu o seu caderno de devaneios. Mergulhou na escrita alheio a tudo o que estava a seu redor. Não sentia necessidade de nada, de se perder em caças e engates e sem o menor interesse. Tudo queria o mesmo, ele queria algo diferente. O seu coração apertava com a saudade, o seu rosto enchia-se de lágrimas. Só ninguém reparava por causa dos óculos sempre escuros que teimava em trazer sempre que saía à rua. Trazia camisa branca, calças escuras, sapatos camel. Variavam as cores dos sapatos, das camisas e das calças, mas o estilo era sempre o mesmo. Em si não havia mudança. Passava horas em esplanadas, bebendo e fumando, sempre afogado em mil palavras que escrevia no seu caderno feito à mão, com folhas velhas e um capa frágil. Libertava, sempre que possível, as tardes de domingo, na esperança de ser surpreendido. Libertava-as, assumindo somente compromissos de que se pudesse libertar facilmente. O domingo é sempre aquele dia da semana que se guarda para estar com a família, com os amigos e relaxar sempre um pouco. Ele passava-os em infindas paginas, enterrando, assim, aquilo que lhe oprimia o coração, rebentando em lágrimas sem fim. Desistia muito facilmente. Desistia dos projectos, dos sonhos, das amizades. Desistia porque se sentia sempre o único motor a puxar o barco. E por ser o único, havia sempre um ciclo vicioso. Primeiro a euforia, depois a distância, o afastamento, a falta de interesse. E no fim o silêncio. E novamente o êxtase, a dor, o silêncio. Por isso era mais fácil desistir e ir sobrevivendo em solidões reconfortantes e consoladoras. Inventava palavras que só ele conseguia compreender, camuflava amores com adorações. Disfarçava dores com um estar tudo bem. Camuflava ausências com compreensão. Sentia que quando mais amava, mais afastava. Quanto mais tentava ajudar, surpreender, mais longe navegava o outro barco. E então desistia. Não se deixava levar por sonhos, não desprendia os pés do chão.

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Um dia deixou-se levar por um sonho. Voou com ele para onde quis. Até que caiu como morto no chão da realidade. Tinha feito tanto, ou achava que tinha feito. Convencia-se disso todos os dias, mas o vento do sonho não fez o guarda-chuva subir mais, trazendo-o cada vez mais para a realidade, numa velocidade inimaginável! Caiu e demorou demasiado tempo a levantar-se! Curou-se durante muito tempo, até que se achou completamente curado. E quando assim foi, voltou a deixar-se levar. Voltou a sentir alegria em si, a sentir-se feliz. A abdicar de coisas, simplesmente porque sim, porque não mais sentia necessidade. Achava- se capaz de tudo, até que voltou a cair abruptamente. Agora vive no chão, na esperança de se voltar a erguer. Vive mergulhado nas suas palavras sem sentido, nos seus inúmeros textos inacabados. Vive deambulando ao sabor do vento, esperando bater contra algo que não o deixe voar mais, que o agarre num abraço infinito. Deixou de amar, deixou de se dar. Viver com dor não é satisfatório para ninguém!