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Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

Embebedar-me!

Apetece-me um copo de vinho. Um bom vinho tinto, maduro, com o amargo das castas. Apetece-me um copo de vinho, um bom livro ou uma boa conversa. Apetece-me um copo de vinho, escrever um pouco, deixar a mente fluir.

Sinto em mim o peso de um passado que me impede de avançar. São amarras, são grilhões que me impedem de sair deste estado de melancolia. A enorme vontade de seguir, mas algo me ancora a este estado presente, a este estado de devassidão total. Sinto-me um nada, tão sem sentido.

Recordo as noites de frio e chuva. Os espaços e as ruas que percorremos. E parece-me tudo tão distante, num tempo longínquo que já lá vai. Há a noite, o café, aquele banco do bar. Tantas pequenas coisas que me saltam na memória, evocando um tempo de sorrisos francos e conversas intensas.

Falta-me a discussão, a presença, a mística que me faz sentir vivo novamente. E, novamente, tudo parece tão distante, acabado, passado. Uma força que desejo sentir em mim, que desejo ver viva novamente em todo o meu ser, em todas as minhas entranhas.

E, de novo, o bater intenso do coração, atado com cordas para segurar o pouco que ainda resta dele. É um coração remendado, atado com cordas velhas e amarras remendadas. É um coração frágil que com muita facilidade deixa de bombear energia para o corpo desfeito que o possui. É amargura, frieza, tristeza. É um misto de ideias, de melancolias e dores. É um cofre, um pequeno cofre, que guarda todas as palavras, todos os gestos, todas as emoções. Talvez pequeno de mais para guardar tanta coisa, pequeno de mais que transborda com imensa facilidade.

E a falta, a saudade. Essas são as moléculas que percorrem o meu sistema circulatório, que vão dando alimento às células negras do meu ser. E uma alma, que cheira a podre, que emana odores desagradáveis. E o pensamento e a falta de palavras que descrevam o que sinto.

Apetece-me desaparecer, sair, ir para longe. Conhecer novos mundos, novas pessoas, novas culturas, novas experiências. E depois? Não há ideia de depois, porque esse foi sempre uma desilusão. E há o cosmos, e a existência do ser. Há tanta coisa que este corpo guarda dentro de si. Uma caixa de pandora, prestes a rebentar e deixar sair de dentro de si tudo aquilo que de mau se possa imaginar.

E ao mesmo tempo todo o sentimento de liberdade, todo o sentimento de necessitar de uma solidão retemperadora. De voltar a encontrar, por entre tanta coisa, a estabilidade que já senti, a não necessidade de outras coisas para ser eu.

Abandonado, esquecido, ignorado, deixado. Tem de haver um fim, tem de existir um ponto de viragem. Um copo de vinho, maduro, agreste, quente. Uma lareira e milhões de pensamentos. Há um todo e um nada, uma filosofia sem lógica nenhuma.

E as palavras que podem ser tão falsas. E de nada valem se as ações são contrárias. Contudo são as que mais magoam, as palavras falsas. Amar sem amar, adorar, sem adorar, gostar sem verdadeiramente gostar. As pessoas não são objetos que se possam abandonar sem se dar uma justificação. Não é justo! Continuar a pensar sabendo que nada mais existe. Não é correto, não é justo, não se faz. E no fim, agora, sempre, o que permanece não é o ódio mas sim o amor aliado ao sentimento de saudade.

Nada faz sentido. Tragam-me antes uma garrafa de vinho, tragam-me um copo e deixai-me enche-lo as vezes que desejar, deixar-me embebedar por algo real e não por ilusões. Deixai-me aqui, longe mas sem sentimentos.

 

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