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Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

Desapareceram as palavras!

O dicionário está aberto em cima da secretária. A seu lado o cinzeiro com um cigarro mal apagado que ainda deixa poluído o ar com o seu fumo. Em frente à secretaria as portas altas da varanda estão abertas. O calor aperta. Uma suave brisa toca os cortinados. Do lado de fora um corpo nu, apenas de roupa interior. Segura um copo de pé alto. No seu interior balança o purpuro vinho. São dez da manhã. Passam das dez, mas não importa precisar as horas. Olho a cidade que vai vivendo no seu frenesim diário. São dez da manhã, um pouco mais, mas não importa precisar a hora: são dez da manhã e eu já tenho quase um maço de tabaco fumado, meia garrafa de vinho bebida. Bloqueei nas palavras. Nem mais uma consigo escrever. O cursor ainda pisca no meio de uma frase inacabada, num livro inacabado. O tão normal em mim que deixo tanta coisa a meio. Abri o dicionário, procurei palavras, mas o dicionário pareceu-me em branco, sem sinónimos nem descrições de palavras. Branco, como se as palavras se tivessem fartado de lá estar e decidissem envergar uma campanha de não aparecer, julgando-se esquecidas pelos homens. Nem mais uma palavra. Sou um escritor de quarto de hotel.

Fumo e bebo numa campanha de encontrar inspiração. Fumo e bebo, saio em grandes noitadas procurando extrair de mim o máximo de adrenalina numa tentativa de ser possuído por uma avalanche de ideias. Procuro atingir o clímax e em tantas vezes que me deito agarrado a um corpo que não existe, procuro um orgasmo de palavras que não surge. As palavras abandonaram os dicionários e os livros. São todas falseadas, imagem do que já foram e já não são. São espelhos partidos, fachadas de casas abandonadas, totalmente vazias. As palavras abandonaram o mundo. Ou o mundo as tenha abandonado, vulgarizado, tornando-as comuns. Talvez seja isso. Ou talvez não, seja mesmo. São onze horas, ou ainda não. Ou talvez já passem. Paira a incerteza. Não importa precisar, são onze horas. O ritmo da cidade continua indiferente à fuga das palavras, à sua greve, à sua demanda por se tornarem outra vez essenciais, especiais. Resta o não e o sim. E até esses jogam ao “faz de conta” sendo o não sim e o sim não. Falta-lhes a coerência. Ou talvez nos falte a nós saber distinguir qual é um e qual é o outro. Falta-nos conhecer. O copo de vinho está vazio e eu sem uma palavra para escrever. Falta o essencial.

Abandono o frenesim. Encho a banheira do quarto de hotel, num desperdício de água absoluto. Mergulho nas águas. Fecho os olhos e procuro o silêncio dentro de água. É essencial, o silêncio. É nele que nos encontramos, nele que proferimos as maiores verdades, as maiores declarações de amor, as grandes guerras. É no silêncio que proferimos as palavras mais sentidas, sem abrirmos a boca. É no silêncio, que também desapareceu com as palavras, que damos valor ao essencial. Porque fugiram todos, porque partiram em debandada? Já não valorizamos a palavra nem o silêncio. Se um é rei, o outro é rainha.

Mais um cigarro, o corpo mergulhado na abundância de água. Sinto falta de mergulhar em palavras. Desvalorizámos. Tornámos comum. Substituímos umas pelas outras tirando-lhes a essência. Algumas até as evitamos. Adorar já não é a mesma coisa, amar já é comum. Sofrer é subvalorizado, chorar inútil. Amizade confundida com conhecimento e matámos os companheiros. Filtrámos as palavras, deixámos de as usar. Já nem o correto o é, nem o errado o que não está bem. Desvalorizámos, tornámos comum.

É meio dia. Agora em ponto. Envolvo o corpo numa toalha. A cidade está igual. Encho o copo com vinho, acendo um cigarro e mergulho no vazio procurando preenchê-lo.