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Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

Sentimentos da noite.

Sou um louco em tantas coisas. Louco porque vivo de uma forma tão diferente dos outros. Um tolo. Tolo porque pensei que um dia poderia ser diferente, especial. Mas nunca o fui. Tornei-me comum como todos os outros. Parvo. Parvo porque decidi dar aquilo que tinha jurado nunca mais dar. Melancólico, porque me perco todas as noites em memórias em vez de olhar para o presente.
Não preciso de muitas palavras, apenas as palavras certas. Muitas das vezes nem preciso de palavras, porque os gestos dizem-me mais que alguém possa perceber. Até a ausência de palavras me diz tanta coisa. Sou muita coisa, mas há uma coisa que, com toda a certeza, não sou: burro. Compreendo com muito mais facilidade que se possa pensar.
Devo ter apreendido a ler de maneira diferente. Não leio as palavras, mas aquilo que é dito nas entrelinhas. Sou tão perspicaz! Posso fazer-me passar por burro, mas sei bem aquilo que não está escrito. E isso deve ser aquilo que me causa maior dor: ler aquilo que não se quer dizer.
Amo-te de mil e uma maneira. Amo-te por mil e uma coisa. Porque quando amo, amo com toda a certeza, amo com tudo o que eu tenho. Não me sei dar em metades. Nunca soube. Sempre fui total tanto em amar como odiar.

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A lua eclipsa-se em frente aos meus olhos. Sentei-me na varanda, com o cigarro e o vinho. Sinto-me um alcoólico, que mergulha em álcool para afagar mágoas. Perseu está deitado a meus pés. Vai dormitando. Por vezes levanta a cabeça e olha para mim. Sente que não estou bem e por isso mantém-se junto a mim. Faço-lhe festas na cabeça tentando enganá-lo. Mas ele tem um sentido que nós homens não temos: percebe mais como nos sentimos do que nós uns com os outros. Parece que os seus olhos não olham o corpo, mas o coração. E é por isso que não me deixa. Sabe que as festas que lhe faço são só para disfarçar, que o meu coração sangra com os espinhos da saudade. Enquanto todos este pensamentos me correm na cabeça, amou-a quase que desapareceu. Acendo um cigarro e deixo-me maravilhar por aquele acontecimento tão belo. A luz vai desvanecendo pouco a pouco. As estrelas brilham mais no céu.
Uma célebre frase de Bob Marley diz que não vale a pena chorar pelo sol que se pôs porque perdemos o brilho das estrelas. E eu sou tantas vezes assim: choro pelo sol que se pôs e não reparo no brilho das estrelas. E agora, perante esta lua que desapareceu em frente aos meus olhos, reparo que em grande parte da vida chorei porque a lua não brilhava, mas que não significava que ela não estivesse lá. Choramos porque não vemos, esquecendo-nos que aquilo porque choramos continua lá, só não o vemos porque o tapamos com coisas fúteis, com a necessidade de querer coisas concretas. Bebés berrões que somos, só porque a mãe nos deixou no berço para nos ir buscar o biberão.
A lua começa a brilhar novamente. Primeiro um fiozinho, começando a crescer pouco a pouco. E assim é com a minha esperança em cada dia que começa. Um fio de esperança que vai crescendo, mas que com o raiar do sol desaparece. O copo de vinho chegou ao fim, o tabaco acabou. Perdeu está sentado a olhar para mim. Preciso de tabaco. Saio com Perseu para o passear e comprar os meus cigarros. As ruas estão desertas. É segunda-feira. Bebo uma cerveja numa esplanada qualquer, compro tabaco e volto para casa. É mais que tempo de ir dormir e deixar de estar neste estado de crise existencialista. Deito-me na cama, do lado esquerdo. O direito continua vazio na esperança de que voltes e ocupes o lugar que é teu, só teu.