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Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

E depois da chuva...?

Refugiei-me num café, ou melhor, fugi para lá. Chove intensamente lá fora. O rio corre na sua calma, mais enriquecido em cada gota de água que cai dos céus. Precisei deste espaço para fugir aos barulhos da casa. Um café, um espaço onde posso fumar, escrever um pouco e acabar leituras pendentes.

Trago comigo Valter Hugo Mãe para acabar de o ler. A sua escrita, em algo parecida à de Saramago, na minha opinião, fascina-me de uma maneira tal que me prende à sua leitura.

Chove, chove intensamente. Bebi o meu café, fumei o meu cigarro. A vista sobre o rio, picotado pelo cair da chuva, prende a minha visão e o meu pensamento.

Quero ler, mas a vista é os pensamentos prendem-me e a necessidade enorme de escrever urge, nasce em mim.

Cansei-me de avaliar a minha vida, de traçar planos e projetos. A necessidade de viver de forma intensa cresce cada dia mais em mim. Sinto-me preso a esta vida, preso e amordaçado. E esta incapacidade de viver de forma intensa, a de gozar os prazeres da vida numa forma de me fazer aprender, prende-me ainda mais aos sentimentos que floresçam dentro de mim. Quem me dera dizer que são todas belas e lindas rosas. Mas ainda existem muitas ervas daninhas.

Um forte raio de sol irrompe das nuvens, iluminando a mesa onde estou, incidindo diretamente em mim. O breve momento de calor, de conforto, de ser acariciado. A comparação mais estúpida, mas bem mais sentida no meu pensamento.

Este raio de sol que me encandeia a vista dá-me as certezas que necessito. Não é o raio de sol em si, mas as conclusões que dentro de mim encontro. São as meditações profundas da alma, as questões que têm atormentado o meu dia. É este raio de sol que me diz que depois das nuvens se dissiparem, o sol voltará a brilhar. Que depois da tempestade e da chuva o sol virá para fazer rebentar a relva verde, as flores escondidas. É este raio de sol que me diz que é hora de seguir.

Há a necessidade de pontos finais na minha vida. Não suporto vírgulas nem pontos e vírgulas. Preciso de pontas amarradas, de situações resolvidas. É sempre eu a esperar que os venham colocar, aos pontos, que venham dar nós nas cordas e pontas soltas. Pois bem, é altura de mudar, de colocar mãos à obra e fazer o que tem de ser feito. É hora de seguir em frente.

A chuva voltou, eu acendi mais um cigarro. A ilusão de termos de ter uma vida perfeita turva-nos o olhar. Não lidamos bem com o fracasso, com o insucesso. E deixamos-nos abater, odiando tudo em nosso redor. Mas o que seria a vida se tudo fosse feito de sucessos? Que prazer nos trariam?

Tenho a mente limpa. Dentro de mim a certeza de amarrar as pontas soltas. Há um fim, a decisão de hoje ser o fim. E em mim surge a calma e o bem que há tempo demais desejo. Esta forma de estar, esta forma de esperar, acabou. A vida vai ter que ser talhada com o que acontecer.

E agora, agora somente coisas aleatórias e tão ligadas entre si existem no meu pensamento. Há as ruas e palavras escritas nas paredes. Há uma máquina de escrever, as luzes de uma cidade do outro lado de um rio. Há as gargalhadas, o sorriso parvo, as salas de cinema.

Chega de escrever. Tenho o Valter à minha espera e a necessidade de o acabar.

 

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