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Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

Talvez o medo!

Medo. Tenho medo, muito medo. Perdido entre as ruas desta vila, sem norte e desorientado. Triste como o dia de chuva, a tristeza de te não ter, a melancolia de ver partir. Medo, muito medo, das palavras que não consigo escrever, dos sentimentos que reprimo e receio vir a ter. Há uma noite, uma imensa e escura noite dentro de mim, em toda esta distância que nos separa, em toda esta falta de palavras. A mediocridade do meu ser, aliada à enorme sensibilidade que sinto ter, do maldito coração sempre na garganta, capaz de dizer sempre aquilo que sinto e sufocando as palavras que deviam ser ditas.

Quantas lágrimas serão necessárias para atingir a felicidade e a luz dos dias? Este estado de incompreensão que existe em mim, a necessidade de me sentir completo. Aborrece-me a monotonia dos dias, começarem e acabarem sem te puder ter por perto. O calor do abraço, o sabor do beijo. A inquestionável falta de interesse, de ter algo para dizer.

A podridão da pessoa que nasceu sem o dom de cativar, deixando-se unicamente prender por sentimentos que nem ela própria sabe serem ou não verdadeiros. Uma rua escura, com pessoas que caminham indiferentes, as lágrimas no rosto branco e barbudo. Um passado entranhado em cada célula do corpo, o receio de se perder novamente em sentimentos que tanto fizeram sofrer.

Um nada. Uma filosofia niilista, onde a percepção da sua existência é sempre colocada na dúvida, a possibilidade de sentimentos florirem por essa pessoa ser sempre colocada em dúvida. Um niilismo absoluto, para além de toda a sua verdadeira filosofia ou sentido. Uma psicologia barata e sem fundamentos, a falta de argumentos que fundamentem. O medo, o absoluto e excessivo medo.

E a ignorância, a falta de cultura e de afirmação. Ser-se aquilo que querem que se seja, sem espaço a se viver verdadeiramente. E os medos e os receios, novamente. A excessiva necessidade da aceitação, de se sentir incluído, de se sentir amado. A extrema necessidade e aprendizagem na vivência de uma solidão separada do sentido de abandono. O ser objecto em vez de pessoa, a mágoa que tanto existe, que dura todos os dias. E não ser capaz de esquecer, deixar ir.

Sofro. Sofro em cada dia, em cada manhã, em cada novo acordar e sempre tardio deitar. Dias pautados pela dor de se ser abandonado, esquecido e ignorado. A falta extrema de interesse, de questionar, de desejar saber-se. É unicamente importante que se esteja, mascarado de sorriso extridente. A ofuscação sempre do outro, a minimização de si, dos seus interesses, das suas vontades. E as eternas máscaras que coloco, que dão a imagem daquilo que não sinto, daquilo que as lágrimas denunciam.

Odeio os dias de chuva, amando-os excessivamente. Uma bipolaridade incompreensível. Tudo advém do estado de espírito, da forma como as pessoas me fazem sentir. Há mais dias cinzentos que cheios de cor. Queria um mundo a preto e branco, que me impossibilitásse de sentir. Queria justificações em vez de eternos abandonos. Queria interesse em troca da falta de.

A luta, as batalhas travadas diáriamente. As derrotas consecutivas, o rosto pelo chão demasiadas vezes. Quantas lágrimas serão precisas para conseguir erguer o rosto todos os dias, saber que sou esperado e amado, que o meu bem estar interessa realmente. Quantas cicatrizes serão necessárias, quantas horas de dor e de pranto? Quantos fados escritos e sentidos, quantas palavras segredadas e silenciadas. O fatídigo infortúnio de quem nasceu com coração ou com falta dele. Talvez minímo e com a necessidade continua do seu preenchimento. Um balão de ar que esmurece quando não tem sentimentos que o insuflem.

E toda a confusão e falta de sentido, um estado de espírito indescritível, que leva à escrita de tantas palavras, frases sem sentido. Não há uma compreensão, quando nem nós conseguimos entender-nos. Justificações existirão inúmeras, mas qual delas reflectirá a verdade, a essência do sentimento. E tanta coisa poderia eu dizer, escrever ou sentir.

Gostar de ti é um texto que não consigo escrever, uma palavra que não consigo pronunciar. É a fraqueza e a força, o sorriso e a lágrima. É escuridão e luz, morte e vida.

Rodeado de tanta literatura, de milhões e milhões de palavras eu não consigo encontrar nenhuma que me preencha, que dê sentido ao meu sentir. Em tantas, inúmeras e imensas palavras, nenhuma me diz tanto como o teu abraço.

 

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