Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

Isto choca?

IMG_2199.JPG

 

Este sou eu! Ou este fui eu!

 

A vida dá voltas que nunca esperamos que dê. Acontecimentos surgem na nossa vida, fazendo-nos repensar tudo, cada coisa por sua vez. Cada minuto é precioso, cada hora importante.

 

Há três anos atrás, este era o estado em que eu estava. Não, não foram as comidas rápidas, nem o óssio que me fizeram ficar assim. Foram os medicamentos, as drogas que tomei. Não, não eram drogas ilícitas, mas "drogas fornecidas pelo estado" como costumávamos dizer.

 

Há três anos, lutava eu contra um cancro, contra uma doença que me apareceu. Há três anos, dava importância a muitas coisas que hoje me são indiferentes. Há três anos as pessoas olhavam-me de lado. É triste dizer-se isto, mas é a mais pura das verdades.

 

Pessoas com cancro não são pessoas normais. Isto tem de ser um ponto acente e quem discordar, que me apresente argumentos sólidos contra esta minha tese. Repito: pessoas com cancro não são pessoas normais. E eu passo a explicar porquê.

 

A pessoa com cancro não é normal porque é uma lutadora: todos os dias luta contra a doença, contra os efeitos secundários da medicação, contra o seu espelho, contra a sua imagem, contra a vontade de ficar todo tapado com os lençóis. Luta contra o calor, luta contra os afrontamentos, luta contra a vontade de chorar. Todos os dias, o doente oncológico é um lutador. Não é fácil levantar da cama e ter que ter um sorriso na cara, porque se não, começam as perguntas, os discursos morais e afins. Ter cancro é ter que ser alicerce quando se precisa de alicerces. É preciso lutar contra o cheiro dos hospitais, a comida que é sempre igual (se não é, parece). É lidar contra a repulsa de algumas coisas, com o desejo de outras. Lutar contra as infindas horas na sala de espera, contra o medo das agulhas, contra as horas intermináveis de tratamento e, acima de tudo, contra o aborrecimento. Onde está a facilidade em encontrar o que fazer quando não nos deixam fazer nada? A televisão já chateia, os olhos estão cansados de ler, os ouvidos fartos de música e a paciência no limite. E dormir é sempre um tormento: há uma máquina que apita, a vizinha do lado que não se cala, o sono que não existe. Ou até aquela bexiga chata que nos obriga a andar com um ou dois cãezinhos atrás. Quem sabe, enterder-me-á.

 

A pessoa com cancro não é normal porque é uma coitadinha. Este é o primeiro rótulo que nos colocam, o "coitadinho". Somos coitados porque adoecemos, porque vamos morrer, porque isto e por aquilo. Há duas sentenças que nos são logo ditadas e era isto que a médica nos devia dizer quando entramos no consultório: "O senhor tem cancro, passa a ser coitadinho e vai morrer." Era muito mais fácil do que andarmos iludidos. Porque até vamos conseguindo lidar com o cancro, mas não é fácil olhar para a cara de alguém e ver aqueles olhinhos de cachorrinho a olharem para nós. Sentimos logo pena dessa pessoa. Está tão enganada! Nenhum doente oncológico é coitadinho! É verdade que nem todos chegamos ao fim da meta, que há alguns que ficam pelo caminho (e poucos sabem a dor que isso nos provoca), mas isso não nos torna coitadinhos. Vou contar-vos um segredo: há doentes oncológicos a viverem de forma mais feliz que muita gente com a saúde a 100%.

 

A pessoa com cancro não é normal porque é desrespeitada. É olhada de lado, é comentada, é deixada desconfortável. Os cafés são casas de tortura. Entra um "carequinha" (como uma amiga nos trata) e levantam-se as moscas. Chegamos a ouvir comentários que não lembram nem ao diabo. Para as pessoas que não sabem, o doente oncológico não é surdo e ouve normalmente. Nos restaurantes e centros comerciais são exatamente a mesma coisa. Há gente que até atravessa a estrada (e isto aconteceu comigo!).

 

Há uma enormidade gigantesca de coisas que acontecem a uma pessoa com cancro, por isso esta não pode ser considerada normal. Ou melhor, é superior ao normal. Deviam haver super heróis carecas e inchados para naturalizar esta situação.

 

Bem, adiante que atrás vem gente!

 

Escrevi este texto por causa da foto. Quem me conheceu na altura, hoje não me reconhece. Quem me conhecia, não me reconheceu. O corpo sofre transformações horriveis, levando-nos a um ponto em que a nossa imagem se torna horrivel. Somos um pouco "indesejados", evitados. Falamos sobre um mundo onde "estas coisas não acontecem" mas existem. É altura de mudar mentalidades.

 

Este já não sou eu, mas continuarei sempre a sê-lo. Esta já não é a minha imagem, mas fará sempre parte de mim, da minha história.